Entre vós não deve ser assim


“Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.

(Evangelho de São Marcos, 10, 42-45)

Olhamos para as palavras de Jesus e nelas vemos o belo reflexo de Maria. Quando o anjo Gabriel anunciou que ela deveria ser escolhida a Mãe do Salvador, ela não hesitou em responder-lhe: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1, 38). Maria, nossa Mãe, que é Rainha, foi grande; mas não porque recebeu glórias e honrarias nessa vida. Para que ela fosse grande, antes que teria que ser serva da Igreja. E Maria é o exemplo mais perfeito dessa obediência, dessa servidão. Desde o princípio de sua humilde vida ela foi serva do Senhor e é essa a razão mais especial pela qual Deus escolheu essa “grande” mulher para ser aquela na qual Cristo encarnar-se-ia.

As palavras de Jesus hoje para nós expressam particularidade. Enquanto no povo judaico as pessoas eram oprimidas e tiranizadas, no povo cristão isso não mais deveria acontecer. Por isso ele diz: entre vós, não deve ser assim. Eu não quero – diz o Senhor – que haja injustiças, que haja tirania, que haja maldade, que haja brigas e contendas no meio de vós! O meu povo – brada Jesus – não! Mas infelizmente o que vemos hoje é totalmente o contrário dessa vontade de Jesus. Contrastando com a imagem virtuosa de Nossa Senhora, serva do Senhor, estamos nós. Sim, exatamente nós, que nos dizemos cristãos, estamos vivendo à margem da opulência das riquezas, da busca pelo poder e das iguarias deste mundo.

O problema em si não está em governarmos um povo. Não. Isso não é problema. Aqui Jesus condena a maneira errada de se governar. Não se pode governar com autoritarismo e opressão. É preciso governar com e por amor. Mas infelizmente não é isso que acontece…

Entre nós, não deveria ser assim. Mas nós e também Jesus – afinal é esse o motivo pelo qual a tradução usa o verbo “dever” – sabemos que a realidade é outra. Traçamos então um paralelo entre o ideal e o real. O que é o ideal? Que combatamos a opressão e a tirania. O que é o real? Que somos nós os opressores e os tiranos da sociedade. E até mesmo dentro das nossas igrejas vemos essa triste realidade acontecer. Mas Tiago e João vêm desmascarar a hipocrisia que vivemos hoje. Eles tiveram a coragem de mostrar para Jesus o que queriam. E eles queriam poder. Mas muitos de nós somos como os outros dez apóstolos, que nos escondemos em nossas máscaras e em nossa vaidade, mas insistimos em buscar o poder, em buscar a glória, em buscar ser o melhor.

Não é ruim querer ser bom. Mas, para ser bom eu preciso, antes de qualquer coisa, servir. Jesus, que é o Rei dos reis, o Mestre dos mestres, o Senhor dos senhores, veio a terra para servir e nós, que somos pó, que somos seres cruéis e malvados, queremos ser servidos! Não é absurdo?! Sem dúvida. Mas – é triste de se dizer – nós estamos nessa lama de soberba.

E para sairmos dela precisamos pôr em prática na nossa vida aquilo que Maria disse ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor”. Eis aqui: eu preciso estar pronto para servir. Não existe espera ou daqui a pouco eu faço no vocabulário do cristão. É preciso dizer imediatamente ao Senhor: “Eis-me aqui!” Depois, reconheçamos que somos todos escravos de Deus por natureza. Assim será fácil tornar-se livremente escravo do amor de Deus:

“A escravidão voluntária é a mais perfeita, a mais gloriosa aos olhos de Deus, que olha o coração (1 Rs 16, 7), que pede o coração (Pv 23, 26) e que é chamado o Deus do coração (Sl 72, 26) ou da vontade amorosa, porque, por esta escravidão, escolhe-se, sobre todas as coisas, a Deus e seu serviço, ainda quando não o obriga a natureza”.

(São Luís de Montfort, Tratado de Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, 70)

Por fim, lemos no Evangelho de hoje: “[O] Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10, 45). Orígenes vai dizer que os príncipes da Igreja devem imitar a Cristo (cf. Homilia 12 in Matthaeum via Catena Aurea). Nós não viemos a esse mundo para sermos servidos; mas para servir e dar a nossa vida pelo próximo. Por mais que nos humilhemos, temos a consciência de que desceremos ao mesmo nível que Nosso Senhor se rebaixou. São João Crisóstomo deixa isso bem claro a todos nós (cf. Hom. 65, 4 via Catena Aurea). Mas a Tradição quer nos mostrar que o nosso esforço, a nossa vontade são importantes.

Servir: eis o mandato de Cristo hoje para nós. Que Nossa Senhora, a eterna serva do Senhor, nos ajude a cumprir essa ordem divina. Não desanimemos ante as dificuldades. Deus é conosco.

Graça e paz.