A dignidade do padre excede todas as dignidades criadas

[O Ano Sacerdotal traz em nós grandes reflexões acerca da dignidade sacerdotal. Essa é, segundo Santo Afonso de Ligório, mais alta que a dos anjos e o poder ao padre conferido é maior que o da Santíssima Virgem Maria. O trecho abaixo compilado é extraído do livro “A Selva”, de Sto. Afonso de Ligório. Fala que a dignidade do padre excede todas as dignidades criadas. É realmente lindo observar quão grande é a dignidade aos padres conferida! Boa leitura]

IV

A dignidade do padre excede todas as dignidades criadas

A dignidade sacerdotal é pois neste mundo a mais alta de todas as dignidades, nota Sto. Ambrósio. Ela excede, diz S. Bernardo, todas as dignidades dos imperadores e dos anjos. Santo Ambrósio ajunta que a dignidade do padre sobreleva à dos reis como o ouro ao chumbo. A razão disso, segundo S. João Crisóstomo, é que o poder dos reis só se estendem aos bens temporais e aos corpos, ao passo que o dos padres abrange os bens espirituais e as almas. Donde se conclui, em conformidade com o que fica exposto, que o poder ou a dignidade do padre é tão superior à dos príncipes como a alma ao corpo; era o que já tinha dito o Papa S. Clemente.

É uma glória para os reis da terra honrar os padres; é isso próprio dum bom príncipe, diz o Papa Marcelo. Os reis, diz Pedro de Blois, apressam-se a dobrar o joelho diante do sacerdote, a beijar-te a mão, e a abaixar humildemente a cabeça para receberem a sua bênção.

Reconhecem assim a superioridade do sacerdócio, diz S. João Crisóstomo. Conta Barônio que Leôncio, bispo de Trípoli, tendo sido chamado à côrte pela imperatriz Eusébia, lhe mandara dizer que, se queria a visita dele, era necessário que primeiro aceitasse as seguintes condições: que à sua chegada a imperatriz desceria do seu trono, viria inclinar a cabeça sob as suas mãos, pedir-lhe e receber dele a bênção; depois ele se assentaria, e ela só o poderia fazer com permissão sua. Terminava por dizer-lhe que, a não se darem essas condições, jamais poria os pés na sua côrte.

Convidado para a mesa do imperador Máximo, S. Martinho brindou primeiro o seu capelão e só depois o imperador. No Concílio de Nicéia, quis Constantino Magno ocupar o último lugar, depois de todos os sacerdotes, num assento menos elevado; e ainda se não quis assentar sem permissão deles. O santo rei Boleslau tinha pelos sacerdotes uma tal veneração que não se assentava na presença deles.

A dignidade sacerdotal ultrapassa até a dos anjos, razão por que também estes a veneram. Velam os anjos da guarda pelas almas que lhe estão confiadas, de modo que, se elas se encontram em estado de pecado mortal, excitam-nas a recorrer aos sacerdotes, esperando que eles pronunciem a sentença de absolvição; assim fala S. Pedro Damião.

Se um moribundo pedir a assistência de S. Miguel, bem poderá, é verdade, este glorioso arcanjo expulsar os demônios que o cercarem, mas não quebrar-lhes as cadeias, se não vier um padre que o absolva. Acabando S. Francisco de Sales de conferir a ordem de presbítero a um digno clérigo, notou à saída que ele trocava algumas palavras com outra pessoa, a quem queria ceder a passo. Interrogado pelo Santo, respondeu ao jovem sacerdote que o Senhor o tinha honrado com a presença visível do seu anjo da guarda. Este antes da sua elevação ao sacerdócio caminhava à sua direita e precedia-o, mas agora tomava a esquerda e recusava caminhar diante; por isso ele se tinha ficado à porta, numa santa contenda com o anjo. S. Francisco de Assis dizia: “Se eu visse um padre, primeiro ajoelharia diante do padre, e depois diante do anjo”.

Mais ainda, o poder do padre excede até o da santíssima Virgem; porque a Mãe de Deus pode pedir por uma alma e obter-lhe quanto quiser pelas suas súplicas, mas não pode absolvê-la da menor falta. Escutemos Inocêncio III: “Embora a santíssima Virgem esteja elevada acima dos apóstolos, não foi contudo a ela, mas a eles que o Senhor confiou as chaves do reino dos céus”.

Por outro lado, S. Bernardino de Sena, dirigindo-se a Maria, diz igualmente que Deus elevou o sacerdócio acima dela; e eis a razão que dá: Maria concebeu Jesus Cristo uma só vez; o padre pela consagração concebe-o, por assim dizer, quantas vezes quer; de modo que, se a pessoa do Redentor ainda não existisse no mundo, o padre, pronunciando as palavras das consagração, produziria realmente esta pessoa sublime do Homem-Deus.

Daqui esta bela exclamação de Sto. Agostinho: “Ó venerável dignidade a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna como encarnou no seio da Virgem!”. Por isso S. Bernardo, entre muitos outros, chama aos padres pais de Jesus Cristo. De fato, são causa da existência real da pessoa de Jesus Cristo na Hóstia consagrada.

De certo modo, pode o padre dizer-se criador do seu Criador, porque pronunciando as palavras da consagração, cria Jesus Cristo sobre o altar, onde lhe dá o ser sacramental, e o produz como vítima para o oferecer a Padre eterno. Para criar o mundo, Deus só disse uma palavra: Disse, e tudo foi feito; do mesmo modo, basta que o sacerdote diga sobre o pão: Isto é o meu corpo; = Hoc est corpus meum; e eis que o pão deixou de ser pão: é o corpo de Jesus Cristo. S. Bernardino de Sena vê nesta maravilha um poder igual ao que criou o universo. E Sto. Agostinho exclama de assombro: “Ó venerável e sagrado poder o das mãos do padre! Ó glorioso ministério! Aquele que me criou a mim, deu-me, se ouso dizê-lo, o poder de o criar a ele; e ele que me criou sem mim, criou-se a si por meio de mim!”

Assim como a palavra de Deus criou o céu e a terra, assim também, diz S. Jerônimo, as palavras do padre criam Jesus Cristo. Tão alta é a dignidade do padre que vai até abençoar sobre o altar o próprio Jesus, como Vítima para oferecer ao Padre eterno. Segundo nota o Pe. Mansi, no sacrifício da Missa, Jesus Cristo é considerado como Sacrificador principal e como Vítima: como Sacrificador abençoa o padre; mas, como Vítima, é abençoado pelo padre.

L’Osservatore Romano e Harry Potter

Ainda não tive tempo de comentar algumas notícias que saíram por aí. Por isso, aconselho vocês a darem sempre uma olhada no blog do Jorge, o Deus lo Vult! As atualizações lá esse mês estão melhores que aqui, afinal, como vos havia dito, estou de férias e meio sem tempo de escrever uns artigos. Mas mês que vem as coisas voltam ao normal.

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O que gostaria especificamente de comentar hoje está relacionado ao filme Harry Potter. Amanhã, dia 15, estréia nos cinemas o novo filme da série do bruxinho. E o jornal L’Osservatore Romano fez questão de comentar não a série em geral, mas em especial esse novo filme, “O enigma do príncipe”. Como não poderia deixar de ser, me alertaram sobre o comentário do jornal do Vaticano. E eu também estava dando uma lida no ACI Digital sobre a notícia.

Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar a diferença de verbos que contrastou nas notícias expostas no G1 e no ACI. Em G1, se fala que o jornal elogiou o novo filme; o site ACI, mais cauteloso, prefere utilizar o termo “comenta” para designar a forma como o jornal falou de Harry Potter. Mais uma vez o L’Osservatore Romano se mostrou imparcial sobre o assunto. Se não foi imparcial, pelo menos não manifestou de maneira clara a sua opinião sobre a série em geral.

Especificamente esse filme da série foi, em alguns aspectos, elogiado pelo jornal do Vaticano. Segundo o G1, o “mérito estaria em esclarecer embate entre bem e o mal”. Menos mal, afinal isso não aconteceu nos outros filmes da série. Contudo, destacou a Agência ACI, o jornal não tardou em combater o caráter anti-cristão e deseducativo de Harry Potter:

O [jornal] (…) critica logo como, em meio de tudo, aparece constantemente uma referência à “espiritualidade new age”; e que o filme é acusado por alguns de “instigar as jovens à fuga da realidade e instalar neles ilusões de que existem poderes sobrenaturais com os quais podem controlar o mundo segundo o seu prazer. Em resumo, uma saga deseducativa e inclusive anti-cristã”.

Para o autor do artigo, Gaetano Vallini, na proposta de Rowling “falta uma referência à transcendência, a um desenho providencial no qual os homens vivam suas histórias pessoais e a história tome forma. Assim como é certo que, no mecanismo clássico das fábulas, o protagonista se vê em meio de vivencias nas quais a magia é quase sempre um instrumento nas mãos do mal”.

Não adianta alguns virem e me mostrarem a notícia tendenciosa publicada pelo G1 afirmando que o novo filme de Harry Potter é bom. Isso definitivamente não me convence. Afinal – é importante destacar – quando condenei a saga de Harry Potter falava da obra de J.K. Rowling como um todo. Não analisava somente esse filme da série. E é inclusive o que eu gostaria de destacar: quando o L’Osservatore Romano “elogiava” HP, falava bem especificamente desse novo filme lançado e não da saga como um todo. Pelo contrário, ao falar da saga, o autor do artigo a chama de “deseducativa e inclusive anti-cristã” (grifos meus).

A palavra “anti-cristã” é pesada. O jornal não a usaria à toa. Espero que todos abram os olhos para a realidade geral do filme.

Graça e paz.