“Meu reino não é deste mundo”

Celebrando a Festa de Cristo Rei e meditando sobre o Evangelho, em uma frase centrei a minha atenção: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O que Jesus queria dizer com isto? O que isso significava para Pilatos? E para nós, o que isso significa? Bem. Meditando sobre esta afirmação categórica posso afirmar que Jesus é um Rei em quem, por assim dizer, há um certo paradoxo. O poder que Ele exerce não se restringe a limites humanos, e muito menos entra na lógica terrena

Jesus é um Rei que serve e não um Rei que quer ser servido. É um Rei que faz doação de si próprio pela Redenção do mundo. Um Rei que serve para que os homens saibam servir: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). O Reino de Jesus caracteriza-se, sobretudo, pela humildade, mas também pelo amor, esperança, alegria, fidelidade. Tais características podem não nos garantir um êxito neste mundo em que fica-se perspícuo que deixa-se persuadir por idéias maléficas, como bem recorda São João: “Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno”(1Jo 5,19). Nós sabemos que o mundo é uma fenomenal criação de Deus, mas o ser humano está permitindo que se deixe erigir idéias maléficas e que estão totalmente em desacordo com os desígnios de Deus. Infelizmente muitos trilham tal caminho. É isto que São João afirma. Felicidade neste mundo poderemos não ter. Mas teremos uma felicidade superior que é nosso convício com o Senhor.

Jesus é um Rei que não agiu como agem os poderosos deste mundo. No seu Reino não há corrupção, guerras, penas de morte, crise econômica. Um reino que não está mergulhado no lamaçal da sujeira política.
Perante Pilatos Jesus não é agressivo, muito menos responde-lhe mal – aliás, nunca o foi -, apenas mostra que o seu Reino não solidifica-se sobre areia; do contrário, é “um reino que não se dissolverá” (Dn 7, 14).
Vários reinos caíram com o tempo, foram literalmente destruídos. Recordo-me do Absolutismo. 

Na idéia escatológica do julgamento (cf. Mt 25,31-46) Jesus se apresenta como Rei. Um Rei que julgará todas as nações e que irá separar os bons dos maus, as ovelhas dos cabritos. Este Reino que definitivamente dar-se-á no juízo final, já é, desde agora, prefigurado pela Igreja, Reino de Deus que nos conduz ao Rei verdadeiro. Como o Reino de Cristo é imperecível, igualmente a Santa Igreja, prefiguração deste Reino também o-é, e por isso não pode ser derrubada pro nenhuma tempestade.

Quando interrogado por Pilatos sobre seu reinado, Jesus responde: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Esta afirmação de Jesus expressa que nós, cristãos, devemos continuar a trilhar os caminhos da verdade do qual a Igreja é grande defensora. Ao contrário daqueles que buscam caminhos insidiosos, nós somos chamados a uma estrada segura, à qual Cristo conduz-nos. 

Muitos buscam desestruturar a sociedade implantando idéias marxistas, ou pior ainda, tendo o costume “maldito de socializar tudo o que está no Evangelho”, como escreve o muito caríssimo amigo Everth, em seu site. Podemos observar isto nos funestos ensinos da Teologia da Libertação, já condenado muitas vezes pelos Papas. 


Não podemos secularizar o Evangelho. Ele não é um mero projeto social, ou uma instrução para a sociedade, que pode ou não ser seguido. O projeto de Jesus consiste em que todos conheçam o Reino de Deus, e assim possamos adorar Sua Majestade Onipotente, que não se limita às perspectivas humanas.
Enquanto esperamos o advento definitivo do Senhor, podemos, como São Paulo, dizer: “Ao Rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (1Tm 1,17).

Pax Christi

O Reino de Cristo não é deste mundo

“Foram-lhe dados – diz o profeta Daniel – poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7, 14). Assusta-nos a visão de um reino que não pode se dissolver. Na terra o que presenciamos de reinos até hoje foram governos efêmeros, fracos e que foram muitas vezes derrotados. Isso nos faz lembrar o Absolutismo, onde reinava, absoluto, o governante de um determinado Estado. Aqueles reinos da Idade Moderna caíram. Não foram pálio para a Revolução Francesa que surgia crescente em toda a Europa no século XVIII.

Mas esse Reino – é o Senhor quem o diz – não pode se dissolver. Não o pode vencer a revolução, não o podem vencer as ondas modernistas que buscam incessantemente abalá-lo. Da mesma maneira do Reino o Rei tem um poder eterno, algo que para nós soa também como terrivelmente absurdo. Pois então, é assim mesmo, afinal, olhando para a efemeridade do mundo, só se observa a inconstância e, salvo a Verdade e a Beleza, tudo está sujeito à mudança e à instabilidade. Assim sendo, constatamos que esse Reino do qual fala Daniel não é deste mundo (cf. Jo 18, 36).

Este mundo passa. Tudo que nele está é perecível. A dimensão escatológica da vida, no entanto, é eterna. O Céu é um Reino sem fim, que não pode se dissolver.

É por isso que a Igreja, que é verdadeiramente Reino de Deus – não em sua plenitude, afinal, só a alcançaremos, de fato, após a morte – não pode ser vencida por revoluções, tempestades, ondas etc. O Reino em que Ela embasa sua pregação é imperecível. Ela, pregando esse Reino imortal, se torna também incorruptível. A Igreja Católica resiste aos ventos do mundo moderno, a ideologias falsas que conduzem o homem à perdição, enfim, Ela vence tudo isso porque proclama o Reinado de Deus, cujo poder é eterno.

Com efeito, se cremos que a Igreja é o Reino de Deus, cremos que quem ouve a Sua voz ouve a Verdade, a voz de Cristo. Questionado por Pilatos se era ou não rei, Jesus responde: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). A realidade expressa por Jesus nessas frases é mais um retrato da convicção que nós, cristãos, temos de que verdadeiramente Jesus é o único caminho que conduz ao Pai. Ele é “a” verdade. Não há outra. Todos os outros caminhos que dizem pregar a verdade mentem.

Desses caminhos mentirosos podemos falar dos caminhos revolucionários, que buscam desestruturar totalmente a sociedade em busca de um ideal que é considerado verdadeiro. O marxismo é um desses caminhos revolucionários. No Brasil ele toma forma através da Teologia da Libertação, que tem o costume maldito de socializar tudo o que está no Evangelho. O Reino de Deus nada mais é do que o serviço pelos pobres e menos favorecidos; nada mais é do que a partilha com os irmãos.

Ora, é claro que o Reino dos céus consiste também nisso. Mas não é esse o foco que Cristo enfatiza no Evangelho de hoje. O Seu Reino – compreendam os marxistas e os revolucionários em geral – não é desse mundo! Não podemos minimizar o projeto de Deus aos bens perecíveis desse mundo! É claro que devemos amar os irmãos, que devemos praticar a caridade. Mas tudo isso nada mais é do que desdobramento do amor de Deus que vem ao nosso encontro. E o Reino de Deus, esse Reino que não se dissolverá, não pode ser descrito em termos humanos…

A face materialista da revolução quer secularizar o Evangelho. Não deixemos que isso aconteça. Preguemos constantemente essa mensagem de Cristo. Sintamo-nos impelidos a buscar o Reino da Glória. Não desanimemos. Conosco caminha a Sempre Virgem Maria, Mãe de Deus. Ela, que foi assunta aos céus de corpo e alma, quer nos conduzir também ao Reino dos céus.

Graça e paz.

Confessar a Cristo e temer a Deus – São Clemente, Papa

[Hoje celebramos São Clemente, bispo de Roma, e portanto, papa da Igreja. Seus escritos, disponíveis no site do apostolado Veritatis Splendor, são importantes para compreendermos a forma como encaravam a fé os primeiros cristãos. Comprovamos, lendo essas relíquias da nossa Igreja, que a fé de Cristo não mudou e, de fato, nunca mudará, afinal a verdade é eternamente imutável; não tem nenhuma sombra de instabilidade. No excerto abaixo, retirado de uma epístola de São Clemente enviada à comunidade de Corinto, o Santo Papa fala sobre como devemos confessar a Cristo e temer a Deus. Nos lembra que “não adianta chamá-Lo apenas de "Senhor", pois isso não nos salvará”. O Reino de Deus consiste não em palavras, mas em atos. Compreendamo-lo. Boa leitura!]

Fonte: Veritatis Splendor


Confessar a Cristo e temer a Deus

São Clemente, Papa

III. A obrigação de confessar a Cristo

http://cocp.veritatis.com.br/wp-content/uploads/2009/03/san_cemente_romano_2.jpgVemos, pois, que Ele nos dedicou uma grande misericórdia; primeiramente, porque nós que aqui vivemos não sacrificamos aos deuses mortos, nem lhes rendemos culto, mas por meio d’Ele, chegamos a conhecer o Pai da Verdade. Que outra coisa é este conhecimento que Ele nos deu, senão o de não negar Aquele por meio de quem O reconhecemos? Sim, Ele mesmo disse: “Aquele que me confessar, Eu também o confessarei diante de meu Pai“. Esta é, portanto, a nossa recompensa, se verdadeiramente confessarmos Aquele por meio de quem alcançamos a salvação. Porém, quando O confessamos? Quando fazemos o que Ele disse e não desobedecemos aos seus mandamentos, e não apenas O honramos com os nossos lábios, mas também com todo o nosso coração e toda a nossa mente. Pois bem, Ele também diz em Isaías: “Esse povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim“.

IV. A verdadeira confissão de Cristo

Portanto, não adianta chamá-Lo apenas de “Senhor”, pois isso não nos salvará; eis que Ele disse: “Nem todo que me chama ‘Senhor, Senhor’ será salvo, mas aquele que opera a justiça“. Assim, pois, irmãs, devemos confessá-Lo em nossas obras, amando-nos uns aos outros, não cometendo adultério, não falando mal dos outros, não tendo ciúmes, mas sendo moderados, misericordiosos e bondosos. Com estas obras, e não com outras, podemos confessá-Lo. Não precisamos temer aos homens, mas a Deus. Por isso, se fizerdes estas coisas, o Senhor dirá: “Ainda que estejais junto de meu próprio seio, se não cumprirdes os meus mandamentos, Eu os arremessarei para longe e direi: ‘Apartai-vos de mim, operários da iniqüidade, estejam onde estiverem’.

V. Este mundo deve ser desprezado

Portanto, irmãos, renunciemos nossa estadia neste mundo e façamos a vontade d’Aquele que nos chamou; não tenhamos medo de nos apartar deste mundo, pois o Senhor disse: “Sereis como cordeiros no meio de lobos“. Porém, Pedro O contestou e disse: “O que ocorre, então, se os lobos devorarem os cordeiros?” E Jesus respondeu a Pedro: “Os cordeiros não precisam ter medo dos lobos depois de mortos. Vós também não deveis temer os que vos matam e nada mais podem fazer. Temei antes Aquele que, depois de tiverdes morrido, tem poder sobre a vossa alma e vosso corpo, para atirá-los na geena de fogo“. Vós sabeis, irmãos, que a estadia desta carne neste mundo é depreciável e dura pouco; porém, a promessa de Cristo é grande e maravilhosa, a saber: o repouso do reino que vem e a vida eterna. O que podemos fazer, então, para obtê-los, senão andar em santidade e justiça, e considerar que estas coisas do mundo são estranhas para nós e não desejá-las? Pois quando desejamos estas coisas, nos desviamos do reto caminho.

VI. O mundo presente e o mundo futuro são inimigos um do outro

Porém o Senhor disse: “Ninguém pode servir a dois senhores“. Se desejamos servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamon, não teremos qualquer benefício, pois “o que ganhará um homem se obtém para si o mundo e perde a sua alma?“. Pois bem: esta época e a futura são inimigas. Uma fala de adultério, contaminação, avareza e mentira; a outra se afasta destas coisas. Portanto, não podemos ser amigos das duas; temos que dizer adeus a uma e ter amizade com a outra. Consideremos que é melhor aborrecer as coisas que estão aqui, pois são depreciáveis, perecíveis, pouco duráveis e amar as coisas de lá, que são boas e imperecíveis; pois se fazemos a vontade de Cristo, teremos descanso, mas se não a fizermos, nada nos livrará do castigo eterno, por desobedecermos os seus mandamentos. E a Escritura diz também em Ezequiel: “Ainda que Noé, Jó e Daniel se levantem, não livrarão seus filhos” do cativeiro. Logo, se nem homens tão justos quanto estes podem, com seus atos de justiça, livrar seus filhos, com que confiança nós entraremos no reino de Deus se não mantivermos o nosso batismo puro e sem mancha? Ou – a menos que existam em nós obras santas e justas – quem será nosso advogado?

VII. Devemos aspirar chegar à coroa

Assim pois, irmãos, lutemos seriamente, sabendo que a luta está mui próxima, e que, ainda que muitos venham a lutar, nem todos receberão o prêmio, mas apenas os que se esforçarem em alto grau e lutado com valentia. Lutemos de modo que todos possamos receber o prêmio. Assim, corramos em linha reta, em direção à competição incorruptível. Marchemos em direção a ela em grande número e esforcemo-nos para que possamos receber também o prêmio. E se nem todos puderem receber a coroa, pelo menos tentemos nos aproximar dela o máximo possível. Lembremos que aqueles que batalham nas lides corruptíveis, quando descobertos de que lutam de forma ilegítima, primeiro são açoitados e depois eliminados e afastados da competição. Que pensais disto? Que terá sucesso aquele que luta de forma corruptível na competição da incorrupção? Eis que, com relação àqueles que não têm guardado o selo, Ele diz: “Seus vermes não morrerão e seu fogo não se apagará, e serão um exemplo para toda carne“.

São Clemente de Roma

Segunda Epístola aos Coríntios”, cap. III-VII

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São Clemente de Roma,
rogai por nós!