“Questão de Gênero?”

NOTA PASTORAL DE S.E.R DOM JOSÉ RUY, 
BISPO DA DIOCESE DE JEQUIÉ, 
SOBRE A IDEOLOGIA DE GÊNERO


“Questão de Gênero?”

Enquanto nestes dias as redes sociais, com estardalhaço, publicavam as mais variadas opiniões sobre uma mal fadada pesquisa do IPEA a respeito do estupro, em Brasília, deputados se mobilizavam para votar um projeto de lei que regulamenta no Plano Nacional de Educação “respeito pela questão de gênero”.

Ao mesmo tempo, na Capital da República, outra novela se desvela alheia aos olhos de milhões de cidadãos brasileiros que são as investigações a respeito de corrupção na outrora maior empresa de petróleo do mundo (orgulho de ser patrimônio nacional).

Dentro deste contexto, a Igreja Católica nesta porção do Povo de Deus na Diocese de Jequié, vem se manifestar peremptoriamente contrária a esta ideologia do partido que governa a nação que deseja “impor” pela maioria de sua base aliada um projeto que quer eliminar a ideia de que os seres humanos se dividem em dois sexos, afirmando que as diferenças entre homem e mulher não correspondem a uma natureza fixa, mas são produtos da cultura de um país, de uma época. Algo convencional, não natural, atribuído pela sociedade, de modo que cada um pode inventar-se a si mesmo e o seu sexo.

A consequência desse nefasto projeto é a mais completa dissolução do grande valor da dignidade do ser humano e da família. Imaginemos tantas crianças e adolescentes em escolas públicas ou particulares “aprendendo” que tudo é apenas uma questão de escolha.Tudo isso baseado na análise marxista da história como luta de classes, dos opressores contra os oprimidos, sendo o primeiro antagonismo aquele que existe entre o homem e a mulher no casamento monogâmico. Uma ideologia que procura desconstruir a família e o matrimônio como algo natural.

A voz que clama dentro de nós, é a da nossa consciência, reta, sincera e verídica a gritar: o ser humano possui dignidade. Devemos nos atribuir o real valor que possuímos,mesmo que seja isso politicamente incorreto e contrariando o modismo imposto pela mídia e pelo governo. Recordando as palavras de Santo Anastácio: “se o mundo for contra a verdade, eu serei contra o mundo”.

Jequié, 04 de abril de 2014.

Dom José Ruy G. Lopes, OFMCap
Bispo Diocesano de Jequié

Fonte: Fanpage da Mitra Diocesana de Jequié

Tão espontâneas quanto um rojão

Santiago Andrade

A confusão dos últimos dias no Rio, que culminou com um assassinato, fez a mídia, finalmente, recobrar a sanidade. Já que não se sabe por quanto tempo será isso, é importante aproveitar a oportunidade… deixar claras algumas coisas. Primeira de todas: os tais “black blocs” – que eu não sou o único em apelidar de “black bostas” – são criminosos. O direito à manifestação livre e pacífica é garantido pela Constituição; manifestar-se com foguetes e pedaços de pau e depredando o patrimônio público não é direito nenhum. No começo, decidiram ignorar isso, mas, agora que a irresponsabilidade custou uma vida, foram forçados a abrir os olhos. Segundo: o Estado detém o chamado “monopólio legítimo da violência física”, quer se goste, quer não. A polícia ainda é a melhor forma de exercer aquilo que Rachel Sheherazade lembrou como “legítima defesa da sociedade”. Mi, mi, mi, dirão que estou sendo maniqueísta. Que digam. É preferível uma polícia com abusos e omissões, servindo à população brasileira, que o permanente estado de barbárie causado pelos rebeldes mascarados, servindo a interesses espúrios. Agora “a polícia é truculenta e antidemocrática”, mas quando a tal de Sininho (não a do Peter Pan) começar a ser linchada pela população – como já está sendo –, é à polícia – e não aos “black bostas” – que ela vai recorrer. Por fim, é forçoso admitir (e aqui vem o terceiro ponto): as manifestações das ruas foram espontâneas mesmo. Tão espontâneas quanto o rojão que matou Santiago Andrade: acendido, apontado e… fogo.

Um artista e suas artes

favo_de_mel

“Sempre me senti artista”: é a frase de uma chamada no site da Caras. E é atribuída a ninguém menos que Fábio de Melo. Caso alguma boa alma não conheça esta peça rara – difícil, os seus livros estão vendendo a torto e a direito nas seções de autoajuda e análogas –, serei eu o estraga-prazeres a apresentá-la: favo de mel é professor, escritor, cantor, compositor, apresentador de televisão e, por último, padre. Currículo extenso, mas sempre tem espaço para mais alguma coisa. Antes de partir a conclusões: nem sempre quem diz uma heresia é herege. Pode tratar-se apenas de ignorância. Heresia é a negação pertinaz de uma verdade de fé. Pertinazmente ou não, favo de mel negou uma verdade de fé. Nos passos do modernista Alfred Loisy, que dizia: “Jesus Cristo anunciou o Reino, porém o que veio foi a Igreja”, o artista fez mais uma de suas artes: “Jesus não queria a Igreja, queria o Reino de Deus, mas a Igreja foi o que conseguimos dar a Ele”. O sacerdote também não se diz adepto “de uma fé que idiotiza”. Leia-se: a fé católica. Muitos de seus detratores têm-na apelidado de diversos nomes: bitolada, retrógrada, romana… e, agora, “que idiotiza”. Trocando em miúdos: nas palavras de Fábio de Melo – pelo menos da maneira como estão dispostas no site da Caras –, quem crê que a Igreja Católica foi fundada por Jesus é idiota. Ofensivo, não? Mas eu aposto que não faltarão arremedos de católicos dizendo que ofensivos somos eu e as linhas que escrevi. Triste. Ou, para trazer à lembrança o nome de um decreto famoso de São Pio X: lamentável*.

* Explicando: o erro de Loisy, repetido pelo padre Fábio de Melo, foi condenado pelo decreto Lamentabili, de São Pio X, em 1907. Diz: “Foi alheio à mente de Cristo constituir a Igreja como sociedade que devia durar sobre a terra por longo decurso de anos; mais, na mente de Jesus estava prestes a chegar o reino do céu juntamente com o fim do mundo”. Para quem tem o Denzinger, número 3452.

Leiam também: “Quanto mal fazem à Igreja os padres untuosos!” – sobre o pe. Fábio de Melo e suas más colocações, no blog Deus lo Vult!.

Humor de gente covarde

porta dos fundos
Mais da “Porta dos Fundos”. O texto de um dos humoristas do canal, publicado recentemente na Folha de São Paulo, revela um suporte ideológico por trás dos gracejos do “Especial de Natal”: supostamente, faz-se troça de Cristo pelo simples gosto de estar ao lado de Galileu Galilei e Giordano Bruno. É que estas personagens – de quem pouca gente conhece mesmo a história – foram elevadas à honra dos altares laicos, simplesmente porque… tiveram desentendimentos com a Igreja Católica. (E sempre que alguém tem um desentendimento com a Igreja Católica, está certo, causa finita est.) Então, eles riem da Igreja, de Cristo e dos cristãos por vaidade, só pela ilusão de se acharem “livres-pensadores”, “esclarecidos” ou “críticos”. Mas, na verdade, não são nada disso. Vejam se têm coragem, por exemplo, de produzir um “Especial de Ramadã”. Não são capazes porque, como admitiu um outro porteiro dos fundos: “não faço piada com Alá e Maomé, porque não quero morrer!” Então, é assim: como eles não têm fibra de dar à vida pelo que creem (ou pelo que não creem), zombam de Quem teve fibra suficiente para receber cusparadas, açoites, espinhos e pregos por causa da Verdade. O humor da porta dos fundos, do qual é possível ouvir o riso estridente e tenebroso vindo dos infernos, é o humor pusilânime de quem usa qualquer pedaço de pau para bater não só na Igreja Católica, mas em qualquer coisa que ouse ir contra a corrente. É o típico humor de gente covarde.

Voltando ao óbvio

Verdadeiro "Amor à Vida" tem quem evita assistir à Rede Globo.

Verdadeiro “Amor à Vida” tem quem evita assistir à Rede Globo.

Ontem eu dei a grande bobeira de assistir um pouco à Rede Globo. E durante o horário nobre. Foi uma tragédia. Porque, vocês sabem, o horário é nobre, mas a programação é podre. Na novela das oito, no meio de uma festa, um gay se declara ao outro, com uma frase do tipo: ‘eu amo alguém que me despreza’. Logo após, é exibida uma minissérie pornográfica para coroar a noite: um personagem que dorme com a mãe, com a filha e com a amiga da mãe. Não fiquei ligado para ver o resto, mas, pelos comentários apaixonantes de quem assistia à trama ao meu lado, acho que o pior ainda estava por vir. Eu não gostaria de repetir o que é evidente, mas como andamos tão perturbados a ponto de esquecer ou negar a própria realidade das coisas, cabe-me tão somente ser ‘profeta do óbvio’: essas novelas da Globo são asquerosas. E não uso essa expressão banalmente. Dá mesmo asco ver como a mesma estratégia que fez o Brasil legalizar o divórcio na década de 1970 está sendo usada para fazer a população aceitar novos perigos à instituição familiar. Tudo feito pacificamente, sem nenhum alarde, sem nenhuma reação. Bons tempos em que só se fazia pilhagem arrombando uma porta ou quebrando um cadeado; hoje, rouba-se a dignidade das famílias com pouco esforço: bastam uma televisão na sala, um erro de vigilância e o saque está feito. Antes, levavam embora bens materiais: móveis, aparelhos digitais ou dinheiro; agora, é a própria inocência de nossas crianças que é violada, de modo dramático. Alguém, lendo estas linhas, pode interpretar meus comentários contínuos a respeito deste tema como ‘obsessivos’. Não é para menos, não? Estamos falando da forja dos seres humanos, das ‘futuras gerações’, como gostam de dizer. Se esta não é uma matéria verdadeiramente relevante, então não há nenhuma outra.

Epifania: Festa da Luz e da Glória

Epifania_do_SenhorA Igreja convida-nos hoje à celebração da Solenidade da Epifania do Senhor, isto é, a sua manifestação, aparição, ao mundo. A Epifania (Ἐπιφάνει) é antes de tudo o proeminente convite à contemplação do mistério da fragilidade de Belém, mas ainda mais que isto: é ver Deus glorioso, adorá-lo em sua fragilidade, contemplá-lo em sua fortaleza. Ele tendo vindo deitou-se na manjedoura, fez-se um de nós, compartilhou da nossa fraqueza. É esta a glória de Deus para o mundo! Esta é a mensagem da salvação que perpassa dois milênios com renovado vigor: Deus é simples, é terno e humilde. Ainda em nossa sociedade temos contemplado uma potencialização negativa da figura de Deus, ou mesmo uma assumida ignorância do seu mistério. Quando o homem deseja colocar-se no lugar de Deus, quando põe Deus à parte como Autor da sua história, cria um ambiente de arrogância, de distanciamento, de morte.

A Luz que brilhou em toda a noite do Natal hoje manifesta-se ao mundo. O profeta afirma na primeira leitura: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Muito atual e sugestiva esta leitura como uma continuação da liturgia natalina. A glória do Senhor resplandece sobre a Cidade santa e torna-se um norte para os seus filhos deportados e dispersos, que sofriam arduamente com o exílio. Mas é ao mesmo tempo um convite às nações pagãs, que todas venham à Jerusalém para serem tomados pelo mistério da luz. Na verdade, a manifestação do Senhor e o Seu nascimento estão intrinsecamente unidos. No Oriente hoje celebra-se o Natal do Senhor, como uma certeza de que Aquele que nasce em Belém também já se manifestara ali para o mundo. Para nós, porém, esta festa ganha um sentido ulterior ao nascimento: a vinda dos Magos do Oriente para adorar o Menino é a manifestação de Deus aos povos distantes, que procuravam uma resposta para as suas indagações e que a encontraram deitada no lugar da pastagem dos animais.

“Levanta-te!” é esta a palavra que deve mover os que desejam nortear a sua vida nos caminhos da salvação e da esperança que se acende para o homem. O cristão não pode permanecer inerte mediante as dificuldades que assolam o tempo presente. O profeta evidencia a palavra de ordem: Levantar. Quem entra no mistério da manifestação do Cristo não sai de lá como outrora fora. Isto se dá porque a Epifania assume também um sentido singular para cada um: a conversão, a adesão ao Senhor e ao seu Amor. Só o amor dá as respostas necessárias para a solidão do homem. Quem não silenciar o coração não será apto a ouvir, é impossibilitado de travar um diálogo com o divino e permanece deitado, na comodidade denunciada por Isaias na primeira leitura.

O profeta ainda acrescenta: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti” (Is 60,2). Também hoje a realidade não se difere da antiguidade. Quantos permanecem envoltos na escuridão? Não é uma cenário adverso se pensarmos nos que excluem Deus do âmbito social, familiar e até mesmo religioso, ao promoverem as suas capacidades e ideologias e esquecerem daquele no qual a religião e o mundo se fundamentam. A luz se apresenta, mas ainda assim muitos optam por atarem-se aos ardis semblantes das trevas. E que luz é esta? Não é uma luz metafórica, tampouco um simples fenômeno fisiológico, mas assume um rosto, assenta o seu Reino entre nós e a sua glória resplende: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1 Jo 1, 5). Ele é a luz verdadeira, o Verbo Encarnado, Aquele que é, como professamos em nossa fé, “Luz da Luz”.

Mas, haveríamos ainda de intuir uma pergunta: Qual é a glória de Deus? Como ela se manifesta em nossos dias? Santo Irineu respondeu a esta indagação com uma frase belissimamente teológica, mas sobretudo como um plano de fundo que deve levar todo homem e o homem em seu todo a avaliar-se: “Gloria enim Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei – A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Tratado Contra as Heresias, Lib. 4,20,5-7:Sch 100, 640-642.644-648). Irineu formula o homem como ser necessitado do seu Criador, da beleza majestática de Deus, mas também da sua glória. Esta necessidade não é uma dependência escravizadora, que subjuga o homem a um poder celestial e que o faz desprover-se da sensatez e da razão; ao contrário, o poder de Deus liberta e salva, estimula o homem a fazer uso da razão e o faz conhecer os motivos da sua fé e o sentido pelo qual pôs-se a serviço do Evangelho. Hoje diríamos, até com certa ousadia, que a glória de Deus é o homem: Ele é o ser que ressai em toda a obra da criação e para o qual os anjos põem-se a serviço; é o único criado à imagem e semelhança do seu Criador (cf. Gn 1,26). Contudo, na vicissitude dos tempos, temos podido presenciar a deflagradora forma com que a mentalidade do homem tem se tornado restrita e adversa aos princípios de sua moral e da fé cristã.

Onde o homem se fecha à ação libertadora de Deus e a sua manifestação gloriosa, sempre tende a recair no isolamento, no fechamento em si e de si para os demais. A Epifania é a manifestação da glória e da salvação de Deus ao homem. Próximo a Deus o homem vive, encontra sentido e deixa-se guiar pela estrela que ilumina e irradia o brilho da salvação, a mesma que outrora orientara os desconhecidos, que de terras distantes vieram para curvar-se diante da fragilidade do Menino. Mas longe de Deus vem a ruína, a miséria, a desolação e o desencontro, seja com o Eterno, seja com os irmãos.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine com a luz da sua salvação e da sabedoria para que nos abramos à sua graça e à sua ação salvadora. Ajude-nos a reconhecer como brilho verdadeiro aquele que emana de Belém, da humildade que redime o homem e o faz sempre mais estreitar-se ao querer de Deus.

Ecce Magi ab oriente venerunt (cf. Mt 2,1). Os magos que vieram do Oriente são provas marcantes de que Deus age em todos os lugares, ainda naqueles desconhecidos. Provenientes de países distantes, são eles os modelos daquele anúncio paulino que posteriormente seria feito: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6).

Todos em Cristo congregam um só corpo, manifestam uma glória e participam de um único batismo. Certamente eram os magos pessoas instruídas e de uma sabedoria aguçada, sabiam da profecia de Miqueias com relação ao menino que viria e disto foi-lhes dado o sinal por meio da estrela de Belém. Seguem-na com grande curiosidade e esperança de encontraram o Messias, uma inquietação benévola instigava-os a buscarem o Salvador. Mesmo se modesta ao aparecer sobre a terra, projetava-se a estrela para a vertente divina, no céu.

Balaão, chamado a anunciar a maldição sobre a nação eleita de Israel, ao ouvir do próprio Deus que aquele era o povo abençoado (Nm 22,12), anuncia a profecia: “Uma estrela sai de Jacó, e um cetro flamejante surge do seio de Israel” (Nm 24, 17). Cromácio de Aquiléia, no seu Comentário ao Evangelho de Mateus, cria uma relação entre Balaão e os Magos. Escreve ele: “Aquele profetizou que Cristo teria vindo; estes viram-no com os olhos da fé”. E acrescenta uma atenta observação: “A estrela era vista por todos, mas nem todos a receberam” (ibid., 4, 1-2).

O evangelista não nos diz quantos são os magos que vieram seguindo a estrela de Belém, mas fala apenas de “alguns magos do Oriente” (Mt 2,1). E quem eram tais homens? Não sabemos! Apenas a tradição medieval tardia afirma serem três, mas sem qualquer veracidade. O que podemos intuir é que eram homens do estudo, do conhecimento das causas naturais, descobridores dos astros.

Mas um detalhe interessante a notarmos é o que um dos versículos da Palavra proclamada nos diz: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino” (Mt 2,9). AntecedebatAdiante. Esta palavra faz-nos pensar na posição da estrela com relação aos magos. Não ia atrás, como também não ia acima, mas ia adiante. São Pedro Crisólogo faz-nos pensar com relação a esse texto ao escrever: “Quando os Magos andavam, andava a estrela; quando se assentavam, parava; quando dormiam, velava, mas dava um passo mais que eles”.

Cristo é a luz que brilha na dianteira da humanidade, Ele é o caminho que os homens devem percorrer sinalizados pelas estrelas que ainda hoje brilham, mesmo que ofuscadas por outros brilhos fugazes dos prazeres efêmeros e aparentemente atraentes e belos. A verdadeira beleza, no entanto, não se dá pela aparência, mas pela verdade que ela porta consigo. A verdadeira beleza é a verdade, irradiada aos povos distantes que agora congregam-se na única esperança: aquela manifestada pela Luz.

A vida do homem da pós-modernidade anseia por Deus e por sua esperança. Foi ela duramente negligenciada em suas questões elementares por concepções que não transpõem os limites terrenos. Também nós queremos hoje refazer o caminho de Belém, chegarmos ao lugar da morada de Deus, o local do Verbo que assume a forma humana. Para isto nos ajude Maria, mulher da perseverança e do silêncio orante. Nos inspire também José, homem da confiança e da disponibilidade a Deus.

Entre Ghiraldellis e Franciscos

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Das muitas brigas que a jornalista Rachel Sheherazade comprou em 2013, lembro-me de uma em particular: o caso da invasão do Instituto Royal pelos defensores de beagles. A memória vem-me não tanto por sua opinião, mas pelo comentário que um amigo lançou no Facebook: dizia ele que “deveriam fazer experimentos nela, ao invés dos animais”. A última polêmica do ano envolvendo Rachel foi com um senhor de nome Paulo Ghiraldelli. O seu voto para 2014 era que a jornalista – a quem se referia carinhosamente como “Sherazedo” – abraçasse um tamanduá, depois de ser estuprada. Pouco após, ele – certamente querendo poupar referências ofensivas ao pobre do tamanduá – modificou seu comentário: “que a Rachel Sherazedo seja estuprada”, ponto. À parte a absurda falta de respeito destas afirmações: os animais não valem mais que os seres humanos – e só seres humanos podem discordar disto. Há quem diga que seu cachorro de estimação vale mais que “muito bandido”. Sem querer defender bandido, o próprio fato de o homem poder rebaixar-se a ponto de assemelhar-se a um Ghiraldelli da vida torna-o muito maior que qualquer animal, beagle ou não. Neste caso, é claro que se está a falar de um abuso de sua liberdade, mas o uso correto do livre-arbítrio forja criaturas da estirpe de Agostinho, Francisco de Assis, Tomás de Aquino e Teresinha do Menino Jesus. Toda a natureza se prostra diante destes gigantes, vendo neles um reflexo d’Aquele que já os tinha feito à Sua imagem e semelhança. O maior argumento em defesa da primazia do gênero humano, no entanto, oferece-o o Natal: o próprio Deus se fez homem. Talvez a própria palha fosse mais digna de acolher Deus que a nossa humanidade, mas, ainda assim, Deus quis tomá-la para si, a fim de elevá-la às alturas. E de lá, tragicamente, só uma pessoa pode nos tirar: nós mesmos.

O Uruguai e a porta dos fundos

Mujica

Internautas declarando amor ao presidente do Uruguai porque a criatura legalizou a tal da maconha no país (além do “so-called” casamento gay). Para os intelectuais de Facebook, um grande avanço, fruto de… como dizem?, investimentos na “educação”. Se fosse no Brasil, alegam, a “bancada evangélica” não deixaria isso acontecer. E a cambada esclarecida aplaude (curtindo), imaginando-se defensora de um ideal laico, de um futuro no qual “there’s no heaven, (…) above us only sky”. Mal sabe – ou sabe? – que esta utopia falida pela qual nossa elite cultural morre de amores é herdeira da que justificou os piores genocídios que a humanidade já conheceu, no século passado. E que o ódio à religião travestido de “laicidade de Estado” é apenas a outra face de um mesmo monstro chamado totalitarismo. Neste Natal mesmo, um canal de humor de nome “Porta dos Fundos” postou um vídeo ridicularizando o Cristianismo e as pessoas que creem na beleza do Natal: “o pessoal acredita em qualquer coisa, vai por mim”, diz um dos personagens. Acontece exatamente o contrário: como diz Chesterton, “quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa”. Os humoristas da porta dos fundos e os apoiadores de Mujica, por exemplo, acreditam estar construindo um mundo melhor rindo da cara de católicos, conservadores e de tantos outros que parecem não querer deixá-los “fumar sua maconha em paz”. É ou não preciso muita fé para crer numa coisa dessas?

O Verbo se fez homem

Pope Benedict XVI Celelebrates Christmas Night Mass

O Verbo se fez homem, para que o homem se fizesse Deus. Agora, só não me recordo de quem é esta afirmação: se de Santo Atanásio, baluarte da fé católica no Oriente, ou de Santo Hilário, martelo dos arianos no Ocidente. A frase, de uma simplicidade ímpar, deixava sem argumentos os defensores da heresia conhecida como arianismo, que negava a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo. Alguém pode questionar a oportunidade de se utilizar esta expressão ainda hoje. Não vejo por que não. O arianismo morreu, mas a negação da divindade de Cristo, não. Não só se multiplicam seitas adeptas de um evangelismo autônomo, pelo qual a Bíblia pode ser interpretada como bem entendam os loucos, como, dentro da própria Igreja, aparecem vez ou outra assombrações de fantasmas antigos. Sob a capa de “novidade” – uma separação do Cristo da fé e do “Cristo histórico” –, alguns teólogos de nosso tempo têm negado que Jesus Cristo seja Deus. Mas o problema deles não é com a história, nem com a Bíblia, nem com a Igreja: para eles, Jesus não é Deus simplesmente porque… Deus sequer existe – antes de se proclamarem discípulos de Jesus, os teólogos da libertação são discípulos de Marx, para quem “a religião é o ópio do povo”. Mas, se Jesus não é Deus, se é apenas uma “criatura do Pai”, como defendia Ário, o abismo que separava Deus e os homens continua a existir e para quem habitava nas sombras da morte não resplandeceu luz coisíssima nenhuma (cf. Is 9, 1). A estrela de Belém, os anjos cantando “Glória” e o resplendor de Cristo ressuscitado, no entanto, dão testemunho: verdadeiramente, “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Natal do Senhor: Regeneração da humanidade

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1).

icone-da-natividade-6Depois do período proposto pela Igreja para a preparação do Natal, eis que hoje chegamos ao grande dia! É nascido um menino para a humanidade! Um Deus que se faz homem, um homem que é Deus. A leitura do profeta Isaías requer de nós um olhar contemplativo voltando-nos à gruta de Belém, mas sem esquecer-nos dos dias tormentosos do exílio babilônico ao qual fora submetido o povo. As palavras proféticas mais do que uma narração do passado da descendência judaica, tornaram-se para os pastores uma concretização e para nós uma esperança. Transcorrendo o cativeiro babilônico sob o poder de Ciro, a esperança do povo judeu tornava-se sempre mais escassa e inconsistente. Ecoava o brado dos exilados que sofriam sob pesados trabalhos, impostos e escravidão. Entretanto, o oráculo do profeta anuncia uma centelha de esperança, uma esperança que não se fundamentava em falsas concepções e em deuses vazios, mas na promessa do verdadeiro e Altíssimo. Esta profecia não se restringe tão somente à libertação da Babilônia, mas é também um preclaro sinal messiânico. Os versículos precedentes ao capítulo 9 são um verdadeiro poema que inicia-se com a bonança e conclui-se com os dias terríveis para os povos.

A quem se dirigia esta profecia? Os exegetas dizem tratar-se da destruição do reino da Samaria. O profeta ainda fala de um retorno dos deportados, que relacionava-se não aos judeus que voltariam da Babilônia, mas aos israelitas exilados para outro extremo da Assíria. Para nós, porém, estas palavras dirigem-se além de limites históricos e contextos territoriais e sociais da época. Na sociedade hodierna cada vez mais tende o homem a fazer desaparecer a luz da fé e a esperança de um retorno ao Deus verdadeiro. Lançamo-nos no ideal de sermos senhores de si e esquecemos o senhorio de Deus, que não manipula, não impõe, não força a nossa ação, mas ao contrário: requer de nós apenas o testemunho verdadeiro do discipulado. Como pude retratar em minha carta para o encerramento do ano da fé: “Para os que creem, o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado”.

Outrora andou em escuridão o povo exilado, outrora estavam os pastores na escuridão, hoje o homem torna-se um ser das trevas quando procura eliminar Deus da vida social e da própria vida religiosa ao depositar a confiança em garantias tão inseguras e ao edificar sua fé em bases tão insólitas e solitárias. O profeta afirma que sem Deus, sem a sua luz grandiosa e guiadora, o povo estava envolto apenas em sombras, pois residia na escuridão. Algumas traduções dizem: “habitavam uma região tenebrosa”. A tradução latina de tais palavras nos fala precisamente: “habitantibus in regione umbræ mortis – habitavam na região das sombras da morte”. O homem sem Deus fenece! Sua sabedoria torna-se vã e o seu esforço inútil. É, de certo, um estado de morte se este já não mais vive, mas torna-se um suicida: decreta a si o seu fim porque decreta a independência do seu Criador. O homem tem necessidade de Deus, mas não uma necessidade que o torne dependente, que o manipule, como o fazem as drogas, os jogos e outros vícios. A necessidade de Deus, que é inerente ao homem, parte do principio de que sem Este a humanidade perde o seu norte, caminha para o precipício e para o descerramento do vazio existencial.

E daqui faz o homem encontrar-se consigo nas palavras de Isaias para descrever o cenário que entrou e tomou os horizontes do mundo em nossos dias. O ser humano parece ter sido talhado em sua capacidade de perceber Deus, de senti-Lo; está sempre a procurar subterfúgios para ab-rogar-se de prestar contas a Deus de todo o bem feito e do amor exercido já nesta terra. Muitos de nós dizemos que não temos tido tempo suficiente para Deus. Sempre nos consumimos em afazeres cotidianos. E o que tributamos ao Senhor? Apenas aquilo que nos sobra, ou ainda, nada. Quem não tem tempo para Deus, perde o seu tempo. O encontro do homem com Deus é o encontro com a própria esperança, consigo e com sua existência. Só quem redescobriu o sentido de estar em Deus, redescobriu, deveras, o sentido de viver. Quem não confia seu tempo ao Senhor não é herdeiro da promessa à qual fez aos antigos profetas. De fato, ainda hoje concretiza-se aquilo que está escrito: “Todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue serão lançados ao fogo e se tornarão presa das chamas” (v4).

Sim, ainda sentimos o peso do bastão do opressor e os calçados que marcham ruidosos. Presenciamos as vestes manchadas de sangue, muitas vezes de inocentes que são aniquilados ainda em ventre materno, devido à perda do sentido verdadeiro da vida. Penso ainda de modo particular na veste dos cristãos que são manchadas de sangue por confessarem sua fé no verdadeiro Deus, sobretudo aqueles que habitam no Oriente Médio. Confiantes na luz da esperança predita já pelo profeta, queremos pedir: Senhor, compadecei-Vos de nossos pecados. Livrai-nos das vestes manchadas de sangue e do bastão dos opressores. Vós que viestes na fragilidade de uma criança, mostrai ao mundo que o verdadeiro poder não reside nos armamentos e nas técnicas de destruição, mas na força propulsora do amor que renova e dá vida. Que possamos ser homens da vida renovada e firmada na esperança do Reino vindouro.

Por outro lado, pervade nosso interior o júbilo desta noite que ainda mais uma vez ressoa em nossos ouvidos: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). O nascimento de Cristo é a concretização da esperança predita pelo profeta. Deus está presente! Ele é verdadeiramente o Emmanuel – Deus conosco.  Ainda se ignorado e rejeitado pelos seus, Cristo sinaliza para o verdadeiro caminho, onde já não mais prevalece o medo que outrora aflorava na consciência do povo judeu. Ele renova todas as coisas, como bem nos recorda o Apocalipse (cf. 21,6). Nasce para nós o renovador. Mas, que tipo de renovador é Jesus? Seria um renovador social? Não, não é! Tampouco um renovador político ou religioso. Jesus é sim o renovador do homem, do seu coração e da sua vida; é “gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” (Credo Nisceno-constantinopolitano).

Contraposta às palavras do profeta, o evangelista narra a esperança e a coragem como próprias da eminente chegada do Salvador. Não temer é próprio de quem crê, quem está firme em Deus e permite que Ele adentre o seu coração e lá faça a sua morada. O Menino que chega não nos priva da liberdade de dizemo-Lo “não”; não invade o nosso livre-arbítrio, mas é da sua boca que emana as palavras: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3,20). Neste sentido é que a mesa eucarística torna-se para nós sinal da unidade e do reencontro com Cristo: Ele ceia conosco, entra livremente em nosso coração e nos concede um outro tempo além dos limites cronológicos. Para os gregos três eram as instâncias de tempo: o Chronus que refere-se ao tempo cronológico; o Kairós, o tempo da graça em que algo especial acontece; e o Aion, o tempo sagrado e eterno, sem nenhuma mesura cronológica: aquilo que hoje diríamos ser o tempo de Deus. O Menino-Deus permeia estes três aspectos e nós somos também parte de tal. De Deus viemos, do Aion, o tempo em que não há tempo; estamos inseridos no Chronus e fazemos já aqui a experiência do Kairós, momento surpreendente da graça de Deus em nossa vida. Porém, ainda que constantes no Chronus, o espírito cristão deve sempre voltar-se ao Aion, ao definitivo encontro com Deus na consumação da salvação.

Neste período nos cercam as falsas concepções de espírito natalino que o mundo nos oferece. O que de fato é o natal? Não é está falsa paz de espírito da mundaneidade; tampouco é este período somente de confraternização familiar ou, até para muitos, um espírito de tristeza. O Natal é bem mais que isto: é o reconhecimento da grandeza na fragilidade, do poder naquela aparente fraqueza. O Senhor vem! Faz-se um de nós, nos chama de modo singular: nisto consiste a grandeza do Natal. O divino se humaniza para dar um novo olhar a nossa humanidade. Não queremos e não podemos nos contentar com este falso espírito de confraternização que a mídia propõe. O Natal só tem sentido com Cristo, se está firmado nos princípios cristãos. Caso contrário, toda comemoração será vã. Por isso a festa da natividade de Nosso Senhor nos faz reconhecer que em tudo há uma supremacia: aquela do amor. Onde o amor não é conhecido, ou é rejeitado, também o próprio Deus é aniquilado. Que outra explicação haveríamos de dar com mais profundidade e realismo senão a de que Deus desce para se fazer amor?

A perspectiva do amor é algo fascinante na teologia da vida. Nosso Senhor nos ensinou muito bem como o amor, personificado Nele, se manifesta: doação, renúncia. Quem ama não se retém, mas se doa, se abre ao outro para caminharem juntos ao coração de Deus. Amor é “doa-ação” (ação-doada), doar-se, a si e suas ações, esvaziar-se do individualismo e compartilhar-se com aquele a quem nós nos damos. Por isso a renúncia que o amor carrega não nos traz perdas, mas completa-nos. Só quem tem o coração todo disponível a Deus pode renunciar por amor e para o amor.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine com a sua luz nesta noite santa, para que se dissipem todos os sinais de trevas e todos os tormentos. Que ressoe no mundo a boa notícia dita aos pastores e anunciada a nós por meio de Deus pela boca dos seus ministros: “Hoje vos nasceu o Salvador, Cristo o Senhor”.