Mais esclarecimentos sobre a maçonaria

A Paz, irmãos! Estava respondendo a alguns comentários de umas pessoas no que diz respeito à Ordem DeMolay e à Maçonaria. Algumas respostas realmente me surpreendem. Muitos chegam dizendo que condenamos pessoas e julgamos os membros das associações maçônicas. Mentira! O que fazemos é justamente o que manda São Paulo na Carta aos Efésios: “Não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso…” (Ef 6,12s). Não podemos nos omitir de condenar as obras do demônio às custas do falso argumento de que, deste modo, estaríamos julgando ou condenando também pessoas que são adeptas dessas más obras, porquanto também diz a Palavra: “Não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente” (Ef 5,11).

A maçonaria, assim como todas as associações apoiadas e financiadas por ela, são totalmente condenadas porque mantém idéias e pensamentos contrários à doutrina de Cristo e da Igreja. Além da gnose e do relativismo, que são os mais graves preceitos seguidos por essa associação filantrópica, podemos citar o naturalismo, o sincretismo, o laicismo e outros assuntos cuja dimensão não precisa ser desenvolvida aqui, já que foi muito bem condenada em outros artigos. Aconselho todos os que querem saber porque a Igreja condena a Maçonaria a lerem a encíclica do Papa Leão XIII, a Humanum Genus. De todas as cartas papais que já li sobre o assunto, essa é a mais – digamos assim – completa. Está disponível aqui no site em partes. Consultem o post Dossiê completo sobre a maçonaria.

Mais dúvidas, caríssimos, é só comentar aqui no blog em alguns artigos. Estarei pronto para responder as perguntas de todos, desde que essas respeitem os limites da educação e do respeito.

Graça e paz.

Encerramento do Ano Paulino

Hoje, dia 29 de junho, é momento do encerramento do Ano Paulino, proclamado pelo Santo Papa Bento XVI há um ano atrás. Diz ele na homilia de abertura que convocou o Ano Paulino justamente “para o ouvir e para aprender agora dele, como nosso mestre, ‘a fé e a verdade’, nas quais estão radicadas as razões da unidade entre os discípulos de Cristo”. E o Santo Padre alcançou sua meta? Sem dúvida. São diversos os dons e frutos que a Santa Igreja colheu com as audiências “paulinas” que Bento XVI proferia nas quartas-feiras. Por meio das cartas de São Paulo, Bento XVI trazia um mundo uma mensagem profética, de amor e de luz, buscando sempre mais levar ao mundo o Evangelho de Jesus.

E foi essa a missão de São Paulo aqui na Terra: o anúncio do Evangelho de Cristo. Judeu, perseguidor dos seguidores de Jesus, mal ele sabia que o Senhor reservava àquele nobre homem uma dignidade muito maior. Em um esbarrão com Jesus Cristo, converteu-se à fé cristã e foi pregar Jesus ressuscitado. Sofreu na pele as perseguições que impunha aos seus agora irmãos de fé. Morreu pela cruz. Proclamou no fim da vida, conforme podemos perceber na leitura da Missa de ontem, da Solenidade de São Pedro e São Paulo a confiança da salvação: “Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4,8).

http://www.basilicadocarmocampinas.org.br/imagens/paulo_apostolo2.JPGÉ essa confiança, cujo espírito a Igreja procura irradiar em todo mundo, que o Santo Papa, por meio do ano Paulino, buscou promover. É ela ainda que motivou Bento XVI a convocar o Ano Sacerdotal. Se não tivesse confiança, se não estivesse movido pela esperança, o Papa não poderia proclamar esse ano. Com tantos pecados cometidos por alguns sacerdotes no meio católico, é certo que o Papa haveria de ficar constrangido, abatido. Pelo contrário, isso o fez levantar a cabeça e ver a necessidade de se celebrar o sacerdócio esse ano. Além disso, não poderia haver ocasião melhor: fechamos o ano Paulino, em que celebramos o apóstolo São Paulo, modelo primitivo do sacerdócio, e iniciamos o Ano Sacerdotal, em busca da santificação do clero. Perfeitas comemorações!

Como comprova a Agência Canção Nova Notícias, o Papa Bento XVI, no Ângelus de ontem, apontou como modelos de sacerdotes a serem seguidos não só João Maria Vianney, mas também São Paulo:

“Como eu escrevi na carta que enviei aos sacerdotes, esse ano [o sacerdotal] pretende promover o compromisso de uma interior renovação de todos os sacerdotes para um seu mais forte e incisivo testemunho evangélico no mundo de hoje. O apóstolo Paulo constitui, a esse propósito, um modelo esplêndido a ser imitado não tanto na concretude da vida – a sua de fato foi verdadeiramente extraordinária – mas no amor por Cristo, no zelo pelo anúncio do Evangelho, na dedicação às comunidades, na elaboração de eficazes sínteses de teologia pastoral. São Paulo (…) é exemplo de sacerdote totalmente identificado com o seu ministério – como foi também o Santo Cura d’Ars –, consciente de carregar um tesouro inestimável, isto é a mensagem da salvação, mas de levá-lo em um ‘vaso de argila’. Por isso, ele é forte e humilde ao mesmo tempo, intimamente convicto de que tudo é mérito de Deus, de sua graça. O presbítero deve ser todo de Cristo e todo da Igreja, a qual é chamado a se dedicar com amor total, como um esposo fiel à sua esposa”.

A Igreja quer, nesse ano sacerdotal, incentivar o amor ao sacerdócio por meio do exemplo de São Paulo. Não podemos nunca deixar de olharmos para ele, que é carinhosamente chamado de apóstolo das gentes. O Ano Paulino se encerra hoje, mas devemos perpetuar em nossas orações, em nossas vidas as virtudes paulinas, que são cruciais para a salvação. Encerramos esse belo ano com um trecho da carta de São Paulo aos Romanos. Ponhamos em prática em nossa caminhada o que nos pede a Bíblia, o apóstolo Paulo, a Igreja e o Papa Bento XVI. Só assim e buscando a intercessão da Santíssima Virgem Maria, poderemos ingressar na vida eterna, na coroa da justiça:

“Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu. Pois, como em um só corpo temos muitos membros e cada um dos nossos membros tem diferente função, assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro” (Romanos 12,1-5).

Graça e paz.

Obs.: Oremos pelos sacerdotes no mundo inteiro especialmente nesse tempo de escândalos e perversidades. Dom Francisco Barbosa, bispo uruguaio, foi descoberto numa foto fazendo sexo com dois penitenciários. Oremos pelas vocações e pelo sacerdócio. A Igreja e o mundo precisam.

Católicos de fé

Quantos de nós, iludidos pelos caminhos do mundo, perdemos não só o sentido da vida, mas a nossa própria salvação, que Jesus a todos quis dar por meio de sua Paixão e Morte? Quantas pessoas, não tendo conhecimento da verdade que salva e dá a vida, mancham seu corpo e sua alma com pecados mortais e que só conduzem ao abismo infernal da solidão e da amargura? Meu Deus, será que ninguém percebe que o que fizermos aqui nessa terra nos levará eternamente ou ao céu ou ao inferno e que, se não confiarmos na infinita misericórdia do Criador para que possa perdoar nossas faltas, seremos condenados?

Nesse contexto, Santo Afonso de Ligório tem palavras que considero perfeitas. Diz ele: “Que loucura extrema, não pensar em ajustar as contas da alma e não aplicar os meios necessários para alcançar uma boa morte, sabendo que temos de morrer, que depois da morte nos está reservada uma eternidade de gozo ou de tormento, e que desse ponto depende o sermos para sempre felizes ou desgraçados!” Parece, meus irmãos, que muitas pessoas ainda não entenderam isso. E o pior não é isso: muitos católicos estão se deixando enganar, confiando nas palavras falazes de lobos em pele de cordeiro que se desintegraram da Igreja e agora pregam rebeldia e desobediência às leis de Deus!

Isso é lamentável porque justamente aqueles que precisavam se fortalecer na fé para confirmar os outros irmãos, estão se deixando levar pelos ares malignos de doutrinas perversas, que só sabem ensinar a mentira e o ódio! Os católicos do nosso país – por incrível que pareça – não crêem em tudo o que ensina a Santa Madre Igreja. Ora, e isso é exemplo de católico a se seguir? As estatísticas dizem que mais da metade dos brasileiros são católicos, mas, quando observa-se tanta violência, tanta falta de fé, tanta omissão de amor e caridade, então, vê-se que os católicos brasileiros não se preocupam nenhum pouco em seguir a doutrina da Igreja.

E isso não é só no Brasil, mas em muitos lugares do mundo. Tanto é verdade que o Papa Pio XI, na Encíclica Divini Redemptoris, proclamou sabiamente:

43. Até mesmo em países católicos, demasiados são os que são católicos quase só de nome; demasiados, aqueles que, seguindo embora mais ou menos fielmente as práticas mais essenciais da religião que se ufanam de professar, não se preocupam de melhor a conhecer, nem de adquirir convicções, mais íntimas e profundas, e menos ainda de fazer que ao verniz exterior corresponda o interno esplendor de uma consciência reta e pura, que sente e cumpre todos os seus deveres sob o olhar de Deus. Sabemos quanto o Divino Salvador aborrece esta vã e falaz exterioridade, Ele que queria que todos adorassem o Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23). Quem não vive verdadeira e sinceramente segundo a fé que professa, não poderá hoje, que tão violento sopra o vento da luta e da perseguição, resistir por muito tempo, mas será miseravelmente submergido por este novo dilúvio que ameaça o mundo; e assim, enquanto se prepara por si mesmo a própria ruína, exporá também ao ludibrio o nome cristão.

O Papa estava certo. E se naquele tempo, ainda antes da segunda metade do século XX, a “coisa” já estava desse jeito, imaginem hoje! Meus irmãos, precisamos ser católicos firmes na fé, pessoas que não têm medo de professar a santidade da Santa Sé, de Jesus Cristo e de dizer: Eu vivo por Jesus, eu vivo por minha Igreja, eu vivo pela minha vocação. Só assim, caríssimos, poderemos trilhar o caminho do céu, que o Filho tanto nos ensinou e mostrou que seria difícil até mesmo almejar. Se a porta é estreita, é porque a seleção será rigorosa. Façamos nossa parte como cristãos. Sejamos santos, porque o Senhor, nosso Deus, é santo.

Graça e paz.

A vocação de todos à santidade na Igreja

CONCÍLIO VATICANO II

LUMEN GENTIUM

Fonte: Vaticano

CAPÍTULO V

A VOCAÇÃO DE TODOS À SANTIDADE NA IGREJA

Proêmio: chamamento universal à santidade

39. A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito ao único Santo», amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela, para a santificar (cfr. Ef. 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade.

Jesus, mestre e modelo

40. Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: «sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito» (Mt. 5,48). A todos enviou o Espírito Santo, que os move interiormente a amarem a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cfr. Mc. 12,30) e a amarem-se uns aos outros como Cristo os amou (cfr. Jo. 13,34; 15,12). Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam. O Apóstolo admoesta-os a que vivam acorro convém a santos» (Ef. 5,3), acorro eleitos e amados de Deus, se revistam de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão e paciência» (Col. 3,12) e alcancem os frutos do Espírito para a santificação (cfr. Gál. 5,22; Rom. 6,22). E porque todos cometemos faltas em muitas ocasiões (Tg. 3,2), precisamos constantemente da misericórdia de Deus e todos os dias devemos orar: «perdoai-nos as nossas ofensas» (Mt. 6,12). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano. Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que as dá Cristo, a fim de que, seguindo as Suas pisadas e conformados à Sua imagem, obedecendo em tudo à vontade de Deus, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do Povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos.

A santidade nos diversos estados

41. Nos vários gêneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e que atua pela caridade.

Em primeiro lugar, os pastores do rebanho de Cristo, à semelhança do sumo e eterno sacerdote, pastor e bispo das nossas almas, desempenhem o próprio ministério santamente e com alegria, com humildade e fortaleza; assim cumprido, também para eles será o seu ministério um sublime meio de santificação. Escolhidos para a plenitude do sacerdócio, receberam a graça sacramental para que, orando, sacrificando e pregando, com toda a espécie de cuidados e serviços episcopais, realizem a tarefa perfeita da caridade pastoral, sem hesitarem em oferecer a vida pelas ovelhas e, feitos modelos do rebanho (cfr. 1 Ped. 5,3), suscitem na Igreja, também com o seu exemplo, uma santidade cada vez maior.

Os presbíteros, à semelhança da ordem dos Bispos, de que são a coroa espiritual, já que participam das suas funções por graça de Cristo, eterno e único mediador, cresçam no amor de Deus e do próximo com o exercício do seu dever quotidiano; guardem o vínculo da unidade sacerdotal, abundem em toda a espécie de bens espirituais e dêem a todos vivo testemunho de Deus, tornando-se êmulos daqueles sacerdotes que no decorrer dos séculos, em serviço muitas vezes humilde e escondido, nos deixaram magnífico exemplo de santidade. O seu louvor persevera na Igreja. Orando e oferecendo o sacrifício pelo próprio rebanho e por todo o Povo de Deus, conforme é seu ofício, conscientes do que fazem e imitando as realidades com que lidam, longe de serem impedidos pelos cuidados, perigos e tribulações do apostolado, devem antes por eles elevar-se a uma santidade mais alta, alimentando e afervorando a sua ação com a abundância da contemplação, para alegria de toda a Igreja de Deus. Todos os presbíteros, e especialmente aqueles que por título particular da sua ordenação são chamados sacerdotes diocesanos, lembrem-se de quanto ajudam para a sua santificação a união fiel e a cooperação generosa com o próprio Bispo.

Na missão de graça do sumo sacerdote, participam também de modo peculiar os ministros de ordem inferior, e, sobretudo os diáconos; servindo nos mistérios de Cristo e da Igreja, devem conservar-se puros de todo o vício, agradar a Deus, atender a toda a espécie de boas obras diante dos homens (cfr. 1 Tim. 3, 8-10. 12-13). Os clérigos que, chamados pelo Senhor e separados a fim de ter parte com Ele, se preparam sob a vigilância dos pastores para desempenhar os ofícios de ministros, procurem conformar o coração e o espírito com tão magnífica eleição, sendo assíduos na oração e fervorosos no amor, ocupando o pensamento com tudo o que é verdadeiro, justo e de boa reputação, fazendo tudo para glória é honra de Deus. Destes se aproximam aqueles leigos, que, escolhidos por Deus, são chamados pelos Bispos para se consagrarem totalmente às atividades apostólicas e com muito fruto trabalham no campo do Senhor.

Os esposos e pais cristãos devem, seguindo o seu caminho peculiar, amparar-se mutuamente na graça, com amor fiel, durante a vida inteira, e imbuir com a doutrina cristã e as virtudes evangélicas a prole que amorosamente receberam de Deus. Dão assim a todos exemplo de amor incansável e generoso, edificam a comunidade fraterna e são testemunhas e cooperadores da fecundidade da Igreja, nossa mãe, em sinal e participação daquele amor, com que Cristo amou a Sua esposa e por ela Se entregou. Exemplo semelhante é dado, mas de outro modo, pelas pessoas viúvas ou celibatárias, que muito podem concorrer para a santidade e ação da Igreja. Aqueles que se ocupam em trabalhos muitas vezes duros, devem, através das tarefas humanas, aperfeiçoar-se a si mesmos, ajudar os seus concidadãos, fazer progredir a sociedade e toda a criação; e, ainda, imitando com operosa caridade a Cristo, cujas mãos se exercitaram em trabalhos de operário e, em união com o Pai, continuamente atua para a salvação de todos; alegres na esperança, levando os fardos uns dos outros, subam com o próprio trabalho quotidiano a uma santidade mais alta, também ela apostólica.

Todos quantos se vêem oprimidos pela pobreza, pela fraqueza, pela doença ou tribulações várias, e os que sofrem perseguição por amor da justiça, saibam que estão unidos, de modo especial, a Cristo nos seus sofrimentos pela salvação do mundo; o Senhor, no Evangelho, proclamou-os bem-aventurados e «o Deus… de toda a graça, que nos chamou à Sua eterna glória em Cristo Jesus, depois de sofrerem um pouco, os há-de restabelecer, confirmar e consolidar» (1 Ped. 5,10).

Todos os fiéis se santificarão cada dia mais nas condições, tarefas e circunstâncias da própria vida e através de todas elas, se receberem tudo com fé da mão do Pai celeste e cooperarem com a divina vontade, manifestando a todos, na própria atividade temporal, a caridade com que Deus amou o mundo.

A caridade. O martírio.

Os conselhos evangélicos.

A santidade no próprio estado

42. «Deus é caridade e quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo. 4,16). Ora, Deus difundiu a sua caridade nos nossos corações, por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cfr. Rom. 5,5). Sendo assim, o primeiro e mais necessário dom é a caridade, com que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor d’Ele. Para que esta caridade, como boa semente, cresça e frutifique na alma, cada fiel deve ouvir de bom grado a palavra de Deus, e cumprir, com a ajuda da graça, a Sua vontade, participar frequentemente nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e nas funções sagrarias, dando-se continuamente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço efetivo de seus irmãos e a toda a espécie de virtude; pois a caridade, vínculo da perfeição e plenitude da lei (cfr. Col. 3,14; Rom. 13,10), é que dirige todos os meios de santificação, os informa e leva a seu fim (131). E, pois, pela caridade para com Deus e o próximo que se caracteriza o verdadeiro discípulo de Cristo.

Como Jesus, Filho de Deus, manifestou o Seu amor dando a vida por nós, assim ninguém dá maior prova de amor do que aquele que oferece a própria vida por Ele e por seus irmãos (cfr. 1 Jo. 3,16; Jo. 15,13). Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram chamados a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os perseguidores. Por esta razão, o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor. E embora seja concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-l’O no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja.

A santidade da Igreja é também especialmente favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho aos Seus discípulos. Entre eles sobressai o de, com o coração mais facilmente indiviso (cfr. 1 Cor. 7, 32-34), se consagrarem só a Deus, na virgindade ou no celibato, dom da graça divina que o Pai concede a alguns (cfr. Mt. 19,11; 1 Cor. 7,7) (133). Esta continência perfeita, abraçada pelo reino dos céus, foi sempre tida em grande estima pela Igreja, como sinal e incentivo do amor e ainda como fonte privilegiada de fecundidade espiritual no mundo.

A Igreja recorda-se também da recomendação com que o Apóstolo, incitando os fiéis à caridade, os exorta a ter sentimentos semelhantes aos de Jesus Cristo, o qual «Se despojou a Si próprio, tomando a condição de escravo… feito obediente até à morte (Fil. 2, 7-8) e, «sendo rico, por nós Se fez pobre» (2 Cor. 8,9). Sendo necessário que sempre e em todo o tempo os discípulos imitem esta caridade e humildade de Cristo, e delas dêem testemunho, a mãe Igreja alegra-se de encontrar no seu seio muitos homens e mulheres que seguem mais de perto o abatimento do Salvador e mais claramente o manifestam, abraçando a pobreza na liberdade dos filhos de Deus e renunciando às próprias vontades: em matéria de perfeição, sujeitam-se, por amor de Deus, ao homem, para além do que é de obrigação, a fim de mais plenamente se conformarem a Cristo obediente.

Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos, para não serem impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito da pobreza evangélica, segundo o conselho do Apóstolo: os que usam no mundo, façam-no como se dele não usassem, pois é transitório o cenário deste mundo (1 Cor. 7,31 gr.).

Solenidade de São Pedro e São Paulo

A Igreja Universal celebra no dia de hoje a Solenidade de São Pedro e São Paulo, as colunas da Santa Sé. Trata-se de uma das mais importantes festividades da Igreja, onde se lembra – liturgicamente falando – a fundação da Igreja Católica. “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). De fato, aqui tudo começou: o ministério apostólico, a missão evangelizadora dos cristãos, a pregação da doutrina. Com essas palavras de Jesus, a Igreja começava a se formar e é hoje que celebramos mais um aniversário da Igreja. Sim. São quase 2000 anos de história, de lutas, de conversões, de testemunhos, de santidade, de vida, de .

http://costa_hs.blog.uol.com.br/images/SPedroeSPaulo.jpgQuando passamos a observar a dimensão da Igreja Católica no mundo, observamos o quão grandes somos. Em particular, cada um de nós é um ser humilde, simples; no entanto, por meio da união, evidencia-se na Igreja cristã um Pai Nosso, de todos nós, que protege e guarda o Sumo Pontífice Bento XVI, os cardeais e bispos do mundo inteiro, além, é claro, dos sacerdotes e leigos responsáveis por combater o depósito da fé. De fato, não dá para pensar em Igreja Católica sem se lembrar da figura sempre atuante de Jesus Cristo. Com efeito, a própria Igreja é o Corpo de Cristo. Fundada por Ele, ela segue seu ministério com amor, empenho e dedicação. Não se aflige com os pecados dos seus ministros, pois sabe que esses pecados não interferem e nem mancham a santidade da Igreja, que é, segundo São Paulo, “sem mácula, sem ruga” (Ef 5,27).

Nós, que somos católicos, sentimos um imenso orgulho em participar da união católica, que é evidenciada e completada pelo banquete nupcial: a Eucaristia. E a Igreja é a única a conter esse mistério inefável. O Corpo e o Sangue de Jesus estão verdadeiramente na Santa Sé, na Igreja; e Ela é a única a manter em sua doutrina esse tão belo tesouro. Não existe, aliás, riqueza maior do que Jesus Eucarístico. A plenitude da fé, do amor, da caridade e da santidade só pode acontecer no Santo Sacrifício da Missa, onde celebramos a Eucaristia. Nesse sentido, celebramos a Missa de aniversário da Madre Fiel e pura.

E por que é tão importante celebrar, no contexto da fundação da Igreja, os apóstolos Pedro e Paulo? Eles, de fato, foram personagens de suma importância para a história da difusão da fé cristã no mundo. Primeiramente, Pedro, onde Jesus decidiu edificar a sua Igreja. Segundo a tradição católica, cremos que São Pedro foi o primeiro papa da Igreja. Da mesma forma, quando falamos disso, não podemos nos esquecer de São Paulo, que tem na Bíblia Sagrada cartas de uma riqueza espiritual incomensurável. São exortações ricas em ensinamentos e conselhos de um homem que experimentou a mais bela conversão da Sagrada Escritura. Aliás, foi a primeira conversão cristã da Bíblia depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Observa-se aqui a importância da festividade dos dois santos.

Ela é analisada não só quando pensamos nos fatores históricos, mas principalmente quando partimos para a liturgia que hoje nos propõe a madre Igreja. A primeira leitura mostra como o Espírito Santo estava com Pedro. Foi ele preso por pregar o Evangelho de Jesus. E aqui é importante pensar que todos os apóstolos – com exceção de São João – morreram martirizados. São Pedro inclusive foi crucificado, assim como Jesus. A missão apostólica naqueles tempos era muito difícil. Preso, São Pedro viria a ser morto. Mas Deus ainda precisava dele para a pregação do Evangelho. Por isso mandou-lhe um anjo para que o libertasse da prisão. Só depois, contudo, ele veio a reconhecer aquilo: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!” (At 12,11).

Ainda na primeira leitura, a Pedro o anjo exclama: Levanta-te depressa! Quantos de nós hoje não estamos presos, caídos pelas perseguições do mundo, pelo desânimo que nos impõe o demônio por meio do pecado, da tristeza e do desespero? Nesse momento, Jesus está incessantemente a nos chamar, assim como chamou a Pedro: “Levanta-te!” Não é hora de ficar parado. Deus nos escolheu para sermos vencedores, para batalharmos por Ele. E isso para que depois possamos dizer com Paulo: “Combati o bom combate, (…) guardei a fé” (2Tm 4,7). Depressa: agora é a hora. Precisamos nos converter, nos levantar, mudar de vida? Sim. Mas quando? Agora. E por que agora? Justamente porque não sabemos a hora que Jesus virá para julgar. Deus não quer chegar e nos ver caídos na lama do pecado e do desespero. É mister que estejamos de pé, firmes, para a hora da volta de Cristo.

* * *

Na segunda carta de São Paulo a Timóteo, o apóstolo dos gentios deixa aos leitores da Bíblia uma mensagem final. Se aproximava o momento de sua morte, de seu encontro com Deus. Era realmente momento de ir – e ele bem sabia -, de partir ao encontro do Pai: “eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida” (2Tm 4,6). Mas, de se queixar ele não tinha nada. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Essa frase de São Paulo ao final de sua vida mostra a nós que todo aquele que quer seguir Jesus e pregá-Lo precisa assumir o compromisso de travar um combate contra as trevas. Catolicamente falando, o missionário cristão deve estar com o “escudo da fé” (cf. Ef 6,16) para combater as heresias do mundo moderno e também as insídias armadas por Satanás para destruir a Santa Igreja de Deus.

Esse ato de combater o bom combate é de uma valentia que Jesus admira em seus combatentes. Somos, em meio a esse mundo, verdadeiros “cruzados cristãos”, pessoas que lutam para guardar a fé, para vencer o medo, vencer o mundo, vencer o demônio. Nesse sentido, lembro-me de ter lido uma radiomensagem do Papa Pio XII, no natal de 1942, sobre o assunto. Na ocasião, ele dizia:

29. O preceito da hora presente não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade. Pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade, penetrados por um entusiasmo de cruzados, reunirem-se em espírito de verdade, de justiça e de amor, ao grito de “Deus o quer”, prontos a servir, a sacrificar-se, como os antigos cruzados. Se então se tratava da libertação da terra santificada pela vida do Verbo de Deus encarnado, hoje trata-se, se assim podemos falar, de uma nova travessia, superando o mar dos erros do dia e do tempo, para libertar a terra santa espiritual, destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência.

Quando falamos de ser cruzados – que ninguém interprete isso mal – proclamamos a sua coragem, sua fé, sua vontade em combater o bom combate. A construção da Igreja de Deus precisa da vitória nos combates. Ah! E como precisamos de missionários cada vez mais compenetrados pelo amor de Cristo e empenhados em guardar a fé, se preciso for até morrendo pela Igreja!

É esse o exemplo que nos deixa São Paulo Apóstolo. De perseguidor dos cristãos a combatente da fé: esse homem deixa-nos uma lição de vida que deve ser seguida por todos. Com efeito, é só tendo uma vida como a de Paulo que poderemos dizer: “Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4,8). Sim, porque “a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa” será concebida a herança eterna, recompensa de nossas boas atitudes, da fidelidade ao combate de Cristo.

Enfim, chegamos ao Evangelho. E nele observamos a passagem em que Pedro proclama sua fé. Jesus pergunta quem pensam os apóstolos que Ele é. Pedro toma a palavra e responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16,16). É essa confissão de fé que Pedro profere faz com que Jesus dê a ele as chaves do Reino de Deus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).

Aqui Jesus Cristo edifica sua Igreja. Pede a Pedro que guarde a fé de sua Igreja, por isso a ele confia as chaves do Reino. Esse ato de dar as chaves do Reino representa a infalibilidade papal, dogma proclamado oficialmente pela Igreja no Concílio Vaticano I. Veja, meu irmão, essa é a prova bíblica que comprova que quando um Papa trata sobre um assunto de fé e moral, ele não pode errar. Hipocrisia isso? Não. O Espírito Santo foi garantido por Jesus ao Sumo Pontífice, portanto, quando esse vai instruir os fiéis, não erra. E é por isso que as portas do inferno non praevalebunt. Não prevalecerão e nem prevaleceram. E olha que isso já faz 20 séculos! A Igreja, construída sobre a rocha está firme até hoje porque foi fundada por Jesus Cristo, que por sua vez declarou que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja de Deus. Ora, se ela persistiu de pé durante 2000 anos é porque Jesus o garantiu!

Sobre São Pedro, sobre São Paulo, cujas histórias de vida nos recusamos a contar de tão grande é esse belo testemunho, foi construída e edificada a Igreja de Deus. É por meio dela que alcançamos a salvação que Deus tanto quer que recebamos. Ouçamos a voz infalível do Magistério da Igreja, escutemos o que tem a nos falar Jesus Cristo por meio desse tão nobre sacramento de Salvação. Celebremos com a Madre Igreja essa festa tão bela e alegre! Que a Santíssima Virgem Maria continue a cobrir a Igreja com seu manto de amor. Amém.

Graça e paz.

Testemunho do ex-pastor Francisco Araújo

[Testemunho emocionante da conversão do ex-pastor Francisco Araújo à fé católica. Ele fala sobre o seu amor à Eucaristia e à Virgem Maria, que deram novo sentido à sua caminhada. É um belo relato de conversão e que nos convida a olhar para a Eucaristia com mais ardor e amor. Quantos de nós nos deixamos levar pela habitualidade e acabamos nos esquecendo que a hóstia que tomamos é verdadeiramente o Corpo do Senhor! Que muitos possam se converter por meio desses vídeos. Boa interação!]


O Cura d’Ars

Por Daniel Rops

Fonte: Quadrante

O jovem pároco João Maria Batista Vianney não prometia sucessos retumbantes, mas ao ser nomeado para o vilarejo perdido de Ars, o seu imenso amor a Deus transformou a fundo não apenas os seus paroquianos, mas milhões de peregrinos da França inteira.

http://3.bp.blogspot.com/_ETZTFvuwq2I/SAAOdW1XNlI/AAAAAAAAAFw/vaRctggDT-k/s400/via1.jpgEra ao entardecer de 9 de fevereiro de 1818, uma terça-feira. Um pastorinho de dezesseis anos, Antoine Givre, que guardava as ovelhas na lande das Dombes, teve um encontro estranho, que havia de recordar durante toda a vida. Ia cair a noite. Já as luzes se acendiam nas janelas das casas, agrupadas a algumas centenas de metros, para além de um valado. Do lado da estrada de Lyon, o rapaz ouviu um barulho e olhou: era um padre que avançava a grandes passadas de camponês; a seu lado, uma velha de touca na cabeça; atrás deles, uma carriola vacilante, carregada de fardos e de uma misturada de coisas, no meio das quais se via uma cama de madeira. O padre saudou o pequeno e perguntou-lhe se ainda estava longe de uma aldeia chamada Ars. Antoine indicou com a mão o humílimo povoado que já se ocultava no crepúsculo. “Como é pequeno!”, murmurou o padre. E ajoelhou-se. Em silêncio, durante muito tempo, rezou, de olhos postos nas casas. Rezou com um fervor e uma atenção extraordinários. Dir-se-ia que via coisas de que os outros não faziam a menor idéia. Ao levantar-se, olhou para o rapaz e, com voz muito simples, disse: “Tu mostraste-me o caminho de Ars… Um dia hei de mostrar-te o caminho do Céu”. Em seguida, retomou a marcha. A capelania de Ars-en-Dombes – que não tinha mais de duzentas almas e estava subordinada à paróquia de Misérieux, da diocese de Lyon – recebia o seu novo encarregado.

Chamava-se Jean-Marie Vianney. Nascera trinta e dois anos antes (1786), numa aldeia situada a umas dez léguas, Dardilly, onde os pais eram gente dedicada ao campo; e gente piedosa, como ainda havia tantos na França. Por curiosa coincidência, um dia sentara-se à mesa deles São Bento Labre, “o anjo andrajoso”, no decurso da sua grande peregrinação. Já aos sete anos, o pequeno Jean-Marie mostrara uma inclinação tão evidente para a oração que se falara de fazer dele frade ou padre. Levava para os campos onde guardava algumas vacas uma imagenzinha de Nossa Senhora, que colocava no buraco de um salgueiro para se ajoelhar diante dela. Com a Revolução, viera a grande caça aos padres. O pequeno tivera de aprender o catecismo às escondidas e de fazer a primeira comunhão clandestinamente, numa casa com a porta e as janelas fechadas. E o espetáculo da resistência do clero francês à perseguição acabara de enraizar nele a vocação religiosa. Mais ainda: uma vocação para o heroísmo, o sacrifício, a grandeza espiritual.

Infelizmente, para ser padre e ter o direito e os meios de “ganhar almas para Deus”, não basta a boa vontade, não basta o impulso do coração: é preciso estudar, aprender latim, liturgia, teologia e tantas coisas mais! Nesse campo, Jean-Marie Vianney mostrara-se muito decepcionante. O seu cérebro, maravilhosamente capaz de fixar os fatos da vida prática e de penetrar nos seres, era radicalmente incapaz de armazenar as declinações latinas e as mais elementares noções de dogmática! Se não tivesse encontrado no seu caminho um homem para o compreender, não há dúvida de que nunca teria chegado a vencer os sucessivos obstáculos que o separavam do sacerdócio. Nos seminários de Verrières e, depois, no de Santo Ireneu, perto de Lyon, que fraca figura tinha feito o pobre pequeno! Mas M. Belley velara por ele, M. Belley, pároco de Ecully, abelha operária de uma dessas equipes de missionários que, em pleno Terror, o pe. Linsolas, vigário geral de Lyon, tivera a audácia de fundar. Graças a Belley, Jean-Marie conseguira receber o diaconado, em 1814, e, no ano seguinte (a 13 de agosto), a ordenação sacerdotal, na capela do Seminário Menor de Grenoble, algumas semanas depois da queda do Império. Coadjutor em Ecully, acabara de se preparar junto do seu mestre para uma existência sacerdotal inteiramente devotada às almas e também cheia de práticas de piedade e ascese: flagelações, jejuns, cilício. Era de Ecully que chegava, nesse entardecer brumoso de 9 de fevereiro de 1818, à minúscula aldeia de Ars. E lá iria ficar durante quarenta e um anos…

Fisicamente, era um corpanzil rústico, de andar pesado, rosto alongado e magro, cujas “maçãs” se iam adelgaçando até ao queixo esguio, e em que o nariz ossudo despontava sobre uns lábios finos. O único dado apreciável dos seus traços sem graça eram os olhos, olhos de um azul-cinzento, de uma limpidez e uma capacidade de concentração igualmente extraordinárias. Mais tarde, quando estiver no auge da sua celebridade, uma toleirona burguesa, vinda expressamente de Paris para admirar o grande homem, vendo-o assim, exclamará: “É só isto, o Cura d´Ars?!” Pois só isso, esse camponês bronco, mal vestido, com uma batina remendada e esverdeada à força de uso, esse homenzinho facilmente brincalhão e que se chamava a si próprio o burrinho ou o idiota da aldeia?! Como não deixar desconcertada uma parisiense! E essa reputação de ignorante, de caranguejo com orelhas de burro, que o seguia desde o seminário e que ele mesmo parecia cultivar com prazer…

Mas a verdade desse homem não estava aí. É óbvio que era exatamente o contrário desse minus habens, desse “primário intelectual” de que falariam os redatores da Idée libre. A inteligência não se mede só pela dose de conhecimentos livrescos que pode assimilar, e, quanto a tudo o que pertencia à vida e não ao impresso, Jean-Marie Vianney era uma inteligência fora de série. E, sobretudo, havia nele alguma coisa superior à inteligência: uma forma de “ver as coisas do alto”, como disse o cardeal de Bonald, um dom de intuição que escapava a toda a lógica, mas que se revelava quase infalível, uma grandeza que se impunha ao interlocutor mais obtuso ou mais hostil: numa palavra, uma força soberana, a par da simplicidade mais natural e da mais autêntica humildade. “Para crer na presença do Sobrenatural – pôde alguém dizer dele -, basta olhá-lo”. Todos os que o viram deram o mesmo testemunho da sua irradiação espiritual, da misteriosa “aura” que rodeava o seu corpo sem prestígio. Uma palavra resume tudo sobre a realidade profunda que o sustentava. Foi dita pelo bispo de Belley, num dia em que alguns padres deploravam diante dele, cheios de compaixão, a ignorância do seu confrade, a nulidade que era em matéria de teologia e de casuística: “Não sei se ele é instruído; sei que é iluminado”.

Assim era, pois, aquele que Ars-en-Dombes ia guardar durante quarenta e um anos seguidos, aquele que viria a identificar-se tão totalmente, tão plenamente, com essa ínfima aldeia, que iria como que ser absorvido por ela, perder até o nome de família a favor do seu pobre título, não ficando a ser, “tanto no futuro como no Céu”, nada mais que o Cura d´Ars. Quarenta e um anos, “e sempre contra vontade” – diz a excelente Catherine Lassagne, que o acompanhou no seu presbitério. Porque, torturado pela angústia de não ser digno da pesada missão de padre, esse humilde diante de Deus há de fugir da paróquia pelo menos três vezes, decidido a deixar o lugar “a alguém menos ignorante”, e serão os próprios paroquianos que o reterão, à custa de mil e uma astúcias. Quarenta e um anos de uma vida que, aparentemente, parecerá a mais banal, a mais monótona que se possa imaginar, mas na qual se desenrolará, num plano que já não pertence à terra, a aventura mística mais espantosa da sua época.

Quando Jean-Marie chegou, Ars não passava da mais morna das comunidades cristãs. “Lá, não gostavam muito de Deus”. Mas, logo que viram como vivia o novo cura, os paroquianos compreenderam que alguma coisa tinha mudado. Começou por mandar restituir ao castelo os móveis confortáveis que a piedosa Mme. des Garets tinha emprestado ao presbitério. Depois, pôs-se a restaurar a igreja, que estava caindo aos pedaços, fazendo por suas próprias mãos “o trabalho doméstico de Deus”. A seguir, só se falava na aldeia de que o novo encarregado da capelania de Ars tinha um modo singularíssimo de alimentar-se: umas tantas côdeas de pão seco, uma panela de batatas, que mandava coser cada três semanas e que ia comendo frias. Por último, as boas mulheres que, de tempos a tempos, conseguiam penetrar na casa paroquial para cuidar dos trabalhos domésticos, contavam que encontravam roupa ensangüentada, manchas vermelhas nas paredes… E compreendeu-se então para que serviam as correntes que o padre mandara forjar na oficina do ferreiro. Esses jejuns, essas penitências – que o Cura d´Ars conservará durante toda a vida – fizeram tanto maior impressão quanto a verdade é que essa terrível ascese não impedia M. Vianney de ser de uma delicadeza, de uma mansidão perfeitas, sem querer impor a ninguém os golpes de disciplina que a si mesmo infligia – e que nem uma só vez deixou transparecer. Quando, porém, este ou aquele se permitia aludir aos rigores que ele aplicava ao seu corpo, respondia com o melhor dos sorrisos que era coisa muito apropriada para “o velho Adão” ou “o cadáver”…

Poder do exemplo: foi, indubitavelmente, por aí que Jean-Marie Vianney se impôs: primeiro, às suas ovelhas; depois, a outras. Pouco a pouco, a paróquia transformou-se. Homens, mulheres, crianças foram agrupados em confrarias ou obras. Abriu-se uma escola gratuita, a “Casa da Providência”, aonde afluíram as meninas, incluindo as órfãs, as abandonadas, as desafortunadas. Os maus hábitos, como o do baile e da taberna, contra os quais o padre era severo, foram desaparecendo da paróquia. Para não o desgostarem, os moços e as moças menos recatados refreavam o seu comportamento. “O respeito humano voltou-se do avesso”, e passou a ser tão vergonhoso apanhar uma bebedeira como o era, na véspera, não beber com os outros. A igreja, ainda ontem meio vazia, encheu-se e, como a gente dos arredores ganhou o costume de a freqüentar, passou a ser pequena. Quem havia de prever semelhante mudança, quando, meia dúzia de anos antes, o arcebispo encarara seriamente a hipótese de suprimir a paróquia?

E, no entanto, Jean-Marie Vianney não era grande orador; o que servia aos seus ouvintes não eram grandes trechos de eloqüência. Tinha a voz gutural; tendia a gritar; muitas vezes perdia o fio do discurso, parava e depois retomava a palavra fosse lá como fosse; por fim, como não sabia como acabar, cortava o sermão e descia do púlpito subitamente. Quanto à matéria dos sermões, nada tinha de original. O mesmo se diga da catequese, que dava a crianças e adultos várias vezes por semana. Não tinha escrúpulo em ir buscar material às coletâneas de Bonnardel, de Joly, de Billot, do pe. Lejeune, sermonários de largo uso na época, assim como ao catecismo do campo. Copiava um parágrafo aqui, outro acolá, harmonizava-os conforme podia; mas, sobre todo esse mosaico, punha a sua marca, transformando as frases excessivamente bem construídas em fórmulas simples, populares, com comparações e imagens que impressionavam o ouvinte. Por exemplo: para mostrar a ação do pecado na alma, comparava-o a uma mancha de azeite num pano de lã: mesmo que a lavemos dez vezes, não sai! E, ao passarem pelos seus lábios – todos os que o ouviram concordam nisto –, esses pobres sermões ganhavam um poder de sugestão extraordinário. Podia anunciar os castigos do Juízo Final, ou falar interminavelmente do amor de Deus pelos homens, da sua infinita misericórdia, que encontrava sempre, como por instinto, as palavras que iam até ao fundo das almas. E que dom de descobrir fórmulas! Pelo menos uma delas ficou a pertencer ao mais raro florilégio do pensamento cristão. Ouvindo certo dia uma viúva que estava angustiada porque o marido se tinha lançado ao rio e se afogara, e que tremia convencida de que ele se condenara, que lhe respondeu o Cura de Ars? Simplesmente isto: “Entre a ponte e a água, houve tempo para o arrependimento e o perdão”. Entre a ponte e a água…

Era assim o padre que a aldeia de Ars conservou por quarenta e um anos. O padre. E esta única palavra diz tudo. Porque Jean-Marie Vianney não foi senão um padre, um simples padre, todo ele entregue às almas, devorado pela sua missão, integralmente fiel à sua vocação. Nada mais que isso; nada menos que isso. Mas esse sacerdócio, que estivera a ponto de lhe ser recusado, fê-lo ele subir a um nível tão alto que se revelou inigualável. Nunca ninguém falou melhor que ele acerca do padre, da grandeza da sua função, do seu papel sobrenatural. “Ah! Como o padre é qualquer coisa de grande! O padre só poderá ser compreendido no Céu. Se o compreendêssemos neste mundo, morreríamos – não de terror, mas de amor… Depois de Deus, o padre é tudo! Deixai uma paróquia vinte anos sem padre: hão de adorar os animais!

Mas também ninguém disse melhor que ele o que há de terrível para um homem em ser depositário do poder de Deus, em ter o direito de absolver e o de fazer o próprio Deus descer à hóstia. “Como é terrível ser padre!” – repetia muitas vezes –, e o seu rosto inundava-se de lágrimas. “Como é de lamentar um padre quando diz missa como coisa banal… Oh!, como é infeliz um padre a quem falte interioridade!” Um padre. Apenas padre. Aí reside o caráter extraordinário da sua aventura. Foi só por não ter sido nada mais que padre que Jean-Marie Vianney se tornou uma glória da terra, antes de ser um santo.

Sim. Pouco a pouco, ou melhor, bem depressa, o renome do Cura d´Ars transbordou do quadro estreito da sua minúscula paróquia. Chamavam-no aqui, ali, acolá, para falar, para confessar. E, sobretudo, espontaneamente, havia homens e mulheres que se lançavam à estrada, por terem ouvido dizer que, algures nos Dombes, numa aldeia perdida, havia um padre que falava de Deus, confessava, confortava. Menos de dez anos depois de ter chegado, a corrente de peregrinos que afluía a Ars tomara a força de um acontecimento, não somente regional, mas nacional e internacional. Calcula-se em 80.000, em média, os peregrinos que, ano após ano, e durante trinta anos, se sucederam em Ars. No último ano, que foi o da morte do santo, foram para cima de 100.000. A aldeia mais que duplicou. À volta da igreja, conforme se vê nas gravuras da época, multiplicaram-se as “pensões burguesas” e as lojas onde se vendiam objetos de devoção.

Quem eram esses que acorriam a Ars? Vinham de todos os países, pertenciam a todas as classes sociais. Aquele a quem os companheiros de seminário chamavam pobre de espírito, aquele de quem alguns colegas de sacerdócio troçavam por ser intelectualmente nulo, era procurado por homens notáveis que o vinham consultar: intelectuais de alto nível, almas comprovadamente espirituais, como, por exemplo, o pe. Lacordaire, preocupado com o futuro da sua Ordem, ou o pe. Chevrier, fundador, em Lyon, do Prado, ou o pe. Muard, que iria fundar os beneditinos da Pierre-qui-Vire, ou mons. Ségur, o bispo cego, ou mons. Ullathorne, inglês convertido, discípulo de Wiseman, por este enviado a Roma para resolver a questão do restabelecimento da Hierarquia na Inglaterra e que parou em Ars e chegou a pensar em nunca mais sair de lá… Não havia ninguém que não se retirasse consolado, encorajado, guiado. Ninguém que não pudesse dizer, como certo humilde vinhateiro do Mâcon: “Vi Deus num homem”.

Esse prodigioso afluxo teve, para o Cura d´Ars, uma conseqüência penosa. A sua vida tornou-se a vida de um forçado de Cristo, noite e dia preso a uma tarefa cuja amplitude ia além das forças humanas. É certo que lhe tinham dado um auxiliar, que, de resto, pelo seu temperamento, foi para ele, muita vez, ocasião de penitências suplementares… E até se constituiu um grupo de missionários destinado a ajudá-lo. Mas era ele, só ele, quem os inúmeros fiéis queriam ver; só a ele queriam confiar as suas misérias; só dele esperavam esperança e paz.

Então, devorado pelo zelo das almas, Jean-Marie Vianney fez-se escravo do confessionário. Nessa pequena caixa de madeira em que no inverno gelava e no verão abafava, passava horas, dias, meses, anos inteiros… Chegou a ficar lá dezoito horas seguidas! Também chegou a desmaiar, sufocado com a falta de ar e o mau cheiro. Os dias eram para ele “regulados como uma pauta de música”. Pouco depois da meia noite, ia para a igreja, de lanterna na mão. Já a multidão o esperava à porta e logo começava o desfile. Foi preciso organizar um serviço de ordem! As mulheres eram atendidas no confessionário, que ficava numa capela lateral. Os homens que não gostavam de ser vistos iam à sacristia. Os padres – o próprio bispo de Belley – ajoelhavam-se por trás do altar-mor. Quer a confissão fosse longa ou curta, a exortação do padre era sempre breve, mas bastava para que o penitente ficasse transtornado e, muitas vezes, se retirasse de rosto banhado em lágrimas. Nesse desenrolar atrozmente monótono de feios pecados, de impurezas grandes ou pequenas, só duas interrupções: uma, para a missa, pelas quatro da manhã; outra, para o catecismo, às onze. E isso durou mais de trinta anos…

Semelhante heroísmo seria ainda deste mundo? À volta desse homem de Deus, o sobrenatural surgia em tudo. Uma coisa era certa: ele tinha o dom de ler nos corações. Bem o descobriam à sua custa aqueles que tentavam trapacear com Deus, calar pesadas faltas, diminuir um pouco a conta dos anos em que não se tinham confessado: com um olhar, o padre trespassava-os como um raio de luz, e, em duas palavras, situava-os diante da triste verdade da sua miséria.

Veria ele ainda mais alguma coisa, outras realidades? Ferozmente mudo sobre este ponto, fugindo a todas as perguntas, recusava-se a dizer se era verdade que tivera visões de Nossa Senhora, de São João Batista, de alguns outros santos talvez, como insistentemente se dizia. “Uma impressão que tive muitas vezes – diz um dos seus íntimos, que freqüentemente o ajudava à missa – é que ele via aquilo que adorava”. Mas havia outro capítulo sobre o qual o santo era um pouco mais loquaz: o da luta terrível, que, por mais de trinta anos, sustentou com o adversário, o próprio Satanás, a quem chamava, com um termo saboroso, “le grappin” [“a fisga”], e que reconhecia ter encontrado tanta vez que eram “como dois velhos camaradas”. Quanto aos seus milagres, dos quais o processo de canonização consideraria uns trinta, todos eles tinham um ar de simplicidade que devemos dizer evangélica: multiplicação do pão para o orfanato da paróquia, cura de enfermos, leituras do futuro. Em todos eles se encontrava, como diziam os cristãos da primitiva Igreja, “o bom odor de Cristo”.

A glória humana acompanhou essa glória celeste, singularmente manifestada na terra. Os peregrinos de Ars difundiam-na ao longe e ao largo, de modo que vinham pelas estradas das Dombes curiosos, até descrentes, que, na maior parte dos casos, de lá voltavam adivinhados, confusos, demudados. A imprensa falava. Nas lojas próximas da igreja, vendiam-se estampas com a figura do santo cura, o que bastava para o fazer zangar-se: “É o meu carnaval”, dizia ele, mostrando-as. Pôs no olho da rua o escultor que teve a imprudente audácia de lhe pedir licença para fazer a sua estátua. Quando o bispo lhe enviou a murça de cônego honorário, o santo agradeceu-lhe muito amavelmente, mas logo vendeu o inútil ornamento e pôs o dinheiro ao serviço dos pobres. Quanto à Legião de Honra que o sub-prefeito de Trévoux conseguiu para ele, recusou-se evidentemente a colocá-la ao peito e imediatamente a deu de presente, visto que era um objeto sem valor comercial e inútil para as suas obras de caridade. Nada lhe iria faltar para entrar na lenda em vida. Nada: nem sequer a ácida inveja de alguns dos seus confrades, ou a gritaria daqueles a quem incomodava, ou até as cartas anônimas e as injúrias. A todos os ataques respondia afirmando que os piores tratamentos eram ainda suaves demais para um asno e um pecador da sua laia, o que deixava envergonhados os cínicos.

Nos últimos dias de julho de 1859, a morte, cuja chegada anunciara, veio arrancá-lo por fim à sua tarefa sem medida. Morreu na noite de 3 de agosto, de olhos voltados para o Céu, “com uma expressão extraordinária de fé e de felicidade”, no dizer de uma testemunha. E logo acorreram multidões, massas imensas de gente, em que se misturavam os ricos e os pobres, entre eles o novo bispo de Belley, que se deslocou a pé desde Meximieux, a quarenta quilômetros, “sem fôlego, comovido, rezando em voz alta”. Ars bem sabia que tinha acabado de perder um santo.

Multiplices Inter Machinationes

ALOCUÇÃO DE PIO IX

SOBRE A MAÇONARIA

http://www.comune.senigallia.an.it/senigalliaTurismoEn/img/redaction/5318/5690/3pio%20IX.jpgEntre as muitas maquinações e artifícios pelos quais os inimigos do nome cristão têm ousado atacar a Igreja de Deus e procurado, ainda que debalde, abatê-la e destruí-la, devemos contar sem dúvida alguma aquela perversa sociedade de homens, vulgarmente chamada maçonaria, a qual, a princípio contida nas trevas e na obscuridade, acabou por manifestar-se para ruína comum da religião e da sociedade humana.

Desde que os nossos predecessores, os Pontífices Romanos, fiéis ao seu ofício pastoral, desmascararam suas fraudes e insídias, julgaram que não havia tempo a perder para reprimi-la por sua autoridade, fulminando anátema e exterminando a essa seita que respira crimes e ataca as coisas santas e públicas.

Assim, nosso predecessor Clemente XII, por suas Letras Apostólicas, proscreveu e reprovou a mesma seita; advertiu a todos os fiéis não só que não se associassem a ela, mas também que não a propagassem e a animassem de qualquer maneira que fosse, sob pena de excomunhão reservada ao Pontífice Romano.

Bento XIV confirmou por sua Constituição essa justa e legítima sentença de condenação e não deixou de exortar os soberanos católicos a que consagrem todas as suas forças e solicitude em reprimir essa seita profundamente perversa e em defender a sociedade contra o perigo comum. Prouvera a Deus que esses soberanos tivessem atendido às palavras de nosso predecessor! Prouvera a Deus que em negócio tão grave não tivessem eles obrado com tanta fraqueza! De certo não teríamos nunca tido, nem tão pouco nossos antepassados, que deplorar tantas sedições, tantas guerras incendiárias que conflagraram toda a Europa, nem tantos e tão acerbos males que têm afligido e ainda hoje afligem a Igreja.

Mas o furor dos perversos longe de abrandar-se, Pio VII, nosso predecessor, anatematizou uma seita de origem recente, a dos carbonários, a qual se propagou principalmente na Itália, onde tinha muitos adeptos. E inflamado do mesmo zelo pelas almas, Leão XII condenou por suas Letras Apostólicas não só as sociedades secretas, que acabamos de mencionar, senão também todas as outras, qualquer que fosse o seu nome, que conspirassem contra a Igreja e o poder civil, e severamente as proibiu a todos os fiéis sob pena de excomunhão.

Todavia, esses esforços da Sé Apostólica não tiveram os sucessos que se deviam esperar. A seita maçônica de que falamos nem foi vencida nem coibida, pelo contrário tanto se tem desenvolvido, que nestes difíceis tempos apresenta-se por toda parte impunemente e ergue a fronte mais audaciosa do que nunca. Desde logo julgamos necessário voltar sobre este assunto, visto que, em virtude da ignorância em que talvez estejam muitos a respeito dos iníquos desígnios que se tratam nessas reuniões clandestinas, poderiam crer falsamente que a natureza dessa sociedade é inofensiva, que ela não tem outro fim que socorrer os homens e ajudá-los em suas adversidades e que enfim nada há a temer da parte dela para a Igreja de Deus.

Quem, entretanto, não vê quanto esse modo de pensar está longe da verdade? Que pretende então essa associação de homens de todas as religiões e crenças? Para que essas reuniões clandestinas, esse juramento tão rigorosamente exigido dos iniciados, que prometem nunca revelar o que possa dizer-lhes respeito? Por que, finalmente, essa inaudita atrocidade de penas a que se votam os iniciados no caso em que venham a faltar à fé do juramento?

Certamente deve ser ímpia e criminosa a sociedade que foge do dia e da luz. Quão diferentes dessas são as pias associações dos fiéis que florescem na Igreja Católica! Aqui nada há de oculto, nada de segredo. Os regulamentos que as regem estão aos olhos de todos e todos podem ver também as obras de caridade praticadas segundo a doutrina da Igreja. Com dor de Nossa alma temos visto em alguns lugares perseguidas, destruídas até, estas associações de fiéis, tão salutares, tão beneficentes, próprias para excitarem a piedade, ao passo que se protege, ou ao menos tolera-se, a tenebrosa seita maçônica, inimiga jurada da Igreja e de Deus e tão perigosa para a segurança dos reinos.

Confrange-se-nos o ânimo, Veneráveis Irmãos e uma dor profunda sangra-nos o coração, ao vermos indiferentes e quase adormecidos, quando lhes cumpre reprovar esta seita, conforme as Constituições Apostólicas, muitos daqueles cujas funções deviam torná-los vigilantes e cheios de ardor em assunto de tanta importância. Se alguém pensa que as Constituições Apostólicas, anatematizando as seitas ocultas, seus adeptos e fatores, não vigoram nos países onde elas são toleradas pela autoridade civil, labora em grande e lamentável erro. Acaso o soberano poder de apascentar e dirigir o rebanho universal, poder que os Romanos Pontífices receberam de Jesus Cristo na pessoa do bem-aventurado Pedro, deve depender da autoridade civil, podendo esta cerceá-lo e restringi-lo a seu sabor?

Nesta conjuntura, receando que homens incautos e sobretudo a mocidade não se deixem enganar e que o nosso silêncio dê lugar a alguém para proteger o erro, resolvemos erguer a nossa voz apostólica e dizer: Reprovamos e condenamos a sociedade maçônica e as outras do mesmo gênero que, sendo diferentes na aparência, formam-se todos os dias com o mesmo fim, e conspiram patente ou clandestinamente contra a Igreja e os poderes legítimos. E ordenamos sob as mesmas penas já especificadas nas Constituições dos nossos predecessores, a todos os cristãos, de qualquer condição, grau ou dignidade de qualquer país que tenham essas sociedades como proscritas e reprovadas por nós.

Pronunciado no Consistório de 25 de setembro de 1865.

PIO IX

Dom Lelis Lara e a maçonaria

Não adiantou. Não adiantou o Papa Clemente XII escrever a bula In Eminenti, condenando a maçonaria e estabelecendo válida essa declaração “para todo o sempre”; não adiantou o seu sucessor Bento XIV proclamar que a maçonaria representava –e ainda representa – um “grande perigo para a pureza da religião católica”; não adiantou ainda ele declarar que essa associação demoníaca deveria ser condenada “para sempre”. Não, não adiantou. Não adiantou ainda que Pio IX escrevesse tantas cartas sobre a mesma associação, condenando-as da mesma forma. Não adiantou que ele escrevesse uma carta em especial aos bispos no Brasil:

“Todas as sociedades maçônicas – seja destas regiões, seja de outras, das quais por parte de muitos, enganados ou induzidos ao engano, se diz que olham apenas para a utilidade e o progresso social e para a prática da ajuda recíproca – são proscritas e golpeadas pelas constituições e pelas condenações apostólicas, e que quantos desgraçadamente se inscreveram nas mesmas seitas incorrem por isso na mais grave excomunhão – providência reservada ao romano pontífice”.

Será difícil de entender que a Igreja não aprova e nunca aprovará a maçonaria? Ora, não obstante bastasse todas essas cartas, Leão XIII evidenciou:

“É desnecessário colocar as seitas Maçônicas em julgamento. Elas já estão julgadas; seus fins, seus meios, suas doutrinas, e sua ação, são todos conhecidos com indisputável certeza. Possuídos pelo espírito de Satanás, cujos instrumentos eles são, eles ardem como ele com um ódio mortal e implacável a Jesus Cristo e Sua obra; e eles se esforçam por todos os meios para derrubá-la e acorrentá-la. Esta guerra no momento presente se desenrola mais do que em qualquer outro lugar na Itália, na qual a religião Católica se enraizou mais profundamente; e acima de tudo em Roma, o centro da unidade Católica, e a Sede do Pastor Universal e Mestre da Igreja”.

As encíclicas Humanus Genus e Dall’alto Dell’Apostolico Seggio deixaram claro mais do que nunca que não existe a possibilidade de conciliar-se maçonaria com Igreja. Mas, os sacerdotes do nosso tempo insistem em querer dialogar e, fazendo isso, desobedecem expressamente as ordens da Santa Sé. Vê-se inútil todo o esforço dos Santos Padres em exortar os fiéis a se afastarem das associações maçônicas, seja antes do Concílio Vaticano II, seja depois, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé:

“Permanece (…) imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.”

O Bispo Emérito da Diocese de Itabira e Coronel Fabriciano, em Minas Gerais, Dom Lelis Lara, em desacordo com o que diz a Santa Sé sobre a maçonaria, proclamou, contudo, que “católicos são cristãos e os maçons também, senão todos, certamente grande parte”. E absurdamente atribuiu ao Concílio Vaticano II o motivo desse diálogo que agora existe entre maçonaria e Igreja Católica. A notícia vem da Jva Online e, pra mim, é mais uma prova de que estamos chegando no fim. Não há dúvidas. Tudo está acontecendo. As profecias estão se cumprindo. As desobediências só aumentando…

Meu Deus, a doutrina da Igreja é imutável! Segundo alguns, no entanto, o Concílio Vaticano II mudou totalmente a visão da Igreja sobre a fé, sobre a doutrina e especificamente sobre a maçonaria. Então, é preciso decidir: ou a nossa Igreja começa em Pedro ou começa no Concílio! Foram oportunas as palavras do ainda Cardeal Ratzinger sobre o assunto: “Quem aceita o Vaticano II, como ele claramente se expressou e se entendeu a si mesmo, ao mesmo tempo aceita a inteira tradição da Igreja Católica”.

Declarações como essas de Dom Lelis Lara são devastadoras, ameaçadoras à fé. Quando o povo católico, em especial os sacerdotes da Santa Igreja, vai entender a doutrina da Igreja?

Certeza da morte – Sto. Afonso de Ligório

[Publico aqui trecho do livro de Santo Afonso de Ligório “Preparação para a morte – Considerações sobre as verdades eternas”. Em especial essa passagem fala sobre a certeza da morte. É uma importante reflexão tirada de um tesouro da Igreja. O livro inteiro está disponível para download no site São Pio V. Santo Afonso de Ligório, rogai por nós!]

“Preparação para a morte – Considerações sobre as verdades eternas”

Santo Afonso de Ligório

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CONSIDERAÇÃO IV

Certeza da morte

Statutum est hominibus semel mori – Foi estabelecido aos homens morrer uma só vez (Hb 9,27).

PONTO I

A sentença de morte foi escrita para todo o gênero humano: É homem, deves morrer. Dizia Santo Agostinho: “Só a morte é certa; os demais bens e males nossos são incertos”. É incerto se o recém-nascido será rico ou pobre, se terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho. Tudo isto é incerto, mas é indubitavelmente certo que deve morrer.

Magnatas e reis também serão ceifados pela morte, a cujo poder não há força que resista. Resiste-se ao fogo, à água, ao ferro, ao poder dos príncipes, mas não se pode resistir à morte. Conta Vicente de Beauvais que um rei da França, achando-se no termo da vida, exclamava: “Com todo o meu poder, não posso conseguir que a morte espere mais uma hora!” Quando chega esse momento, não podemos retardá-lo nem por um instante sequer.

Por muitos anos, querido leitor, que ainda tenhas de viver, há de chegar um dia, e nesse dia uma hora, que te será a última. Tanto para mim, que escrevo, como para ti, que lês este livro, está decretado o dia, o instante, em que nem eu poderei mais escrever nem tu ler. “Quem é o homem que viverá e não verá a morte?” (Sl 89,49). Está proferida a sentença. Nunca existiu homem tão néscio que se julgasse isento da morte. O que sucedeu a teus antepassados, também sucederá a ti. De quantas pessoas, que, no princípio do século passado, viviam em tua pátria, nenhuma existe com vida. Até os príncipes e monarcas deixarão este mundo. Não subsistirá deles mais que um mausoléu de mármore com inscrição pomposa que somente serve para nos patentear que dos grandes deste mundo só resta um pouco de pó resguardado por aquelas lajes. São Bernardo pergunta: “Dize-me: onde estão os amadores do mundo? E responde: Nada deles resta, senão cinzas e vermes”.

É mister, portanto, que não procuremos essa fortuna perecedora, mas a que não tem fim, já que nossas almas são imortais. De que te serviria ser feliz neste mundo, — ainda que a verdadeira felicidade não se pode encontrar numa alma que vive afastada de Deus — se depois tens de ser desgraçado eternamente? Já tens preparado tua casa a teu gosto, mas reflete que cedo terás de deixá-la para ir apodrecer numa cova. Talvez alcançaste uma dignidade que te torna superior aos outros, mas a morte virá e te igualará aos mais vis plebeus deste mundo.

AFETOS E SÚPLICAS

Infeliz de mim, que durante tantos anos só pensei em ofender-vos, ó Deus de minha alma! Passaram-se já esses anos; a minha morte talvez esteja próxima, e não acho em mim senão remorso e arrependimento.

Ah, Senhor, tivesse eu sempre vos servido! Quão insensato fui! Em tantos anos de vida, não adquiri méritos para a outra vida, mas, ao contrário, me endividei para com a justiça divina! Meu amado Redentor, dai-me agora luz e ânimo para acertar minhas contas. Talvez a morte não esteja longe; quero preparar-me para esse momento decisivo da minha felicidade ou da minha desgraça eterna. Mil graças dou-vos por terdes esperado até agora por mim. Já que me haveis dado tempo para remediar o mal cometido, aqui estou, meu Deus, dizei-me o que desejais que faça por vós. Quereis que me arrependa das ofensas que vos fiz? Arrependo-me delas e as detesto de toda a minha alma. Quereis que empregue em amar-vos os anos e os dias que me restam de vida? Pois bem, assim o farei, Senhor. Ó meu Deus, já no passado mais de uma vez formei esta mesma resolução, mas minhas promessas se converteram depois em outros tantos atos de infidelidade. Não, meu Jesus, não quero mostrar-me ingrato a tantos benefícios que me dispensastes. Se agora, pelo menos, não mudar de vida, como é que na hora da morte poderei esperar perdão e alcançar a glória? Tomo, pois, nesta hora, a firme resolução de dedicar-me verdadeiramente ao vosso serviço. Mas vós, Senhor, ajudai-me e não me abandoneis. Já que não me abandonastes quando vos ofendi, espero com maior confiança vosso socorro agora que estou resolvido a sacrificar tudo para vos agradar.

Permitir que vos ame, ó Deus digno de infinito amor! Recebei o traidor que, arrependido, se prostra a vossos pés e vos pede misericórdia. Amo-vos, meu Jesus, de todo o meu coração e mais que a mim mesmo. Sou vosso; disponde de mim e de tudo que me pertence, como vos aprouver.

Concedei-me a perseverança em vos obedecer; dai-me vosso amor, e fazei de mim o que quiserdes.

Maria, mãe, refúgio e esperança minha, a vós me recomendo; a vós entrego minha alma; rogai a Jesus por mim.

* * *

PONTO II

É certo, pois, que todos fomos condenados à morte. Todos nascemos — disse São Cipriano — com a corda ao pescoço, e a cada passo que damos mais nos aproximamos da morte. Meu irmão, assim como foste inscrito no livro do batismo, assim, um dia, o serás no registro dos mortos. Assim como, às vezes, mencionas teus antepassados, dizendo: meu pai, meu tio, meu irmão, de saudosa memória, o mesmo dirão de ti teus descendentes. Como muitas vezes tens ouvido planger os sinos pela morte dos outros, assim outros ouvirão que os tocam por ti.

Que dirias de um condenado à morte que se encaminhasse ao patíbulo galhofando e rindo-se, olhando para todos os lados e pensando em teatros, festins e divertimentos? E tu, neste momento, não caminhas também para a morte? E em que pensas? Contempla nessas sepulturas teus parentes e amigos, cuja sentença já foi executada. Que terror se apodera de um condenado, quando vê seus companheiros pendentes da forca e já mortos! Observa esses cadáveres; cada um deles diz: “Ontem, a mim; hoje, a ti” (Eclo 38,23). O mesmo te repetem, todos os dias, os retratos de teus parentes já falecidos, os livros, as casas, os leitos, as roupas que deixaram.

Que loucura extrema, não pensar em ajustar as contas da alma e não aplicar os meios necessários para alcançar uma boa morte, sabendo que temos de morrer, que depois da morte nos está reservada uma eternidade de gozo ou de tormento, e que desse ponto depende o sermos para sempre felizes ou desgraçados! Temos compaixão dos que morrem repentinamente e não se acham preparados para a morte e, contudo, não tratamos de nos preparar, a fim de não nos acontecer o mesmo. Cedo ou tarde, quer estejamos apercebidos, quer de improviso, pensemos ou não na morte, ela há de vir; e a toda hora, a cada instante nos vamos aproximando do nosso patíbulo, ou seja da última enfermidade que nos deve tirar deste mundo.

Em cada século, as casas, as praças, as cidades enchem-se de novos habitantes. Os antigos estão no túmulo. Assim como para estes passaram os dias da vida, assim virá o tempo em que nem tu nem eu, nem pessoa alguma das que vivemos atualmente, existirá na terra. Todos estaremos na eternidade, que será, para nós, ou intérmino dia de gozo, ou noite eterna de tormentos. Não há aqui meio termo. É certo, e é de fé que um ou outro destino nos espera.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu amado Redentor! Não me atreveria a aparecer diante de vós, se não vos visse pregado à cruz, despedaçado, escarnecido e morto por minha causa. Grande é minha ingratidão, porém maior é ainda vossa misericórdia. Muito grandes foram meus pecados, maiores são vossos méritos. Em vossas chagas, em vossa morte ponho minha esperança.

Mereci o inferno desde o primeiro momento do meu pecado e, apesar disso, voltei a ofender-vos mil e mil vezes. E vós, não só me haveis conservado a vida, mas com extrema bondade e amor me oferecestes o perdão e a paz. Como posso recear que me afasteis agora que vos amo, e que não desejo senão vossa graça? Sim, amo-vos de todo o coração, ó meu Senhor, e meu único anseio é amar-vos. Adoro-vos, e pesa-me de ter-vos ofendido, não tanto porque mereci o inferno, como por ter desprezado a vós, meu Deus, que tanto me amais. Abri, pois, meu Jesus, o tesouro de vossa bondade, e acrescentai misericórdia a misericórdia. Fazei com que eu não torne a ser in-grato para convosco e mudai completamente o meu coração, a fim de que seja todo vosso, e inflamado sempre pelas chamas do vosso amor, já que outrora vos menosprezou, preferindo os vis prazeres deste mundo.

Espero alcançar o paraíso, para vos amar sempre; e ainda que ali não poderei tomar lugar entre os inocentes, colocar-me-ei ao lado dos penitentes, desejando, entre estes, amar-vos mais que os inocentes.

Para glória da vossa misericórdia, veja o céu como arde em vosso amor um pecador que tanto vos ofendeu. Tomo hoje a resolução de entregar-me todo a vós, e de só pensar em vos amar. Ajudai-me com vossa luz e graça, a fim de que cumpra este desejo, inspirado também por vossa bondade.

Ó Maria, Mãe da perseverança, alcançai-me a graça de ser fiel à minha promessa!

* * *

PONTO III

A morte é certa. Tantos cristãos sabem-no, o crêem, o vêem e, entretanto, vivem no esquecimento da morte como se nunca tivessem de morrer! Se depois desta vida não houvesse nem paraíso nem inferno, seria possível pensar menos na morte do que se pensa atualmente? Daí procede a má vida que levam.

Meu irmão, se queres viver bem, procura passar o resto dos teus dias sem perder de vista a morte. Quanto aprecia com acerto as coisas e dirige suas ações sensatamente aquele que as aprecia e dirige pela idéia de que deve morrer! (cf. Ecl 41,3). A lembrança da morte — disse São Loureço Justiniano — desprende o coração de todas as coisas terrenas. Todos os bens do mundo se reduzem a prazeres sensuais, riquezas e honras (cf. 1Jo 2,16). Aquele, porém, que considera que em breve não será mais que pó e que, em baixo da terra, servirá de pasto aos vermes, despreza todos esses bens.

Foi efetivamente pensando na morte que os santos desprezaram os bens terrestres. Por este motivo, São Carlos Borromeu conservava sobre sua mesa um crânio humano; tinha a morte continuamente diante dos olhos. O cardeal Barônio tinha gravado no anel esta inscrição: “Memento mori”: Lembra-te que tens de morrer. O venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, gravara numa caveira estas palavras: “Fui o que és; serás o que sou”. Um santo ermitão, a quem perguntaram na hora da morte por que se mostrava tão contente, respondeu: Tantas vezes tive a morte diante dos olhos, que agora, quando se aproxima, não vejo coisa nova.

Que loucura seria a de um viajante que só cuidasse de ostentar luxo e grandezas nas localidades por onde teria de passar, sem pensar sequer que depois teria de viver miseravelmente no lugar onde durante toda a sua vida ia residir? E não será igualmente demente aquele que procura ser feliz neste mundo, onde são poucos os dias que tem de passar, e se arrisca a ser desgraçado no outro, onde viverá eternamente? Quem pede emprestado um objeto, pouca afeição lhe pode ter, porque sabe que em breve o tem de restituir. Os bens da terra são todos dados de empréstimo; é, pois, grande loucura tomar-lhes afeição, porque dentro de pouco tempo temos de abandoná-los. A morte de tudo nos privará. Todas as nossas propriedades e riquezas acabar-se-ão com o último suspiro, com o funeral, com o trajeto ao túmulo. A casa que mandaste construir passará às mãos de outrem; o túmulo será morada do teu corpo até ao dia do juízo, depois do qual passará ao céu, ou ao inferno, onde tua alma já lhe terá precedido.

AFETOS E SÚPLICAS

Tudo, portanto, se há de acabar para mim na hora da morte? Nada me restará, meu Deus, senão o pouco que fiz por vosso amor. Que estou esperando? Que a morte venha e me encontre no estado miserável de culpas em que me acho atualmente? Se morresse neste momento, bem inquieto ficaria, e bem aflito quanto à vida passada. Não, meu Jesus, não quero morrer assim. Agradeço-vos por me terdes dado tempo para amar-vos, chorar os meus pecados. Quero começar desde já.

Pesa-me de todo o coração o ter-vos ofendido, e amo-vos sobre todas as coisas, Suprema Bondade, mais que a minha própria vida. Dou-me todo a vós, meu Jesus; abraço-vos, vos aperto ao coração e desde este momento vos recomendo minha alma (cf. Sl 31,6). Não quero esperar, para vo-la dar, até ao momento em que se lhe ordene sair deste mundo. Não quero guardar minha súplica para quando me chamardes. “Ó Jesus, sede para mim Jesus”. Salvai-me agora, perdoai-me e concedei-me a graça do vosso amor! Quem sabe se esta consideração, que hoje leio, seja o último aviso que me dais e a derradeira misericórdia para comigo? Estendei a vossa mão, meu Amor, e fazei-me sair da minha tibieza.

Dai-me eficaz fervor e amorosa obediência a tudo que quereis de mim.

Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e o dom de amar-vos durante o resto da minha vida. Ó Maria, mãe de misericórdia, pelo amor que tendes ao vosso Jesus, alcançai-me estas duas graças, a perseverança e o amor!

* * *