“…mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai…”


“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!” (Mt 7,21-23).

Confesso, caríssimos irmãos, que as palavras acima me deixam com medo. Talvez esse medo me ajude a produzir frutos que me tornem realmente digno da eternidade junto de Deus. Todos nós, quando lemos esses versículos, fiquemos talvez com os olhos um pouco arregalados. Isso porque ainda não chegamos à santidade que Deus nos chama a viver e isso produz em nós um grande anseio pelas boas obras. De fato, o Reino de Deus não é feito somente de palavras, de milagres, de pregações, mas de atitudes, de gestos concretos. Dom Francisco Carlos, na missa de ontem, da Quinta-Feira, falava justamente disso: que para entrarmos no céu não podemos nos guiar somente por nossa fé, mas por ações.

Mais uma prova disso? São Tiago, na sua Carta, proclama, em tom meio irônico: “Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem” (2,19). Aqui é oportuno o questionamento: a fé, para nós, é garantia de quê? Sim, ela é, sem dúvida, um requisito fundamental para entrarmos no Reino de Deus. Mas ela não é preceito exclusivo para que possamos nos salvar. “Assim como o corpo sem a alma é morto, a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Não existe essa conversa que para sermos salvos, precisamos somente de crer em Deus e pronto. Sabemos também, contudo, que a fé genuína se sente impelida em praticar as boas obras, de acordo com a lei de Deus.

É dessa maneira que são explicadas as palavras de São Paulo aos Romanos: “se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (10,9). Confessar que Jesus é o Senhor exige de nós uma fé filial, capaz de seguir os mandamentos de Deus à risca, pois só assim poderemos nos achegar ao Reino de Deus. Aqui, São Paulo não queria dizer que a fé nos salva. Muitos interpretam erroneamente essa passagem bíblica. São Paulo quer falar que a condição primordial para sermos salvos é crer em Deus. E é claro! Não foi à toa que Jesus disse: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16). Mas precisamos também entender a passagem que hoje nos é proposta: “Nem todo…” Meu irmão, muitos que disserem: Senhor, Senhor, serão salvos, mas nem todos.

A nota da Bíblia Ave-Maria tem, nesse versículo, uma observação que considero fenomenal: “Por que, fazendo todas estas coisas santas, não levastes uma vida irrepreensível?” Atenção! Deus nos perguntará isso! Por que mesmo expulsando demônios, fazendo milagres e pregando em nome de Jesus, podemos perder nossa salvação? Porque deixamos de nos preocupar com as obras. Elas, ao contrário do que pensam muitos, são importantes sim! E não importantes somente para alcançarmos a salvação, mas também para bem vivermos nossa vida aqui na terra.

É por meio das obras que a humanidade pode vivenciar a misericórdia de Deus nas pessoas. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, foi uma grande missionária de Deus, sempre preocupada com os pobres e humildes. E ela, através dessas boas atitudes, foi canal de graça para muitos! Ela não pregava uma religião ideológica, mas atuante, preocupada com os problemas dos pobres e dos mais necessitados! Da mesma forma, nós também devemos pôr em prática o que nos manda o Senhor. Isso faz do mundo um ambiente muito melhor de se viver. De fato, se os cristãos não pregarem Jesus por meio de ações concretas, quem o fará? A mudança do mundo começa, pois, em nós. Depende da nós fazer diferente e, além de buscar a salvação, buscar promover o bem em meio a um mundo tão difícil de se lidar.

Não podemos pensar que o mundo está perdido. Não está! Nós estamos aí justamente para fazer diferente. Cabe a nós, cristãos, transformar pela ação do Espírito a humanidade e cumprir a palavra atual de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2). E lembremo-nos sempre das palavras animadoras do Papa João Paulo I, no Ângelus do dia 24 de setembro de 1978:

Às vezes diz-se: “estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral”. Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: “Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. E Ele deu sempre. Colocado na cruz, não só perdoou aos que o crucificaram, mas desculpou-os. Disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Isto é cristianismo, são sentimentos que, se fossem postos em prática tanto ajudariam a sociedade!

Graça e paz.

2 thoughts on ““…mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai…”

  1. Bom dia, Everth!

    Fazendo uma procura no google sobre o tema “fazer a vontade do Pai”, o buscador remeteu-me, entre outros, ao site Eclesia Una, onde encontrei um interessante artigo no qual você comenta a relação entre a Fé e as obras. Está de parabéns.
    Está muito bem argumentado no sentido de mostrar como as afirmações de certas crenças evangélicas a respeito da fé sem obras são falsas.
    Entretanto, fiquei um pouco decepcionado ao ver que logo abaixo de seu artigo encontram-se diversos links conduzindo a sites ou blogs justamente… protestantes ou evangélicos!
    Como católico praticante, não posso compreender essa dualidade. Como posso afirmar algo numa determinada direção e sugerir caminhos em sentidos opostos? Vejo uma flagrante contradição. Sobretudo ainda se considerarmos que entre os protestantes eles armam, dia a dia, uma guerra sem tréguas contra nós.
    Gostaria de deixar aqui esta minha perplexidade.

    Com todo o respeito
    Lucio Vicentini

    • Lucio Vicentini,

      Perplexo estou eu, que realmente não consigo entender onde, aqui neste blog, há links conduzindo a sites ou blogs protestantes.

      Graça e paz.
      Salve Maria Santíssima!

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