Celebramos o domingo de Pentecostes, o dia da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos no Cenáculo. No contexto dessa festa, o próprio Jesus quer nos mandar o seu Espírito. E isso para que possamos ser fortes na evangelização e na luta contra o pecado. Nós, assim, como o mundo, precisamos dessa força transformadora do Paráclito do Pai, ela que naquele tempo inundava os apóstolos, agora quer nos encher.
Estavam todos reunidos
O primeiro princípio que a Liturgia quer ressaltar nesse Domingo de Pentecostes, mediante a ação do Espírito Santo que virá sobre os apóstolos, é a unidade. Diz a Escritura que “estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2,1). Isso traz para nós primeiramente essa simbologia de ver que o Paráclito age no lugar onde se cultiva a união. O sentido do ecumenismo proposto já pelo Magistério dos papas antecessores ao Concílio Vaticano II é justamente esse: unir os cristãos em oração para que possam, de maneira genuína, receber o Espírito Santo.
Essa proposta que a Igreja iniciou cordialmente a partir da década de 60, quando o Vaticano II foi realizado e até mesmo recomendado pelo Papa Paulo VI, mostra o que Deus quer de nós não só para hoje, em Pentecostes, mas para toda nossa vida. Com efeito, os custos dessa unidade são grandes e precisamos de alguns requisitos muito importantes para promovê-la. “Bento XVI repetiu em várias ocasiões, e agora voltaram a fazê-lo, que o ecumenismo exige a conversão de todos – também da Igreja Católica – a Cristo” (Arquivo – 27/01/09).
Então, quando falamos de unidade, deve vir sempre à nossa mente conversão. E é somente pela conversão que a unidade poderá experimentar uma plena realização. Isso não significa, contudo, dizer que não enfrentaremos dificuldades. Elas estão presentes, como já afirmava na Mensagem de Pentecostes. E, aliás, foi o que os apóstolos estavam enfrentando. Eles já estavam há alguns dias sem a presença de Jesus, que havia se elevado ao céu. Desanimaram? Não. Desistiram? Não. Pelo contrário, “perseveravam unanimemente na oração” (At 1,14). Mal sabiam eles que a vinda do Espírito era próxima.
E essa vinda veio. Por quê? Justamente porque “todos eles perseveravam (…) na oração” (At 1,14). Mesmo que fosse difícil, estavam ali todos. E assim Jesus enfim pode agir. Vejo a vinda do Espírito Santo sobre eles não somente como um cumprimento da promessa de Jesus, ou uma consolação devido à sua ‘solidão’, mas sim como um fruto da unidade da qual eles gozavam naquela época. Ah! Que bom tempo aquele em que os cristãos estavam todos reunidos em um só Credo, em uma só fé. Foi por isso e pelo fato da própria oração que eles cultivavam – cuja importância o Papa inclusive ressaltou na Missa de hoje – que o Pentecostes se realizou de maneira inefável no meio deles.
Invocar a graça de um Novo Pentecostes não é, portanto, simplesmente estender as mãos pro alto e ‘orar em línguas’. É, antes de tudo, atender à vontade de Deus, orar incessantemente e principalmente promover a união, cuja solidez seja capaz de promover uma fé verdadeira, livre de relativismos e de preconceitos. Para que isso aconteça urgentemente, vem, Espírito Santo, vem!
Um mesmo é o Espírito
O mesmo Espírito que move o profeta, que inspira o Messias, que influencia as atitudes boas das pessoas, é o mesmo que agiu nos apóstolos naquele dia de Pentecostes. Pode parecer absurdo imaginar o que diz São Paulo na Segunda Leitura: “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” (1 Cor 12,4-6). Mas é de fato esse mistério que o Senhor quer nos fazer compreender.
O fato da fé, em si, já é um mistério. Deus, ser cuja profundeza nós nem ousamos imaginar, é o maior mistério que o homem crê. E, bem, ele crê com todas as suas forças. Uns até mesmo se dedicam inteiramente à vocação relacionada de modo sublime a Deus, como é o caso, por exemplo, de sacerdotes, religiosas e diáconos. No entanto, o termo “de modo sublime” mostra que todas as vocações, sem nenhuma exceção, podem fundamentar-se em Deus. É o que São Paulo quer nos fazer entender: existem diversas atividades, diversas profissões, muitos dons; no entanto, todos provém do Espírito Santo de Deus.
Essa graça que hoje cremos é a mesma que São Paulo usa para falar do Corpo de Cristo, o Corpus Christi. Diz ele que o corpo é um, embora tenha muitos membros: “corpus unum” (1 Cor 12,12). É, mais uma vez, o mistério da unidade retratado agora não mais no cristianismo como um todo, mas na própria Igreja. Desse modo, a unidade não é mais algo somente externo, mas que deve ser realizado internamente. Todos somos membros do mesmo Corpo. Permanecermos unidos não é uma missão difícil, pois, de fato, já estamos incorporados a Cristo. Para isso, precisamos nos dedicar a um ministério de luz.
Não importa o setor em que trabalhamos, mas sim o patrão a quem trabalhamos. É uma comparação tosca, mas é o que a Liturgia quer nos ensinar. Não nos preocupemos em saber qual dom é melhor ou qual dom é pior. Não importa o dom! O importante é trabalhar para o Espírito Santo. Saber usar isso a nosso favor é sinal também de motivação. Trabalhamos na vinha e somos pessoas de condição igual. Não há ninguém melhor que ninguém quando se fala de dons e ministérios. Cada um tem uma peculiaridade. Cada um tem sua função na construção do Reino dos céus.
Recebei o Espírito Santo
É o que Jesus fala quando sopra os apóstolos. De fato, o que Jesus queria dizer com essa frase? Só compreendemos isso se lermos toda a estrutura evangélica de hoje. Primeiro, o Cristo começa saudando seus discípulos: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Receber a paz do Senhor Jesus e depois o Espírito Santo vem nos mostrar que, para que possamos estar aptos para a vinda do Espírito, além da unidade exterior e interior, da oração, precisamos da paz de Cristo. Vejamos a importância dessa paz. Não é a que o mundo nos dá. É a verdadeira paz, aquela que traz alegria.
Como o Pai me enviou, também eu vos envio. E Jesus finalmente confere a seus seguidores o mandato de perpetuar o Evangelho que aqui Jesus deixou. Essa ordem de Jesus se faz presente hoje na Igreja católica, cuja estrutura permaneceu fiel graças à sua tradição e a seu Magistério. É só assim, enfim, que podemos gozar do Espírito Santo de Deus. Recebê-lo em nossa vida é uma HONRA muito grande, que nos traz não somente paz, unidade, oração, alegria, mas FORÇAS PARA ENFRENTAR O PECADO. É o que Jesus quer que façamos sempre. Isso é possível.
Invoquemos a graça de Deus para que o Espírito Santo desça também sobre nós e possamos aproveitar da sua graça e adorar a sua glória. Peçamos a intercessão da Santíssima Virgem; ela nos ajuda nesse difícil caminho rumo ao Pai.
Graça e paz.
Reinflama o carisma, pois o “dia do Senhor” está próximo! É a hora do Espírito! É a hora da Igreja! O Espírito e a Esposa [Igreja] dizem: Vem, Senhor Jesus!
“…não vou desviar meu olhar de Ti, Senhor”. É assim que canta Márcio Todeschini, na música “Um lugar”. Esse ato tem, no contexto da vida cristã, um significado muito especial e que revela o verdadeiro sentido da nossa fé. A expressão não desviar, nesse caso, é mais do que simplesmente olhar para alguém ou algo fixamente; é sinônimo de seguir o exemplo de. O cristão tem essa missão, esse objetivo. Mediante a religião que ele segue, a pessoa divina que ele segue, a palavra “cristão” já deriva da palavra Cristo, mostrando que todos nós, seus seguidores,