O conhecimento só cresce quando se ama a verdade

Audiência do Papa Bento XVI no dia 28 de outubro de 2009

Tradução: Agência Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje vamos falar de uma interessante página da história, relativa ao florescimento da teologia latina no século XII, que teve lugar por uma série providencial de coincidências. Nos países da Europa Ocidental, reinava então uma relativa paz, que assegurava à sociedade o desenvolvimento econômico e a consolidação das estruturas políticas, que favorecia uma vivaz atividade cultural, graças também aos contatos com o Oriente.

Dentro da Igreja, advertiam-se os benefícios da vasta ação conhecida como “reforma gregoriana”, que, promovida no século anterior, havia trazido uma maior pureza evangélica à vida da comunidade eclesial, sobretudo no clero, e havia restituído à Igreja e ao papado uma autêntica liberdade de ação. Além disso, ia se difundindo uma vasta renovação espiritual, apoiada pelo exuberante desenvolvimento da vida consagrada: nasciam e se expandiam novas ordens religiosas, enquanto as já existentes conheciam uma recuperação prometedora.

Voltou a florescer também a teologia, adquirindo uma maior consciência de sua própria natureza: afinou o método, enfrentou problemas novos, avançou na contemplação dos mistérios de Deus, produziu obras fundamentais, inspirou iniciativas importantes na cultura, da arte à literatura, e preparou as grandes obras do século posterior, o século de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio. Dois foram os ambientes em que se desenvolveu esta fervente atividade teológica: os mosteiros e as escolas cidadãs, as scholae, algumas das quais logo dariam vida às universidades, que constituem um dos típicos “inventos” do medievo cristão.

Precisamente a partir destes dois ambientes, os mosteiros e as scholae, pode-se falar de dois diferentes modelos de teologia: a “teologia monástica” e a “teologia escolástica”.

Os representantes da teologia monástica eram monges, em geral abades, dotados de sabedoria e de fervor evangélico, dedicados essencialmente a suscitar e alimentar o desejo amoroso de Deus. Os representantes da teologia escolástica eram homens cultos, apaixonados pela pesquisa; eram magistri desejosos de mostrar a racionalidade e a fundamentação dos mistérios de Deus e do homem, cridos com a fé, mas compreendidos também pela razão. A finalidade distinta explica a diferença do seu método e de sua forma de fazer teologia.

Nos mosteiros do século XII, o método teológico estava ligado principalmente à explicação da Sagrada Escritura, da sacra pagina, usando uma expressão dos autores daquele período; praticava-se especialmente a teologia bíblica. Os monges, portanto, eram ouvintes e leitores devotos das Sagradas Escrituras, e uma das suas principais ocupações consistia na lectio divina, isto é, na leitura orante da Bíblia. Para eles, a simples leitura do texto sagrado não bastava para perceber seu sentido profundo, sua unidade interior e sua mensagem transcendente. Era necessário, portanto, praticar uma “leitura espiritual”, conduzida em docilidade ao Espírito Santo. Na escola dos Padres, a Bíblia era assim interpretada alegoricamente, para descobrir em cada página, tanto do Antigo como do Novo Testamento, o que se diz de Cristo e da sua obra de salvação.

O Sínodo dos Bispos do ano passado, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, sublinhou a importância do agradecimento espiritual às Sagradas Escrituras. Com este objetivo, é útil fazer um tesouro da teologia monástica, uma exegese bíblica ininterrupta, como também das obras compostas pelos seus representantes, preciosos comentários ascéticos aos livros da Bíblia.

À preparação literária, a teologia monástica unia, portanto, a espiritual. Era consciente de que uma leitura puramente teórica e profana não era suficiente: para entrar no coração da Sagrada Escritura, é preciso lê-la no espírito em que foi escrita e criada. A preparação literária era necessária para conhecer o significado exato das palavras e facilitar a compreensão do texto, afinando a sensibilidade gramatical e filológica.

O pesquisador beneditino do século passado, Jean Leclerq, intitulou assim o ensaio com o qual apresenta as características da teologia monástica: L’amour des lettres et le désir de Dieu (“o amor das letras e o desejo de Deus”). Em efeito, o desejo de conhecer e de amar a Deus, que sai ao nosso encontro através da sua Palavra, que é preciso acolher, meditar e praticar, conduz a buscar o aprofundamento dos textos bíblicos em todas as suas dimensões.

Há também outra atitude sobre a que insistem aqueles que praticam a teologia monástica e é uma atitude íntima de oração, que deve preceder, acompanhar e completar o estudo da Sagrada Escritura. Dado que, em última instância, a teologia monástica é escuta da Palavra de Deus, não se pode não purificar o coração para acolhê-la e, sobretudo, não se pode não acendê-lo de fervor para encontrar o Senhor. A teologia se converte, portanto, em meditação, oração, canto de louvor e conduz a uma sincera conversão. Muitos representantes da teologia monástica chegaram, por esta via, às mais altas metas da experiência mística e constituem um convite, também para nós, a nutrir nossa existência da Palavra de Deus, por exemplo, mediante uma escuta mais atenta das leituras do Evangelho, especialmente na Missa dominical. É importante, além disso, reservar um tempo cada dia à meditação da Bíblia, para que a Palavra de Deus seja lâmpada que ilumina nosso caminho cotidiano na terra.

A teologia escolástica, no entanto, era praticada nas scholae, como comentei; estas surgiram junto às grandes catedrais da época, para a preparação do clero, ou em torno de um mestre de teologia e seus discípulos, para formar profissionais da cultura, em uma época na qual o saber era cada vez mais valorizado. No método dos escolásticos, era central a quaestio, isto é, o problema que se apresenta ao leitor ao enfrentar as palavras da Escritura e da Tradição. Diante de um problema que estes textos autorizados expõem, surgem questões e nasce o debate entre o professor e os estudantes. Neste debate, aparecem, por um lado, os argumentos da autoridade e, por outro, os da razão e o debate se desenvolve no sentido de encontrar, no final, uma síntese entre autoridade e razão, para chegar a uma compreensão mais profunda da Palavra de Deus.

Com relação a isso, São Boaventura diz que a teologia é per additionem (cf. Commentaria in quatuor libros sententiarum, I, proem., q. 1, concl.), isto é, a teologia acrescenta a dimensão da razão à Palavra de Deus e, assim, cria uma fé mais profunda, mais pessoal e, portanto, também mais concreta na vida do homem. Neste sentido, encontravam-se diversas soluções e se formavam conclusões que começavam a construir um sistema de teologia. A organização das quaestiones levava à compilação de sínteses cada vez mais extensas, ou seja, compunham-se as diversas quaestiones com as respostas resultantes, criando assim uma síntese, as chamadas summae, que eram, na verdade, amplos tratados teológico-dogmáticos nascidos da confrontação da razão humana com a Palavra de Deus.

A teologia escolástica buscava apresentar a unidade e a harmonia da Revelação cristã com um método, chamado precisamente de “escolástico”, da escola, que concede confiança à razão humana: a gramática e a filologia estão ao serviço do saber teológico, mas está ainda mais a lógica, isto é, esta disciplina que estuda o “funcionamento” do raciocínio humano, de forma que apareça claramente a verdade de uma proposição. Ainda hoje, lendo as summae escolásticas, a pessoa fica surpreendida pela ordem, pela clareza, pela concatenação lógica dos argumentos e pela profundidade de algumas intuições. Com linguagem técnica, atribui-se a cada palavra um significado preciso e, entre o crer e o compreender, estabelecia-se um movimento recíproco de clarificação.

Queridos irmãos e irmãs: seguindo o convite da Primeira Carta de Pedro, a teologia escolástica nos anima a estar sempre dispostos a responder a quem pedir razões da esperança que está em nós (cf. 3, 15). Sentir as perguntas como nossas e ser, assim, capazes também de dar uma resposta. Recorda-nos que entre fé e razão existe uma amizade natural, fundada na própria ordem da criação.

O Servo de Deus João Paulo II, no incipt da encíclica Fides et ratio, escreve: “Fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. A fé está aberta ao esforço da compreensão por parte da razão; a razão, por sua vez, reconhece que a fé não a mortifica, mas, ao contrário, leva-a a horizontes mais amplos e elevados. Insere-se aqui a perene lição da teologia monástica. Fé e razão, em diálogo recíproco, vibram de alegria quando ambas estão animadas pela busca da íntima união com Deus.

Quando o amor vivifica a dimensão orante da teologia, o conhecimento, adquirido pela razão, se engrandece. A verdade deve ser buscada com humildade, acolhida com estupor e gratidão; em uma palavra, o conhecimento só cresce quando se ama a verdade. O amor se converte em inteligência e teologia autêntica, sabedoria do coração, que orienta e sustenta a fé e a vida dos crentes. Oremos, portanto, para que o caminho do conhecimento e do aprofundamento dos mistérios de Deus seja sempre iluminado pelo amor divino.

Papa Bento XVI

Audiência Geral”, 28-10-09

PAPA PEDE QUE FIÉIS PRESTEM ATENÇÃO A LEITURAS DO EVANGELHO

CIDADE DO VATICANO, 28 OUT (ANSA) – O papa Bento XVI pediu para que os fiéis prestem mais atenção às leituras do Evangelho durante as missas dominicais, ao discursar na audiência geral de hoje.
Diante de 15 mil pessoas na Praça São Pedro, o Pontífice também recomendou que as pessoas reservem “um certo tempo, todos os dias, para uma meditação sobre a Bíblia, porque ela é a lâmpada que ilumina o nosso caminho sobre a terra”.
Bento XVI escolheu abordar o tema do desenvolvimento teológico do século XII em sua catequese desta quarta-feira, na qual compareceram o prefeito de Roma, Gianni Alemanno, e o casal holandês Paul e Wilma Van Munster, vítimas de uma agressão na capital italiana ocorrida em agosto de 2008.
Bento XVI explicou que, naquele século, se formaram dois modelos de teologia: a monásticas e a escolásticas, as quais, segundo o Papa, são diferentes, mas complementares.
“A primeira foi desenvolvida por monges, devotos, ouvintes e leitores da Sagrada Escritura, que procuravam incentivar e nutrir o desejo amoroso de Deus. Já a teologia escolástica é obra de pessoas cultas, de mestres que desejavam mostrar o caráter razoável e o fundamento dos mistérios de Deus e do homem, que devem ser acreditados com fé, mas também compreendidos pela razão”, destacou o Pontífice.
Bento XVI ainda comentou que uma série de coincidências providenciais” favoreceu, no século XII, um florescimento da teologia latina.
“De um lado, a paz e o desenvolvimento econômico da Europa. Do outro, a reforma gregoriana promovida no século anterior”, que “levou a uma maior pureza evangélica na vida eclesial”, afirmou o Pontífice.
“Nesse contexto, a teologia floresceu, adquirindo consciência de sua própria natureza e inspirando iniciativas importantes para a cultura, arte e literatura”, disse o Papa.
Antes destes pronunciamentos, um coral infanto-juvenil da cidade de Maringá, no Paraná, cantou a música “Aquarela do Brasil” na Praça São Pedro. Ao fim da audiência geral, Bento XVI cumprimentou Alemanno e o casal holandês. (ANSA)

28 de Outubro – São Simão e São Judas Tadeu

PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
Simão o Cananeu e Judas Tadeu

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos: Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, excepto o facto que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.
Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas: Mateus qualifica-o como “cananeu”, Lucas define-o “zelote”. Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa: na língua hebraica, de facto, o verbo qanà‘ significa “ser zeloso”, “dedicado” e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Êx 20, 5), quer a homens que são zelosos no serviço a Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1 Rs 19, 10). Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exactamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que ao contrário, sendo publicano, provinha de uma actividade considerada totalmente impura.
Sinal evidente que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das camadas sociais e religiosas mais diversas, sem exclusão alguma. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas actividades! E o mais belo é que no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo se diversos, coexistiam, superando as inimagináveis dificuldades: de facto, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a realçar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo nos é dada a força para superar os nossos conflitos. Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua composição e a sua unidade na comunhão com Jesus.
No que se refere depois a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes: de facto, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente “Tadeu” (Mt 10, 3; Mc 3, 18), Lucas chama-o “Judas de Tiago” (Lc 6, 16; Act 1, 13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà‘, que significa “peito” e, por conseguinte, significaria “magnânimo”, ou como abreviação de um nome grego como “Teodoro, Teódoto”. Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor: “Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?”. É uma pergunta de grande actualidade, que também nós fazemos ao Senhor: porque o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos Discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz: “Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.
Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas “católicas” porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De facto, ele dirige-se “aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo” (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos de todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e para desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja “deixando-se levar pelo seu delírio” (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusivamente aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que “seguiram pelo caminho de Caim” (v. 11). Além disso classifica-os sem reticências como “nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas” (vv. 12-13).
Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polémica, que contudo nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguida com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã. Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem face às contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim: “Mas vós, caríssimos, fala a todos nós mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam…” (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras: “Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos, Amém” (vv. 24-25).
Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu, como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.

NA AUDIÊNCIA GERAL, PAPA FALA DO RENASCIMENTO DA TEOLOGIA LATINA

Cidade do Vaticano, 28 out (RV) – Quarta-feira é dia de Audiência Geral. Aos milhares de fiéis e peregrinos reunidos na Praça S. Pedro, Bento XVI não falou de um santo em especial, mas do século doze, um período que foi favorável para o renascimento da teologia latina.

Naquele tempo, explicou o papa, reinava na Europa a paz e o desenvolvimento econômico e social. Na Igreja, a “reforma gregoriana” estava produzindo notáveis frutos, como a expansão da vida consagrada. Este ressurgir pôs as bases para que, no século treze, despontassem figuras como Santo Tomás ou São Boaventura.

Neste contexto, continuou o pontífice, os mosteiros foram um âmbito de grande atividade teológica. Neles, os monges, dotados de uma vasta cultura e de um grande fervor evangélico, tentavam suscitar o desejo por Deus, mediante a contemplação dos mistérios sagrados na Escritura. Precisamente, esta aproximação espiritual ao texto bíblico – a lectio divina – foi um dos temas centrais do Sínodo dos Bispos do ano passado.

Outro âmbito deste florescimento teológico foram as escolas que apareceram junto às catedrais. Estes centros, dedicados à instrução do clero, buscavam apresentar a harmonia e a unidade da Revelação Cristã, mediante o chamado “método escolástico”, onde predomina a confiança na razão para a compreensão das verdades da fé.

Em português, Bento XVI explica este período:

“Queridos irmãos e irmãs,


No século XII, a partir dos mosteiros e das escolas junto das catedrais, desenvolveram-se dois modelos diferentes de teologia: a «teologia monástica» e a «teologia escolástica». A primeira foi desenvolvida pelos monges, devotados ouvintes e leitores orantes da Sagrada Escritura, que procuravam incentivar e nutrir o desejo amoroso de Deus. A teologia escolástica é obra de pessoas cultas, de mestres desejosos de mostrar o caráter razoável e o fundamento dos mistérios de Deus e do homem, que se devem acreditar com a fé, mas também compreender pela razão. Fé e razão, em recíproco diálogo, vibram de alegria quando ambas são animadas pela busca duma união cada vez mais íntima com Deus.


Amados peregrinos do Porto e demais pessoas de língua portuguesa, sede bem-vindos! Uma saudação particular ao coro infanto-juvenil de Maringá e aos grupos paroquiais de Santa Cruz, em Belém, e de Nossa Senhora do Carmo, no Rio de Janeiro. Que nada vos impeça de viver e crescer na amizade de Deus. Procurai iluminar o vosso caminho com a Palavra divina, ouvindo-a atentamente na Eucaristia do domingo e reservando alguns momentos em cada dia para a sua meditação. Sobre vós e vossas famílias, desça a minha bênção.”

Antes que o papa saudasse os fiéis de língua portuguesa, o coro infanto-juvenil de Maringá entoou a música “Aquarela do Brasil” na Praça S. Pedro:
(BF)

DISCO DO PAPA SAI DIA 29 DE NOVEMBRO

Cidade do Vaticano, 28 out (RV) – Será lançado em todo o mundo, no próximo dia 29 de novembro, ‘Alma Mater, Music from the Vatican’, o álbum em que traz pela primeira vez gravada a voz de Bento XVI. Uma parte das entradas provenientes da venda irá para a educação musical de crianças pobres dos cinco continentes.

A produção é fruto de um acordo discográfico entre a Geffen/Universal, uma das principais siglas dos EUA, e a Multimedia, etiqueta dos Paulinos.

Para o presidente da Geffen, Colin Barlow, “é uma produção histórica”; e segundo o Pe. Vito Fracchiolla, “é uma obra de grande valor cultural, em linha com a missão do Grupo São Paulo e destinada a todas as pessoas, sem distinções”.

Em “Alma Mater”, o papa lê e canta acompanhado pelo Coro da Academia Filarmônica Romana e pela célebre Orquestra Filarmônica Real de Londres. São oito trechos originais de música sacra moderna, mesclados a orações, ladainhas e cantos marianos, com a voz do papa em latino, italiano, francês, alemão e português.

As músicas do disco foram escolhidas porque respondem perfeitamente à intenção de produzir um CD que fosse universalmente atraente, e têm como inspiração os cantos gregorianos, com suas profundas raízes históricas.

Elas foram selecionadas por uma comissão de três compositores: Simon Boswell, Stefano Mainetti e Nour Eddine, respectivamente ateu, católico e muçulmano.

Já em 1999, o papa João Paulo II participou de uma iniciativa semelhante. A primeira tiragem do CD ‘Abba Pater’, de mais de um milhão de cópias, esgotou-se em poucos dias. (CM)

MENSAGEM DE BENTO XVI A KAREKIN II

Cidade do Vaticano, 27 out (RV) – Bento XVI enviou hoje uma mensagem ao Patriarca e Catholicos de Todos os Armênios, Karekin II.

O motivo da mensagem é o décimo aniversário da eleição e entronização de Karekin II como Patriarca Supremo.

O papa afirma que conhece o empenho pessoal de Karekin II em prol do diálogo, da cooperação e da amizade entre a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Católica – empenho expresso claramente pelos vários encontros realizados recentemente entre as duas Igrejas. “Faço votos de que as boas relações que foram estabelecidas entre nós continuem a se fortalecer nos próximos anos” – lê-se no texto.

Por fim, Bento XVI recorda a reconquista da liberdade por parte da Igreja armênia no final do século passado. Em pouco tempo, o esforço para a reconstrução da comunidade eclesial já produziu frutos: a educação da juventude, o aumento de vocações, a construção de novas igrejas e centros comunitários e a promoção dos valores cristãos na vida cultural e social da nação. (BF)

BENTO XVI IRÁ A TURIM EM 2010, POR OCASIÃO DA EXPOSIÇÃO DO SANTO SUDÁRIO

Cidade do Vaticano, 27 out (RV) – Bento XVI irá a Turim – noroeste da Itália – dia 2 de maio de 2010, por ocasião da exposição do Santo Sudário, que se realizará de 10 de abril a 23 de maio do próximo ano.

Foi o que anunciou com uma carta o arcebispo de Turim, Cardeal Severino Poletto, que ontem, segunda-feira, foi recebido no Vaticano pelo Santo Padre.

Como primeiro ato da visita, o pontífice se deterá em oração diante do Santo Sudário, na Catedral de Turim. Em seguida, na praça da catedral – Praça São João – terá lugar a solene concelebração eucarística para todos os fiéis e peregrinos presentes, ao término da qual o papa fará a oração mariana do Angelus.

Na parte da tarde, Bento XVI encontrará os jovens na paróquia Santa Face de Turim. Durante o trajeto rumo à paróquia, o papa fará uma breve visita ao hospital Cotollengo para encontrar e abençoar os pacientes da Pequena Casa da Divina Providência.

Eis um trecho da referida carta do Cardeal Poletto, na qual o purpurado anuncia a visita do pontífice:

O dia que o Santo Padre transcorrerá em Turim será para todos nós uma ocasião “única” para encontrá-lo, rezar por ele e com ele, e escutar a mensagem particular que ele trará à Igreja de Turim e para toda a sociedade civil do nosso território.

O papa quer, sobretudo, oferecer uma palavra de conforto aos que sofrem, e o fará em sintonia com o tema da exposição do Santo Sudário “Passio Christi, Passio hominis” (Paixão de Cristo, Paixão do homem, ndr).

Ademais, no espírito de sua última encíclica “Caritas in veritate”, expressará encorajamento e esperança para aqueles que anseiam uma vaga de trabalho nesta cidade, que sempre foi considerada a “Cidade do trabalho e da indústria”, que, porém, neste momento, mais do que em outro lugar sente as conseqüências de uma crise vasta e prolongada que vai além das expectativas.

Estou certo de interpretar o sentimento geral ao expressar o meu sincero reconhecimento a Sua Santidade, porque a sua visita será para a nossa cidade e arquidiocese um presente extraordinário do seu coração de Pai e, portanto, convido todos a elevarem desde já fervorosas orações ao Senhor e à Virgem da Consolação por sua pessoa e por seu empenhado Ministério.

Nós o acolheremos com grande afeto e entusiasmo e isso lhe será de apoio e conforto para continuar por muitos anos oferecendo-nos o belo testemunho de sua fé e de sua sabedoria com a qual está conduzindo a Igreja; tornando-se assim, para o mundo inteiro, um ponto de referência de primeira importância para a defesa dos valores fundamentais de toda a humanidade.

Permanecendo na alegre expectativa de vivermos com proveito essa visita pastoral do Santo Padre, devemos empenhar-nos com sinceridade para não perdermos a ocasião especial de graça que esse evento nos oferece a todos; evento que dará novo impulso ao caminho espiritual e pastoral das nossas comunidades cristãs e infundirá esperança e confiança a todos nós, a começar pelas muitas pessoas provadas pela pobreza e por todo tipo de sofrimento físico e moral. (RL)

PUBLICADO PROGRAMA DA VISITA DO PAPA A BRESCIA, TERRA DE PAULO VI

Cidade do Vaticano, 27 out (RV) – Foi publicado esta manhã, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o programa da visita pastoral que Bento XVI fará a Brescia e Concesio – norte da Itália – no domingo, 8 de novembro próximo.

O pontífice deverá chegar às 9h30 locais ao aeroporto Ghedi de Brescia. Dali fará uma visita privada à igreja de Botticino Sera, onde venerará as relíquias de Santo Arcangelo Tadini.

Às 10h30 locais, celebrará a santa missa e recitará o Angelus no adro da Catedral de Brescia, na Praça Paulo VI.

Na parte da tarde, após a visita ao centro pastoral Paulo VI, em Brescia, visitará, na localidade de Concesio, a casa natal do Papa Montini e o novo Instituto Paulo VI. A sede será inaugurada pelo próprio Santo Padre. Na ocasião será também indicado o VI Prêmio internacional Paulo VI.

O último compromisso do papa na referida visita pastoral terá lugar por volta das 18h locais, quando Bento XVI visitará a paróquia Santo Antônio, em Concesio, onde Giovanni Battista Montini foi batizado. (RL)

Por intermédio de Maria – São Luís de Montfort

Esta devoção leva a imitar o exemplo dado por Jesus Cristo, e a praticar a humildade

São Luís de Montfort

139. (…)

Este bom Mestre não desdenhou encerrar-se no seio da Santíssima Virgem, como um cativo, um escravo amoroso, e submeter-se a ela, obedecendo-lhe durante trinta anos. É aqui, repito, que o espírito humano se confunde, quando reflete seriamente nesta atitude da divina Sabedoria encarnada, que não quis, embora podendo, dar-se diretamente aos homens, preferindo fazê-lo por intermédio da Santíssima Virgem; que não quis aparecer no mundo em plena idade viril, independentemente de quem quer que fosse, mas como uma criancinha dependendo dos cuidados de sua Mãe Santíssima, e mantida por ela. Esta Sabedoria infinita, cheia de um desejo imenso de glorificar a Deus seu Pai e de salvar os homens, não encontrou meio algum mais perfeito nem mais simples de fazê-lo, do que submetendo-se em todas as coisas à Santíssima Virgem, não só durante oito, dez ou quinze anos, mas durante trinta anos; e ele deu mais glória a Deus seu Pai durante todo esse tempo de submissão à Santíssima Virgem, como não lhe deu empregando os últimos três anos de sua vida a fazer prodígios, e pregar por toda parte, a converter os homens. Oh! Que grande glória damos a Deus, submetendo-nos a Maria, a exemplo de Jesus.

Com um exemplo tão visível e conhecido por todo mundo, seremos insensatos a ponto de pensar que encontraremos um meio mais perfeito e mais certo submetendo-nos a Maria, a exemplo de seu Filho?

140. Lembremos aqui, para prova da dependência que devemos ter para com Maria, o que já ficou dito, citando os exemplos que nos dão o Pai, o Filho e o Espírito Santo nesta dependência. Deus Pai nos deu e nos dá seu Filho por ela somente, só produz outros filhos por meio dela, e só por intermédio dela nos comunica suas graças. Deus Filho foi formado para todo o mundo, por ela, e não é senão por ela que é formado todos os dias, e gerado por ela em união com o Espírito Santo, é ela a única via pela qual nos comunica suas virtudes e seus méritos. O Espírito Santo formou Jesus Cristo por meio dela, e por meio dela forma os membros de seu corpo místico, e só por ela nos dispensa seus dons e favores. Depois de exemplos tão claros e instantes, poderemos, sem uma extrema cegueira, prescindir de Maria, deixar de consagrar-nos a ela e de depender dela para irmos a Deus e a ele nos sacrificarmos?

141. Eis algumas passagens dos Santos Padres, que escolhi como prova do que acabo de dizer:

Duo filii Mariae sunt, homo Deus e homo purus; unius corporaliter, et alterius spiritualiter mater est Maria – Maria tem dois filhos, um, homem-Deus e o outro, puro homem; de um Maria é Mãe corporal, do outro, mãe espiritual” (São Boaventura e Orígenes).

Haec est voluntas Dei, qui totum nos voluit habere per Mariam; ac proinde, si quid spei, si quid gratiae, si quid salutis, ab ea noverimus redundareTal é a vontade de Deus que quis que tenhamos tudo por Maria. Se, portanto, temos alguma esperança, alguma graça, algum dom salutar, saibamos que isto nos vem por suas mãos” (São Bernardo).

Omnia dona, virtutes, gratiae ipsius Spiritus Sancti, quibus vult, et quando vult, quomodo vult, quantum vult per ipsius manus administrantur - Todos os dons, virtudes e graças do Espírito Santo são distribuídos pelas mãos de Maria, a quem ela quer, quando quer, com o quer, e quanto quer” (S. Bernardino de Sena).

Qui indignus eras cui daretur, datum est Mariae, ut per eam acciperes quidquid haberes – Eras indigno de receber as graças divinas: por isso elas foram dadas a Maria, a fim de que por ela recebesses tudo o que terias” (S. Bernardo).

142. Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças diretamente de suas mãos divinas, dá-as a Maria, a fim de obtermos por ela o que ele nos quer dar; e também redunda em glória para ele, receber pelas mãos de Maria o reconhecimento, o respeito e o amor que lhe devemos por seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos o procedimento de Deus, a fim – diz São Bernardo – de que a graça volte a seu autor pelo mesmo canal por onde veio: “Ut eodem alveo ad largitorem gratia redeat quo fluxit”.

É o que fazemos por meio de nossa devoção: oferecemos e consagramos à Santíssima Virgem tudo o que somos e tudo o que possuímos, a fim de que Nosso Senhor receba por sua mediação a glória e o reconhecimento que lhe devemos. Reconhecemo-nos indignos e incapazes de, por nós mesmos, aproximar-nos de sua majestade infinita; e por isso servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem.

143. Além disso, é uma prática de grande humildade, virtude que Deus ama acima de todas as outras. Uma alma que se eleva a si mesma, rebaixa Deus; Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes (Tg 4, 6). Se vos rebaixais crendo-vos indignos de aparecer diante dele e de vos aproximar dele, ele desce, rebaixa-se para vir até vós, para comprazer-se em vós, e para vos elevar. Quando, porém, tentamos aproximar-nos atrevidamente de Deus, sem medianeiro, Deus se esquiva e não conseguimos atingi-lo. Oh! Quanto ele ama a humildade de coração. É a esta humildade que convida esta prática de devoção, pois ensina a não nos aproximarmos diretamente de Nosso Senhor, por misericordioso e doce que ele seja, mas a nos servirmos sempre da intercessão da Santíssima Virgem tanto para comparecer diante de Deus, como para lhe falar, aproximar-nos dele, oferecer-lhe qualquer coisa, para nos unirmos ou nos consagrarmos a ele.

São Luís de Montfort

Tratado de Verdadeira Devoção à Santíssima
Virgem
”, cap. V, art. II, 139-143