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Princípio fundamental: todo ser é bom. O mal é uma privação

Fonte: Scribd

Santo Agostinho

http://3.bp.blogspot.com/_R3c48oHJrds/SSQESmBCmcI/AAAAAAAABYU/VTsHE1-Icf8/s400/01.jpg36b. Toda natureza (natura) que pode tornar-se menos boa, todavia, é boa. De fato, ou bem a corrupção não lhe é nociva, e nesse caso ela é incorruptível; ou bem, a corrupção atinge-a e então ela é corruptível. Vem a perder a sua perfeição e torna-se menos boa. Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem, o que dela restará não poderá mais se corromper, não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e, assim, prejudicá-la. Por outro lado, aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper, e assim esse ser será incorruptível. Pois eis algo totalmente absurdo: uma natureza tornar-se incorruptível por sua própria corrupção.

Por isso se diz, com absoluta verdade, que toda natureza enquanto tal é boa. Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível. E se ela for corruptível – já que a corrupção não pode atingi-la senão tornando-a menos boa, ela é indubitavelmente boa. Ora, toda natureza ou é corruptível ou incorruptível. Portanto, toda natureza é boa.

Denomino “natureza” o que habitualmente se designa pela palavra “substância”. Conseqüentemente, posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus, e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus.

A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo

37. Uma vez essas verdades tendo sido firmemente estabelecidas, como ponto de partida de nosso raciocínio, atende, ó Evódio, ao que vou dizer: toda natureza racional, tendo sido criada com o livre-arbítrio da vontade, é, sem dúvida alguma, digna de louvor, caso se mantenha fixa no gozo do Bem supremo e imutável. A mesma coisa quanto à natureza que se esforça por se fixar nele permanentemente deve ela igualmente ser louvada. Pelo contrário, toda natureza que não esteja fixa naquele Bem supremo e recusar-se a trabalhar para aí se manter, é digna de ser censurada (vituperanda est), na medida em que aí não estiver e não fizer o necessário para isso.

Logo, se é digna de louvor uma natureza racional, que não é senão criatura, não há dúvida que também deve ser louvado Aquele que a criou. E caso ela seja censurada, ninguém duvida que seu Criador vem a ser igualmente louvado por essa censura. Com efeito, se o que reprovamos nessa criatura é precisamente o fato de não querer gozar do Bem supremo e imutável, isto é, de seu Criador – é bem este a quem louvamos, sem dúvida alguma.

Ó quão grande é, pois a bondade divina, e de quantos inefáveis louvores todas as línguas e todos os pensamentos devem celebrar e honrar o Deus, criador de todas as coisas. Visto que não podemos, sem o louvar a ele mesmo, ver dirigidos a nós louvores ou censuras! Com efeito, não podemos ser reprovados por não permanecermos unidos a ele, a não ser porque essa união constitui o nosso grande, supremos e primeiro bem. E donde procede tudo isso, se não porque Deus é o inefável?

Como, pois, poder-se-ia encontrar em nossos pecados algo de censura, em referência a Ele, quando não podemos condenar tais pecados, sem proclamarmos os seus louvores?

Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza

38. Pois bem! Nas mesmas coisas que reprovamos, não é unicamente o defeito ou vício (vitium) que reprovamos? Ora, não se pode reprovar o vício de natureza alguma sem louvar implicitamente a essa natureza. Com efeito, ou bem aquele que censuras é conforme à natureza do seu ser, e então não é um defeito, e é a ti que convém corrigir o julgamento errôneo, para que saibas censurar a propósito, e assim o teor de tua reprovação não seja indevido. Ou então, caso se trate de um vício, para ser justamente reprovado, tem forçosamente de ser contrário à mesma natureza. Porque todo vício, pelo fato mesmo de ser vício, é contrário à natureza. Efetivamente, se não prejudicar a natureza não será tampouco vício. Inversamente, se for vício por afetar a natureza de modo nocivo, é claro ser também vício pelo fato de ser contrário à natureza.

Agora, se uma natureza for corrompida não por seus próprios vícios, mas pelos de outra natureza, então ela será censurada injustamente. Devemos antes procurar se a outra natureza da qual o vício a pôde corromper não está ela mesma corrompida por seus próprios vícios.

Mas o que é ser viciado a não ser estar corrompido pelo vício? Ora, uma natureza que não está viciada não possui vício algum. Ao passo que a natureza cujo vício pôde corromper outra natureza certamente esta viciada. Logo, a primeira está corrompida por seu próprio vício. Ela, cujo vício pôde corromper as outras naturezas. Donde se segue esta conclusão: todo vício é contrário à natureza, exatamente daquela mesma natureza da qual vem tal vício.

É porque se conclui que em todas as coisas não se reprova a não ser o vício e este não vem a ser constituído vício, senão por sua oposição à natureza do ser onde se encontra. E não se pode reprovar com justeza o vício de coisa alguma, a não ser que se louve a natureza dessa mesma coisa.

Com efeito, nada pode com razão te desagradar no vício, a não ser o fato de que ele vicia o que te agrada na natureza.

Santo Agostinho

O Livre Arbítrio”, III, c. 13, 36b-38

“A máxima: Fora da caridade não há salvação é a conseqüência do princípio de igualdade perante Deus e da liberdade de consciência. Tendo-se esta máxima por regra, todos os homens são irmãos, e seja qual for a sua maneira de adorar o Criador, eles se dão às mãos e oram uns pelos outros. Com o dogma: Fora da Igreja não há salvação, anatematizam-se e perseguem-se mutuamente, vivendo como inimigos: o pai não ora mais pelo filho, nem o filho pelo pai, nem o amigo pelo amigo, desde que se julgam reciprocamente condenados, sem remissão. Esse dogma é, portanto, essencialmente contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica.”

(Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 15, n. 8 )

Essa é a moral espírita: explicitamente contrária ao que ordena o Magistério da Igreja Católica. Com efeito, existe nesse ensinamento kardecista uma claríssima contradição entre a fé católica e a espírita, afinal, o Catecismo da Santa Sé afirma que “esta Igreja [Católica], peregrina na terra, é necessária à salvação” (§ 846). E, de fato, essa é uma verdade expressa por Jesus à Sua comunidade de seguidores. Disse Ele que “ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6). Essa mediação única exercida por Nosso Senhor Jesus Cristo não pode permite outras. É esse o ensinamento de Cristo e também da Igreja: “[A]inda que alguém (…) vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema” (Gl 1, 8).

Assim sendo, devemos ser sempre e totalmente intolerante com aquilo que é contrário à pureza da fé cristã. Se Cristo disse que é a Verdade (cf. Jo 14, 6) e expressou isso com artigo definido – ou seja Ele não é “uma” verdade, mas sim a única verdade – então tudo aquilo que é contrário ao que ensina Jesus é mentira. Conclusão simples, não? Assim como quando se estabelece que um copo é de vidro. Se alguém disser que ele é de plástico, devemos aceitar? Não, pois não se trata de uma opinião, mas de uma mentira. Se sabemos – e, com efeito, nós sabemos – que o Evangelho de Cristo é o único certo, o único verdadeiro e o único que salva, então todos os outros estão errados, mentem e conduzem à perdição.

Mas vejamos bem: uma coisa é sermos intolerantes com pessoas; outra bem diferente é não termos tolerância com os irmãos, com as pessoas, sejam de igrejas evangélicas, espíritas etc. Mentirosos podem mudar, enquanto mentiras são eternamente falsas. Dois mais dois não é três. Isso é mentira. Quando vai deixar de sê-la? Nunca, afinal dois mais dois sempre é igual a quatro. Definimos, desse modo, que a verdade é um valor eterno; não muda. A mentira, como fator oposto à verdade, também não pode se alterar. Tudo o que é contrário à verdade sempre o será. No entanto, ao falarmos de pessoas, falamos de mutabilidade. As pessoas podem deixar de seguir uma mentira e partirem para o lado da verdade, por exemplo. Então com pessoas há esperança; com doutrinas mentirosas, não.

Santo Agostinho dizia: “Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade”. O que isso basicamente quer dizer? Que a verdade não tolera opinião diferente porque tudo o que é contrário a ela é falso. Nas coisas duvidosas, contudo, é possível que haja liberdade já que não se tem certeza de uma verdade. Mas veja bem o que ele diz no final: em todas, a caridade. A máxima “Fora da Igreja não há salvação”, portanto, não é uma ameaça à caridade, como pode parecer a princípio. Ser intolerante com dada doutrina não significa ser intolerante com as pessoas que a seguem, muito pelo contrário: quando vemos que um irmão nosso segue uma mentira, nos empenhamos com todas as nossas forças – seja por meio da oração, seja através do diálogo – para convertê-lo, para trazê-lo à Fé.

Assim sendo, amar a Verdade e estabelecer que fora d’Ela não há salvação (cf. Jo 14, 6) não é um princípio “contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica”. É preciso, contudo, conciliar a verdade intolerante da Fé com a Sua caridade tolerante. Não podemos cair nos extremismos e nos fanatismos, que são motivos de muitas guerras religiosas. Esses sim, são os verdadeiros fatores que fazem com que os homens “anatematizem-se e persigam-se mutuamente”. Sem caridade realmente a salvação se torna praticamente impossível assim como fora do Corpo de Cristo, a Igreja, que é a verdade, também não é possível salvar-se. Uma realidade não exclui a outra, muito embora o queira essa mentalidade relativista que já se infiltrou em muitos membros da Igreja.

Graça e paz.

Fonte: Acervo Digital VEJA

Alemães se reúnem para interromper 28 anos de opressão sem disparar 1 tiro

Na próxima segunda-feira, dia 9, o mundo marcará os 20 anos da queda do Muro de Berlim. A construção, que começou a ser erguida em 13 de agosto de 1961, era a representação física da Cortina de Ferro – expressão cunhada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill para designar a divisão entre as democracias ocidentais e os países comunistas da Europa Oriental. Naturalmente, sua queda se tornou o marco simbólico do fim do comunismo.

O muro infame que dividia a capital da Alemanha veio abaixo na noite de 9 de novembro de 1989, sem que um só tiro fosse disparado. “A Europa criada após o fim da II Guerra Mundial terminou com um enorme carnaval. Flores, lágrimas, aplausos, gritos de alegria, uma montanha de garrafas de champanhe e a inebriante sensação de participar de um daqueles momentos que levam décadas ou até séculos para acontecer, quando a História dá um salto rumo ao novo, selaram o porre de liberdade tomado dos dois lados de Berlim”, descreveu a reportagem de VEJA no dia 15 de novembro daquele ano.

Enquanto os berlinenses de ambos os lados comemoravam o fim de quatro décadas de opressão, Mikhail Gorbatchev, o último premiê soviético, dormia em Moscou. Com seu histórico de milhões de mortos, a União Soviética desmanchou-se no ar dois anos depois. Quinze anos após a derrocada, documentos secretos revelaram que os soviéticos – e alguns líderes mundiais – temiam a Alemanha unificada. Em uma reunião de janeiro de 1990, o premiê Nicolai Rizhkov expressa a preocupação soviética: “Se permitirmos isso, a Alemanha será capaz de começar a III Guerra Mundial daqui a 20 ou 30 anos”. Em uma conversa com Gorbachev, Margaret Thatcher (primeira-ministra inglesa) pediu, de supetão: “não anote o que vou dizer agora – sou completamente contra a reunificação da Alemanha, mas não posso dizer isso publicamente em casa ou na Otan”.

O grande muro foi construído para acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidente. À época, o governo comunista justificou a decisão dizendo que esta era uma forma de acabar com “o contrabando de divisas e a atividade dos espiões”. Para se conseguir atravessar de um lado a outro, era preciso passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de um estudo minucioso do passaporte – tudo sob a mira de um guarda com o dedo no gatilho da metralhadora. De tempos em tempos, o governo comunista fechava a única porta entre os dois territórios, juntamente com todas as ferrovias, rodovias e linhas fluviais que ligavam as duas capitais.

Nos 28 anos de existência do Muro de Berlim, 809 pessoas foram mortas enquanto tentavam transpô-lo para fugir do comunismo. Em 1984, o governo comunista chegou, inclusive, a erguer uma segunda muralha na capital alemã. Mas nem isso conseguia impedir as pessoas de arriscarem a vida pela liberdade. Documentos dos arquivos da polícia secreta da Alemanha comunista, a Stasi, revelaram, em 2001, que mais de 75.000 alemães foram presos tentando escapar entre 1961 e 1989. Dos mortos, 250 foram baleados junto ao muro, 370 ao longo do que então era a fronteira entre as duas Alemanhas e 189 na região do Mar Báltico.

O Muro marcou não somente o território, mas a mente dos alemães. Um levantamento feito 15 anos após sua derrubada mostrou que os berlinenses não conseguiam se unir totalmente – nem como povo nem como casais. Apenas 2% dos casamentos celebrados em Berlim no ano de 2004 eram entre alemães do Leste e do Oeste. A separação era tão grande que os berlinenses se apaixonavam mais por pessoas de fora do país do que por seus conterrâneos do outro lado da cidade: 24% dos casamentos em Berlim foram, naquele ano, entre alemães e estrangeiros.

As diferenças entre as Alemanhas Oriental e Ocidental iam mais além: o lado comunista encerrou a separação extremamente mais pobre do que o capitalista. Mesmo depois da queda do Muro de Berlim, os alemães do lado oriental continuavam utilizando a mesma rota para a prosperidade dos tempos do comunismo: viver no lado ocidental da Alemanha, muito mais próspero. Nos anos que se seguiram à queda do Muro, o governo alemão chegou a injetar mais de 1 trilhão de dólares na economia do que antes era a Alemanha Oriental. Os incentivos fiscais e os subsídios oferecidos, porém, não foram suficientes para atrair a iniciativa privada no volume necessário. Com a conclusão das obras maiores e urgentes, no fim dos anos 90, restaram o desemprego e a certeza de que um muro invisível continuava separando os dois lados.

Com o passar dos anos, porém, a fronteira imaginária de que tanto se falou nos anos subsequentes à abolição da fronteira geográfica entre as duas Alemanhas torna-se cada vez mais tênue. São raros hoje, no lado oriental, os sinais de precariedade tecnológica e má qualidade de vida. Em toda Berlim fica difícil encontrar vestígios da divisão da capital, a não ser pelos que se tornaram atrativos turísticos. A capital alemã voltou a ser, como um todo, uma metrópole aberta política e economicamente. Como descreveu VEJA ainda em setembro de 1990, “unida e com mais força do que nunca, a Alemanha recuperou o lugar que sua insânia guerreira lhe tirou no passado: o de grande potência da Europa e do mundo”.

Extraído do site VEJA.com.

http://afilosofia.no.sapo.pt/padre.jpg“Porém, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta.”

(Papa Bento XVI, Discurso na Sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caribe, 13/05/07)

Quando o Papa pronunciou essas palavras em solo brasileiro muitos historiadores e estudiosos se escandalizaram profundamente. Os próprios índios se sentiram injustiçados… Mas a realidade infelizmente era pura e simplesmente essa: Cristo era o Salvador que os povos indígenas esperavam silenciosamente. A religião que cultivavam na América, seus rituais e práticas que buscavam, de alguma maneira, o transcedental e o divino, esperavam uma purificação; e ela veio com a colonização européia em solo americano.

Mas infelizmente poucos querem enxergar os abomináveis crimes que eram praticados pelo povos indígenas que aqui habitavam antes da chegada dos portugueses e espanhóis. Eram definitivamente povos “bárbaros”. Acreditavam sim em Deus, mas não tinham uma visão pura sobre o que Ele realmente era; tanto é verdade que a sua relação com os demais índios e tribos diferentes era conflituosa e bastante conturbada. No Brasil era nítida a prática do canibalismo pelos indígenas. Nas civilizações maia e asteca predominava em grande massa o extermínio de humanos, que eram oferecidos em sacrifício pelo “deus-sol”. A noção de igualdade, de direito à vida, de respeito à integridade do ser humano chegou juntamente com a colonização européia queiram ou não os historiadores.

O que o Papa falou foi justamente isso: “o Espírito Santo (…) veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho”. Não é questão de supervalorizar ou não culturas. A questão é: como acabaram os sacrifícios humanos na América? Como a prática do canibalismo cessou? Ninguém duvida de que foi graças ao árduo trabalho da Igreja que, consciente da sua missão de evangelizar os povos (cf. Mc 16, 15), tratou de construir na nossa sociedade uma ideologia mais humana, defensora especialmente do direito que todos tinham a viver dignamente.

Por isso que o Papa vai afirmar que a colonização exercida pelos cristãos na Europa não foi uma simples “imposição ideológica”, mas também um impulso aos indígenas praticarem a verdadeira virtude da religião, defensora de valores até então desconhecidos pelos pré-colombianos.

O que infelizmente não enxergam é esse “colonialismo cultural” que hoje em massa é exercido pela mídia e pelas escolas: uma verdadeira imposição ideológica, que leva o homem a pensar que as religiões ou as crenças indígenas não eram erradas, ou pior: que eram até superiores à fé cristã. Desprezam a religião que moldou a nossa civilização. Conservam e exaltam o indigenismo. Esquecem-se que se hoje temos em nossa cultura conceitos como dignidade ou direito à vida é devido principalmente ao trabalho da Igreja e dos colonizadores europeus.

Sim, a nossa mentalidade foi moldada pela colonização cristã. Desprezá-la é deprezar também nossa cultura.

Graça e paz.

http://3.bp.blogspot.com/_kZTie4jaZQc/SNApzaG_g8I/AAAAAAAAAVc/HIMVuNwzmXo/s400/cego.jpgA sociedade moderna, contaminada pela visão racionalista do mundo e dos costumes, relaciona o ceticismo com o ateísmo, como se os dois fossem complemento um do outro. Além disso, arbitrariamente estabelece na mentalidade das pessoas que a Igreja é um meio de manipulação e que todos os religiosos mantêm uma fé cega nas suas crenças. Afirma – e poucos contestam isso – que os cristãos, assim como os muçulmanos ou os judeus, não questionam sua fé, pois, se verdadeiramente questionassem, não creriam no que está escrito na Bíblia – no caso dos judeus – ou no Alcorão.

Esse método ateísta de se pré-estabelecer uma conclusão a um questionamento não é cético, mas tendencioso e – esse sim – verdadeiramente manipulador. Questionar não é mais sinônimo de “comprovar”, mas sim ir diretamente contra aquilo que é proposto. Os ateus se esquecem, contudo, que aquele que vai contra algo ou alguma moral sem nem mesmo questioná-lo antes não foge da manipulação; pelo contrário, participa ainda mais dela. Por exemplo, quando um ou outro cientista ateu estabelece uma proposição que confirme em parte alguma idéia do evolucionismo os ateus não se contêm: nem mesmo pesquisam fontes ou procuram saber o que levou aquela pessoa a chegar àquela conclusão já estão divulgando essas idéias. Quando é questionado o porquê de sua fé nessas teorias – que muitas vezes são bobagens, diga-se de passagem – não há resposta, mas pressupostos: esse seria o retrato fiel da ciência.

A Teoria da Evolução, assim como as suas supostamente prodigiosas conclusões ainda não foram devidamente comprovadas – e é por isso que o evolucionismo de Darwin é teoria -. Mas tem muitos anti-religiosos que a consideram um superdogma, algo inquestionável, uma verdade absoluta. Enquanto os verdadeiros cientistas se utilizam da cautela para falar da origem do universo os ateus mantêm essa linha arbitrária de pensamento. E ai de quem pensar diferente! É tachado de ignorante, retrógrada e atrasado. Será que a verdadeira ciência consiste em afirmar aquilo que ainda não foi devidamente comprovado? Definitivamente, não.

Entretanto, as ideologias atéias estão sendo cada vez mais propagadas no mundo. Se engana quem pensa que é a expansão do ceticismo. Não… É a expansão da manipulação, eu diria. Quantos neo-ateus acusam a Igreja de pôr uma venda para tapar os olhos dos fiéis quando eles mesmos são guiados e conduzidos a pensar em coisas que talvez nem mesmo acreditem ou conheçam de verdade! “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, é considerado obra sublime de ciência, de filosofia, de racionalismo… “Confissões”, de Santo Agostinho, ou “Suma Teológica”, de São Tomás de Aquino, são tratados com repugnância. Mas por quê?

Na maioria das vezes não existe motivo racional. Simplesmente é bonito ser ateu. Para a sociedade moderna o ateísmo é sinônimo de revolução ideológica, de ceticismo, de questionamento, de racionalismo, de cientificismo… Enfim, de tudo aquilo que é considerado importante. Mas sabe o que acontece? Até nisso nós vemos um processo de maria-vai-com-as-outras, pois se fosse verdadeiramente certa a tese de que tudo deve ser contestado e criticado também as idéias neo-ateístas deveriam ser questionadas. Mas não… Elas são apoiadas. Não precisa ler o livro do Dawkins pra apoiar suas idéias. Se ele não crê em Deus já é inteligente.

Questionar – entendas os ateus – conduz a dois caminhos: o sim ou o não. Aqueles que não questionam a religião – e essa atitude é severamente condenável – nem mesmo tem certeza do sim ou do não; elas apenas seguem aquilo que outros concluíram com seu questionamento. No entanto, aqueles que questionaram e foram conduzidos ao caminho do “sim” não podem ser condenados. O erro não está em questionar, mas em supor que o questionamento conduz somente à contestação.

Essa mentalidade devasta os princípios mais básicos da moralidade. É preciso combatê-la arduamente pois não está do lado da ciência, senão da cegueira. Sim, a cegueira não existe somente na religião, como pregam os anti-religiosos. Ela também está, e em grande percentual, no meio dos “racionalistas” ateus.

Fonte: Neo-Ateísmo, Um Delírio

Por Luciano Henrique

Mito 1 – O ceticismo é propriedade do ateísmo

Esse mito é tão difundido que até o desafio do Bule, de Bertrand Russell, começa afirmando que os teístas deviam respostas aos “céticos” (quando na verdade se referia aos “ateus”). Nada mais falso. O ceticismo não é propriedade de nenhuma ideologia, nem a ateísta. Decerto que o ateu é cético em relação à existência de Deus, mas isso não implica que ele seja alguém basicamente cético. Há muitos ateus que acreditam em memes, Freud, genes egoístas, extraterrestres e muitas outras coisas. Ademais, o fato de alguém acreditar em Deus, não implica que este não seja cético em relação a outros assuntos. Particularmente, para mim a questão é simples: se eu acredito em Deus, para que eu preciso crer piamente em qualquer outra coisa? Tecnicamente, por ser religioso, minha obrigação é ser mais cético do que um ateu. Em vários exemplos que poderão ser vistos nesse blog, os ateus militantes portam-se com credulidade absurda, em vários casos beirando a fé cega. Por exemplo: muitas vezes eles lêem uma alegação no livro de Dawkins, ou Dennett, ou qualquer outra fonte do tipo, geralmente uma acusação anti-religião, e saem pregando a tal afirmação mesmo sem INVESTIGAR as fontes. Obviamente, um altíssimo grau de credulidade e fé cega é detectado neste tipo de ateu. E, ironicamente, esse tipo de ateu tende a agir de maneira extremamente desconfortável quando é submetido a uma bateria de questionamento cético. A grande prova de que o “ceticismo como propriedade do ateísmo” não passa de um mito é justamente o mecanismo que tem sido o impulsionador deste blog: o ceticismo. É exatamente isso: a principal forma de combate ao ateísmo militante é o ceticismo. E funciona com extrema eficiência, diga-se.

Mito 2 – A natureza do fundamentalismo e extremismo é religiosa

Outra crendice popular que já foi demolida principalmente após o advento da campanha atual do neo-ateísmo. Antes, era fácil associar a idéia de que uma pessoa “fanática” automaticamente era uma pessoa “religiosa”. Extremismo? Provavelmente vinha da religião. Entretanto, o recente comportamento obsessivo e extremamente dedicado à anti-religiosidade visto nos seguidores de Dawkins e patota raramente possui precedentes até no comportamento religioso. Basicamente, o novo ateísmo traz tantas características de fundamentalismo e extremismo vistas basicamente somente em grupos como as Testemunhas de Jeová, da religião. Ademais, a forma de agir desses “novos ateus” não é uma exceção, sendo tal obsessão vista tanto em ateus militantes dos Estados Unidos, como também na Suécia, no Brasil, em Portugal, etc. Leitores de Richard Dawkins comportam-se como vítimas de lavagem cerebral, e a partir disso, atacam e difamam todos aqueles que não agem de maneira radical como eles. Não sobra nem para agnósticos e panteístas. É evidente que a natureza do fundamentalismo e extremismo é uma característica humana. Nos ateus, é facilmente visível nos neo-ateus (e na religião ateísta “brights”). Nos religiosos, é facilmente percebida nas Testemunhas de Jeová.

Mito 3 – Os (neo) ateus são os representantes da ciência

Na tentativa de “inflar” o número de ateus na ciência, os neo-ateus tentam usar estratagemas como afirmar que os cientistas não “acreditam em um Deus pessoal”, o que segundo eles seria o mesmo que “não acreditar em Deus”. Obviamente, uma distorção. Tentam, também, incluir todos os agnósticos, religiosos liberais, deístas e panteístas no grupo de ateus. Além disso, muitos dos ateus militantes fingem que divulgam ciência, e escrevem muito a respeito, mas basicamente para apresentar a falsa dicotomia entre ciência e religião. Ao tentar falar com maior insistência em nome do ateísmo (lembrem-se do mito 2), acabam afirmando que estão atuando em nome da ciência em sua pregação. Obviamente que pessoas facilmente impressionáveis podem acreditar neste mito, que é facilmente desmascarável através do ceticismo. Veja o exemplo dos quatro principais autores do neo-ateísmo: Richard Dawkins é um cientista de segunda categoria (cujas teses científicas são quase místicas, como gene egoísta), Daniel Dennett é um filósofo que se meteu no âmbito da psicologia cognitiva, Sam Harris é também um filósofo que só recentemente adquiriu um (muito suspeito) doutorado em neurociência, enquanto que Christopher Hitchens é um jornalista. Se esses são os representantes “da ciência”, estamos indo bem mal… Mas, na verdade, os ateus nem de longe representam a ciência. Além do mais, a ciência é laica, portanto sequer necessita de representação com viés ideológico religioso ou anti-religioso.

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Mito 4 – Há conflitos entre ciência e religião

Mito geralmente difundido em conjunção com o item 3. Na tentativa de criar a já citada falsa dicotomia entre ciência e religião, os neo ateus “inflam” a definição de ciência e tratam quase todas as situações humanas como se fossem um conflito entre ciência X religião, o que, naturalmente, é ilógico. Nessa discussão, geralmente eles se esquecem de que as áreas de conhecimento humanas envolvem domínios como Filosofia, Engenharia, Negócios, Política, Tecnologia, Matemática, Linguística e outros. Tecnicamente, a implementação de falsa dicotomia é utilizada para se “demonizar um oponente”, e é uma das táticas preferidas de lavagem cerebral. Não surpreende, portanto, que os neo-ateus (que são os defensores principais da idéia de que ciência e religião estão em conflito) são as Testemunhas de Jeová do ateísmo. Obviamente, esse mito engloba várias sub-crenças, que eles não largam por nada deste mundo. A principal dessas crenças é a de que a ciência afirma que Deus não existe.

Mito 5 – Os ateus são mais racionais que os religiosos

É parte do discurso de pregação neo-ateísta que os religiosos representam a fé, e o ateísmo representa a razão. Só que esse mito é desmascarado quando observamos a maioria das publicações dos autores neo-ateus, recheadas de falácias, estratagemas erísticos, sofística, raciocínio de auto-ajuda, técnicas de lavagem cerebral e afins. O próprio componente de auto-ajuda é um sintoma da falta de racionalidade de uma parte considerável dos ateus (os neo-ateus). Os livros de auto-ajuda são similares aos cultos da carga, e raramente produzem efeitos reais nas vidas de seus usuários. Dá para notar, por exemplo, no discurso de Richard Dawkins quando este diz que o ateísmo trará uma “sensação de liberdade”. Obviamente, uma declaração nem um pouco embasada por racionalidade.

Mito 6 – A consultoria ateísta sobre a religião é válida

Grande parte da pregação neo-ateísta se baseia em criticar a religião e sugerir caminhos alternativos, ou até mesmo como a religião deveria ser utilizada pelos religiosos. Obviamente, isso é uma consultoria, justamente vinda de adversários. O que é de início extremamente suspeito: ou alguém aceitaria consultoria sobre formação do Estado de Israel feita por Palestinos? Ou uma consultoria sobre a família heterossexual brasileira feita por homossexuais heterofóbicos? Claro que não, pois existiria viés. Muitos ateus interpretam a Bíblia, por exemplo, como uma criança religiosa de 10 anos faria. E dizem que esta interpretação é a correta. Em suma, eles querem meter o bedelho em tudo. Outro exemplo são pessoas como Hector Ávalos e Bart Erhman, anti-religiosos (um deles se afirma como agnóstico, mas ambos são pregadores do neo-ateísmo), que se envolvem em estudos da religião. Claro que isso não passaria por qualquer investigação cética. Em todos os casos, quando investigados, o que se descobrem são interpretações pueris da religião e atitudes de difamação. Ou seja, a consultoria deles não vale absolutamente nada. Quer dizer, até vale. Mas só se for para seguirmos os conselhos ao avesso.

Mito 7 – Os argumentos contra Deus são melhores que os argumentos a favor de Deus

Os ateus proselitistas clamam aos quatro ventos que há uma série de argumentos contra Deus, mas geralmente tais argumentos não passam de interpretações distorcidas de argumentos teístas e extrapolações indevidas do darwinismo. A maioria dos argumentos neo-ateus a esse respeito não passam por qualquer exame lógico, e as “refutações” que eles fazem dos argumentos teístas geralmente são feitas em cima de versões deturpadas destes argumentos. Um dos exemplos mais notórios é a tentativa de Bertrand Russell refutar as cinco vias de Tomás de Aquino. Russell cometeu a fraude de substituir a expressão “a que chamamos de Deus” por “é Deus”, para então, com erística, simular uma refutação. Que jamais ocorreu, diga-se de passagem. Para piorar, mesmo alegando motivações racionais, os ateus militantes partem da conclusão apriorística da inexistência de Deus, e a consequente tentativa de atribuir causas para QUALQUER OUTRA COISA a não ser Deus torna os argumentos quase infantis. Decerto que nem todos os argumentos a favor da existência de Deus são válidos ou são comprovação da existência de Deus (na verdade, basicamente mostram que acreditar em Deus é mais racional do que não acreditar), mas dificilmente seriam piores que os argumentos ateus para a inexistência de Deus.

Mito 8 – A religião é a raiz do mal, o ateísmo é a raiz do bem

Para o ateísmo militante, quase toda a violência do mundo tem uma causa só: a religião. Segundo eles, quase todas as guerras surgem por motivações religiosas. E os homens bomba? Para eles, são simplesmente causados pela motivação de encontrar 72 virgens no paraíso. Tal discurso é propalado ad nauseam por todos os principais autores neo-ateus. Sob investigação, no entanto, na quase totalidade dos casos a alegação neo-ateísta é completamente refutada. Por exemplo: no caso dos homens bomba, eles não explicam por que existem tão poucos atentados com homens bomba no mundo, mesmo que o número de islâmicos chegue quase a um bilhão e meio. Ué, será que as 72 virgens motivam tão poucas pessoas a se explodirem? Mas e os Tamil Tigers, do Sri Lanka, que inventaram os atentados com homens bomba e eram marxistas/leninistas? E por que eles “inflam” os crimes da Inquisição? Da mesma forma, eles escondem os crimes cometidos pelos governos da Rússia e da China. Geralmente a desculpa é “se ateus mataram, é por outro motivo, mas não o ateísmo – se religiosos mataram, é por causa da religião”. O fato é que sob investigação esse é mais um mito demolido. A propagação deste mito por neo-ateus é basicamente uma estratégia de chantagem emocional, aliás.

Mito 9 – Nos duelos, os religiosos devem ser mansos (virarem a outra face)

Esse é um dos mitos que alguns ateus parecem acreditar, e vários blogs (incluindo este) e autores recentes tratam de refutar. Entre esses autores, encontram-se William Lane Craig, Dinesh D’Souza e Alister McGrath – embora eu ache que todos os 3 são educadinhos demais, eu acho que o dobro ou o triplo de energia é o mínimo aceitável para adentrar duelos com ateus. Mesmo que o movimento de retaliação teísta contra as extensivas ofensas proferidas pelos ateus seja recente, já é um fato de que a idéia de que cristãos deveriam “virar a outra face” não passa de uma interpretação errada da Bíblia. O “virar a outra face” jamais significou que um religioso deveria suportar difamações calado. Da mesma forma, tal metáfora bíblica jamais significou que respostas enérgicas não pudessem ser fornecidas. A função central deste blog é esmagar, diariamente, todos os mitos citados. Mas o mito mais demolido aqui é realmente o mito 9. Os religiosos não só podem, como DEVEM, argumentar com energia, vigor, ceticismo, lógica, raciocínio de auditor e perspectiva de investigação de fraudes. É justamente aí que o castelo de cartas neo ateísta começa a desabar.

[Publico abaixo trecho da obra Apologeticum, de Tertuliano, escritor cristão do séc. III. Nesse excerto ele fala do ódio irracional cultivado pelos ignorantes contra os cristãos e explica que muitos consideram o cristianismo algo mau sem nem mesmo saber do que se trata ou no que crê essa religião. Hoje esse “ódio” é bastante observado pela nossa sociedade. Muitos escondem por trás de uma visão exacerbadamente racionalista e cientificista o seu ódio pela Igreja e por sua obra, chamando ambas de coisas más, atrasos. É importante conhecer a Igreja, o cristianismo e sua história para que seja feita uma boa crítica acerca do tema. Falar de algo sem conhecê-lo bem é prova de uma extrema ignorância, que infelizmente leva muitos a pensar também de modo tendencioso. As palavras desse grande escritor são recomendadas. Boa leitura!]

O ódio dos ignorantes

Tertuliano de Cartago

http://baptist.org.ua/bbv/images/003tertulian.jpgA Verdade não tem como apelar para vos fazer verificar sua condição, porque isso não promove vossa curiosidade por Ela. Ela sabe que não é senão uma transeunte na terra, e que entre estranhos, naturalmente encontra inimigos. E, mais do que isso, sabe que sua origem, sua habitação natural, sua esperança, sua recompensa, sua honra estão lá em cima. Uma coisa, enquanto isso, Ela deseja ansiosamente dos governantes terrestres: não ser condenada sem ser conhecida. Que dano pode causar às leis – supremas em seu poder – conceder-lhe ser ouvida? Absolutamente nada lhe prejudicaria e sua supremacia não seria mais distinguida ao condená-la, mesmo depois que Ela apresentasse sua defesa? Mas se for pronunciada uma sentença contra Ela, sem ter sido ouvida, ao lado do ódio de uma injusta ação, vós incorrereis na suspeita merecida de assim agirdes com alguma intenção que é injusta, como não desejando ouvir o que vós não estais capacitados a ouvir e a condenar.

Colocamos isto ante vós como primeira argumentação pela qual insistimos que é injusto vosso ódio ao nome de “Cristão”. E a verdadeira razão que parece escusar esta injustiça (eu diria ignorância) ao mesmo tempo a agrava e a condena. Pois que o que é mais injusto do que odiar uma coisa da qual nada sabeis, mesmo se pensais que ela mereça ser odiada? Algo é digno de ódio somente quando se sabe que é merecido. Mas sem esse conhecimento, por que se reivindicar justiça? Pois se deve provar, não pelo simples fato de existir uma aversão, mas pelo conhecimento do assunto. Quando os homens, portanto, cultivam uma aversão simplesmente porque desconhecem inteiramente a natureza da coisa odiada, quem diz que não se trata de uma coisa que exatamente não deveriam odiar?

Assim, confirmamos que tanto são ignorantes enquanto nos odeiam, e odeiam descabidamente, quanto quando continuam em sua ignorância, sendo uma coisa o resultado da outra, se não o instrumento da outra. A prova de sua ignorância, ao mesmo tempo condenando e se escusando de sua injustiça, é esta – odeiam o Cristianismo porque não conhecem nada sobre ele nem querem conhecê-lo antes de pôr a todos debaixo de sua inimizade.

Quantos, se antes foram seus inimigos, tornam-se seus discípulos. Simplesmente aprendendo sobre eles, logo começam a odiar o que antes tinham sido e a professar o que antes tinham odiado. E o número destes é tão grande que atraem a vossa preocupação. O clamor é de que o Estado está cheio de cristãos – que estão nos campos, nos vilarejos, nas ilhas; levantam-se lamentações, como se por alguma calamidade, pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e condições, mesmo de classe alta, estão se convertendo à profissão de fé cristã.

Entretanto, não ocorre a ninguém o pensamento de que estão deixando de ver alguma coisa boa. Não se permitem que nenhum pensamento mais justo chegue à sua mente, não desejam fazer um julgamento mais correto. Somente neste caso fica adormecida a curiosidade da natureza humana. Preferem ficar ignorantes, embora aos outros o conhecimento tenha trazido a felicidade.

Anacarse reprova o estúpido prazer de criticar os cultos. Quanto mais não reprovaria ele o julgamento daqueles que sabe que podem ser denunciados por homens que são inteiramente ignorantes! Porque deles preconcebidamente não gostam, não querem saber mais. Assim, prejulgam aquilo que não conhecem até que, caso venham a conhecê-lo, deixem de lhe ter inimizade. Mas isso desde que pesquisem e nada encontrem digno de sua inimizade, quando deixam, então, certamente de ter uma aversão injusta. Entretanto, se seu mau caráter se manifesta, em vez de abandonarem o ódio encontram mais uma forte razão para perseverarem nesse ódio, mesmo sob a própria autoridade da justiça.

Mas argumenta alguém: uma coisa não é boa simplesmente porque as multidões se convertem a ela, pois que quantos são por sua natureza inclinados para o que é mal?! Quantos se desviam para os caminhos do erro?! Isso é verdade, sem dúvida. Contudo uma coisa completamente má, nem mesmo aqueles que a ela são levados ousam defendê-la como boa. A natureza encobre tudo o que é mau com um véu, seja de medo seja de vergonha. Por exemplo, vedes que criminosos ficam ansiosos para se esconderem eles mesmos, evitam de aparecer em público, ficam tremendo quando são caçados, negam sua culpa quando são acusados e, mesmo quando são submetidos à tortura, não confessam facilmente, nem sempre chegam a confessar; e quando não há dúvidas sobre sua culpa, lamentam o que fizeram. Em suas confissões admitem terem sido impelidos por disposições malignas, até põem a culpa seja no destino, seja nas estrelas. São incapazes de reconhecerem que aquilo veio deles, porque eles próprios sabem que aquilo é mau.

Mas o que tem isso de semelhante com o caso dos cristãos? Eles se envergonham ou se lamentam de não terem sido cristãos há mais tempo. Se são apontados cristãos, disso se gloriam. Se são acusados, não oferecem defesa. Interrogados, fazem uma confissão voluntária. Condenados, agradecem… Que espécie de mal é este que não apresenta as peculiaridades comuns do mal, do medo, da vergonha, do subterfúgio, do arrependimento, do remorso? Que mal, que crime é este de que o criminoso se alegra? Serem acusados cristãos é seu mais ardente desejo, serem punidos por isso é sua felicidade! Vós não podeis chamar isto de mal – vós que continuais convictos de nada saberdes do assunto.

Tertuliano de Cartago

Apologeticum”, cap. I

Madre Teresa de Calcutá dizia que o maior inimigo da paz é o aborto. E insistia: “Se nós aceitarmos que uma mãe pode matar o seu próprio filho, como é que se pode dizer que os outros não devem matar?” Muitos militantes pró-aborto podem não dar importância a essas belas palavras, mas Abby Johnson, ex-diretora de uma das maiores organizações do mundo que oferecem serviços de aborto e contracepção nos Estados Unidos, a Planned Parenthood, valorizou-as e de defensora dos “direitos da mulher” se tornou amiga da vida.

Como ocorreu a conversão? “Abby falou ao canal de televisão Fox News que mudou de ideia sobre o aborto após ver um feto sendo sugado pelo monitor de um aparelho de ultrassom” (via Gazeta do Povo). São cenas do filme Silent Scream (“O grito silencioso”, em português), do Dr. Bernard Nathanson. [Abaixo a terceira parte do vídeo, onde mostra o ultrassom da morte de uma criança]

Deo Gratias! Alguém abriu os olhos para o que é verdadeiramente a infâmia do aborto. Finalmente alguém mostrou que, no nosso mundo secularizado, ainda é possível ver no coração das mulheres uma sombra de sentimento e consideração para com seus filhos. Finalmente alguém percebeu que o aborto não é uma simples “questão de saúde pública”, nem é um “outro” tema, desvinculado à falta de assistência à saúde do feto; percebeu que dentro da barriga duma gestante está uma vida e não um simples objeto que possa ser manipulado pelos desejos e vontades particulares do ser humano e da ciência.

Segundo ainda informa a magnífica notícia Abby Johnson agora “se juntou a um grupo pró-vida chamado Coalition for Life, que tem escritório na mesma rua da Planned Parenthood e cujos membros costumam rezar diante da sede da entidade”.

Sim. Precisamos mesmo de quem interceda pela conversão dos abortistas. E não é de se duvidar que foi graças às orações desse grupo cristão pró-vida que a conscientização da ex-diretora da promíscua organização veio à tona. Continuemos orando… Que o mundo abra os olhos e veja quão maldosa é a realidade do maior inimigo da paz nos nossos dias, o crime abominável do aborto.

Graça e paz.

[A Agência Zenit publicou uma ótima entrevista ontem com o Padre Pedro María Reyes, editor de um site promotor da liberdade religiosa. Ele afirma que infelizmente o cristianismo vem sendo massacrado seja pelo secularismo exacerbado que é visto em todos os lugares do mundo, seja pela repressão religiosa escancarada, que persegue e mata pessoas com mentalidade diferente. Chega a falar até mesmo de um “colonialismo cultural” que vem sendo pouco a pouco implantado na sociedade moderna. Abaixo alguns excertos da entrevista. Boa leitura!]

 

“Liberdade religiosa retrocede no Ocidente (II)”

Padre Pedro Reyes

Fonte: Agência Zenit

Em um primeiro momento, devem ser citados os atentados violentos à liberdade religiosa. Nos países de tradição muçulmana, a liberdade religiosa está ausente em muitos âmbitos. A Arábia Saudita é o exemplo mais lacerante, porque está proibindo o culto não-muçulmano, inclusive em privado e na intimidade do lar. Quem tiver uma cruz em sua casa, arrisca-se a graves penas. Não é um problema pequeno: algumas fontes calculam que há cerca de 1 milhão de cristãos residentes naquele país, sobretudo filipinos e outros imigrantes asiáticos e da Europa Oriental.

Em quase todos os demais países muçulmanos, por pressão de grupos islâmicos radicais, estão sendo aprovadas leis muito restritivas da liberdade religiosa. No Paquistão, existem leis antiblasfêmia que deixam os cristãos indefesos diante de qualquer acusação; na Argélia e no Egito, existem leis anticonversão; no Iraque, estão sendo expulsos do país; em Marrocos, expulsaram um grupo de cristãos evangélicos pelo delito de “proselitismo religioso” etc.

Na Índia, os não-hindus cada vez têm mais dificuldade de desenvolver-se. Vários Estados aprovaram leis anticonversão e – o que é mais grave –, no verão de 2008, grupos hindus radicais lançaram uma violenta perseguição contra os cristãos no Estado de Orissa, que deixou mais de 500 mortos, segundo algumas fontes. É chamativo que estes fatos quase não sejam divulgados na mídia ocidental.

Na China, existe atualmente uma Igreja das catacumbas, que é a Igreja Católica fiel a Roma, que não aceita os bispos impostos pelo regime. Além disso, é conhecido que nesse país os budistas do Tibet têm a liberdade de culto muito restrita.

Há outro âmbito em que se assistiu a um retrocesso na liberdade religiosa e é nos países ocidentais. Como já foi indicado, neles está se difundindo certa mentalidade laicista que é contrária à liberdade religiosa.

Não me refiro ao laicismo sadio que propugna a separação da Igreja e do Estado sem mútuas ingerências e com relação às suas respectivas funções na sociedade, o que me parece elogiável. Como disse Bento XVI, “é fundamental, por um lado, insistir sobre a distinção entre o âmbito político e o religioso, para tutelar quer a liberdade religiosa dos cidadãos quer a responsabilidade do Estado em relação a eles, e, por outro, conscientizar-se mais claramente da função insubstituível da religião na formação das consciências e da contribuição que a mesma pode dar, juntamente com outras instâncias, para a criação de um consenso ético fundamental na sociedade” (Bento XVI, Discurso diante das autoridades do Estado no Palácio Eliseu em Paris, 14 de setembro de 2008).

O laicismo radical, que é contrário à liberdade religiosa, pretende reduzir a fé religiosa ao âmbito privado, como se a fé não tivesse manifestações externas. Nos países ocidentais, vemos exemplos desse laicismo todos os dias; por exemplo, quando se critica os bispos porque dão orientações aos católicos sobre leis do aborto ou de casamentos homossexuais (como se houvesse leis que proibissem os bispos, e somente eles, de opinar sobre as leis), ou quando se pede aos cidadãos ou aos deputados que votem com independência de suas crenças.

Segundo o Papa, “não se pode limitar a plena garantia da liberdade religiosa ao livre exercício do culto, mas é preciso levar em consideração a dimensão pública da religião e, portanto, a possibilidade de que os crentes contribuam para a construção da ordem social” (Bento XVI, Discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, 18 de abril de 2008).

(…)

Na América Latina se desenvolvem tendências intelectuais procedentes de outros continentes, sobretudo da Europa Ocidental. Em termos gerais, o laicismo da América Latina pretende expulsar a Igreja Católica do âmbito público, como no resto do mundo. No entanto, em cada país tem seus matizes, consequência da peculiar história de cada nação. Não é o mesmo laicismo do Uruguai – que funde raízes na fundação da República – o da Costa Rica, que proclama a religião católica como oficial no artigo 75 da Constituição.

O laicismo da América Latina também tem fontes próprias derivadas do indigenismo. Cada vez se aprecia mais o legado cultural dos povos originários da América, e por isso se tende a rechaçar qualquer intervenção cultural vinda de culturas exteriores, particularmente das nações colonizadoras. Os indigenistas mais radicais incluem entre elas o legado da evangelização.

Surpreende que os mesmos grupos que rechaçam a Igreja Católica por não pertencer ao legado dos povos históricos aceitem sem nenhum espírito crítico os valores que agora se difundem desde a Europa como a anticoncepção, o aborto, etc., apesar de que com estas doutrinas está-se produzindo uma autêntica colonização cultural.

Padre Pedro Reyes

Liberdade religiosa retrocede no Ocidente (II)”, Zenit.

Audiência do Papa Bento XVI no dia 4 de novembro de 2009

Tradução: Agência Zenit

Queridos irmãos e irmãs,

Na última catequese, apresentei as principais características da teologia monástica e da teologia escolástica do século XII, que poderíamos chamar, de certa forma, respectivamente, de “teologia do coração” e “teologia da razão”.

Entre os representantes de uma e de outra corrente teológica houve um amplo debate, às vezes intenso, simbolicamente apresentado pela controvérsia entre São Bernardo de Claraval e Abelardo.

Para compreender esta confrontação entre os dois grandes mestres, é bom recordar que a teologia é a busca de uma compreensão racional, enquanto for possível, do mistério da Revelação cristã, que acreditamos pela fé: fides quaerens intellectum – a fé busca a inteligibilidade –, por citar uma definição tradicional, concisa e eficaz.

Pois bem, enquanto São Bernardo, típico representante da teologia monástica, enfatiza a primeira parte da definição, isto é, a fides (a fé), Abelardo, que é um escolástico, incide sobre a segunda parte, isto é, sobre o intellectus, sobre a compreensão por meio da razão.

Para Bernardo, a própria fé está dotada de uma íntima certeza, fundada no testemunho da Escritura e no ensinamento dos Padres da Igreja. A fé, além disso, reforça-se pelo testemunho dos santos e pela inspiração do Espírito Santo na alma de cada crente. Nos casos de dúvida e de ambiguidade, a fé deve ser protegida e iluminada pelo exercício do Magistério eclesial.

Assim, para Bernardo, era difícil estar de acordo com Abelardo, e mais em geral com aqueles que submetiam as verdades da fé ao exame crítico da razão; um exame que comportava, em sua opinião, uma grave perigo, o intelectualismo, a relativização da verdade, a discussão das próprias verdades da fé.

Nesta forma de proceder, Bernardo via uma audácia levada até a falta de escrúpulos, fruto do orgulho da inteligência humana, que pretende “capturar” o mistério de Deus. Em uma de suas cartas, com muita dor, ele escreve: “A criatividade humana se apodera de tudo, não deixando nada para a fé. Enfrenta o que está acima dela, escruta o que lhe é superior, irrompe no mundo de Deus, altera os mistérios da fé, mais do que os ilumina; não abre o que está fechado e selado, mas o erradica; e o que não acha viável, considera como nada e rejeita crer nisso” (Epístola CLXXXVIII,1: PL 182, I, 353).

Para Bernardo, a teologia tem um único fim: o de promover a experiência viva e íntima de Deus. A teologia é, portanto, uma ajuda para amar cada vez mais e melhor o Senhor, como recita o título do tratado sobre o Dever de amar a Deus (De diligendo Deo).

Neste caminho, há diversos graus, que Bernardo descreve detalhadamente, até o cume, quando a alma do crente se embriaga nas alturas do amor. A alma humana pode alcançar, já na terra, essa união mística com o Verbo divino, união que o Doutor Melífluo descreve como “bodas espirituais”. O Verbo divino a visita, elimina as últimas resistências, ilumina-a, inflama-a e a transforma. Nesta união mística, a alma goza de uma grande serenidade e doçura, e canta ao seu Esposo um hino de alegria.

Como recordei na catequese dedicada à vida e à doutrina de São Bernardo, a teologia para ele não pode senão nutrir-se da oração contemplativa; em outras palavras, da união afetiva do coração e da mente com Deus.

Abelardo, que, por sua vez, é precisamente quem introduziu o termo “teologia” no sentido que entendemos hoje, coloca-se em uma perspectiva diversa. Nascido em Bretanha, na França, este famoso professor do século XII estava dotado de uma inteligência vivíssima e sua vocação era o estudo.

Ele se dedicou primeiro à filosofia e depois aplicou os resultados alcançados nesta disciplina à teologia, da qual foi professor na cidade mais culta da época, Paris, e sucessivamente nos mosteiros em que viveu.

Era um orador brilhante: suas aulas eram acompanhadas por verdadeiras massas de estudantes. De espírito religioso, mas personalidade inquieta, sua existência foi rica em golpes de cena: rebateu seus professores, teve um filho com uma mulher culta e inteligente, Eloísa; esteve frequentemente em polêmica com seus colegas teólogos; sofreu também condenações eclesiásticas, ainda que tenha morrido em plena comunhão com a Igreja, a cuja autoridade se submeteu com espírito de fé.

Precisamente São Bernardo contribuiu para a condenação de algumas doutrinas de Abelardo no sínodo provincial de Sens em 1140, e solicitou também a intervenção do papa Inocêncio II. O abade de Claraval rejeitava, como recordamos, o método intelectualista demais de Abelardo, que a seu ver reduzia a fé a uma simples opinião desvinculada da verdade revelada.

Os temores de Bernardo não eram infundados, mas compartilhados pelos demais, por outros grandes pensadores da sua época. Efetivamente, um uso excessivo da filosofia tornou perigosamente frágil a doutrina trinitária de Abelardo e, consequentemente, sua ideia de Deus.

No campo moral, seu ensinamento não estava privado de ambiguidade: ele insistia em considerar a intenção do sujeito como única fonte para descrever a bondade ou a malícia dos atos morais, descuidando, assim, do significado objetivo e do valor moral das ações: um subjetivismo perigoso.

Este é, como sabemos, um aspecto importante para a nossa época, na qual a cultura aparece frequentemente marcada por uma tendência crescente ao relativismo ético: só o “eu” decide o que é bom para mim, neste momento. Não podemos nos esquecer, contudo, dos grandes méritos de Abelardo, que teve muitíssimos discípulos e que contribuiu para o desenvolvimento da teologia escolástica, destinada a expressar-se de forma mais madura e fecunda no século seguinte.

Não devem ser desvalorizadas algumas das suas intuições, como, por exemplo, quando afirma que nas tradições religiosas não-cristãs já há uma preparação para a acolhida de Cristo, Verbo divino.

O que nós podemos aprender hoje da confrontação, frequentemente intensa, entre Bernardo e Abelardo e, em geral, entre a teologia monástica e a escolástica?

Antes de mais nada, penso que mostra a utilidade e a necessidade de uma discussão teológica sadia na Igreja, sobretudo quando as questões debatidas não foram definidas pelo Magistério, que continua sendo, contudo, um ponto de referência iniludível. São Bernardo, mas também o próprio Abelardo, reconheceram sempre sua autoridade. Além disso, as condenações que este último sofreu nos recordam que no campo teológico deve haver um equilíbrio entre os que poderíamos chamar de princípios arquitetônicos, que nos foram dados pela Revelação e que conservam por isso sempre uma importância prioritária, e os interpretativos, sugeridos pela filosofia, isto é, pela razão, e que têm uma função importante, mas só instrumental.

Quando este equilíbrio entre a arquitetura e os instrumentos de interpretação diminui, a reflexão teológica corre o risco de contaminar-se com erros, e corresponde então ao Magistério o exercício desse necessário serviço à verdade, que lhe é próprio.

Além disso, é preciso sublinhar que, entre as motivações que induziram Bernardo a colocar-se contra Abelardo e a solicitar a intervenção do Magistério, estava também a preocupação por salvaguardar os crentes simples e humildes, aqueles a quem é preciso defender quando correm o risco de ser confundidos ou desviados por opiniões muito pessoais e por argumentações teológicas sem escrúpulos, que poderiam colocar sua fé em perigo.

Eu gostaria de recordar, finalmente, que a confrontação teológica entre Bernardo e Abelardo concluiu com uma plena reconciliação entre eles, graças à mediação de um amigo comum, o abade de Cluny, Pedro o Venerável, de quem falei em uma das catequeses anteriores. Abelardo mostrou humildade em reconhecer seus erros. Bernardo usou de grande benevolência. Em ambos, prevaleceu o que deve estar verdadeiramente no coração quando nasce uma controversa teológica, isto é, salvaguardar a fé da Igreja e fazer a verdade triunfar na caridade. Que esta seja também hoje a atitude nas confrontações na Igreja, tendo sempre como meta a busca da verdade.

Papa Bento XVI

Audiência Geral”, 4-11-09

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