Dedicação da Basílica de Latrão

a) Todos os anos, no dia 9 de Novembro, fazemos memória da Dedicação da Basílica de Latrão. Trata-se da primeira igreja construída no mundo. Terminadas as perseguições romanas contra os cristãos com o Edito de Milão (313), por ordem do Imperador Constantino, foi construída uma igreja no palácio dos Laterani e dedicada ao Santíssimo Salvador pelo Papa Silvestre no ano 324. Mais tarde, devido, talvez, ao impressionante baptistério nela construído, foi-lhe dada o título de S. João, passando a denominar-se Basílica de São João de Latrão. Antes da sua existência, os cristãos reuniam-se em casas particulares, conhecidas como “domus ecclesiae”, conscientes de que não precisavam de um templo material, mas de um feito de pedras vivas, “talhadas” pelo Espírito Santo (cf. 1Pe 2,5). A dedicação de uma igreja tem como finalidade expressar o uso exclusivo para o culto divino de uma determinada construção. Esta é dedicada ao Senhor com um rito solene, seguindo a tradição judaica (cf. 2 Re 8, 1-66; Esd 6, 15-18). A Basílica de S. João de Latrão é a sede oficial do Bispo de Roma. Nela se encontra a Cátedra do Sucessor de Pedro. Pelo facto de ser a Catedral do Papa, recebeu o título de “mãe e cabeça de todas as igrejas da cidade e do mundo”, como se lê no seu frontispício (“omnium Urbis et Orbis ecclesiarum mater et caput”). Celebrar esta festa tem uma dupla finalidade: em primeiro lugar, reflectir sobre qual é o verdadeiro templo de Deus; em segundo lugar, expressar a nossa comunhão com o Papa. Na celebração eucarística deste dia, em vez do acto penitencial, poder-se-á fazer o rito de aspersão de água benta sobre o povo, recordando o baptismo (tema da primeira leitura); sugerimos também fazer a proclamação do Credo, utilizando as perguntas da Vigília Pascal, porque este é o símbolo da nossa fé que nos une às comunidades cristãs espalhadas por todo o mundo, tendo Roma como centro.

b) Nós somos o Templo de Deus. As leituras desta festa são próprias e prevalecem sobre as leituras de domingo, quando este dia coincide com o Dia do Senhor. Elas recordam-nos que cada cristão é morada de Deus. Com Jesus Cristo, foi ultrapassada a materialidade do templo: “Destruí este templo e em três dias o levantarei… Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo” (evangelho). Os cristãos não estão reduzidos a um lugar físico como os judeus, porque sabemos que Deus não habita somente num sítio mas no interior de cada pessoa. São Paulo recorda-nos na segunda leitura: “Não sabeis que sois templo de Deus?”. E porque somos templo de Deus, o Espírito Santo habita em nós (2ª leitura), desde o dia do nosso Baptismo. Graças a este sacramento, passamos a ser as pedras vivas do verdadeiro templo de Deus que é a Igreja, ou seja, a comunidade dos crentes em Cristo. Na primeira leitura, Ezequiel contemplava profeticamente a realidade do baptismo: saía do templo uma água que gerava vida (“aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente”). O Baptismo dá-nos a vida nova de filhos de Deus.

c) Celebrar a festa da dedicação da Catedral do Papa recorda-nos que cada Igreja local deve estar em comunhão com a Igreja de Roma, que é a cabeça da Igreja Universal. Todos os cristãos estão unidos numa só fé e guiados por um único pastor. Todas as vezes que celebramos a eucaristia manifestamos a nossa comunhão com o sucessor de Pedro. Na Oração Eucarística, depois da consagração, é dito que estamos em comunhão com o nosso Bispo, garante da unidade na sua diocese, e com o Papa, garante da unidade da Igreja. Assim se expressa que vivemos dentro da Igreja que Jesus Cristo fundou, unidos ao Papa, sucessor de Pedro, e aos Bispos, sucessores dos Apóstolos. Esta é a festa da unidade da Igreja. Neste dia, rezemos de uma forma especial, pelo Papa e pelo nosso Bispo, sinais de comunhão.

Só a Igreja compete interpretar as Escrituras

“O Concílio Vaticano II indica três critérios sempre válidos para uma interpretação da Sagrada Escritura conforme ao Espírito que a inspirou. Antes de tudo é preciso prestar grande atenção ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura: só na sua unidade é Escritura. De facto, por muito diferentes que sejam os livros que a compõem, a Sagrada Escritura é una em virtude da unidade do desígnio de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração (cf. Lc 24, 25-27; Lc 24, 44-46). Em segundo lugar é necessário ler a Escritura no contexto da tradição viva de toda a Igreja. Segundo um ditado de Orígenes, “Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta”, ou seja, “a Sagrada Escritura é escrita no coração da Igreja antes do que em instrumentos materiais”. De facto, a Igreja leva na sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus e é o Espírito Santo que lhe dá a interprepatação da mesma segundo o sentido espiritual (cf. Orígenes, Homiliae in Leviticum, 5, 5). Como terceiro critério é necessário prestar atenção à analogia da fé, ou seja, à unidade de cada uma das verdades da fé entre elas e com o plano integral da Revelação e a plenitude da divina economia nele encerrada”. 

(Papa Bento XVI, Discurso aos Membros da Pontifícia Comissão Bíblica, 23 de abril de 2009)

O DEPÓSITO DA FÉ

Por Pe. Maurílio Teixeira-Leite Penido

As verdades que devemos crer, onde as encontramos de fato? Acham-se nas duas chamadas “fontes da Revelação”, a saber: a Escritura (Revelação escrita) e a Tradição (Revelação oral), consoante a doutrina definida pelo Concílio Tridentino: fontes de toda verdade salutar e da disciplina dos costumes, são os livros escritos e as tradições não escritas que, recebidas pelos Apóstolos dos próprios lábios de Cristo ou a eles ditados pelo Espírito Santo, até nós chegaram como que transmitidas pelas mãos dos mesmos (cf. Denzinger 783).

Quem discute com protestantes, ouvirá, muito em breve, a objeção: os católicos admitem como verdade de fé tanta coisa que não está nas Escrituras; por exemplo: a perpétua virgindade de Maria; logo acrescentam eles opiniões humanas à Revelação divina.

Quando não é maliciosa, a objeção é ingênua, pois deveriam saber os protestantes que, segundo a doutrina católica, a Bíblia não é a única fonte da Revelação. Na feliz expressão de S. Tomás More: “A palavra de Deus é tão forte não escrita quanto escrita”.

De fato, Jesus nada escreveu e jamais disse a seus Apóstolos que escrevessem, mas antes ordenou-lhes que pregassem. S. Paulo não se farta de apresentar como fonte precípua da fé, a pregação da Palavra pelos Apóstolos (Rom 10, 14; l Cor 15, 11; Gál l, 8, etc.). Estabeleceu-se e prosperou a Igreja primitiva por obra do magistério oral; só uns dois decênios após a morte do Senhor começaram a surgir os escritos apostólicos. Estes, como é sabido, são muito incompletos. Os evangelhos conservaram parte reduzida dos ensinamentos e milagres de Jesus, como atesta o mesmo S. João (21, 25). Tampouco foi guardado tudo quanto escreveram os Apóstolos (S. Paulo alude a epístolas suas perdidas). Ora, as verdades que eles de viva voz ensinaram, conservaram-nas seus discípulos e os sucessores destes, segundo a Timóteo recomendava S. Paulo: “O que de mim diante de muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens l fiéis que sejam idôneos para também a outros ensinar” (2 Tim 2, 2). O Apóstolo considerou os seus ensinamentos como “depósito” a guardar fielmente (l Tim 6, 20), fugindo as novidades, conservando com firmeza as verdades aprendidas dele (l Tim 4, 6-15; 2 Tim l, 13; 3, 14). E assim formou-se a cadeia da Tradição dogmática.

Por certo, em tantos séculos que nos separam da idade apostólica, qualquer tradição humana já se teria desde muito deturpado; mas nesse caso privilegiado garante-lhe a fidelidade a perpétua assistência prometida por Cristo à sua Igreja (Mt 28, 20).

Dessa Tradição, encontramos expressão fidelíssima nos escritos dos Santos Padres e Doutores, nos símbolos de fé, nos decretos dos Concílios, nas definições dos Papas.

Teremos ocasião de voltar sobre o magistério da Igreja. Quanto aos Padres, não se cansam os teólogos de revolver-lhes as obras para encontrar nelas os monumentos da Tradição. Os Padres são autênticos testemunhos da fé. Observemos, todavia, que uma doutrina patrística só terá valor decisivo como porta-voz da Tradição dogmática, quando refletir o consenso moralmente unânime dos Padres; não bastam, portanto, textos isolados deste ou daquele, nem mesmo de um pequeno grupo. Neste caso só lhes caberia a autoridade de teólogos particulares. Ademais indispensável é que os Padres dêem tal doutrina como revelada por Deus e não apenas como simples opinião teológica. Existindo essas condições, cessa qualquer dúvida: estamos positivamente em presença de um enunciado que pertence à fé. Com efeito, se o conjunto dos Padres se enganasse, ter-se-ia por força enganado a Igreja, pois eles eram os mestres em ortodoxia e os fiéis apenas seguiam-nos. É contra a palavra de Cristo que a Igreja, na sua totalidade, em qualquer época, estivesse no erro.

Também os fiéis — a Igreja discente — podem ser órgão da Tradição, por exemplo, quando os teólogos ensinam em conjunto que tal doutrina é de fé, ou quando a totalidade dos católicos professa uma crença (por exemplo, na Assunção de Maria). É claro que nesses casos a Igreja discente reflete apenas o ensinamento que recebeu da Igreja docente; o povo católico crê o que lhe ensinam seus pastores; logo um erro desta sorte, em que incidisse o povo, revelaria um erro na Igreja docente, o que é impossível.

Escritura e Tradição constituem ambas o “depósito da fé” (l Tim 6, 20) que se acha, e para sempre, completo com a morte do último Apóstolo. Motivo pelo qual as revelações privadas que se produziram no decurso da história do catolicismo, ainda que feitas a santos eminentes (por exemplo: do Sagrado Coração a S. Margarida Maria; de Nossa Senhora de Lourdes a S. Bernadette) não podem exigir de nós um assentimento de fé divina. Será simples crença humana, embora piedosa.

Seria errôneo considerar o “depósito” como um esboço ou mesmo um germe que se iria desenvolvendo. Na realidade ele é uma plenitude; uma plenitude tal, que são necessários séculos aos homens para aprofundarem a verdade das palavras de Cristo e dos Apóstolos. O que se evolve e progride não é pois o depósito, mas nosso conhecimento das riquezas nele entesouradas. Esse conhecimento se vai completando e determinando, de geração em geração, por obra do Magistério da Igreja.

Função da Igreja é “guardar santamente e expor com fidelidade” o depósito a ela confiado (cf. Concílio do Vaticano, Denzinger 1836. – Ao tratar do Magistério da Igreja explanaremos mais detidamente estas noções).

Guardar: conserva o que foi revelado, protege-o contra deturpações, jamais ensina dogmas não contidos no depósito.

Expor: discerne infalivelmente o sentido exato da Revelação a fim de propô-lo à crença dos fiéis; explica-o sem erro possível. Os dogmas aparentemente “novos”, definidos no decorrer do tempo, não são frutos de novas revelações feitas à Igreja, muito menos invenções da Igreja. O que de “novo” tem é muito relativo. São apenas formulações de verdades reveladas l9 que já se encontravam explicitamente expressas na Escritura ou na Tradição (ou em ambas) mas cuja impugnação pelos heresiarcas exigiu solene definição (por exemplo: a divindade do Verbo); 2′ não tão claras ou expressas, estavam implicitamente contidas no depósito, como exigidas inelutavelmente por uma verdade já explicitamente revelada. Bastou uma simples explicação do Magistério infalível, para trazê-Ias à luz (por exemplo: a Imaculada Conceição).

Há, pois, que distinguir entre o evolver da Revelação e o progresso dogmático. O primeiro estendeu-se, por diversas fases, desde Adão até a morte do derradeiro Apóstolo; completou-se e encerrou-se então definitivamente (cf. Pio X, decreto Lamentabili, n. 21; Denzinger, n. 2021).

Os que sonham com revelações novas, superiores ao cristianismo — joaquimitas na Idade Média, teósofos e espíritas hoje em dia — olvidam as palavras cominatórias de S. Paulo: “Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema!” (Gál l, 8).

Severidade bem merecida; crer, ou mesmo esperar, em novas revelações, é fazer sumo agravo a Deus, como se o Pai não nos tivesse dado o próprio Filho, pelo qual nos disse tudo o que precisamos saber para realizar nosso fim sobrenatural. O mesmo Pai solenemente declarou: “Este é o meu amado Filho, em que me hei comprazido, escutai-o!” (Mt 17, 5). Donde: “Quem não crê no Filho, por mentiroso tem a Deus, porquanto não crê no testemunho que Deus de seu Filho deu” (l Jo 5, 10).

Se a Revelação está definitivamente encerrada, em compensação nosso conhecimento dela progride, dentro da fé. Aumenta-se-lhe a riqueza e a nitidez à medida que a Igreja, assistida infalivelmente pelo Espírito Santo, vai explicando e propondo com maior clareza e de maneira definitiva, o que já foi revelado por Cristo a seus Apóstolos. Por conseqüência, não há no século XX verdades reveladas mais numerosas do que no fim do I século; há tão só conhecimento mais explícito, porque houve proposição mais determinada pela Igreja; formulações novas, de antigas verdades.
PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite. Iniciação Teológica I: O Mistério da Igreja. Petrópolis: Ed. Vozes, 1956. Pg 34-37.

O mal é privação do bem – Santo Agostinho

Princípio fundamental: todo ser é bom. O mal é uma privação

Fonte: Scribd

Santo Agostinho

http://3.bp.blogspot.com/_R3c48oHJrds/SSQESmBCmcI/AAAAAAAABYU/VTsHE1-Icf8/s400/01.jpg36b. Toda natureza (natura) que pode tornar-se menos boa, todavia, é boa. De fato, ou bem a corrupção não lhe é nociva, e nesse caso ela é incorruptível; ou bem, a corrupção atinge-a e então ela é corruptível. Vem a perder a sua perfeição e torna-se menos boa. Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem, o que dela restará não poderá mais se corromper, não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e, assim, prejudicá-la. Por outro lado, aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper, e assim esse ser será incorruptível. Pois eis algo totalmente absurdo: uma natureza tornar-se incorruptível por sua própria corrupção.

Por isso se diz, com absoluta verdade, que toda natureza enquanto tal é boa. Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível. E se ela for corruptível – já que a corrupção não pode atingi-la senão tornando-a menos boa, ela é indubitavelmente boa. Ora, toda natureza ou é corruptível ou incorruptível. Portanto, toda natureza é boa.

Denomino “natureza” o que habitualmente se designa pela palavra “substância”. Conseqüentemente, posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus, e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus.

A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo

37. Uma vez essas verdades tendo sido firmemente estabelecidas, como ponto de partida de nosso raciocínio, atende, ó Evódio, ao que vou dizer: toda natureza racional, tendo sido criada com o livre-arbítrio da vontade, é, sem dúvida alguma, digna de louvor, caso se mantenha fixa no gozo do Bem supremo e imutável. A mesma coisa quanto à natureza que se esforça por se fixar nele permanentemente deve ela igualmente ser louvada. Pelo contrário, toda natureza que não esteja fixa naquele Bem supremo e recusar-se a trabalhar para aí se manter, é digna de ser censurada (vituperanda est), na medida em que aí não estiver e não fizer o necessário para isso.

Logo, se é digna de louvor uma natureza racional, que não é senão criatura, não há dúvida que também deve ser louvado Aquele que a criou. E caso ela seja censurada, ninguém duvida que seu Criador vem a ser igualmente louvado por essa censura. Com efeito, se o que reprovamos nessa criatura é precisamente o fato de não querer gozar do Bem supremo e imutável, isto é, de seu Criador – é bem este a quem louvamos, sem dúvida alguma.

Ó quão grande é, pois a bondade divina, e de quantos inefáveis louvores todas as línguas e todos os pensamentos devem celebrar e honrar o Deus, criador de todas as coisas. Visto que não podemos, sem o louvar a ele mesmo, ver dirigidos a nós louvores ou censuras! Com efeito, não podemos ser reprovados por não permanecermos unidos a ele, a não ser porque essa união constitui o nosso grande, supremos e primeiro bem. E donde procede tudo isso, se não porque Deus é o inefável?

Como, pois, poder-se-ia encontrar em nossos pecados algo de censura, em referência a Ele, quando não podemos condenar tais pecados, sem proclamarmos os seus louvores?

Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza

38. Pois bem! Nas mesmas coisas que reprovamos, não é unicamente o defeito ou vício (vitium) que reprovamos? Ora, não se pode reprovar o vício de natureza alguma sem louvar implicitamente a essa natureza. Com efeito, ou bem aquele que censuras é conforme à natureza do seu ser, e então não é um defeito, e é a ti que convém corrigir o julgamento errôneo, para que saibas censurar a propósito, e assim o teor de tua reprovação não seja indevido. Ou então, caso se trate de um vício, para ser justamente reprovado, tem forçosamente de ser contrário à mesma natureza. Porque todo vício, pelo fato mesmo de ser vício, é contrário à natureza. Efetivamente, se não prejudicar a natureza não será tampouco vício. Inversamente, se for vício por afetar a natureza de modo nocivo, é claro ser também vício pelo fato de ser contrário à natureza.

Agora, se uma natureza for corrompida não por seus próprios vícios, mas pelos de outra natureza, então ela será censurada injustamente. Devemos antes procurar se a outra natureza da qual o vício a pôde corromper não está ela mesma corrompida por seus próprios vícios.

Mas o que é ser viciado a não ser estar corrompido pelo vício? Ora, uma natureza que não está viciada não possui vício algum. Ao passo que a natureza cujo vício pôde corromper outra natureza certamente esta viciada. Logo, a primeira está corrompida por seu próprio vício. Ela, cujo vício pôde corromper as outras naturezas. Donde se segue esta conclusão: todo vício é contrário à natureza, exatamente daquela mesma natureza da qual vem tal vício.

É porque se conclui que em todas as coisas não se reprova a não ser o vício e este não vem a ser constituído vício, senão por sua oposição à natureza do ser onde se encontra. E não se pode reprovar com justeza o vício de coisa alguma, a não ser que se louve a natureza dessa mesma coisa.

Com efeito, nada pode com razão te desagradar no vício, a não ser o fato de que ele vicia o que te agrada na natureza.

Santo Agostinho

O Livre Arbítrio”, III, c. 13, 36b-38

A mulher e o dragão

A mulher e o dragão
(de que lado você quer ficar?)
Os extremos se tocam. O Gênesis se toca com o Apocalipse. No início e no fim da Bíblia encontramos uma mulher (Gn 3,15; Ap 12,1). E em ambos os lugares encontramos o adversário da mulher: no Gênesis, ele é a serpente (Gn 3,1); no Apocalipse, ele é o dragão (Ap 12,3), também identificado com “a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada” (Ap 12,9).
Após o pecado original, Deus promete pôr inimizade entre a serpente e a mulher (Gn 3,15). E mais: entre a descendência da serpente e a descendência (ou um descendente) da mulher. Trata-se de uma guerra permanente: entre a raça diabólica e a raça humana.
Deus prevê, porém, a vitória da raça humana (a descendência da mulher) ou de um homem (um descendente da mulher). Na verdade, haverá um membro da raça humana, Jesus, que esmagará a cabeça da serpente. A serpente ferirá o seu calcanhar (alusão à paixão e morte de Jesus), mas acabará sendo esmagada pelo sacrifício redentor do Messias.
O pecado de Adão, que se transmitiu a todos os homens (Rm 5,12), não foi cometido sem a cooperação de uma mulher: Eva. Assim também, a redenção operada por Jesus Cristo, novo Adão, contou com a cooperação de uma mulher: “Perto da cruz de Jesus, permanecia de pé sua mãe” (Jo 19,25).
Duas vezes Jesus refere-se à sua mãe com o apelativo “mulher”: nas bodas de Caná, após ouvir “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3), e do alto da cruz, após ver sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava (Jo 19,26). Na primeira vez, Jesus diz: “Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Na segunda vez, já tendo chegado a sua hora, Jesus diz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26).
Ora, a mulher que tem filho é mãe. Na hora da Paixão, ela se torna mãe. Mãe de quem? Não de Jesus, de quem ela já era mãe desde quando o concebeu. Torna-se mãe do discípulo amado, que tem a alegria de ouvir de Jesus: “Eis a tua mãe!” (Jo 19,27). “E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27).
A hora da maternidade espiritual de Maria é a hora da Paixão de seu Filho. Lá ela se torna mãe de João – e de todos os discípulos amados – porque coopera com a geração da vida sobrenatural de cada redimido. Jesus opera a redenção com seu sangue. Maria coopera com suas lágrimas.
Ao pé da cruz, Maria Santíssima torna-se mãe da Igreja. De agora em diante, Maria e a Igreja serão duas coisas inseparáveis. Aquilo que se aplica individualmente a Maria, aplica-se universalmente à Igreja.
No capítulo 12 do Apocalipse aparece no céu “um grande sinal”: “uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1). A luz está presente na sua cabeça, nas suas vestes e no seu calçado. Trata-se de uma mulher-luz. Nela não há espaço para treva alguma. Essa mulher, cheia de luz, está cheia de Deus, pois “Deus é luz e nele não há treva alguma” (1Jo 1,5). É a mesma mulher que antes havia recebido a saudação do anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Cheia de graça, cheia de luz, cheia de Deus, esta mulher é Maria, onde não há lugar para o pecado.
Irmã Lúcia de Fátima, ao referir-se à Virgem Maria, disse: “Era uma senhora mais brilhante que o sol”. Maria Santíssima brilha, não porque tenha luz própria, mas porque nunca pôs obstáculo à luz de Deus.
Mas essa mulher do Apocalipse é também a Igreja, que é perseguida pelo Dragão e vai refugiar-se no deserto, onde é alimentada por mil, duzentos e sessenta dias (Ap 12,6) ou três anos e meio (“um tempo, tempos e metade de um tempo” – Ap 12,14). Este número, metade de sete, representa tribulação. A Igreja, atribulada, retira-se para o deserto, longe do mundo, e alimenta-se da vida divina.
A mulher do Apocalipse estava grávida de um menino, que irá reger as nações com um cetro de ferro (Ap 12,5; Sl 2,9): é a mãe do Messias. Mas, curiosamente, ela grita, entre dores de parto, atormentada para dar à luz (Ap 12,2). Ora, no parto virginal de Jesus, Maria Santíssima não sofreu dor alguma! No Apocalipse, essa dor deve-se referir àquela que Maria sofreu ao pé da cruz, comparável a um parto dolorosíssimo.
O Dragão é um “outro sinal” que aparece no céu (Ap 12,3). Tem cor de fogo, sete cabeças e dez chifres, e sobre as cabeças sete diademas. É um monstro, que arrasta com sua cauda um terço das estrelas do céu, lançando-as para a terra (alusão à queda dos anjos maus, arrastados por Satanás). Esse dragão coloca-se diante da mulher, esperando que ela dê à luz, para poder devorar seu filho (Ap 12,4).
O Filho, porém, por sua ressurreição e ascensão, é arrebatado para junto de Deus e de seu trono (Ap 12,5). Sem poder devorar o Filho, o Dragão volta-se contra a mulher e contra o resto dos descendentes da mulher. Quais são eles? Os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o Testemunho de Jesus (Ap 12, 17), duplo distintivo dos fiéis.
O Apocalipse confirma, portanto, a inimizade permanente entre a Serpente (ou o Dragão) e os descendentes da Mulher. Não pode haver neutralidade neste combate: “Quem não está comigo, está contra mim” (Mt 12,30).
Logo, é nosso dever alistar-nos entre os descendentes da Mulher, guardando os mandamentos de Deus e o Testemunho de seu Filho. Nesta guerra espiritual, que não é contra a carne e o sangue, mas contra os espíritos malignos que povoam os ares (Ef 6,12), temos o conforto de contar com Aquela a quem Jesus chamou “mãe” e entregou a nós.
Nada melhor do que a mãe para defender a vida, sobretudo a vida dos pequeninos, que tanto dependem dela. Temos uma mãe. Chamamo-la de mãe, à semelhança do que fez Jesus. E tudo fica mais lindo e mais fácil ao lado dela.

“Hoje te chamo de mãe

Assim como Jesus chamava

E tudo fica mais lindo

E mais fácil ao lado de tão doce Mãe”
A maternidade é o que há de mais lindo na mulher. Parece que a mulher existe para ser mãe. Desde pequena faz de conta que é mãe de uma boneca. Enche-se de ternura diante de um bebê.
Imagine uma mulher tendo em si a beleza inefável da maternidade, e despojada de tudo aquilo que pode macular as mulheres (por exemplo, a vaidade).
Imagine uma mulher mãe, que é simples, humilde, silenciosa.
Imagine que ela não tem a menor mancha de pecado, de modo que nunca nós nos cansaremos de vê-la.
Quando perguntaram a Santa Bernadete se Nossa Senhora é bonita, a vidente respondeu espantada: “Se Nossa Senhora é bonita? Se você a visse, seu único desejo seria morrer para vê-la eternamente”.
Imagine ainda – e isto é o mais maravilhoso! – que essa esplêndida mulher nos conhece e nos ama. Conhece-nos com o conhecimento de Deus e ama-nos com o amor de Deus.
Ela é solícita não só em dizer “sim” a Deus, mas em socorrer sua parenta que está grávida. Ela vai às pressas, para as montanhas, trazendo consigo Jesus. E sua visita santifica João, o Batista, ainda no ventre de sua mãe Isabel.
Entreguemos a ela a causa pró-vida. Coloquemos em suas mãos os bebês anencéfalos, as criancinhas congeladas em nitrogênio líquido, os pequeninos ameaçados de morte por terem sido concebidos em um estupro. Roguemos a ela pelo nosso país, tão conturbado pelos seguidores daquele que é “homicida desde o princípio” (Jo 8,44).
Recitemos a belíssima oração a Nossa Senhora Protetora dos Nascituros composta por Dom Eusébio Oscar Scheid, atualmente Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, quando ainda era Arcebispo de Florianópolis (SC):
 
ORAÇÃO A NOSSA SENHORA PROTETORA DOS NASCITUROS
“Maria levantou-se e foi às pressas para as montanhas de Judá” (Lc 1,39).
Senhora e Mãe nossa, é com santa angústia e zelo fraterno que nos dirigimos a ti, amiga e defensora de todas as crianças, nascidas e por nascer.
Tu foste “às pressas” para santificar, por meio do teu Filho, Jesus, a uma criança que estava prestes a nascer. Cuidaste de tudo, com carinho e desvelos de Mãe.
Agora, queremos invocar-te como PROTETORA DOS NASCITUROS, muitos em perigo de serem assassinados, trucidados, antes de verem a luz do dia. É o maior escândalo, o pior crime contra a humanidade toda. O útero materno, querida Mãe, tornou-se o lugar mais inseguro e violento da terra. Tu bem o sabes e, certamente, choras como choraram as mães de Belém, na matança dos seus inocentes filhinhos (Mt 2,16-17).
Vem, depressa, em socorro de todos os NASCITUROS, levando-lhes, com teu Jesus, a certeza e a garantia de VIDA, de sobrevivência digna, de acolhida num lar afetuoso e de merecida educação. Tu o podes fazer, porque levas Jesus contigo, e porque “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37).
Antecipadamente, ó Mãe e PROTETORA DOS NASCITUROS, te agradecemos este imenso favor: por Jesus Cristo, teu Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!
 
Representação iconográfica da visita de Maria Santíssima (trazendo no ventre o menino Jesus)
a Santa Isabel (trazendo no ventre São João Batista).

 


Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis.

Fora da Caridade não há salvação

“A máxima: Fora da caridade não há salvação é a conseqüência do princípio de igualdade perante Deus e da liberdade de consciência. Tendo-se esta máxima por regra, todos os homens são irmãos, e seja qual for a sua maneira de adorar o Criador, eles se dão às mãos e oram uns pelos outros. Com o dogma: Fora da Igreja não há salvação, anatematizam-se e perseguem-se mutuamente, vivendo como inimigos: o pai não ora mais pelo filho, nem o filho pelo pai, nem o amigo pelo amigo, desde que se julgam reciprocamente condenados, sem remissão. Esse dogma é, portanto, essencialmente contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica.”

(Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 15, n. 8 )

Essa é a moral espírita: explicitamente contrária ao que ordena o Magistério da Igreja Católica. Com efeito, existe nesse ensinamento kardecista uma claríssima contradição entre a fé católica e a espírita, afinal, o Catecismo da Santa Sé afirma que “esta Igreja [Católica], peregrina na terra, é necessária à salvação” (§ 846). E, de fato, essa é uma verdade expressa por Jesus à Sua comunidade de seguidores. Disse Ele que “ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6). Essa mediação única exercida por Nosso Senhor Jesus Cristo não pode permite outras. É esse o ensinamento de Cristo e também da Igreja: “[A]inda que alguém (…) vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema” (Gl 1, 8).

Assim sendo, devemos ser sempre e totalmente intolerante com aquilo que é contrário à pureza da fé cristã. Se Cristo disse que é a Verdade (cf. Jo 14, 6) e expressou isso com artigo definido – ou seja Ele não é “uma” verdade, mas sim a única verdade – então tudo aquilo que é contrário ao que ensina Jesus é mentira. Conclusão simples, não? Assim como quando se estabelece que um copo é de vidro. Se alguém disser que ele é de plástico, devemos aceitar? Não, pois não se trata de uma opinião, mas de uma mentira. Se sabemos – e, com efeito, nós sabemos – que o Evangelho de Cristo é o único certo, o único verdadeiro e o único que salva, então todos os outros estão errados, mentem e conduzem à perdição.

Mas vejamos bem: uma coisa é sermos intolerantes com pessoas; outra bem diferente é não termos tolerância com os irmãos, com as pessoas, sejam de igrejas evangélicas, espíritas etc. Mentirosos podem mudar, enquanto mentiras são eternamente falsas. Dois mais dois não é três. Isso é mentira. Quando vai deixar de sê-la? Nunca, afinal dois mais dois sempre é igual a quatro. Definimos, desse modo, que a verdade é um valor eterno; não muda. A mentira, como fator oposto à verdade, também não pode se alterar. Tudo o que é contrário à verdade sempre o será. No entanto, ao falarmos de pessoas, falamos de mutabilidade. As pessoas podem deixar de seguir uma mentira e partirem para o lado da verdade, por exemplo. Então com pessoas há esperança; com doutrinas mentirosas, não.

Santo Agostinho dizia: “Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade”. O que isso basicamente quer dizer? Que a verdade não tolera opinião diferente porque tudo o que é contrário a ela é falso. Nas coisas duvidosas, contudo, é possível que haja liberdade já que não se tem certeza de uma verdade. Mas veja bem o que ele diz no final: em todas, a caridade. A máxima “Fora da Igreja não há salvação”, portanto, não é uma ameaça à caridade, como pode parecer a princípio. Ser intolerante com dada doutrina não significa ser intolerante com as pessoas que a seguem, muito pelo contrário: quando vemos que um irmão nosso segue uma mentira, nos empenhamos com todas as nossas forças – seja por meio da oração, seja através do diálogo – para convertê-lo, para trazê-lo à Fé.

Assim sendo, amar a Verdade e estabelecer que fora d’Ela não há salvação (cf. Jo 14, 6) não é um princípio “contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica”. É preciso, contudo, conciliar a verdade intolerante da Fé com a Sua caridade tolerante. Não podemos cair nos extremismos e nos fanatismos, que são motivos de muitas guerras religiosas. Esses sim, são os verdadeiros fatores que fazem com que os homens “anatematizem-se e persigam-se mutuamente”. Sem caridade realmente a salvação se torna praticamente impossível assim como fora do Corpo de Cristo, a Igreja, que é a verdade, também não é possível salvar-se. Uma realidade não exclui a outra, muito embora o queira essa mentalidade relativista que já se infiltrou em muitos membros da Igreja.

Graça e paz.

Bento XVI lembra do Papa Paulo VI em Brescia

 

O Papa Bento XVI realiza neste domingo,  8, uma visita pastoral a Brescia e Concesio – norte da Itália – lugares que testemunharam o nascimento e a formação de Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini – Papa Paulo VI.

Na homilia da missa que presidiu nesta manhã Bento XVI meditou sobre o mistério da Igreja, prestando homenagem ao grande Papa Paulo VI que a ela consagrou a sua vida inteira. A Igreja – recordou – é um organismo espiritual concreto que prolonga no espaço e no tempo a oblação do Filho de Deus, um sacrifício aparentemente insignificante em relação as dimensões do mundo e da história, mas decisivo aos olhos de Deus. Como diz a Carta aos Hebreus, no texto deste domingo , a Deus bastou o sacrifício de Jesus, oferecido ‘uma só vez’ para salvar o mundo inteiro, porque naquela única oblação está condensado todo o Amor divino. Assim como no gesto do óbolo da viúva de que fala o Evangelho deste Domingo está concentrado o amor daquela mulher a Deus e aos irmãos. A Igreja, que incessantemente nasce da Eucaristia – salientou Bento XVI – é a continuação deste dom, desta super abundância que se exprime na pobreza do tudo que se oferece no fragmento do pão consagrado. É o Corpo de Cristo que se dá inteiramente.

Em sua homilia o Papa destacou ainda a visão de uma igreja pobre e livre que recorda a figura evangélica da viúva.

“É assim que deve ser a Comunidade eclesial para conseguir falar à humanidade contemporânea. O encontro e o diálogo da Igreja com a humanidade do nosso tempo estavam particularmente a cargo de João Batista Montini em todas as fases da sua vida, desde os primeiros anos de sacerdócio até ao Pontificado. Ele dedicou todas as sua energias ao serviço da Igreja, de maneira que encontrando-a , o homem contemporâneo possa encontrá-lo, porque d’Ele tem absoluta necessidade.

Paulo VI – recordou – quis expor programaticamente alguns dos pontos salientes na sua primeira Encíclica Ecclesiam Suam, de 6 de agosto de 1964 quando ainda não tinham sido publicadas as Constituições conciliares Lúmen gentium e Gaudium et spes.

Com aquela Encíclica o Pontífice se propunha explicar a todos a importância da Igreja para a salvação da humanidade, e ao mesmo tempo, a exigência que entre a Comunidade eclesial e a sociedade se estabeleça uma relação de conhecimento e amor recíproco . “Consciência, renovação, diálogo: estas foram as três palavras escolhidas por Paulo VI para exprimir os seus pensamentos dominantes – como ele os definiu – no inicio do seu ministério petrino e as três palavras referem-se á Igreja. Em primeiro lugar a exigência da consciência de si mesma: origem, natureza, missão, destino final; em segundo lugar, a sua necessidade de se renovar e purificar olhando para o modelo que é Cristo; finalmente o problema das suas relações com o mundo moderno.

Dirigindo-se especialmente aos bispos, o papa lembrou que “A reflexão do Papa Montini sobre a Igreja é hoje mais do que nunca atual; e mais ainda é precioso o exemplo do seu amor por ela, inseparável do amor por Cristo. O mistério da Igreja – lê-se na Encíclica Ecclesiam suam – não é simples objeto de conhecimento teológico, deve ser fato vivido, em que a alma fiel, antes de ser capaz de definir a Igreja com exatidão, a pode apreender numa experiência conatural.

Isto pressupõe uma vida interior robusta que é “a grande fonte da espiritualidade da Igreja, condiciona-lhe a receptividade às irradiações do Espírito de Cristo, é expressão fundamental e insubstituível da sua atividade religiosa e social, e é ainda para ela defesa inviolável e renascente energia no seu difícil contato com o mundo profano”.

Prosseguindo a sua homilia, Bento XVI dirigiu-se depois ao laicato católico sublinhando que as migrações, a crise econômica e a educação dos jovens constituem os desafios de hoje.

A Palavra:
Mc. 12, 38-44: Naquele tempo, Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação.”

Jesus estava sentado no templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada. Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.

A mensagem

Queridos irmãos e irmãs, neste breve trecho do evangelho, encontramos duas categorias de pessoas: os doutores da lei e a pobre viúva. São pessoas completamente diferentes.

- Os doutores são cheios de si, da sua cultura, do seu prestigio e gostam de aparecer e ser respeitados. O mais grave de tudo isso é que, em nome da religião, eles exploravam as viúvas e os pobres. De fato, era tarefa deles servir de apoio legal às viúvas. Porém faziam isso ‘piedosamente’, exigindo pela prestação de serviço um pagamento tal, que as viúvas, muitas vezes, tinham de lhes ceder a propriedade.

A condenação dos doutores é clara e firme.

- A viúva oferece para o templo as moedinhas, que não valiam quase nada, mas que para ela eram tudo. É a atitude da total confiança em Deus.

Este episódio acontece ao término da caminhada de Jesus para Jerusalém.

Agora Ele está no templo, cercado pela massa do povo e ensina. Este ensinamento é em pleno contraste com as classes dominantes do tempo: sacerdotes, escribas, doutores da lei.

Ele não tem medo de entrar em conflito e sabe onde este conflito vai levá-lo, mas tem a missão de ensinar a verdade e persevera nela.

Jesus é aquele que se doa inteiramente pela salvação da humanidade. A doação da viúva é um pequeno símbolo da doação dEle.

O que nos ensina e episódio de hoje?

1) Antes de tudo, evitar as atitudes dos doutores da lei.

2) Imitar a viúva, na generosidade para com Deus e a comunidade.
A partilha deveria ser uma experiência presente na vida de fé dos discípulos de Jesus: partilhar os próprios dons, os bens, o tempo etc….
Temos que lembrar que ser generosos com Deus compensa sempre: Ele dá sempre em dobro.
Não devemos dar só o que temos, mas também o que somos, como fez o nosso Mestre.

Dom Antonino Migliore
Bispo Diocesano de Coxim