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Os tweets acima apontam a figura de um deputado que não vai se desculpar das ofensas dirigidas ao Santo Padre, o Papa Bento XVI. Mesmo com toda a indignação dos católicos brasileiros – o pedido #RetrateSeDepJeanWyllys ganhou durante um bom tempo os Trending Topics do Twitter e até mesmo um sucessor dos apóstolos, Dom Antônio Rossi Keller, “cyberbispo” da diocese de Frederico Westphalen-RS, aderiu à campanha -, o líder do movimento LGBT bate o pé e mantém que o Chefe de Estado do Vaticano seria um “genocida em potencial” e simpatizante do nazismo.

Até agora, Jean Wyllys não foi capaz de provar nenhuma das acusações feitas a Bento XVI e à “minoria homofóbica” pastoreada por Sua Santidade.

* * *

Leia também: “A verdadeira face do movimento homossexual” – Cruzada pela Família e (mais!) Jean Wyllys, do blog Deus lo Vult!.

Destaco e comento um trecho da obra O conceito de angústia, do escritor dinamarquês Søren Kierkegaard – eu sei, ele é protestante, mas o que enuncia é de muito valor também para nós, católicos.

A verdade sempre teve muitos que a proclamaram em altos brados, mas a questão é saber se um homem quer, no sentido mais profundo, conhecer a verdade, quer deixá-la permear todo o seu ser, assumir todas as suas consequências, e não ter um esconderijo para si, em caso de necessidade, e ‘um beijo de Judas’ para as consequências.

“Nos nossos tempos recentes tem-se falado bastante a respeito da verdade; agora já está na hora de se insistir na certeza, isto é, na interioridade (…).”

“A certeza, a interioridade, que só se alcança pela e só existe na ação, determina se o indivíduo é ou não é demoníaco. É só manter firme a categoria que tudo se resolverá, e se tornará claro, por exemplo, que arbitrariedade, descrença, escárnio à religião, etc., não carecem, como se acredita geralmente, de conteúdo (de verdade), mas carecem de certeza, bem no mesmo sentido como crendice, subserviência, beatice. Os fenômenos negativos carecem justamente da certeza, porque eles residem na angústia diante do conteúdo.”

“Não é do meu gosto proferir grandes palavras sobre nossa época como um todo, mas aquele que já observou a geração que vive hoje não iria querer negar que a desarmonia que há nela e a razão para sua angústia e inquietude consistem em que numa direção cresce a verdade em abrangência, em massa, em parte também em clareza abstrata, enquanto que a certeza interior constantemente diminui. Que extraordinários esforços metafísicos e lógicos não foram feitos em nosso tempo para conseguir uma demonstração nova, exaustiva, absolutamente correta, combinando todas as demonstrações anteriores, da imortalidade da alma, e, é bem estranho, enquanto isso acontece, a certeza interior diminui. A ideia da imortalidade contém em si um poder, uma energia em suas conseqüências, uma responsabilidade quando admitida, que talvez venha a transformar toda a vida, de um modo que se teme. Então o que se faz é salvar e tranqüilizar a alma forçando-se o pensamento para produzir uma nova prova. O que é uma tal prova senão uma boa obra no sentido puramente católico! Qualquer individualidade deste tipo que, para ficarmos no exemplo, saiba levar a efeito a demonstração da imortalidade da alma, mas não esteja convencida ela mesma, há de sempre experimentar a angústia diante de qualquer fenômeno que queira tocá-la de tal modo que a force à compreensão mais extrema do que significa dizer que um ser humano é imortal. Isso a perturbará, ela se sentirá desconfortavelmente tocada quando alguma pessoa bem singela falar de maneira bem singela sobre a imortalidade.”

O último parágrafo é, de um modo particular, muito especial; faz um convite a todos nós, cristãos, a fim de que reflitamos um pouco como temos caminhado diante de Deus, e como temos cuidado daquela parte nossa que permanece viva, mesmo depois que morremos.

“A ideia da imortalidade contém em si um poder”. E é necessário reconhecer este poder. Que esta ideia – a da imortalidade da alma – seja poderosa, que possa realmente mudar a vida de um indivíduo, é bem verdade; o testemunho de tantos homens e mulheres que, ao longo dos anos, doaram a sua vida pela causa do Evangelho, serve-nos de prova. Mas, é preciso não somente que reconheçamos o poder da ideia, mas que – utilizando os termos de Kierkegaard – assumamos em nossa vida a ‘certeza’, pois é somente desta forma que proclamaremos com autenticidade a ‘verdade’ da Fé.

O problema que muitas vezes nós mesmos criamos, impedindo-nos de assumir para nossa vida aquela certeza, é geralmente um medo, medo de que aquela Verdade cuja face foi conhecida venha a desfigurar a nossa vida que até então vínhamos levando tão comodamente. Mas o conhecimento da verdade, embora acompanhado de renúncias, não é e nem deve ser encarado como uma realidade que desfigura; pelo contrário, o encontro com o Cristo deve ser uma etapa de verdadeira transfiguração, no qual nos deparamos com a Cruz, enxergando o mistério do sofrimento, mas do sofrimento vivido por amor.

Nem sempre adentrar neste mistério é fácil. Por isto, diz Kierkegaard, não raras as vezes “o que se faz é salvar e tranqüilizar a alma forçando-se o pensamento para produzir uma nova prova”…

Os céticos contemporâneos vivem à procura de provas… Querem porque querem que lhes seja mostrado o porquê disto, daquilo. Quando se lhes é apresentado um milagre, cujo fundamento a ciência simplesmente não consegue perscrutar, arrumam uma desculpa para não crer, alegando que, num futuro próximo, certamente nem os maiores mistérios escaparam do crivo infalível da ciência e da experiência empírica. O que fazem é tranqüilizar a alma… “Acalma-te, consciência, não te inquietes por pouca coisa… Sempre há uma desculpa, um subterfúgio, uma maneira de fugir…”

O que Jesus quer dizer a estas pessoas não são palavras meigas, carinhosas, gentis… São palavras incômodas, que inquietam, que atormentam de fato. Estas palavras não precisam ser palavras no sentido denotativo… Podem ser simplesmente acontecimentos. A divina Providência se utiliza de todos os meios possíveis para buscar a salvação do homem.

Chegará um dia, porém, em que a morte porá um fim, não à nossa alma, mas à nossa possibilidade de mudança, e aí, então, não poderemos mais fugir da verdade, nem tranqüilizar a nossa alma com palavras doces… Como estaremos, neste dia, data que nenhum dos homens conhece, mas somente o Todo-Poderoso…?!

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Nossa discussão com membros da Ordem DeMolay continua. Recebemos agora as indagações de um demolay de Minas Gerais mesmo, que se apresenta como Roberto Nery. Os seus questionamentos se referem à postagem Ordem DeMolay e maçonaria – perigos aos cristãos, de fevereiro de 2009.

“Everth, o que você sabe sobre a Ordem DeMolay para a acusar daquela forma? Você, por acaso, tem informações concretas sobre a ordem, por acaso já teve a oportunidade de ir a uma reunião aberta?”

“Infelizmente, sem saber até do que se fala, você comenta e difama uma ordem que só ajudou a sociedade, ao contrario de algumas igrejas católicas (não todas) que forçam as pessoas a darem dizimo, dizendo que se a pessoa não doar tudo que tem a igreja e se dedicar integralmente a mesma, irá para o inferno.”

Não, nunca fui a uma reunião aberta da Ordem DeMolay. E não tenho sequer a pretensão de participar. Quanto ao que sei sobre a Ordem, sei o suficiente para rejeitar a filosofia que cerca tanto esta associação quanto a própria Maçonaria, cujos membros são tidos como “tios” por parte dos demolays.

Você me acusa de difamar “uma ordem que só ajudou a sociedade”… O que se encontra aqui não são difamações, mas sim esclarecimentos. Quando, neste espaço, escrevi que os princípios defendidos pela Maçonaria são simplesmente inconciliáveis com a doutrina católica, fiz apenas um alerta àqueles que são membros da Igreja, a fim de que estejam conscientes de que “permanece (…) imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas”. O documento está no site da Santa Sé para qualquer homem de boa vontade ler.

Quanto à ideia de que “algumas igrejas católicas (…) forçam as pessoas a darem dízimo”, é preciso que fique bem claro que a) existe uma boa diferença entre “Igreja” e “igrejas” – Aquela é o Corpo Místico de Cristo, sendo uma realidade que transcende a própria história, enquanto estas são as comunidades dos fiéis espalhadas pelo mundo; b) as pessoas não são forçadas a darem dízimo, muito embora se saiba que é um dos cinco mandamentos da Igreja “atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as suas possibilidades”. A assembleia precisa colaborar, de alguma forma, com a manutenção da sua comunidade.

“Sou católico e demolay, com muito orgulho, e gostaria de saber o que você tem contra a Ordem DeMolay.”

Roberto Nery, como católico, tenho contra a Ordem DeMolay o fato de ela entender Deus de uma maneira diversa daquela que ensina o Magistério da Igreja. A Maçonaria – e da mesma forma as associações a ela filiadas – é adepta do indiferentismo religioso e do agnosticismo. Pra quem deseja entender melhor as razões que separam a Igreja Católica da Maçonaria, recomendo novamente a leitura do livro A Maçonaria no Brasil – Orientação para católicos, do frei Boaventura Kloppenburg, OFM. Também já fizemos inúmeras postagens sobre o assunto. Agora, vai caber a você escolher ou o catolicismo de fato – o que reconhece os princípios cristãos em sua totalidade – ou o catolicismo self-service – aquele em que você, como em um restaurante, escolhe da doutrina cristã aquela parte que mais lhe convém e ignora aquela que lhe desagrada.

E pra quem acha que o documento da Congregação para a Doutrina da Fé condenando a filiação de católicos a associações maçônicas é “velho” – considerando que a Igreja tem 2 milênios de vida, 25 anos nem fazem cócegas -, temos uma recente declaração do cardeal português Dom José Policarpo, que foi publicada recentemente no Fratres in Unum. O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa afirmou, em conformidade com as leis da Igreja, que “não é compatível” ser católico e maçom, já que as associações maçônicas “rejeitam aquilo que é o essencial da fé, a aceitação da Palavra de Deus e da revelação sobrenatural”.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

N’O Globo: Casamento gay é uma ameaça à Humanidade, diz Bento XVI. Abaixo, trecho do discurso proferido por Sua Santidade ontem, dia 9 de janeiro.

“Para além de um objetivo claro, como é o de levar os jovens a um pleno conhecimento da realidade e, consequentemente, da verdade, a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que o valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo. É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida e, como tive ocasião de lembrar durante a minha viagem à Croácia, ‘a abertura à vida é um sinal da abertura ao futuro’.”

- Papa Bento XVI, ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé para a troca de bons votos de início de ano

O Papa encontrou uma oportunidade para expor, aos embaixadores de diversos países ao redor do mundo, a doutrina moral da Igreja com relação à maneira como deve ser encarado o relacionamento afetivo-sexual no seio da família. Este não pode fechar-se em um egoísmo de morte, que reduz os atos sexuais à mera obtenção de prazer. Como ensina o próprio Catecismo da Igreja, “todo o ato matrimonial deve, por si estar aberto à transmissão da vida”. “Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, funda-se sobre o nexo indissolúvel estabelecido por Deus e que o homem não pode quebrar por sua iniciativa, entre os dois significados inerentes ao ato conjugal: união e procriação.”

Este ensinamento perene do Magistério também esconde uma verdade que infelizmente vem sendo esquecida, seja na empreitada desastrosa que muitos políticos arriscam ao tentar fazer o que chamam de “governo laico”, seja na forma perigosa com que muitos programas de televisão exercem sua influência no ambiente familiar: a família não é uma construção cultural, ou, nas palavras de Bento XVI, uma “convenção social”. A família é a “célula fundamental de toda a sociedade”, sendo necessário, portanto, salvaguardar e respeitar a estrutura que desde o princípio quis o Criador que ela formasse – um núcleo abarcado por um homem e uma mulher.

A declaração do Sumo Pontífice foi ridicularizada pelo deputado Jean Wyllys, do PSOL. Além de chamar Bento XVI de “genocida em potencial”, Jean acusou o Papa de ser simpático ao nazismo.

Hoje a Igreja no Brasil celebra a Epifania do Senhor. No Vaticano, a Missa da Solenidade foi celebrada no dia 6 de janeiro, e, mais uma vez, o Papa Bento XVI fez uma belíssima reflexão acerca do mistério do Cristo que se manifesta não só aos judeus, mas também aos gentios. Destaco:

“Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronômica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrônomos na antiga Babilônia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no fato de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: ‘Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel’ (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem sutil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho exterior e interior.”

E quanto à maneira como foi celebrada a Liturgia em Roma neste dia tão especial, nem é preciso dizer que a sacralidade ajudou a colocar no centro das atenções aquele que é e deve ser o protagonista de toda celebração litúrgica – nosso Senhor Jesus Cristo.

Celebramos com grande alegria a Solenidade da Epifania do Senhor. Jesus Cristo, feito Homem, manifesta-se aos homens e em nós renova-se o constante convite a reconhecermos o Seu poder e a maravilhosa manifestação do Seu Amor. A esta Festa, celebrada neste dia, a Igreja une sua voz a voz dos anjos e santos para reconhecer que só em Cristo, e somente por meio dEle, os homens encontram sentido para a sua existência, mas ainda mais que isso: podem dar sentido a existência do próximo por meio do testemunho autêntico do Evangelho e do despojamento constante dos interesses e falsos “sentidos” que atribuem a este passageiro período.

No entanto, para que este despojamento aconteça, é necessário que os homens saiam de sua comodidade e estejam necessariamente segundo a verdadeira posição cristã. Como, porém, poderíamos conhecer esta posição? Conhecemo-la antes de tudo pelas palavras do profeta, que escutamos na primeira leitura: “De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o Senhor, sobre ti aparece sua glória. ” (60, 1-3).

A posição do cristão é a posição daquele que está pronto para guerrear contra as forças do mal. Estar em pé significa estar em constante vigilância, colocar-se a caminho. Assim, o profeta manifesta o nosso caminhar à Cristo. De certo que este caminho não deve ser visto no âmbito empírico mas é sobretudo uma via espiritual. A constante luta que travamos com os meios ideológicos de libertação e de salvação, de felicidades e de prazer, mostra-nos que todas essas coisas podem cair e desvanecem ao poder de Cristo. Mesmo na Igreja surgiram algumas correntes ideológicas que buscavam fazer com que a libertação que vem de Cristo fosse substituída por uma mera libertação social da opressão econômica. “Nós, segundo nos diz São Paulo, não lutamos contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. (Ef 6,12)

A verdadeira libertação vem de Cristo porque só Ele é o Libertador. E a sua libertação não é em causa de uma opressão social, mas do pecado, pelo qual Ele nos redimiu com seu Sangue.

Só estando em pé chegaremos a um segundo momento: a iluminação. Esta é confirmada pelo anuncio da chegada da luz, da luz que vem pela glória do Senhor. A luz de Cristo resplandece no mundo como sinal para todos os povos. Só nesta luz achar-se-á o caminho para a salvação. A manifestação da glória de Deus dá-se no nascimento de Cristo, feito homem, rebaixado a nossa condição para salvar-nos e assim pode a luz pairar sobre todos aqueles que nele acreditam.

Para os Magos do Oriente esta manifestação dá-se, poderíamos dizer, empiricamente. Eles fazem a experiência do encontro pessoal com Cristo de forma literal. Mas quem eram os Magos? Devemos dizer que vinham de uma região distante, de cultura e religião diferentes, exerciam funções sacerdotais pagãs. Em contato com judeus, tiveram conhecimento do messianismo com a profecia de que um astro apareceria ao nascimento do maior rei esperado (cf. Nm 24,17). Para Santo Tomás de Aquino, o mesmo anjo que apareceu aos pastores em forma humana apareceu aos magos em forma de astro, por serem pagãos, desconhecedores de anjos.

São Leão Magno, na noite santa do Natal, nos diz: “Reconhece, cristão, a tua dignidade e, tornado participante da natureza divina, não queira recair à condição miserável de outro tempo com uma conduta indigna. Recorda-te de quem é a tua Cabeça e de qual Corpo és membro. Recorda-te de que, arrancado do poder das trevas, fostes trazido à luz e ao Reino de Deus” (Sermone 1 sul Natale, 3,2: CCL 138,88). Os magos reconhecem o Reino de Deus, eles o veem, o tocam; não se recusam em curvar-se diante do pequeno e do frágil Menino de Belém. Abandonam suas crenças para acreditar no Deus verdadeiro, naquele que contemplavam.

Belém significa Casa do Pão, inicialmente chamada Éfrata, isto é, fértil. O nome está em uma intrínseca relação com aquele que ali nasce. Na Casa do Pão é acolhido o verdadeiro Pão, o Pão da Vida, que fortalece o homem e o reanima para a sua caminhada. Ali o Menino rejeitado por todos encontra um lugar na manjedoura, cercado por animais e por seus pais. Jesus é a árvore fértil que faz com que todos os homens tenham vida. Ele é a Vida, vida verdadeira. A fertilidade que dele provém para o homem, não perece, mas é sinal e garantia de eternidade.

Reconhecendo a pequenez do Menino, os Magos reconhecem também a sua grandeza. Só é grande aquele que se faz pequeno. Só reconhece a Jesus quem antes se fizer simples, sair de seu mundo privado, formado por suas ideologias, e colocar-se a caminho daquele que vem ao nosso encontro.

As trevas, segundo a primeira leitura, tomavam a face da terra. Esta realidade não diverge do contexto em que se encontra a nossa sociedade. O obscurantismo da inteligência humana, que deseja sobrepujar a divina, as formas de cientificismo anticristão, a falta do testemunho evangélico e tantas outras situações, manifestam que o nosso mundo ainda não está totalmente iluminado, mas, do contrário, nos sinalizam para a falta de Deus no mundo e nos dizem que enquanto o homem não curvar a sua prepotência à sabedoria divina, não passará de um ser tomado pela escuridão e toda a sua aparente “inteligência” será produto de sua própria destruição.

A glória do Senhor brilha sobre o homem que se curva a Ele. A estrela brilha e conduz todo o que deseja trilhar pelo reto caminho. Muitas vezes aparecem algumas falsas luzes e estrelas que dizem estarem conduzindo o homem para o verdadeiro caminho, dizem serem deuses, mas não são. Só o Deus que salva e liberta o homem da sua ignorância e da sua arrogância é o verdadeiro Deus. O Deus em que só nEle encontramos salvação.

Peçamos ao Senhor que a Sua luz irradie toda a face da terra, para que reconheçam nEle o Deus vivo e verdadeiro, que guia o caminho dos povos e a todos retira do braço opressor das forças das trevas. Que todas as nações deixem-se guiar pela luz que, ainda que pareça muitas vezes ser ofuscada, nunca poderá ser extinta e sempre brilhará como sinal de esperança para os homens, sobretudo nos nossos turbulentos dias. E desta forma pedimos, por intercessão de Maria Santíssima, que gerou e concebeu esta Luz, que cumpra-se entre nós as palavras do profeta: “As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor” (Is 60, 3)

Celebramos hoje a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Ainda envolvidos pelo clima natalino, neste primeiro dia do ano a Igreja confia-se e confia a cada um de nós a proteção materna de Maria Santíssima, aquela que renegou toda a sua vontade para fazer unicamente a vontade de Deus. Neste espírito de cumprir a vontade de Deus e colocá-la em primeiro lugar em nossas vidas é que desejo saudar a cada um neste novo ciclo anual e peço a Deus que vos fortaleça para que reconheçam em Deus a principal fonte de nossa vida. É também um dia importante para ressaltarmos o valor crucial da paz para história, celebrando o Dia Mundial da Paz.

Celebrar a Solenidade da Mãe de Deus é reconhecer, na figura desta, o modelo de serviço e de seguimento, de aceitação da vontade de Deus e de seu cumprimento. Por meio de Maria Deus abre-se a salvação a toda a humanidade. Por ela Jesus Cristo entra no mundo, faz-se um de nós e redime a humanidade. Em Maria a humanidade pode aproximar-se de Deus sem temer. Com sua figura de Mãe que é terna, ela nos mostra que Deus não é um ser privado de um relacionamento conosco, mas está a comunicar-se desde a vinda a criação do mundo até os nossos dias.

Na primeira leitura vemos a benção que os sacerdotes pronunciavam sobre os israelitas nas grandes festas religiosas, nela, vemos evocar o poder de Deus e a sua misericórdia a todos os homens, manifestada na pessoa de Cristo, “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” (Credo Nisceno-Constantinopolitano). Uma das fortes características é a tripla menção ao nome de Deus, que representa a plenitude e a força que dele derivam. É o nome de Deus poderoso, e tão poderoso que é capaz de fazer curvarem os demônios. Só no nome de Deus encontramos força e abrigo para o fortalecimento da caminhada.

São Paulo faz menção também ao poder que há no nome de Jesus: “Ao nome de Jesus todo joelho se dobre, seja no céu, na terra ou nos infernos” (Fl 2, 10). O nome de Jesus, aqui, é associado ao poder que há no nome de Deus, o poder de abençoar, de santificar e de submeter a Ele todas as forças do mal. O nome de Jesus é para os povos sinal de esperança e de paz. Este mesmo Senhor que volve o seu rosto a nós é aquele que nos concede a paz, paz verdadeira que só dele pode vir.

Se vós, homens, buscais a vossa paz fora de Cristo, ainda que no-la encontrem, encontrarão uma paz passageira, finita, limitada a um fato ou a um mero presságio. A paz que vem de Cristo vai além: é eterna e não pode ser abalada por nenhum vento contrário que tente subestimá-la. Os homens só encontrarão verdadeira paz quando encontrarem a Deus, que não está nas buscas ávidas pelo dinheiro e pelo impulso da economia. Também não se pode encontra-lO nos prazeres que esta vida oferece, senão na pequenez de uma criança. Ele humilha-se para que possamos ser engrandecidos.

Na segunda leitura, Paulo faz menção da realização do salvífico desígnio de Deus e da adoção filial pela qual, também nós, nos tornamos filhos. “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei” (Gl 4, 4). Estas palavras, embora muito meditadas e tendo sido alvo de profundos estudos teológicos, nunca esgotam-se de transmitir-nos uma mensagem sempre renovada cada vez que as lemos. Toca-se assim o cerne do mistério da salvação. Jesus fazendo-se um de nós, submetendo-se a Lei, renova o mundo, renova o coração dos homens e convida-nos a transmitirmos esta sua mensagem a sociedade hodierna. Este não é um simples anúncio, que com a vicissitude dos tempos se esvai e passa a ser algo passado, mas é uma constante novidade que é basilar para a paz no mundo. O tempo já não é nosso inimigo, mas passa a ser nosso aliado. “Desde que o Salvador desceu do Céu, o homem já não é mais escravo de um tempo que passa sem um porquê, ou que esteja marcado pela fadiga, pela tristeza, pela dor. O homem é filho de um Deus que entrou no tempo para resgatar o tempo da falta de sentido ou da negatividade, e que resgatou toda a humanidade, dando-lhe, como nova perspectiva de vida, o amor que é eterno” (Papa Bento XVI, Te Deum em Ação de Graças, 2011).

A cada dia que se passa, nós caminhamos para encontrarmos com Deus, para contemplar aquele que é tão pequeno e tão grande, tão humilde e tão poderoso, um Deus em quem o Amor se concretiza, ou mais ainda, um Deus que é o próprio Amor.

E por isso, quem não ama está privado de conhecer a face de Deus e, por conseguinte, não poderá abrir-se a sua graça santificante e ao próximo. Só reina a paz no coração em que há Deus, onde este não é um ser distante, opressor, mas é humilde. Quem é individualista e quer ter tudo para si não possui a lógica do amor, sintetizada na doação espontânea a Deus e ao próximo. Maria é aquela pela qual Deus demonstra a vitória sobre os arrogantes.

Quem não ama, na lógica do mundo, deve ser colocado à margem, renegado, tido como um divisor. A lógica de Deus nos ensina o contrário: A quem não ama, mais ainda deve manifestar-se o nosso amor. Só amando com o amor de Deus damos sentido a nossa vida e a vida do próximo.

O Evangelho narra-nos que os pastores, primeiros a contemplarem o maravilhoso mistério acontecido naquela gruta, foram também os primeiros a anunciarem tudo o que ali presenciaram (cf. Lc 2, 17). A Igreja é chamada a gritar ao mundo a necessidade que os homens têm de Cristo. Falar de Cristo nunca é demais. Viver o Seu Evangelho, ainda que para o mundo pareça demasiado difícil, para a Igreja é fonte de santidade e vigor.

Foram os pastores caminhando pressurosos ao encontro do menino. Este verbo “caminhar” indica não apenas uma simples ação daqueles que se põem em movimento, mas é também uma atitude recíproca de Jesus. A humanidade caminha ao Seu encontro, mas Ele apressa-se e vem até nós, não nos deixa abandonados, mostra o Seu poder não com autoritarismo, mas manifesta-o com misericórdia. Esse é o nosso Deus, o Deus que nunca nos abandona!

Como os pastores, a humanidade nunca deve resignar-se ao medo ou temer forças aparentemente maiores que a tentem subestimar de sua missão de ser portadora da verdadeira paz. Nenhum poder é maior que o de Cristo! O poder de Cristo é o poder do bem. Só por meio do bem a paz pode alicerçar-se.

Surge então uma pergunta: Como construir a paz em uma sociedade imediatista, portadora de tantas debilidades e de um forte relativismo? Em primeiro lugar a paz deve ser edificada na família. Ali se exerce o lugar primordial para uma convivência pacífica. Quem vive em paz com a família certamente saberá transmiti-la em outros ambientes. A família, contemplado o modelo da família de Nazaré, deve reconhecer que a paz não é apenas uma ausência de relacionamentos conflituosos, mas é também o exercício sadio de uma boa convivência familiar que deve ser transmitido aos filhos.

Um segundo aspecto a se considerar é o relacionamento entre países. Todos os povos são chamados a uma convivência pacífica, seja em relação a liberdade religiosa, seja em relação a cultura. A Igreja como portadora da paz é chamada a exercer o seu papel entre as nações para que a vida humana seja dignamente respeitada e não lhe falte nenhuma assistência. Nenhum ser humano pode ser obrigado a nada, pois, do contrário, viola-se o direito primordial dado por Deus: a liberdade.

Também vemos com grande dor e lamentação as perseguições na terra onde os anjos cantaram: “Super terram pax hominibus bonae voluntatis” (Lc 2, 14). Que a paz possa reinar também neste local, onde tantos cristãos são violentados por sua fé. Rezemos também por eles, para que possam sentir a força revigoradora do Rei da Paz e pelos governantes, para que cada vez mais sintam-se decididos a caminharem pela senda da paz.

“Educar os jovens para a Justiça e a Paz”, este é o tema da Mensagem para este dia escolhido pelo nosso Santo Padre Bento XVI. Educar os jovens na cultura moderna é um grande desafio. A Igreja coloca-se ao lado das famílias para colaborar nesta árdua missão, para que possam, assim, formar pessoas para um futuro melhor, comprometidas com a sincera busca da pacificação mundial, mas também para que esta paz seja sinal de uma abertura a Cristo, Senhor dos povos e da Paz. Que o desânimo não vos deixe desanimar! Que as dificuldades não vos abatam! Revigorai-vos sempre nos Sacramentos que a Igreja vos oferece, compreendendo, assim, que somente no Senhor está a verdadeira força e só dele havereis de haurir decisões certas para um futuro que, não poucas vezes, é incerto.

E neste primeiro dia de um novo ano, queremos pedir: Senhor concede a Vossa Paz. Afaste-nos do obscurantismo de nós mesmos. Dá vigor a Igreja para que continue a portar a vossa paz ao mundo dilacerado por discórdias e guerras. Instaura entre nós o Reino de vossa Justiça. Manifestai o poder de Vosso braço e quebrai os grilhões de todas as coisas que nos acorrentam, nos impedindo de caminhar até Vós. Tocai os corações dos poderosos, que oprimem aos desfavorecidos, tratando-os como produtos comerciais. Maria, Mãe de Deus e nossa, ensinais-nos a nunca nos esquecermos de sempre elevarmos os olhos ao Pai para agradecermos pelos benefícios que Ele nos concede e libertai-nos do indiferentismo e da comodidade.

No dia dos Santos Inocentes, saiu na Rede Globo uma matéria exaltando um belíssimo trabalho missionário realizado por freiras beneditinas no Quênia. Destarte muitas dificuldades, elas mantêm um orfanato no país e vivem plenamente o seu chamado vocacional, dando ao mundo um bonito exemplo de respeito à dignidade da vida humana. A reportagem foi mostrada no Jornal Hoje desta tarde, mas está disponível na Internet.

Ao lado desta feliz notícia, porém, chega a nós um fato entristecedor: o Senado uruguaio aprovou, ontem, a lei que descriminaliza o aborto no país. Para ter validade, o projeto de lei que estabelece que “toda mulher maior de idade tem direito a decidir sobre a interrupção voluntária de sua gravidez durante as primeiras doze semanas do processo de gestação” só precisa passar pela aprovação da Câmara dos Deputados, já que o presidente do país, José Mujica, afirmou que não usará o seu poder de veto.

Rezemos, invocando a intercessão dos Santos Inocentes, a fim de que roguem pelas crianças ainda não-nascidas e que correm o risco de ter sua vida ceifada pelos promotores americanos da “cultura de morte”.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

“Indicando que Jesus nasce ‘hoje’, a Liturgia não usa uma frase sem sentido, mas destaca que este Nascimento investe e permeia toda a história, permanece uma realidade, na qual, também hoje, podemos alcançar justamente na Liturgia. A nós que acreditamos, a celebração do Natal renova a certeza de que Deus está realmente presente em meio a nós, se fez carne e não está distante, é o próprio Pai que está junto a nós naquele Menino nascido em Belém, se aproximando do homem. Nós podemos encontrá-lo agora, num ‘hoje’ que não acabou.”

- Papa Bento XVI, Audiência Geral
21 de dezembro de 2011

“Nós podemos encontrá-Lo agora” – são palavras do nosso Pastor. O nascimento do Cristo, o mistério do Verbo de Deus que se faz carne para salvar a humanidade oprimida pelo pecado, não é um fato que teve suas impressões marcantes apenas no primeiro século. É um fato que penetra simplesmente toda a história da humanidade, porque é o mistério do Amor.

Se quisermos entrar de verdade na comunhão dos Santos, recebendo o Cristo e participando efetivamente de sua espera como Juiz, precisamos compreender a nossa miséria. Nenhum de nós é digno, uma vez que “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3, 23). Na Igreja, desde o início, era pregado com insistência o fato de que as portas do templo estavam abertas para todos os homens, fossem eles judeus, gregos ou gentios. Esta lição é muito importante para nós hoje: Deus se faz Homem porque Ele vê a nossa condição, Ele conhece o mais profundo do nosso ser, as nossas necessidades, os nossos sofrimentos, as nossas misérias. E, se de alguma forma nos encontramos vivos, é por pura gratuidade que o Senhor mesmo nos dá esse dom.

É por amor que o Menino nasce em Belém. Mas é um amor que não permanece escondido na gruta de Belém, é um amor cantado pelos anjos, é o Amor ao qual o próprio Céu se prostra, Amor que, enfim, precisa de acolhida em nossa alma. E é neste ponto que descobrimos a chave da felicidade. Muitos põem a sua esperança na boa vontade de seus patrões, no bem-querer de seus companheiros ou mesmo na herança dos familiares. O que os anjos de Belém cantam é o oposto de tudo isto. “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade!” (Lc 2, 14). Isto significa: Glorifiquemos a Deus e n’Ele ponhamos nossa confiança.

Neste Advento, ouvimos a São Bernardo que nos falava das três vindas de Cristo. A primeira aconteceu em Belém, há mais de 2 mil anos; a última vinda ninguém pode prever quando será; a segunda, no entanto, pode ser experimentada já. Basta que estejamos dispostos a aceitar a vontade do menino Jesus.

A todos desejo um feliz Natal, recheado das bênçãos de Deus; a Virgem Santíssima, que acolheu a graça do Altíssimo em toda a sua plenitude, nos ajude a lembrar que a maior festa que podemos celebrar é o “sim” que, com a nossa vontade, damos ao projeto do Pai.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Após o ciclo de quatro semanas propostas pela Igreja no tempo do Advento, celebramos hoje a Solenidade que faz maravilhar nossos corações: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus entra no espaço e no tempo dos homens. Fá-lo para realizar plenamente a salvação daqueles que estavam carregados com o julgo do pecado.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2, 11). Esta é a festa da gloriosa manifestação da graça santificante. Somos envoltos na luz da misericórdia e do amor de Deus, um Deus que faz-se um de nós assumindo o rebaixamento da nossa condição humana. Esse amor não aparece, mas manifesta-se. Manifesta-se, pois já existia, e porque já existia manifestou-se. Mas que coisa é para nós hoje esta manifestação? O que ela representa aos nossos dias atribulados pela valorização de coisas efêmeras, de guerras, de ódios, de divisões? Vemos com grande tristeza a perda dos valores natalinos. Enfeitamos as casas, os comércios, os, porém, corações continuam despreparados para acolher o Menino Deus que vem para libertar-nos do pecado. Os símbolos natalinos perdem seu valor e em nada traduzem o espírito natalino quando são privados de exalar o perfume de Cristo. A Igreja não cessa de convidar os católicos para que, profundamente tomados pela força revigoradora do Cristo, possam manifestar ao mundo que o verdadeiro espírito do Natal não há de consistir apenas nos presentes, pois hoje nos é dado o maior presente; também não há de consistir apenas na árvore de Natal, pois os céus se abrem hoje para manifestar que a Árvore da Vida implanta-se no mundo para nos guiar até o céu.

A manifestação daquele recém-nascido envolto em panos é também o grito de tantas crianças colocadas à margem da sociedade e que nesta noite, tomadas pela escuridão e pelo frio que as cercam não estão incluídas em seios familiares. A elas também dirijo o meu pensamento e peço que não se sintam abandonadas, mas que sintam a presença do Menino Jesus que as ama e com elas permanece sempre.

O Senhor faz-se pequeno para que a o gênero humano pudesse ser engrandecido, e o homem, tomado em sua totalidade, visse a manifestação da glória de Deus, mas não somente a visse como também a experimentasse, tocasse, por assim dizer, pudesse fazer parte dela. Só desta forma os homens poderiam sentir-se abraçados pelo grande amor de Deus, por Aquele que, a princípio, por ser grande e estar infinitamente acima de nós parecia-nos distante e inalcançável.

Na manifestação humilde do Filho de Deus o mundo encontra uma resposta a todas as suas angústias, a todos as suas interrogações. Só Deus pode responder verdadeiramente aos anseios do homem e só d’Ele provém a felicidade eterna e verdadeira, que não se restringe a um instante mas é algo novo, diferente. A alegria que provém de Deus não muda somente o estado de espírito do ser humano; ela vai além: muda o modo de viver, muda o coração e também os objetivos que deseja alcançar. Esta, e só esta, é a felicidade divina.

Na sua maravilhosa obra Confissões, Santo Agostinho irá manifestar um triângulo de relacionamentos em um parágrafo que considero um dos mais belos. Diz ele: “Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. Desde que te conheci, tu me elevaste para ver que quem eu via, era, e eu, que via, ainda não era. E reverberaste sobre a mesquinhez de minha pessoa, irradiando sobre mim com toda a força. E eu tremia de amor e de horror. Vi-me longe de ti, no país da dessemelhança, como que ouvindo tua voz lá do alto: ‘Eu sou o alimento dos grandes. Cresce e me comerás. Não me mudarás em ti como o alimento de teu corpo, mas tu te mudarás em mim’”.

São estas belíssimas palavras que nos levam a contemplar novamente esta novidade que vem do alto. Sim, Deus é uma verdade eterna, imutável. Em um mundo que necessita exercitar seu empirismo para acreditar, a Igreja nos exorta novamente a abandonarmos esta mentalidade. Busquemos Aquele pelo qual acreditamos não por vermos e necessitarmos tocar, mas acreditamos pelo Amor, um amor incondicional que instiga-nos a caminharmos em direção do próximo, do que necessita nosso amparo e nosso amor, dos que sofrem por não amarem. A estes o Senhor faz um convite incansável: Não temam em abrir-se para o amor! Não temam em abrir-se a Mim!

Se eterna é a verdade, a caridade há de ser, então, verdadeira. Só a verdade pode levar o homem a sair de si mesmo e com Cristo, humilhar-se, e em Cristo, ser unido a Ele sem jamais deixar-se atribular por qualquer pressão do mundo. Renuncieis a esta vida e tereis a vida eterna. Renunciai a vida eterna e nem mesmo esta vida tereis, pois não existe maior desgraça para o homem do que afastar-se de seu Criador e colocar-se na condição de um ser autossuficiente, senhor de si e de seus desejos, podemos confirmá-lo nos vários sistemas políticos de autoritarismo.

A união com Cristo, como lembrará o Santo Bispo ao final de sua colocação, não é algo que assemelhá-Lo-á a mim, mas eu assemelhar-me-ei a Ele. A iniciativa foi dada por Cristo: Ele veio ao nosso encontro; tomemos agora a iniciativa de irmos ao encontro d’Ele, de sairmos das trevas, de amá-lo sem reservas. Indubitavelmente a falta de amor no mundo é consequência da falta de Deus, não porque Ele tenha se afastado do mundo, mas o mundo afastou-se d’Ele.

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Assim escutamos nesta noite santa por meio do Profeta Isaias. Também o mundo de hoje caminha em meio a uma forte escuridão. A cultura moderna está impregnada por “sombras da morte”. Nós parecemos não enxergar nenhum sinal que venha nos animar, parecemos atordoados pelas fadigas derivadas do peso que a sociedade impõe. Nosso Senhor, no entanto, sempre aparece como Aquele que conforta-nos e soluciona as nossas tribulações. Confiemos em Deus! Não perece quem confia em Deus, mas aquele que nele não põe sua esperança logo será abatido pelos ventos contrários. Em quem colocamos a nossa confiança? Em Deus ou no mundo? No bem ou no mal? No que fortalece ou no que atribula?

Dominus dixit ad me filius meus es tu ego hodie genui te – O Senhor me disse: Tu és meu filho e hoje te gerei” (Sl 2, 7). Essas palavras a Igreja canta no Introito da Santa Missa da Noite Santa de Natal. Sim, “gerado, não criado; consubstancial ao Pai”, assim professamos no símbolo de fé niceno-constantinopolitano. Gerado desde toda a eternidade, Jesus, cumprindo o salvífico desígnio do Pai, restaura a condição humana decaída pelo pecado, reata os laços do homem com Deus, cortados por Adão e Eva.

“Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2, 6). Com esta frase, absolutamente sóbria, São Lucas narra o maravilhoso acontecimento que teve lugar na manjedoura. Mas que significado tem aqui o termo “primogênito”? Indicaria uma sucessão de filhos? A primogenitura, deste ponto de vista da Sagrada Escritura, na Antiga Aliança, não significa uma sucessão de filhos, mas é um título de honra. Jesus é sim o primogênito de Deus, de Maria e da História. Nele Deus concretiza o seu desígnio em relação a sua graça salvadora na humanidade. São Paulo usará desta palavra ao afirmar que Cristo é “o primogênito de toda a criatura” (Cl 1, 15). Sim, tendo cumprido a sua obra salvífica podemos afirmar que Ele torna-se também o primogênito de muitos irmãos. Maria, assim, poderíamos associar como mãe de muitos filhos. Aqui estão os outros filhos de Maria! Derivam da filiação adotiva, daquele que é Filho de Deus por excelência: Jesus Cristo.

“Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 7). Não havia lugar para o Senhor e para sua mãe naquela época. Também hoje muitos corações estão fechados à receptividade do Reino de Deus que vem na pessoa desta frágil criança. No frio daquela noite de Belém nasce Aquele que iria aquecer todos os corações com a chama do seu amor misericordioso. Pedimos que os corações sejam abertos a este menino salvador. Abram-se os corações e possam acolher aquele que a dois mil anos foi rejeitado.

Que lugar Jesus ocupa em nossos corações hoje? Esta pergunta deve fazer com que possamos melhor vivenciar o verdadeiro espírito natalino. Muitos corações estão endurecidos à mensagem que esta noite tem a transmitir-nos a Igreja. Enquanto a efemeridade e o secundário forem postos como necessários os homens não encontrarão a paz tão almejada. Não pode abrir-se ao mundo e aos irmãos quem antes não estiver aberto a Deus, quem não se tornar portador de sua Palavra e fizer de sua vida um Evangelho.

 “Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho” (Lc 2, 8). Quem eram os pastores? Por que a eles o anúncio é dirigido primeiramente? Devemos dizer, em primeiro lugar, que eram pessoas humildes, tidas à margem da sociedade. Eram desconhecedores da Lei e, portanto, não a vivenciavam; andavam com suas ovelhas por diversos campos, inclusive campos pagãos. Por tudo isso, eram julgados pelos fariseus e considerados impuros e indignos de participar das cerimônias de culto.

Mas se por um lado lhes pesava o fardo da exclusão, por outro, todo este sacrifício deu-lhes uma consolação maior que qualquer outra: Contemplar a face do Salvador feito homem; contemplar um Deus que é tão pequeno, tão humilde, tão frágil e quis necessitar do nosso amor. Não há na mitologia grega e nos deuses romanos nenhum Deus que tenha se feito homem; mas há para nós, homens e mulheres, testemunhas do Evangelho. O nosso Deus não constitui parte de uma literatura mítica. Ele existe! Ele vive! E hoje Ele inclina-se dos altos céus não para condenar-nos, mas para nos mostrar quão grande é o seu amor; um amor capaz de doar-se, capaz de não apenas inclinar-se para olhar-nos, mas descer para estar conosco.

Precisamente esta impressão, pela qual hoje somos tomados, acometeu os pastores que contemplaram maravilhados o menino. Deixaram tudo, ao escutar o anúncio do anjo. Certamente houve um grande temor por parte deles, afinal não lhes era comum ver aquele personagem vindo do céu. O que os pastores nos ensinam? Esta resposta nos é dada pelo Papa Bento XVI: “Deles queremos aprender a não deixar-nos esmagar por todas as coisas urgentes da vida de cada dia. Deles queremos aprender a liberdade interior de colocar em segundo plano outras ocupações – por mais importantes que sejam – a fim de nos encaminharmos para Deus, a fim de O deixarmos entrar na nossa vida e no nosso tempo. O tempo empregue para Deus e, a partir d’Ele, para o próximo nunca é tempo perdido. É o tempo em que vivemos de verdade, em que vivemos o ser próprio de pessoas humanas” (Homilia do Natal do Senhor, 2009). Ademais ensinam-nos que só o amor pode nos dar coragem para vencer o medo. Só o amor nos dá coragem para seguir a Cristo. Quem tem uma fé fraca e deixa-se abalar pelas coisas do mundo ainda não está apto para tal seguimento. Por vezes há momentos de queda, mas a força que vem de Deus dá-nos a certeza de que não estamos abandonados. Deus está conosco!

Deixemos tudo, como fizeram os pastores. Coloquemo-nos a caminho de Belém e enquanto caminhamos, rezemos: Vem, ó Senhor! Toca os corações endurecidos; renova os nossos corações; dissipa o ódio e o mal da face da terra; reafirmai vossa primazia e poder sobre todos os homens e em todos os tempos. Renovai vosso ardente desejo de sermos Evangelhos vivos para os homens de nossos dias. Revigora o ânimo dos entristecidos; conforta os tristes; curai os enfermos; acolhei os abandonados. Tornai-nos corações vigilantes na expectativa de que, habitando Cristo em nossos corações, possamos abitar igualmente no coração amoroso d’Ele. Concede paz ao mundo dilacerado pela guerra, paz verdadeira e duradoura. Paz a todos os cristãos nos mais diversos países, perseguidos por causa do vosso nome. Livrai-nos da tentação de colocar-Vos em último lugar, mas que possais crescer enquanto nós, assim como João Batista, possamos diminuir.

A todos os meus votos de um Feliz e Santo Natal. Que a luz de Cristo resplandeça em vossos corações e em vossas famílias.

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