Fonte: Santa Sé
Papa Bento XVI
João Damasceno foi também um dos primeiros em distinguir entre o culto público e privado dos cristãos, entre a adoração (latreia) e a veneração (proskynesis): a primeira só pode dirigir-se a Deus, sumamente espiritual; a segunda, ao contrário, pode utilizar uma imagem para dirigir-se àquele que é representado nela. Obviamente, o santo não pode em nenhum caso ser identificado com a matéria da qual está composto o ícone. Esta distinção se revelou imediatamente muito importante para responder de modo cristão àqueles que pretendiam como universal e perene a observância da severa proibição do Antigo Testamento sobre a utilização cultual das imagens. Esta era a grande discussão também no mundo islâmico, que aceita esta tradição hebraica da exclusão total das imagens no culto. Ao contrário, os cristãos, neste contexto, discutiram o problema e encontraram a justificação para a veneração das imagens. Damasceno escrevia:
«Em outros tempos, Deus não havia sido representado nunca em imagem, sendo incorpóreo e sem rosto. Mas dado que agora Deus foi visto na carne e viveu entre os homens, eu represento o que é visível em Deus. Eu não venero a matéria, mas o Criador da matéria, que se fez matéria por mim e se dignou habitar na matéria e realizar minha salvação através da matéria. Nunca cessarei por isso de venerar a matéria através da qual me chegou a salvação. Mas não a venero em absoluto como Deus! Como poderia ser Deus aquilo que recebeu a existência a partir do não ser?… Mas eu venero e respeito também todo o resto da matéria que me procurou a salvação, enquanto que está cheia de energias e de graças santas. Não é talvez matéria o lenho da cruz três vezes bendita?… E a tinta e o livro santíssimo dos Evangelhos, não são matéria? O altar salvífico que nos dispensa o pão da vida não é matéria?… E antes que nada, não são matéria a carne e o sangue do meu Senhor? Ou se deve suprimir o caráter sagrado de tudo isso, ou se deve conceder à tradição da Igreja a veneração das imagens de Deus e a dos amigos de Deus que são santificados pelo nome que levam, e que por esta razão estão habitados pela graça do Espírito Santo. Não se ofenda portanto a matéria: esta não é desprezível, porque nada do que Deus fez é desprezível» (Contra imaginum calumniatores, I, 16, ed. Kotter, pp. 89-90).
Vemos que, por causa da encarnação, a matéria aparece como divinizada, é vista como morada de Deus. Trata-se de uma nova visão do mundo e das realidades materiais. Deus se fez carne e a carne se converteu realmente em morada de Deus, cuja glória resplandece no rosto humano de Cristo. Portanto, os convites do Doutor oriental são ainda hoje de extrema atualidade, considerando a grandíssima dignidade que a matéria recebeu na Encarnação, podendo chegar a ser, na fé, sinal e sacramento eficaz do encontro do homem com Deus. João Damasceno é, portanto, um testemunho privilegiado do culto dos ícones, que chegará a ser um dos aspectos mais distintivos da teologia e da espiritualidade orientais até hoje. E, contudo, é uma forma de culto que pertence simplesmente à fé cristã, à fé nesse Deus que se fez carne e que se tornou visível. O ensinamento de São João Damasceno se insere, assim, na tradição da Igreja universal, cuja doutrina sacramental prevê que elementos materiais tomados da natureza possam converter-se, através da graça, em virtude da invocação (epiclesis) do Espírito Santo, acompanhada pela confissão da fé verdadeira.
Em união com estas idéias de fundo, João Damasceno põe também a veneração das relíquias dos santos sobre a base da convicção de que os santos cristãos, tendo sido partícipes da ressurreição de Cristo, não podem ser considerados simplesmente como «mortos». Enumerando, por exemplo, aqueles cujas relíquias ou imagens são dignas de veneração, João precisa em seu terceiro discurso em defesa das imagens:
«Antes de tudo (veneramos) aqueles entre quem Deus descansou, Ele, único santo que mora entre os santos (cf. Is 57, 15), como a santa Mãe de Deus e todos os santos. Estes são aqueles que, enquanto possível, tornaram-se semelhantes a Deus com sua vontade e pela inabitação e a ajuda de Deus; são chamados realmente de deuses (cf. Sal 82, 6), não por natureza, mas por contingência, assim como o ferro incandescente é chamado de fogo, não por natureza, mas por contingência e por participação do fogo. Diz, de fato: ‘Sereis santos porque eu sou santo’ (Lv 19, 2)» (III, 33, col. 1352 A).
Após uma série de referências desse tipo, Damasceno podia deduzir serenamente, portanto: «Deus, que é bom e superior a toda bondade, não se contentou com a contemplação de si mesmo, mas quis que houvesse seres beneficiados por Ele, que pudessem chegar a ser partícipes de sua bondade: por isso, criou do nada todas as coisas, visíveis e invisíveis, inclusive o homem, realidade visível e invisível. E o criou pensando e realizando-o como um ser capaz de pensamento (ennoema ergon) enriquecido pela palavra (Logo[i] sympleroumenon) e orientado para o espírito (pneumati teleioumenon)» (II, 2, PG 94, col. 865A). E para esclarecer este pensamento, acrescenta: «É necessário deixar-se encher de estupor (thaumazein) por todas as obras da providência (tes pronoias erga), louvá-las todas e aceitá-las todas, superando a tentação de assinalar nelas aspectos que a muitos parecem injustos ou iníquos (adika), e admitindo, ao contrário, que o projeto de Deus (pronoia) vai mais além da capacidade cognoscitiva e compreensiva (agnoston kai akatalepton) do homem, enquanto que, no entanto, só Ele conhece nossos pensamentos, nossas ações e inclusive nosso futuro» (II, 29, PG 94, col. 964C).
Papa Bento XVI, Audiência Geral
6 de maio de 2009
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São João Damasceno,
rogai por nós!
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