Fora da Caridade não há salvação


“A máxima: Fora da caridade não há salvação é a conseqüência do princípio de igualdade perante Deus e da liberdade de consciência. Tendo-se esta máxima por regra, todos os homens são irmãos, e seja qual for a sua maneira de adorar o Criador, eles se dão às mãos e oram uns pelos outros. Com o dogma: Fora da Igreja não há salvação, anatematizam-se e perseguem-se mutuamente, vivendo como inimigos: o pai não ora mais pelo filho, nem o filho pelo pai, nem o amigo pelo amigo, desde que se julgam reciprocamente condenados, sem remissão. Esse dogma é, portanto, essencialmente contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica.”

(Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 15, n. 8 )

Essa é a moral espírita: explicitamente contrária ao que ordena o Magistério da Igreja Católica. Com efeito, existe nesse ensinamento kardecista uma claríssima contradição entre a fé católica e a espírita, afinal, o Catecismo da Santa Sé afirma que “esta Igreja [Católica], peregrina na terra, é necessária à salvação” (§ 846). E, de fato, essa é uma verdade expressa por Jesus à Sua comunidade de seguidores. Disse Ele que “ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6). Essa mediação única exercida por Nosso Senhor Jesus Cristo não pode permite outras. É esse o ensinamento de Cristo e também da Igreja: “[A]inda que alguém (…) vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema” (Gl 1, 8).

Assim sendo, devemos ser sempre e totalmente intolerante com aquilo que é contrário à pureza da fé cristã. Se Cristo disse que é a Verdade (cf. Jo 14, 6) e expressou isso com artigo definido – ou seja Ele não é “uma” verdade, mas sim a única verdade – então tudo aquilo que é contrário ao que ensina Jesus é mentira. Conclusão simples, não? Assim como quando se estabelece que um copo é de vidro. Se alguém disser que ele é de plástico, devemos aceitar? Não, pois não se trata de uma opinião, mas de uma mentira. Se sabemos – e, com efeito, nós sabemos – que o Evangelho de Cristo é o único certo, o único verdadeiro e o único que salva, então todos os outros estão errados, mentem e conduzem à perdição.

Mas vejamos bem: uma coisa é sermos intolerantes com pessoas; outra bem diferente é não termos tolerância com os irmãos, com as pessoas, sejam de igrejas evangélicas, espíritas etc. Mentirosos podem mudar, enquanto mentiras são eternamente falsas. Dois mais dois não é três. Isso é mentira. Quando vai deixar de sê-la? Nunca, afinal dois mais dois sempre é igual a quatro. Definimos, desse modo, que a verdade é um valor eterno; não muda. A mentira, como fator oposto à verdade, também não pode se alterar. Tudo o que é contrário à verdade sempre o será. No entanto, ao falarmos de pessoas, falamos de mutabilidade. As pessoas podem deixar de seguir uma mentira e partirem para o lado da verdade, por exemplo. Então com pessoas há esperança; com doutrinas mentirosas, não.

Santo Agostinho dizia: “Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade”. O que isso basicamente quer dizer? Que a verdade não tolera opinião diferente porque tudo o que é contrário a ela é falso. Nas coisas duvidosas, contudo, é possível que haja liberdade já que não se tem certeza de uma verdade. Mas veja bem o que ele diz no final: em todas, a caridade. A máxima “Fora da Igreja não há salvação”, portanto, não é uma ameaça à caridade, como pode parecer a princípio. Ser intolerante com dada doutrina não significa ser intolerante com as pessoas que a seguem, muito pelo contrário: quando vemos que um irmão nosso segue uma mentira, nos empenhamos com todas as nossas forças – seja por meio da oração, seja através do diálogo – para convertê-lo, para trazê-lo à Fé.

Assim sendo, amar a Verdade e estabelecer que fora d’Ela não há salvação (cf. Jo 14, 6) não é um princípio “contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica”. É preciso, contudo, conciliar a verdade intolerante da Fé com a Sua caridade tolerante. Não podemos cair nos extremismos e nos fanatismos, que são motivos de muitas guerras religiosas. Esses sim, são os verdadeiros fatores que fazem com que os homens “anatematizem-se e persigam-se mutuamente”. Sem caridade realmente a salvação se torna praticamente impossível assim como fora do Corpo de Cristo, a Igreja, que é a verdade, também não é possível salvar-se. Uma realidade não exclui a outra, muito embora o queira essa mentalidade relativista que já se infiltrou em muitos membros da Igreja.

Graça e paz.