“PAI NOSSO que estais no Céu…”


É assim que começa a oração que Jesus nos ensinou. Em Mateus 6,9, ao ser questionado sobre como devemos orar, o Mestre responde sabiamente: “PAI NOSSO que estais no céu…” É essa a frase que iremos meditar nesse artigo. A Bíblia Ave-Maria, talvez para destacar a importância de se chamar Deus de Pai com a 1ª pessoa do singular, põe em maiúsculas as primeiras palavras dessa oração universal: PAI NOSSO. O Pai – Deus – é de todos. Quando se fala em pai, pensa-se naquele que nos gerou, que nos deu a vida. Assim, Deus é nosso Pai, aquele que nos dá a vida.

Ele não exclui ninguém da condição de seu filho. Todos, sem nenhuma exceção, são chamados a voltarem para ele e se converterem. Todos são seus filhos. A capacidade de Deus de não excluir ninguém de sua misericórdia, nem mesmo o mais miserável pecador, mostra a sua infinita bondade para com seus filhos que, na aflição ou no desespero, rezam esta oração em busca de consolo e de paz. E Ele, ao ouvir o clamor de seus filhos, dá-lhes o que eles pedem. Dessa forma, ao mesmo tempo em que nos vemos capazes de enxergar a sua misericórdia, observamos também o quão perto Ele está de nós, mesmo que esteja no céu.

Ver um Deus que está nos céus, mas que ao mesmo tempo é de todos nós, mostra algo que seus filhos precisam cultivar na terra: a união. Se todos somos de fato filhos do mesmo Pai, o ódio e a vingança não podem dar lugar ao amor e à unidade. Ser irmão não é somente viver no mesmo ambiente; é muito mais que isso: é viver em comunidade, dialogando, abraçando, amando, rindo, orando, lendo a Bíblia, rezando o terço, indo à Santa Missa, enfim, promovendo uma cultura que possa pôr todas as pessoas em comum unidade. Amar o próximo não é um pedido de Jesus, mas um mandamento. Sem ele cumprido, a vida não tem o mesmo significado.

Por esse ângulo, vê-se um Deus amoroso, compassivo e bondoso com todos nós. E Ele o é. Ao dizer, entretanto, “que estais no Céu”, pode-se imaginar um Deus em condição tão superior que seja capaz de abusar do outro, assim como a de um chefe e um subordinado. No entanto, não é esse o sentido dessa frase. Somos todos amigos de Deus. E Jesus nos chama assim: “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.” (cf. Jo 15).

A posição extremamente superior de Deus, por meio de Jesus Cristo, ainda é mantida, mas agora é acompanhada dum contexto muito mais ‘íntimo’ entre Deus e o homem. O Pai nosso vem ao seu encontro. Ele é superior e ao mesmo tempo quer conhecer todas as angústias e sofrimentos do ser humano. Não é portanto uma superioridade egoísta, mas humilde. É um Pai que quer conhecer a necessidade de seus filhos que, ao mesmo tempo, são seus servos.

Importante analisar esse contexto da servidão. Santo Agostinho, sobre a frase acima citada do Evangelho de João, dizia a Deus: “Tu podes chamar-me amigo, mas eu me reconheço servidor” (Enarr. In Psalmum 142,6). O que isso quer dizer? Que a nossa relação íntima de Deus exige o máximo respeito com Ele. Precisamos diferenciar intimidade de rotina, ou de informalidade. Deus é Pai de todos nós e ao mesmo tempo é de tal modo superior que somos como servos, pessoas que cumprem a vontade d’Ele.

Proclamar um Pai Nosso que, por sua vez, está nos céus, exige de nós essa profunda reflexão, que nos leva a perceber o quão pequenos somos diante da grandeza do Criador e ao mesmo tempo quão grande é a sua misericórdia por cada um de nós.

Graça e paz.

O ensinamento da Igreja

Fonte: Catecismo da Igreja Católica

ARTIGO 2

«PAI NOSSO, QUE ESTAIS NOS CÉUS»

I. «Ousar aproximar-se com toda a confiança»

2777. Na liturgia romana, a assembléia eucarística é convidada a orar ao nosso Pai com ousadia filial. As liturgias orientais utilizam e desenvolvem expressões análogas: «Ousar com toda a segurança», «tomai-nos dignos de». Diante da sarça ardente foi dito a Moisés: «Não te aproximes. Descalça as sandálias» (Ex 3, 5). Este umbral da santidade divina, só Jesus o podia franquear, Ele que, «tendo realizado a purificação dos pecados» (Heb 1, 3), nos introduz perante a face do Pai: «Eis-me, a mim e aos filhos que Deus Me deu!» (Heb 2, 13):

«A consciência que temos da nossa situação de escravos far-nos-ia sumir sob o chão, a nossa condição terrena dissolver-se-ia em pó, se a autoridade do próprio Pai e o Espírito do Seu Filho não nos levasse a soltar este grito dizendo: “Deus mandou o Espírito do Seu Filho aos nossos corações clamando Abba, ó Pai!” (Rm 8, 15) [...]. Quando é que a fraqueza dum mortal se atreveria a chamar a Deus seu Pai, senão somente quando o íntimo do homem é animado pelo poder do alto?» (21).

2778. Este poder do Espírito que nos introduz na oração do Senhor é expresso, nas liturgias do Oriente e do Ocidente, pela bela expressão tipicamente cristã: «parrêsía», simplicidade sem desvio, confiança filial, segurança alegre, ousadia humilde, certeza de ser amado (22).

II. «Pai!»

2779. Antes de fazermos nosso este primeiro impulso da oração do Senhor, convém purificar humildemente o nosso coração de certas falsas imagens «deste mundo». A humildade faz-nos reconhecer que «ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho Se dignar revelá-Lo», quer dizer «os pequeninos» (Mt 11, 25-27). A purificação do coração refere-se às imagens paternas ou maternas provenientes da nossa história pessoal e cultural, que influenciam o nosso relacionamento com Deus. É que Deus, nosso Pai, transcende as categorias do mundo criado. Transpor para Ele ou contra Ele, as nossas ideias neste domínio, seria fabricar ídolos, a adorar ou a derrubar. Orar ao Pai é entrar no seu mistério, tal como Ele é e tal como o Filho no-Lo revelou:

«A expressão Deus Pai nunca tinha sido revelada a ninguém. Quando o próprio Moisés perguntou a Deus quem era, ouviu um nome diferente. A nós, este nome foi revelado no Filho; porque este nome (de Filho) implica o nome de Pai» (23).

2780. Nós podemos invocar Deus como «Pai», porque Ele nos foi revelado pelo seu Filho feito homem e porque o seu Espírito no-Lo faz conhecer. A relação pessoal do Filho com o Pai (24), que o homem não pode conceber nem os poderes angélicos podem entrever, eis que o Espírito do Filho nos faz participar dela, a nós que cremos que Jesus é o Cristo e que nascemos de Deus (25).

2781. Quando oramos ao Pai, estamos em comunhão com Ele e com o seu Filho Jesus Cristo (26). É então que O reconhecemos num encantamento sempre novo. A primeira palavra da oração do Senhor é uma bênção de adoração, antes de ser uma súplica. Porque a glória de Deus é que nós O reconheçamos como «Pai», Deus verdadeiro. Damos-Lhe graças por nos ter revelado o seu nome, por nos ter dado a graça de acreditar n’Ele, de sermos habitados pela sua presença.

2782. Nós podemos adorar o Pai porque Ele nos fez renascer para a sua vida adotando-nos por seus filhos no seu Filho Único: pelo Batismo, incorpora-nos no corpo do seu Cristo; e pela Unção do seu Espírito, que da Cabeça se derrama pelos membros, faz de nós «cristos»:

«Deus, que nos predestinou para a adoção de filhos, tornou-nos conformes ao corpo glorioso de Cristo. Doravante, pois, participantes de Cristo, sois com todo o direito chamados “cristos”» (27).

«O homem novo, que renasceu e foi restituído ao seu Deus pela graça, começa por dizer, “Pai!”, porque se tornou filho» (28).

2783. Deste modo, pela oração do Senhor, nós somos revelados a nós próprios, ao mesmo tempo que nos é revelado o Pai (29):

«Ó homem, tu não ousavas levantar o teu rosto para o céu, baixavas os teus olhos para a terra, e de repente recebeste a graça de Cristo: todos os pecados te foram perdoados, de mau servo tornaste-te bom filho [...]. Portanto, ergue os olhos para o Pai que te resgatou pelo seu Filho e diz: Pai nosso [...]. Mas não reivindiques para ti algo de especial. Só de Cristo é que Ele é Pai de modo especial, de todos nós é Pai em comum; porque só a Ele gerou, ao passo que a nós, criou-nos. Portanto, por graça, diz também tu “Pai nosso”, para mereceres ser filho» (30).

2784. Este dom gratuito da adoção exige da nossa parte uma conversão contínua e uma vida nova. Orar ao nosso Pai deve desenvolver em nós duas disposições fundamentais:

O desejo e a vontade de nos parecermos com Ele. Criados à sua imagem, é pela graça que a semelhança nos é restituída e a ela devemos corresponder.

«Devemos lembrar-nos de que, quando chamamos a Deus «Pai nosso», temos de nos comportar como filhos de Deus» (31).

«Vós não podeis chamar vosso Pai ao Deus de toda a bondade se conservardes um coração cruel e desumano; porque, nesse caso, já não tendes a marca da bondade do Pai celeste» (32).

«Devemos contemplar incessantemente a beleza do Pai e impregnar dela a nossa alma» (33)

2785. Um coração humilde e confiante que nos faça «voltar ao estado de crianças» (Mt 18, 3): porque é aos «pequeninos» que o Pai Se revela (Mt 11, 25):

É um estado «que se forma contemplando a Deus somente, com o ardor da caridade. Nele, a alma funde-se e abisma-se em santa dileção e trata com Deus como com o seu próprio Pai, muito familiarmente, numa ternura de piedade muito particular» (34).

«Pai nosso – que haverá de mais querido para os filhos do que o pai? – Este nome suscita em nós ao mesmo tempo o amor, o afeto na oração, [...] e também a esperança de obter o que vamos pedir [...]. De fato, que pode Ele recusar à súplica dos seus filhos, quando já previamente lhes permitiu que fossem filhos seus?» (35).

III. Pai «nosso»

2786. Pai «nosso» refere-se a Deus. Pela nossa parte, o adjetivo «nosso» não exprime uma posse, mas sim uma relação totalmente nova com Deus.

2787. Quando dizemos Pai «nosso», reconhecemos, antes de mais nada, que todas as suas promessas de amor, anunciadas pelos profetas, se cumpriram na Nova e eterna Aliança no seu Cristo: nós tornamo-nos o «seu» povo e Ele é doravante o «nosso» Deus. Esta relação nova é uma pertença mútua, dada gratuitamente: é por amor e fidelidade (36) que temos de responder «à graça e à verdade» que nos foram dadas em Cristo Jesus (37).

2788. Uma vez que a oração do Senhor é a do seu povo nos «últimos tempos», este «nosso» exprime também a certeza da nossa esperança na última promessa de Deus: na Jerusalém nova, Ele dirá ao vencedor: «Eu serei o seu Deus e ele será o meu Filho» (Ap 21, 7).

2789. Rezando ao «nosso» Pai, é ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nós nos dirigimos pessoalmente. Não dividimos a divindade, pois que o Pai é a sua «fonte e origem», mas confessamos desse modo que o Filho é por Ele gerado eternamente e que d’Ele procede o Espírito Santo. Também não confundimos as Pessoas, pois confessamos que a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo no seu único Espírito Santo. A Santíssima Trindade é consubstancial e indivisível. Quando rezamos ao Pai, adoramo-Lo e glorificamo-Lo com o Filho e o Espírito Santo.

2790. Gramaticalmente, «nosso» qualifica uma realidade comum a vários. Há um só Deus, que é reconhecido como Pai por aqueles que, pela fé no seu Filho Único, renasceram d’Ele pela água e pelo Espírito (38). A Igreja é esta nova comunhão de Deus com os homens; unida ao Filho Único, que se tornou o «primogênito de muitos irmãos» (Rm 8, 29), ela está em comunhão com um só e mesmo Pai, num só e mesmo Espírito Santo (39). Ao rezar Pai «nosso», cada batizado reza nesta comunhão: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (At 4, 32).

2791. É por isso que, apesar das divisões dos cristãos, a oração ao «nosso» Pai continua a ser um bem comum e um apelo premente para todos os batizados. Em comunhão pela fé em Cristo e pelo Batismo, eles devem participar na oração de Jesus pela unidade dos seus discípulos (40).

2792. Por fim, se rezamos em verdade o «Pai-nosso», saímos do individualismo, pois o Amor que nós acolhemos dele nos liberta. O «nosso» do princípio da oração do Senhor, tal como o «nos» das quatro últimas petições, não é exclusivo de ninguém. Para que seja dito em verdade (41), as nossas divisões e oposições têm de ser superadas.

2793. Os batizados não podem dizer Pai «nosso», sem levar até junto d’Ele todos aqueles por quem Ele deu o seu Filho bem-amado. O amor de Deus é sem fronteiras; a nossa oração deve sê-lo também (42). Rezar Pai «nosso» abre-nos às dimensões do seu amor manifestado em Cristo: orar com e por todos os homens que ainda O não conhecem, para que sejam «reunidos na unidade» (43). Este cuidado divino por todos os homens e por toda a criação animou todos os grandes orantes; deve também dilatar a nossa oração num amor sem limites, quando ousamos dizer: Pai «nosso».

IV. «Que estais nos céus»

2794. Esta expressão bíblica não significa um lugar («o espaço»), mas um modo de ser; não é o distanciamento de Deus, mas a sua majestade. O nosso Pai não está «algures», está «para além de tudo» o que podemos conceber da sua santidade. E é por ser três vezes santo que Ele está mesmo junto do coração humilde e contrito:

«É com razão que estas palavras: “Pai nosso que estais nos céus” se referem ao coração dos justos, nos quais Deus habita como em seu templo. Por isso, também aquele que ora há-de desejar ver morar em si Aquele a quem invoca» (44). «Os “céus” também poderiam muito bem ser aqueles que trazem em si a imagem do mundo celeste e em quem Deus mora e passeia» (45).

2795. O símbolo dos céus remete-nos para o mistério da Aliança que nós vivemos, quando rezamos ao Pai. Ele está nos céus: é a sua morada. A casa do Pai é, pois, a nossa «pátria». Foi da terra da Aliança que o pecado nos exilou (46), e é para o Pai, para o céu, que a conversão do coração nos faz voltar (47). Ora, foi em Cristo que o céu e a terra se reconciliaram (48), porque o Filho «desceu do céu», sozinho, e para lá nos faz subir juntamente consigo, pela sua cruz, ressurreição e ascensão (49).

2796. Quando a Igreja reza «Pai nosso que estais nos céus», professa que somos o povo de Deus já sentado nos céus em Cristo Jesus (50) escondidos com Cristo em Deus (51) e que, ao mesmo tempo, «gememos nesta tenda, ansiando por revestir-nos da nossa habitação celeste» (2 Cor 5, 2) (52):

Os cristãos «estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Passam a vida na terra, mas são cidadãos do céu» (53).

Resumindo:

2797. A confiança simples e fiel, a segurança humilde e alegre são as disposições que convêm a quem reza o Pai-Nosso.

2798. Podemos invocar Deus como «Pai», porque no-Lo revelou o Filho de Deus feito homem, em quem, pelo Batismo, somos incorporados e adotados como filhos de Deus.

2799. A oração do Senhor põe-nos em comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. E, ao mesmo tempo, revela-nos a nós mesmos (54).

2800. Rezar ao nosso Pai deve fazer crescer em nós a vontade de nos parecermos com Ele e criar em nós um coração humilde e confiante.

2801. Ao dizermos Pai «nosso», invocamos a Nova Aliança em Jesus Cristo, a comunhão com a Santíssima Trindade e a caridade divina que, através da Igreja, se estende às dimensões do mundo.

2802. A expressão «que estais nos céus» não designa um lugar, mas sim a majestade de Deus e a sua presença no coração dos justos. O céu, a Casa do Pai, constitui a verdadeira pátria, para onde caminhamos e à qual desde já pertencemos.

3 comentários sobre ““PAI NOSSO que estais no Céu…”

  1. gostaria de tirar uma duvida.
    na oração pai nosso; existe uma frase que diz perdoai nossas
    ofenças a frese foi trocada de perdoai nossas dividas
    gostaria de saber o termo original.

    • Na verdade, Antonio, existe tanto o “perdoai nossas ofensas” quanto o “perdoai nossas dívidas”. São Mateus usa o termo ofensas, enquanto é São Lucas quem diz dívida. Os dois estão corretos.

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