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Fonte: ACI Digital

Roma, 8 de fevereiro de 2010 (ACI). – O L’Osservatore Romano publicou um artigo no que, através de uma série de documentos históricos, comprova-se que a resistência alemã antinazista pediu ao Papa Pio XII não intervir diretamente contra Hitler; em uma clara resposta aos caluniadores do Papa Pacelli que o acusam falsamente de haver mantido-se em “silêncio” ante o holocausto, quando, em realidade ajudou a salvar a vida de mais de 800 mil judeus.

O artigo escrito pelo historiador e catedrático italiano Roberto Pertici, explica que o documento 242 que faz parte de uma relação dedicada ao Vaticano e os Estados Unidos publicada em Milão em 1978, elaborada por Ennio Di Nolfo, dá a conhecer o testemunho do advogado católico alemão Josef Müller, que fazia parte da resistência alemã antinazista e que foi o contato com a Santa Sé entre 1939 e 1940.

“Müller era parte dos serviços secretos alemães (Abwehr)” que constituía “um dos centros ocultos da oposição anti-hitleriana. Foi enviado a Roma com uma desculpa, mas com a missão de tomar contato com o entorno do Papa (no qual havia vários bispos alemães) e informar a Pio XII sobre o projeto da oposição alemã para derrocar Hitler e construir uma Alemanha democrática”, explica o artigo.

As vitórias de Hitler na Noruega e na França fizeram abortar a operação, ainda que a não tenha impedido de gerar um contato claro.

Müller foi detido em 1943 para logo ser conduzido a um campo de concentração. Depois de sua liberação, por parte do exército americano em 5 de maio de 1945, o advogado chegou ao Vaticano em 2 de junho e escutou o Papa Pio XII condenar enérgica e publicamente o nazismo.

“Podem ver – disse o Pontífice naquela ocasião – o que fica atrás de uma concessão e uma atividade do Estado que não tem em conta os sentimentos mais sagrados da humanidade, que pisoteia os invioláveis princípios da fé cristã. O mundo inteiro, estupefato, contempla hoje a ruína” gerada pelos nazistas.

Naquela ocasião o Papa Pacelli também recordou sua contribuição na encíclica Mit brennender Sorge de 1937 que condena o nazismo e sua mensagem radial de Natal de 1942 contra a perseguição nazista.

De tudo isto e outros temas relacionados, Müller conversou em 3 de junho de 1945 com Harold H. Tittmann, o jovem encarregado dos assuntos americanos perante a Santa Sé. Depois do diálogo enviou um completo relatório a seu superior Myron Taylor, o representante pessoal do Presidente dos Estados Unidos ante o Pontífice.

O relatório de Harold Tittmann dizia à letra: “o doutor Müller disse que durante a guerra sua organização antinazista na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse qualquer declaração pública especificamente dirigida como condena contra os nazistas, e tinha recomendado que as observações do Papa se mantivessem entre os limites das considerações gerais”, como efetivamente fez Pio XII.

“O doutor Müller – prosseguia Tittmann – afirmou que foi obrigado a dar este conselho porque se o Papa tivesse sido específico, os alemães o teriam acusado de ceder às pressões de potências estrangeiras e isso teria gerado mais suspeita sobre os que não era católicos alemães e haveria restringido grandemente sua liberdade de ação em seu trabalho de resistência ao nazismo”.

Tittmann também disse que “o doutor Müller disse que a política da resistência católica na Alemanha era que o Papa devia manter-se à parte, enquanto a hierarquia alemã (os bispos) levava adiante a luta contra o nazismo ao interior da Alemanha, sem que as influências externas se manifestassem”.

Finalmente, no relato de 3 de junho de 1945, Tittmann explicava que “o Papa seguiu este conselho durante toda a guerra”. Müller pensava que “o Papa tinha decidido falar agora abertamente contra os nazistas porque as implicâncias de suas denúncias são atualmente muito importantes e o faz tomando em conta uma grande quantidade de considerações”.

Fonte: Blog São Pio V

São Pedro Damião

Este vício não é absolutamente comparável a nenhum outro, porque supera a todos em enormidade. Este vício produz, com efeito, a morte dos corpos e a destruição das almas. Polui a carne, extingue a luz da inteligência, expulsa o Espírito Santo do templo do coração do homem, nele introduzindo o diabo que é o instigador da luxúria, conduz ao erro, subtrai totalmente a verdade da alma enganada, prepara armadilhas para os que nele incorrem, obstrui o poço para que daí não saiam os que nele caem, abre-lhes o inferno, fecha-lhes a porta do Céu, torna herdeiro da infernal Babilônia aquele que era cidadão da celeste Jerusalém, transformando-o de estrela do céu em palha para o fogo eterno, arranca o membro da Igreja e o lança no voraz incêndio da geena ardente.

Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada. Ele, com efeito, viola a temperança, mata a pureza, jugula a castidade, trucida a virgindade, que é irrecuperável, com a espada da mais infame união. Tudo infecta, tudo macula, tudo polui, e tanto quanto está em si, nada deixa puro, nada alheio à imundície, nada limpo. Para os puros, como diz o Apóstolo, todas as coisas são puras; para os impuros e infiéis, nada é puro, mas estão contaminados o seu espírito e a sua consciência (Tit 1, 15).

Esse vício expulsa do coro da assembléia eclesiástica e obriga a unir-se com os energúmenos e com os que trabalham com o diabo, separa a alma de Deus para ligá-la aos demônios. Essa pestilentíssima rainha dos sodomitas torna os que obedecem as leis de sua tirania torpes aos homens e odiáveis a Deus, impõe nefanda guerra contra Deus e obriga a alistar-se na milícia do espírito perverso, separa do consórcio dos Anjos e, privando-a de sua nobreza, impinge à alma infeliz o jugo do seu próprio domínio. Despoja seus sequazes das armas das virtudes e os expõe, para que sejam transpassados, aos dardos de todos os vícios. Humilha na Igreja, condena no fórum, conspurca secretamente, desonra em público, rói a consciência como um verme, queima a carne como o fogo.

Arde a mísera carne com o furor da luxúria, treme a fria inteligência com o rancor da suspeita, e no peito do homem infeliz agita-se um caos como que infernal, sendo ele atormentado por tantos aguilhões da consciência quanto é torturado pelos suplícios das penas. Sim, tão logo a venenosíssima serpente tiver cravado os dentes na alma infeliz, imediatamente fica ela privada de sentidos, desprovida de memória, embota-se o gume de sua inteligência, esquece-se de Deus e até mesmo de si.

Com efeito, essa peste destrói os fundamentos da fé, desfibra as forças da esperança, dissipa os vínculos da caridade, aniquila a justiça, solapa a fortaleza, elimina a esperança, embota o gume da prudência.

E que mais direi, uma vez que ela expulsa do templo do coração humano toda a força das virtudes e aí introduz, como que arrancando as trancas das portas, toda a barbárie dos vícios?

Com efeito, aquele a quem essa atrocíssima besta tenha engolido, entre suas fauces cruentas, impede-lhe, com o peso de suas correntes, a prática de todas as boas obras, precipitando-a em todos os despenhadeiros de sua péssima maldade. Assim, tão logo alguém tenha caído nesse abismo de extrema perdição, torna-se um desterrado da pátria celeste, separa-se do Corpo de Cristo, é confundido pela autoridade de toda a Igreja, condenado pelo juízo de todos os Santos Padres, desprezado entre os homens na terra, reprovado pela sociedade dos cidadãos do Céu, cria para si uma terra de ferro e um céu de bronze. De um lado, não consegue levantar-se, agravado que está pelo peso do seu crime; de outro, não consegue mais ocultar seu mal no esconderijo da ignorância, não pode ser feliz enquanto vive, nem ter esperança quando morre, porque, agora, é obrigado a sofrer o opróbrio da derrisão dos homens e, depois, o tormento da condenação eterna.

São Pedro Damião
Liber Gomorrhianus, c. XVI via blog São Pio V

http://www.erain.es/departamentos/Religion/pricolor/nuevotest/evangelio/22PescaMilagrosa03.jpgCerto dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.
Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Subindo para uma das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-Se e, da barca, ensinava as multidões.
Quando acabou de falar, disse a Simão: «Avança para águas mais profundas e lança as redes para a pesca».
Simão respondeu: «Mestre, tentamos a noite inteira e não pescamos nada. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes».
Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam.
Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram as duas barcas, a ponto de quase se afundarem.
Ao ver isto, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: «Senhor, afasta-Te de mim, porque sou um pecador!»
É que o espanto tinha tomado conta de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.
Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Mas Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio! De hoje em diante serás pescador de homens».
Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus.

(Evangelho de São Lucas, 5, 1-11)

A beleza do Evangelho desse domingo simplesmente dispensa maiores reflexões. A atenção à palavra de Deus, o reconhecimento da inferioridade do ser humano diante da grandeza do poder de Deus, sem falar da entrega do apóstolo Pedro à missão de Cristo. Eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Largaram as barcas na margem e começaram a viver por uma causa maior, a causa do Reino de Deus. Somos também nós convidados a nos doarmos totalmente. Eles deixaram tudo, inclusive suas limitações. Quando olhamos para elas e nos esquecemos de contemplar a beleza do poder magnífico de Deus, fraquejamos. Aquele que não confia em Deus, que não tem “atenção à tua palavra”, não lança as redes, não colhe os peixes, não experimenta o milagre. Está na hora de sair da margem e partir para “águas mais profundas”. Está na hora de sairmos de nossas limitações.

“Lança as redes para a pesca”, diz Jesus. “Mestre, tentamos a noite inteira e não pescamos nada”. Se não confiamos em Deus e não obedecemos à Sua Palavra, nada pescamos. Se confiamos em nós mesmos e olhamos somente para nossos limites, esquecendo-nos de Deus, ficamos nas margens. Ousemos lançar as redes mais uma vez, em atenção à Palavra de Deus. Tenhamos os olhos fixos no Mestre. Nós lançamos as redes, mas quem realiza o milagre é Ele. “Não tenhas receio!” Confia no Senhor.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Em tempo: Papa Bento XVI no Ângelus de hoje | “A humildade testemunhada por Isaías, por Pedro e por Paulo inspira a todos os que receberam o dom da vocação a não se concentrar nos próprios limites, mas a manter o olhar voltado ao Senhor e sua surpreendente misericórdia, para converter o coração e continuar, com alegria, a “deixar tudo” por Ele. Ele, na verdade, não olha para aquilo que parece importante ao homem: “O Homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração” (1 Sam 16,7), e torna os homens, pobres e fracos, mas que nele têm fé, apóstolos intrépidos e anunciadores da salvação.” (§ 4)

Fonte: CCE da UFSC

Padre António Vieira
Sermão da Sexagésima

http://geramovel.googlepages.com/avieir.jpg/avieir-full.jpgAs palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demônio. Tentou o Demônio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronômio. Vendo o Demônio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Gênesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, IX
Capela Real, 1655

Abaixo trecho do livro “Um ateu garante – Deus existe” (original “There is a God”), de Antony Flew. O excerto fala sobre o neo-ateísmo como um fenômeno semelhante ao positivismo. Algumas observações do autor que passou a crer em Deus são importantes: ele classifica os livros do neo-ateísmo como obras repletas de “sermões fundamentalistas” e, diante da realidade observada em todos os livros de Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e outros, afirma convictamente que essas obras “não se encaixam” na “ampla discussão filosófica que tem havido sobre Deus nas últimas décadas”. A leitura do texto é recomendada (Clique nas imagens para ler).

Fonte: Google Livros

Antony Flew

Antony Flew, Um ateu garante – Deus existe
pp. 14-21; Ediouro, Rio de Janeiro

Saiu na Canção Nova Notícias: Aborto será modificado no texto do Programa de Direitos Humanos. “Por determinação expressa do presidente, vamos alterar a formulação do Programa no que diz respeito ao aborto. Esse é o ponto que se tem clareza de que haverá alteração”, afirmou o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos (por que eu acho que deveria usar esse termo em letras minúsculas?), Paulo Vanucchi. Segundo informa O Globo, o ministro chegou a afirmar: “Eu sou o responsável, não é ele [Lula], não é a ministra Dilma (Rousseff), sou eu.”

http://oglobo.globo.com/fotos/2010/01/27/27_MHG_p-vannuchi.jpg

Vanucchi: “Eu sou o responsável, não é ele, não é a ministra Dilma, sou eu.”

Vanucchi fala como se o PT fosse isento das responsabilidades de defender a “liberdade reprodutiva da mulher” – sim, é assim que eles identificam um assassinato: como um ato de liberdade! – e de modo algum concordasse com o que estava exposto no PNDH-3. Ora, não podemos nos esquecer que ano passado o deputado Luiz Bassuma foi suspenso do PT porque era contrário ao aborto, mostrando que a ética do Partido dos Trabalhadores – ou do totalitarismo – é radicalmente contra a vida. A bandeira do PT é abortista e o Lula, como representante do seu partido, também defende essa causa, conforme ele mesmo elucidou em alguns discursos ao povo brasileiro.

Certa vez ele afirmou: “[N]a minha história política sou contra o aborto. Mas enquanto chefe de Estado acho que o aborto tem de ser tratado como questão de saúde pública”. Isso significa que Lula não é contra o aborto coisíssima nenhuma. Ele é a favor daquilo que as feministas chamam de “direitos reprodutivos” e inclusive apóia essa abominação. A sua primeira afirmativa não engana ninguém. É apenas mais uma fala populista que visa agradar aos dois lados: os que são contra o aborto e os que são contra a vida. Se fosse realmente contra o aborto, mostraria o quanto é errado violar a vida de uma pessoa inocente e nunca consideraria aceitável um ato tão covarde e cruel, além de se manifestar contrário às propostas claramente pró-aborto da Comissão de Ética do seu partido.

Por fim, uma última frase de Dom Dimas Lara merece comentário: “Talvez o problema tenha sido colocar no mesmo Programa outros temas que ainda não são consenso, mas fruto da luta de apenas alguns segmentos da sociedade”. Como assim, eminência? Como assim “ainda não são consenso”? Quer dizer então que o aborto poderá, em algum tempo, ser considerado legítimo pela Santa Igreja? Quer dizer então que a lei moral natural que condena severamente o aborto e todas as práticas contrárias à dignidade da vida humana pode algum dia mudar? A iniciativa da CNBB em condenar o PNDH-3 e as propostas infames que nele estão é muito louvável – maravilhosa, eu diria – mas D. Dimas definitivamente não foi feliz ao proferir a frase citada logo acima.

E enquanto a hipocrisia de Lula era defendida pelo seu ministro, as caóticas pelo direito de matar, que escondem suas idéias perversas intitulando-se “católicas”, se manifestavam:

“Católicas pelo Direito de Decidir que, como parte do povo de Deus, integra a Igreja e está em sintonia com a maioria das mulheres católicas brasileiras, não se identifica com as críticas da CNBB ao III PNDH, além de considerar desrespeitosa e inadequada a identificação do Presidente da República à figura bíblica de um homicida (Herodes).”

(…)

“Católicas pelo Direito de Decidir repudia tanto o intervencionismo autoritário da hierarquia da Igreja, quanto a subserviência do Governo Federal, que visando às eleições, joga no lixo o processo de debate público realizado amplamente com a sociedade brasileira para chegar ao texto do PNDH lançado em dezembro de 2009.”

Não. Católicas pelo Direito de Decidir não integra a Igreja; integra o enorme corpo de pessoas que se dizem “católicas”, mas, na verdade, defendem idéias totalmente contrárias e estranhas à fé cristã. O grupo das caóticas feministas repudia o “intervencionismo autoritário” da Igreja… E os católicos – aqueles que o são não só de nome, mas de fato – repudiam a atitude totalitária das feministas que visa atentar contra a vida dos inocentes e contra a dignidade da família. Nós, católicos, repudiamos a hipocrisia do governo Lula e das “Católicas” que, apesar de se dizerem cristãos, defendem ignomínias totalmente absurdas e abomináveis. Repudiamos também a mentira proferida por essas assassinas – que o embrião não seria uma vida -, mentira essa que contradiz os próprios princípios da embriologia.

Por fim, repudiamos o crime do aborto. A vida humana não pode ser arbitrariamente violada em nome de nenhum “direito”. Que possam entendê-lo as feministas e também o Partido dos Trabalhadores, cuja agenda causa repugnância a qualquer pessoa de bom senso.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Leia também: O aborto volta – volta? – mas ainda falta muito mais…, do blog Veritatis Splendor.

http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAACoM8nFLGHE8TcDskBRjFDSitPQhiQOr8J-hk8w878aaEwBlF-_wm5c9SZI5tJixKCJzoigY-Kn0BZHTtWhHqoQAm1T1UB-Ihl6l9MfkIAau93k2ywg2sn17.jpg“Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cf. Gl 3, 13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui se manifesta a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.”

(Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2010, § 6-7; 30 de outubro de 2009)

A proposição do Papa para a quaresma desse ano explica a justiça cristã. O homem, que herda de Adão o pecado original (cf. Sl 51, 7) não pode salvar a si mesmo. Ele, por si mesmo, não pode ir para o Céu. Então, Deus se compadece do homem e manda à humanidade Seu Filho único para que possa redimi-la e purificá-la. Eis a justiça de Deus: Ele não se compraz em ver o sofrimento dos fracos; não se compraz na condenação daqueles que se esforçam para amar a Deus. Por isso, envia seu Filho, Jesus Cristo. Ele devolve aos homens a graça que o gênero humano havia perdido pela renúncia do bem.

O homem se vê indigente. Todos os cristãos clamam junto com o salmista: “Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl 51, 7). Mas ao mesmo tempo louvam a Misericórdia de Deus, bem traduzida nos versos que entoamos no dia de Páscoa: “Ó pecado de Adão, indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor. Ó culpa tão feliz que há merecido a Graça de um tão Grande Redentor!” O homem se apegou aos bens finitos e mutáveis, se apegou à realidade material, obstinando-se na prática do pecado e violando a Aliança que Deus havia firmado com seu povo. Mas, eis que surge o Filho do Homem. Ele realiza uma Nova Aliança, na qual o homem descobre a inutilidade do seu egoísmo e a insensatez daquela idéia de auto-suficiência.

Não. Nós, por nós mesmos, nada podemos fazer de bom. É preciso que o homem se apegue ao Bem eterno e imutável. Mas, como poderá ele, com seu coração ferido pela arrogância e pela prepotência, se achegar a Deus? Graças sejam dadas a Jesus Cristo, que inaugura a justiça cristã! O homem pode finalmente gozar da alegria de estar junto de Deus. Com Cristo, ao mesmo tempo, acontece o processo de libertação. Ele é a genuína Verdade e é conhecendo a Ela que poderemos nos libertar (cf. Jo 8, 32) do nosso egoísmo. Com efeito, o cristão põe no centro de sua vida Jesus, e não ele; porque sabe bem que não é seus méritos que alcança a salvação, mas unicamente pela graça de Deus. O cristão confessa dia após dia aquilo que São Paulo há muito dizia: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Não sou eu que me salvo; minha natureza é caída. Eu, por mim mesmo, não posso me levantar. É Cristo quem ergue o homem, devolvendo-lhe a graça, aquele bem precioso que tinha perdido no dia que havia desobedecido a Deus.

Eis a verdadeira justiça!, clama o Papa. Possamos ouvi-lo, possamos descobrir na Redenção uma fonte insondável de amor e misericórdia. Não lamentemos aquilo que já foi. Louvemos Aquele que é. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20).

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2010

A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo
” (cf. Rm 3, 21–22)

Fonte: Santa Sé

Queridos irmãos e irmãs,

http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAK_f4asbuh5hKqqhzOSP0WoO9eGNLq8R64Y9OHBgfdwcWElBr7h4HDti71b1I-VUxt6Xu6xrGsDzjv1mj1IfSEsAm1T1UOIzjqN4a9Vg5DmOa_rSM8VUdCG1.jpgTodos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cf. Rm 3, 21–22).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado à sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos -, mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de fato precisa de Deus. Nota Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu… não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7, 14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua atuação: Esta maneira de pensar – admoesta Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: “Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl 51, 7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram à lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição; à lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cf. Gn 3, 1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente” (Sl 113, 7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De fato sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cf. Ex 29, 12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva (cf. Dt 10, 18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egito. Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cf. Eclo 4, 4-5.8-9), o estrangeiro (cf. Ex 22, 20), o escravo (cf. Dt 15, 12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto-suficiência, daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efetuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anuncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De fato não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3, 21-25).

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cf. Gl 3, 13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cf. Rm 13, 8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI

Fonte: Patrística Brasil

São Cesário de Arles
Sermão 13

CAPÍTULO I

Eu vos rogo, irmãos caríssimos, que reflitamos sobre o significado de sermos cristãos e sobre o sinal da cruz de Cristo que trazemos na fronte. Não nos basta – bem devemos saber – termos recebido o nome de cristãos se não agimos como cristãos, conforme disse o próprio Senhor no Evangelho: “De que adianta dizer: ‘Senhor, Senhor’, se não fazeis o que eu digo?” (Lc 6, 46). Se mil vezes te proclamas cristão e fazes o sinal da cruz, mas não dás esmola de acordo com tuas possibilidades e não queres ter amor, justiça e pureza, de nada te aproveitará o nome “cristão”.

Sim, é uma grande coisa o sinal de Cristo e a cruz de Cristo, mas, precisamente por isso, grande e preciosa deve ser também a realidade assinalada por tão precioso sinal. De que adianta fazer um selo de ouro, se o que está por dentro é palha podre? De que adianta andar com o sinal de Cristo na fronte e na boca se o que ele encerra são nossos pecados e delitos? Pois, quem pensa mal, fala mal e age mal e, se não quiser corrigir-se, a cada sinal da cruz seu pecado não só não diminuirá como aumentará.

É o caso de muitos que, ao furtar, adulterar ou agredir a pontapés, fazem o sinal da cruz e nem por isso deixam de fazer o mal. Ignoram esses infelizes que, com isso, atraem mais demônios para dentro de si em vez de expulsá-los.

Já quem, com a ajuda de Deus, afasta de si os vícios e os pecados, lutando por pensar o bem e realizar o bem, este imprime de verdade o sinal da cruz sobre seus lábios: pois esse agir, sim, é digno de receber o sinal de Cristo. E já que está escrito: “O reino de Deus não consiste em palavras mas em virtudes” (1 Cor 4, 20) e também: “A fé sem obras é morta” (Tg 2, 26), não usemos, pois, o nome de cristãos para nossa condenação, mas para nossa cura e dediquemo-nos às boas obras enquanto ainda podemos lançar mão dos remédios.

CAPÍTULO II

E para que, com o auxílio de Deus, possais seguir esse caminho, convivei em paz e chamai à concórdia os que estão em discórdia. Fugi da mentira e temei o perjúrio como a morte perpétua. Não digais falso testemunho e não furteis. E, sobretudo, como já dissemos, dai esmolas aos pobres de acordo com vossas possibilidades. Apresentai vossas oferendas ao altar: um homem abastado deveria ter vergonha de agregar-se à oferenda do outro, dispensando-se de sua própria oferenda. Os que podem ofereçam círios ou óleo para as lâmpadas. Memorizai o Símbolo e o Pai-Nosso, e ensinai-os a vossos filhos, pois não sei como pode alguém dizer-se cristão e não se empenhar sequer em saber os poucos artigos do Símbolo e o Pai-Nosso.

Sabei que sois responsáveis diante de Deus pelos filhos, que trouxestes ao Batismo: deveis ensinar e corrigir tanto os vossos próprios filhos como os afilhados para que vivam uma vida pura, justa e sóbria. E vós mesmos agi de tal maneira que, querendo vossos filhos imitar-vos, não acabem ardendo convosco no fogo eterno mas, a vosso lado, atinjam o prêmio da vida eterna.

Que os juízes julguem justamente e não aceitem presentes para decidir contra os inocentes, “pois os presentes cegam os corações dos sábios e corrompem as palavras dos justos” (Dt 16, 19), e temam ganhar dinheiro à custa de perder a alma. Ninguém obtém um lucro injusto sem a justa perda: onde o lucro, aí a perda – lucro para os cofres, perda para a consciência…

Que ninguém se embebede ou induza outros, num repasto, a beber mais do que convém: não venha a perder sua alma pela bebedeira própria ou alheia.

CAPÍTULO III

Aos domingos, reuni-vos na igreja. Se os infelizes judeus celebram o sábado com tamanha devoção que nesse dia não realizam nenhum trabalho, quanto mais não deve o cristão dedicar o domingo somente a Deus e vir à igreja em benefício de sua alma? Quando vierdes às reuniões da igreja, orai por vossos pecados e não entreis em discussões nem provoqueis discórdias ou escândalos. Quem vem à igreja para tais coisas agrava a ferida de sua alma, precisamente onde, pela oração, poderia curá-la.

Na igreja, não fiqueis tagarelando, mas ouvi pacientemente as leituras da palavra de Deus. Quem fica conversando na igreja deverá prestar contas, não só do mal que causa a si mesmo, mas também do que causa aos outros: pois nem ele ouve a palavra de Deus nem deixa que os outros a ouçam.

Dai o dízimo de vossos proventos à Igreja. Aquele que foi soberbo seja humilde; o que era adúltero seja casto; o que costumava furtar ou apropriar-se das coisas alheias que comece a dar de seu próprio patrimônio aos pobres. Quem foi invejoso seja benevolente; seja paciente o iracundo, quem ofendeu apresse-se a pedir perdão e o ofendido apresse-se em ser misericordioso.

Toda vez que sobrevier uma doença, o que a sofre receba o corpo e o sangue de Cristo; peça humildemente e com fé ao sacerdote a unção com o óleo bento a fim de que se cumpra nele o que está escrito: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo, e a oração da fé salvará o enfermo, elevando-o ao Senhor. Se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão remitidos” (Tg 5, 14-15).

Vede, irmãos, como quem recorre à Igreja em sua doença obtém a saúde do corpo e a remissão dos pecados. Se é possível, pois, encontrar este duplo benefício na Igreja, por que há infelizes que se empenham em causar mal a si mesmos, procurando os mais variados sortilégios: recorrendo a encantadores, a feitiçarias em fontes e árvores, amuletos, charlatães, videntes e adivinhos?

CAPÍTULO IV

Como disse há pouco, exortai vossos filhos e parentes a viver uma vida pura, justa e sóbria. Não só com palavras mas também com a força do bom exemplo.

Antes de mais nada, onde quer que estejais, em casa, em viagem, comendo ou em reuniões, não profira vossa boca palavras torpes e obscenas, e exortai os vizinhos e vossos próximos a que falem sempre o que é bom e belo, e não palavras más ou maledicência. Evitai as danças organizadas nas festas religiosas, com suas canções torpes e obscenas: a língua, com a qual o homem deveria louvar a Deus, é então usada para ferir a si mesmo.

Esses infelizes e miseráveis que, sem vergonha e sem temor, promovem seus bailes e danças bem diante das próprias basílicas dos santos, tendo vindo à igreja como cristãos, dela saem como pagãos: pois tais bailes são restos de paganismo. E dizei-me que tipo de cristão é esse que veio à igreja para orar, mas se esquece da oração e não se envergonha de entoar cânticos sacrílegos pagãos. Considerai ainda, irmãos, se é justo que a boca cristã, que recebe o próprio corpo de Cristo, entoe cânticos obscenos, um veneno do diabo.

E, principalmente, fazei aos outros tudo o que quiserdes que os outros vos façam, e não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam. Se cumprirdes isto, podereis preservar vossas almas de todo o pecado. E todos, mesmo aqueles que são analfabetos, devem guardar estas duas sentenças na memória e, com a ajuda de Deus, podem e devem pô-las em prática.

CAPÍTULO V

E ainda que eu creia que, com a ajuda de Deus e graças a vossos esforços, erradicados estão daqui aqueles desgraçados costumes herdados do paganismo, no entanto, se ainda souberdes de alguém que pratique a torpeza sordidíssima das annicula ou do cervulus1, repreendei-o severamente para que se arrependa de ter cometido sacrilégio. E, se conhecerdes quem ainda lança clamores à lua nova, exortai-o e mostrai-lhe quão grande é este pecado de ousar confiar-se à proteção da lua – que, simplesmente, por ordem de Deus, esconde-se de tempos em tempos – por meio de seus gritos e imprecações sacrílegas.

E se virdes alguém dirigir votos junto a fontes ou a árvores e ir procurar, como já dissemos, charlatães, videntes e adivinhos, pendurar no próprio pescoço – ou no de outros – amuletos diabólicos, talismãs, ervas ou âmbar, repreendei-o duramente, dizendo que quem cometer estes males perderá a consagração do Batismo.

Ouvi dizer que ainda há certos homens e mulheres tão assolados pelo diabo que, às quintas-feiras, não fazem eles seus trabalhos nem elas fiam. Diante de Deus e de seus anjos, nós os admoestamos: todo aquele que persistir nessas observâncias, e não expiar por dura e longa penitência esse grave sacrilégio, será condenado ao fogo em que arde o demônio. Esses infelizes e miseráveis que não trabalham às quintas-feiras, em honra de Júpiter, são os mesmos, não duvido, que não temem nem se envergonham de trabalhar aos domingos. Se conhecerdes algum desses tais, repreendei-o duramente e, se ele não quiser se emendar, não o admitais em vossa mesa nem em vosso trato. Se são vossos escravos, castigai-os com o açoite: que temam a chaga do corpo, já que não se preocupam com a salvação de sua alma.

Nós, caríssimos irmãos, conscientes de nossa responsabilidade, advertimo-vos com solicitude paterna: se de bom grado nos ouvirdes, dar-nos-eis uma grande alegria e chegareis felizmente ao reino de Cristo. Que Ele se digne vo-lo conceder, Ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

São Cesário de Arles (470-543)
Sermão 13

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1. Cervulus e annicula – eram práticas pagãs que envolviam fantasias (de cervo e cordeirinha). Em outro sermão – 129,2 -, Cesário investe duramente contra o hábito – próprio das calendas de janeiro – de fazer cervulum: os que assim procedem, querem não só se vestir de animal, mas transformar-se em animal (“Qui cervulum facientes in ferarum se uelini habitus commutari”).

“Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus” (Mt 3, 16), diz o Evangelho. Sim, o Senhor pôs no Seu Servo toda a Sua complacência. A foto abaixo foi publicada no Fratres in Unum e dispensa mais comentários.

http://fratresinunum.files.wordpress.com/2010/02/bxvi-colombe.jpg?w=398&h=297&h=297

Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus (Mt 3, 16)

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