A comunhão com Pedro e seus sucessores é a garantia de liberdade

“Na primeira Leitura, é narrado um episódio que mostra a intervenção específica do Senhor para libertar Pedro da prisão; na segunda, Paulo, com base em sua extraordinária experiência apostólica, afirma estar convencido de que o Senhor, que já o havia livrado “da boca do leão”, o livrará de “todo o mal”, abrindo-lhe as portas do Céu; no Evangelho, ao contrário, não se fala mais dos Apóstolos individualmente, mas da Igreja no seu conjunto e da sua proteção com relação às forças do mal, entendida em sentido amplo e profundo. Desse modo, vemos que a promessa de Jesus – “as forças do inferno não prevalecerão” sobre a Igreja – compreende, sim, as experiências históricas de perseguição sofridas por Pedro e Paulo e outras testemunhas do Evangelho, mas vai além, desejando assegurar a proteção sobretudo contra as ameaças de ordem espiritual; segundo o que Paulo escreve na Carta aos Efésios: “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6, 12).”

Com efeito, se pensamos nos dois milênios de história da Igreja, podemos observar que – como havia prenunciado o Senhor Jesus (cf. Mt 10, 16-33) - nunca faltaram para os cristãos as provações, que em alguns períodos e lugares assumiram o caráter de verdadeiras e próprias perseguições. Essas, no entanto, apesar do sofrimento que provocam, não constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior, de fato, provém daquilo que polui a fé e a vida cristã dos seus membros e das suas comunidades, afetando a integridade do Corpo Místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e testemunho, manchando a beleza de seu rosto. Essa realidade é atestada já no epistolário [cartas] paulino. A Primeira Carta aos Coríntios, por exemplo, responde exatamente a alguns problemas de divisões, incoerências, infidelidade ao Evangelho, que ameaçam seriamente a Igreja. Mas também a Segunda Carta a Timóteo – da qual ouvimos uma parte – fala sobre os perigos dos “últimos tempos”, identificando-os com atitudes negativas que pertencem ao mundo e podem contagiar a comunidade cristã: egoísmo, vaidade, orgulho, apego ao dinheiro, etc. (cf. 3, 1-5). A conclusão do Apóstolo é reconfortante: os homens que fazem o mal – escreve – “não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez” (3, 9). Existe, portanto, uma garantia de liberdade assegurada por Deus à Igreja, liberdade seja dos laços materiais que procuram impedir ou coagir a missão, seja dos males espirituais e morais, que podem afetar a autenticidade e credibilidade.”

“O tema da liberdade da Igreja, garantida por Cristo a Pedro, tem também uma relevância específica para o rito da imposição do pálio, que hoje renovamos para trinta e oito Arcebispos Metropolitanos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação, estendendo-a com afeto àqueles que quiseram acompanhá-los nesta peregrinação. A comunhão com Pedro e seus sucessores, de fato, é garantia de liberdade para os pastores da Igreja e para a própria Comunidade a eles confiada. E isso em ambos os planos destacados nas reflexões precedentes. No plano histórico, a união com a Sé Apostólica assegura às Igrejas particulares e às Conferências Episcopais a liberdade com relação aos poderes locais, nacionais ou supranacionais, que podem, em certos casos, obstaculizar a missão da Igreja. Além disso, e mais essencialmente, o ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade, à autêntica tradição, de tal forma que o Povo de Deus seja preservado de erros concernentes à fé e à moral. Daí que o fato de, todo o ano, os novos Metropolitanos virem a Roma para receber o Pálio das mãos do Papa deva ser compreendido no seu significado próprio, como gesto de comunhão, e o tema da liberdade da Igreja nos oferece uma chave de leitura particularmente importante. Isso aparece de modo evidente no caso das Igrejas marcadas pela perseguição, ou sujeitas a interferências políticas ou outras duras provações. Mas isso não é menos relevante no caso de Comunidades que padecem a influência de doutrinas enganadoras, ou de tendências ideológicas e práticas contrárias ao Evangelho. O pálio, assim, torna-se, neste sentido, um compromisso de liberdade, analogamente ao “jugo” de Jesus, que Ele convida a tomar, cada um sobre seus próprios ombros (cf. Mt 11, 29-30). Como o mandamento de Cristo – embora exigente – é “doce e leve” e, ao invés de pesar sobre quem o leva, o levanta, assim o vínculo com a Sé Apostólica – embora desafiador – sustenta o Pastor e a porção da Igreja confiada aos seus cuidados, tornando-lhes mais livres e mais fortes.”

- Papa Bento XVI, Homilia na Solenidade de S. Pedro e S. Paulo
29 de junho de 2010

Pedro e Paulo: mártires na fé por um único Amor

Celebramos com grande júbilo, neste dia, a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. A Providência concede-nos também este dia como dia do Papa. E hoje gostaria de centrar-me nas leituras propostas, mas, de modo muito particular, na missão do Papa, tanto como Sucessor de São Pedro, como também naquele que foi escolhido pelo Espírito Santo para fazer viva e atuante a unidade imperecível da Igreja, não obstante as dificuldades que sempre se abateram sobre ela, especialmente nos últimos anos.

Para isso, gostaria de tomar como ponto de partida a primeira leitura, onde manifestar-se-á visivelmente a unidade da Igreja para com o seu guia. Diz o texto: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (12, 5). Aqui vemos que sempre fez-se presente na Igreja a necessidade da oração. Vemos que os fiéis olham com solicitude para o seu pastor. Olham como pessoas que, longe dele, estavam perdidas, desnorteadas, e não sabiam mais por onde deviam prosseguir. E eis que vemos isto tão claramente na situação da Igreja hodierna. Quantos fiéis que, querendo buscar sua sabedoria, desmerecendo os valores cristãos, buscam pastorear a si mesmos, abandonando a Igreja e o seio no qual foram gerados? Para estes vale o que diz esta leitura, onde se manifesta intrinsecamente o sinal de unidade, já aparecido nos primórdios da Igreja.

Na segunda leitura São Paulo (o qual ao lado de São Pedro a Igreja celebra como grande mártir da fé) diz a Timóteo, seu fiel colaborador: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição” (2 Tm 4, 6-7). Em primeiro lugar, convém ressaltar que o significado de libação é um derramamento de água, vinho, sangue ou outros líquidos, em honra de Deus, ou, no período romano ou grego, em honra de algum ídolo. Neste caso a libação assume um caráter sacrifical, não apenas com um liquido a ser derramado, mas com o sangue daqueles que, pela fé e pela propagação do Evangelho, testemunharam o Senhor que, sacrificado por nós, já não morre, mas vive, e se vive é porque a nós destina algo maior, ao qual o apóstolo se refere como a “coroa da justiça”.

Esta “coroa” é dada não apenas aos mártires, ou aos santos, mas também a nós ela é destinada. A nós se como cristãos demos verdadeiro testemunho de vida, e sacrificamo-nos pela causa maior do Evangelho. É uma “coroa” condicional, bem verdade; não somos obrigados a recebê-la. Mas para o cristão ela deve transmitir não uma simbologia, radicada nas figuras de linguagem da época de Paulo; ela deve nos mostrar que o verdadeiro prêmio é Cristo, e que sem Ele a vida do homem não tem sentido e não está destinada a um objetivo. Ora, estes apóstolos que a Igreja hoje celebra com tanta alegria (aqui no Brasil a Solenidade é celebrada no próximo domingo), demonstram – como disse Santo Agostinho – que suas mortes não foram em vão, buscavam um objetivo: “Estes mártires viram o que pregaram, seguiram a justiça, proclamaram a verdade, morreram pela verdade” (Sermo 295,1-2.4.7-8:PL38,1348-1352). E onde eles encontraram esta verdade? Onde muitos homens hoje poderiam encontrá-la se não fossem tão egocêntricos: Jesus Cristo. Ele, única e eterna verdade, foi a resposta para Pedro e Paulo. Não foi nas perseguições aos cristãos que Paulo encontrou a plena alegria, não foi na sua companhia de pesca que Pedro encontrou a sua satisfação completa, mas foi em Cristo. E eis que eu peço todos os dias que a nossa humanidade caminhe para Ele, não para as ideologias efêmeras, que buscam radicar estruturas na sociedade.

O cristão é chamado a combater, mesmo que isso lhe custe a vida, e, após terminada, esta já não nos valerá mais, pois a verdadeira alegria é estar com Deus, é poder contemplá-lo e poder descansar em ser colo acolhedor, recebendo o abraço do Pai, mesmo que muitas vezes tenhamos sido “filhos pródigos”.

Recordo-me das magníficas palavras do Santo Padre Bento XVI: Tenha a coragem de aventurar-se em Deus! Tente! Não tenha medo d’Ele! Tenha a coragem de apostar na fé! Tenha a coragem de apostar na bondade! Tenha a coragem de apostar no coração puro! Comprometa-se com Deus, então verá que justamente fazendo isso a sua vida se tornará ampla e iluminada, não monótona, mas repleta de infinitas surpresas, porque a suprema bondade de Deus jamais acaba!” (Homilia, 8 de dezembro de 2005). Assim é a figura de cristãos que a Igreja, e principalmente o mundo, precisa.

Por fim o maravilhoso Evangelho dispensaria até comentários. Mas dirá Padre Antonio Vieira, sobre o diálogo de Jesus com Pedro, e a sua maravilhosa profissão:

“Primeiramente não nego, nem se pode negar que o texto  parece que fala com todos os Discípulos e Apóstolos,  a quem o divino Mestre fazia a pergunta. Mas eu  pergunto também quem foi o que única e singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: Respondit Petrus. E porque respondeu só ele e nenhum outro? Excelentemente St.° Ambrósio: Cum interrogasset Dominus quid homines de Filio hominis æstimarent, Petrus tacebat: ideo (inquit) non respondeo, quia non interrogor: interrogabor, et ipse quid  sentiam tum demum respondebo, quod meum est. «Enquanto Cristo perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer palavra» __  tacebat; e porque esteve calado Pedro e não respondeu palavra? «Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo»: Ideo non respondeo, quia non interrogor; «porém quando eu for perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim me pertence»: Cum interrogabor, et ipse quid sentiam respondebo, quod meum est. Note-se muito esta última palavra, quod meum est, na qual excluiu o mesmo S. Pedro a todos os outros Apóstolos e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima pergunta só era sua e só a ele pertencia. É verdade que a palavra da pergunta: vos autem parece que compreendia a todos; mas a resposta exclui aos demais, como encaminhada a ele por quem sabia o que só Pedro sabia e os demais ignoravam”.

- Pe. António Vieira, Sermão de São Pedro

Pedro! Eis aí um discípulo que não exclui sua resposta mediante os outros apóstolos. Ele fala em nome dos demais. Façamos uma analogia ao Santo Padre. Ele, em nome da Igreja, é, muitas vezes, o único a levantar sua voz em favor da Verdade (e digo “Verdade” com “V” maiúsculo porque não me refiro apenas a doutrinas, mas ao próprio Cristo), e por isso é caluniado, injustiçado. O Papa não governa a Igreja para ser simpático com ninguém. Ele governa a Igreja para mostrar ao mundo que há uma só Verdade, que há um só Senhor, e que há um só Caminho. E quando me lembro da grande promessa de Jesus a Pedro (“Non praevalebunt portae inferi – não prevaleceram as portas do inferno” (Mt 16,18)), sinto que cada dia mais confirma-se as palavras de São Paulo: “Deus é fiel” (1 Cor 10, 13).

Apesar das dificuldades e dos constantes ataques, a Igreja nunca será abandonada por Cristo. Ele estará sempre do seu lado. E nós, católicos, nunca abandonaremos Cristo, a Igreja e o Papa. Pois quem está contra o Papa e a Igreja, está contra Cristo, que fala por eles,  faz-se presente na humanidade por meio deles.

Que Maria nos ajude nesta tarefa de tornarmo-nos cristãos cada dia mais comprometidos com o Evangelho de Cristo, tomando como modelo para nós estas duas grandes figuras da Igreja.

Oremus pro Pontifice nostro Benedicto!

Ensinamento imune de erro

“Cristo ilumina toda a sua Igreja.” – Pio XII

Recebi, nesse fim de semana, de um amigo, o livro Os Papas e o Papado – de Pedro a Bento XVI, contando uma breve história dos pontificados de todos os pontífices da Igreja Católica Apostólica Romana. Também contém alguns tópicos no final do livro, mostrando o contexto histórico no qual estiveram inseridos todos esses pontificados. Em suma, o livro é muito bom e oferece uma contribuição muito importante para um melhor entendimento da história da nossa fé.

E que história! Quantas heresias tentaram se infiltrar no seio da Igreja e corromper a verdadeira fé… Quantas batalhas teológicas a Igreja travou contra uns que desvirtuavam a palavra de Deus e a mensagem do Evangelho! A Igreja experimentou, por diversas vezes, a assistência do Espírito Santo, que Jesus Cristo prometeu a S. Pedro, após a sua belíssima confissão de fé. A ele deu Deus as chaves do Reino. “… e as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). A promessa vem do próprio Senhor. Os protestantes que acusam a Igreja Católica de distorcer as palavras de Cristo se esquecem que as portas do inferno não podem prevalecer, porquanto a Igreja, sendo divina, não pode ser derrubada por nenhuma força humana.

O ensinamento dogmático da Igreja está imune de erro, diferentemente dos pensamentos formulados pela mente dos homens. E mesmo quando o Papa não se pronuncia ex cathedra, suas palavras são de uma enorme riqueza para a glorificação de Deus e para a salvação das almas. É o que diz Santo Alberto Hurtado: “A palavra do Sumo Pontífice, (…) não só quando define dogmaticamente, mas também quando ensina de forma ordinária, tem a máxima autoridade na terra” (El Orden Social Cristiano en documentos de la Jerarquia Catolica, tomo I). Não queremos estender a infalibilidade papal dos pronunciamentos ex cathedra aos outros discursos, mas também não podemos deixar de lado esses outros documentos pontifícios, uma vez que são exortações recheadas de considerações oportuníssimas para o desenvolvimento de uma correta compreensão dos dogmas de fé proclamados pela Igreja em toda sua existência.

Mas, voltando ao cerne da questão, nós cremos no dogma da infalibilidade do Papa, proclamado pelo Concílio Ecumênico Vaticano I, em 1870:

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/Pio_IX.jpg“Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, nosso Salvador, para exaltação da religião católica, e para a salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja, em virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis.”

- Const. Dogmática Pastor Aeternus, cap. IV, 1839

E por que nós cremos? Nós cremos porque confiamos na autoridade dessa Igreja que, apesar de ser governada visivelmente por homens, possui como Cabeça o próprio Senhor. E os pecados dos seus membros não reduzem ou minimizam a beleza da santidade da Igreja, fruto do santo sacrifício de Cristo na Cruz. Os terríveis pecados cometidos por Alexandre VI ou outros papas de conduta pouco honesta não contradizem o dogma de fé proclamado pela Igreja, afinal, foi confiado ao príncipe dos Apóstolos a infalibilidade, e não a impecabilidade.

Dom Estêvão Bettencourt dizia que o ouro, mesmo passando por mãos sujas, não deixa de ser ouro. Assim também acontece na Igreja. O trono de Pedro, no qual se sentaram muitos homens corruptos, continua sendo riqueza da nossa fé, autoridade da nossa Igreja. Obedientes ao Papa e aos ensinamentos da Santa Igreja, sigamos. Que Maria Santíssima nos ajude a sermos fiéis soldados de Nosso Senhor, soldados que proclamem incessantemente a Verdade que liberta, que redime, que salva.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Cristo ilumina toda a sua Igreja

http://gregolsengallery.com/Merchant5/graphics/00000001/goChristWalkingOnShoreline_web.jpg“Cristo ilumina toda a sua Igreja: prova-o um sem número de passos da Sagrada Escritura e dos santos Padres. “A Deus nunca ninguém o viu; foi o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, que no-lo deu a conhecer” (Jo 1, 18). Vindo da parte de Deus como Mestre (cf. Jo 3, 2), para dar testemunho a verdade (cf. Jo 18, 37) iluminou com tanta luz a primitiva Igreja dos apóstolos, que o príncipe deles exclamava: “Senhor, para quem iremos? Vós tendes palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Assistiu do céu os evangelistas, que, como membros de Cristo, escreveram o que ele, como cabeça, lhes ditou e ensinou. E hoje, a nós que moramos neste exílio terrestre, é autor da fé, como na pátria é o seu consumador (cf. Hb 12, 2). É ele que infunde nos fiéis a luz da fé; ele que aos pastores e doutores e sobre todos ao seu vigário na terra enriquece divinamente com os dons sobrenaturais de ciência, entendimento e sabedoria, para que conservem fielmente o tesouro da fé, o defendam corajosamente, piedosa e diligentemente o expliquem e valorizem; Ele é enfim o que invisível preside e dirige os concílios da Igreja.”

- Pio XII, Mystici Corporis, n. 49
29 de junho de 1943

“Segue-me”

No convite pressuroso feito nas leituras neste domingo, encontramos com grande vivacidade a importância do seguimento à Palavra de Deus, à qual todos os cristãos são chamados a viver. Já podemos notá-lo desde a primeira leitura, quando Eliseu, chamado pelo Senhor, pôs-se a servir Elias. Tal passagem nos coloca já em um contato com o Evangelho, ao qual Jesus faz muitas propostas, mas que sem elas seria impossível este “sim” autêntico ao projeto do Reino de Deus.

E, precisamente, Paulo nos oferece métodos de como viver este seguimento, que tenha como único centro o Cristo. E isto, renunciando a qualquer ideologia ou mito criado pelos homens e, buscando viver o Evangelho na sua pureza. Parece, em um primeiro momento, que Paulo é muito rígido, mas estas exigências que ele impõe, são necessárias para que os homens saibam que o Evangelho não é um conjunto de libertação ou de idéias de pessoas frustradas. O Evangelho exige renúncia porque exige amor! Só quem ama a Cristo e deixa-se guiar por Ele é capaz de aceitar as renúncias e não levá-las como um “castigo”, mas como um método necessário para um seguimento verdadeiro.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai, pois, firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1). Esta liberdade, provinda da morte e ressurreição do Senhor, manifesta-nos que já somos criaturas renovadas e que o pecado não mais nos acorrenta. Maior que o erro de Adão e Eva, é o Amor de Deus, que doa seu Filho para que, com Ele e n’Ele, pudesse haver o verdadeiro sacrifício da redenção, que a todos os homens chama para uma nova vida.

“Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade” (Gl 5, 13). Gostaria de centrar-me nesta passagem por alguns instantes. Paulo exorta a não transformar a liberdade em “libertinagem”; a não nos tornarmos escravos do pecado. Somos chamados a anunciar as incontáveis maravilhas que Deus fez e faz na humanidade; para isso, a nossa liberdade é necessária. Somos libertos para mostrarmos que Deus não se prende às cadeias da morte, que a nossa vida cristã não deve ser gasta com situações e prazeres efêmeros. Precisamente, em uma época que tende a banalizar o verdadeiro sentido da sexualidade e vive-se uma promiscuidade constantemente condenada pela Igreja, as palavras de São Paulo ressoam com mais força e ganham mais espaço na sociedade. Muitos, porém, desejam, ardentemente, ocultar esta verdade da sociedade e, entregando-se a paixões e desejos libidinosos, ocultam o verdadeiro sentido do Evangelho em suas vidas. E precisamente aí a missão da Igreja se torna mais clarividente. “A principal reforma da Igreja é a do coração do homem, isto é, a conversão interior!” (Frei Cleiton Robson)

“Com efeito, toda a Lei se resume neste único mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’” (v. 14). Amar! Se muitos, por um lado, afundam-se em paixões desordenadas, tais paixões não podem receber o atributo de amor. O verdadeiro amor desgasta-se pelo próximo; não tem reservas; está estritamente unido a Deus; caminha segundo os mandamentos divinos; e, sobretudo, o verdadeiro amor é Deus! E este amor incute em nosso coração a necessidade de transmiti-Lo ao próximo, pois tamanha é a alegria que não podemos contê-la. Mas farei uma analogia entre as duas palavras (amor e caridade). No latim, a palavra charitas significa amor ou caridade. Logo, “quem pratica a caridade ama, e quem ama deve praticar a caridade” (Sto. Agostinho). O maior exemplo de serviço foi dado pelo próprio Cristo. Fazendo-se servo, Ele não revogou para si qualquer dignidade ou condição divina.

Eu vos ordeno: Procedei segundo o Espírito. Assim, não satisfareis aos desejos da carne. Pois a carne tem desejos contra o espírito, e o espírito tem desejos contra a carne. Há uma oposição entre carne e espírito, de modo que nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer” (Gl 5, 16-17). Muitos têm a grande necessidade de abrir-se à graça santificadora do Espírito Santo. Ele pode dar um novo sentido existencial para a nossa vida. Nele poderemos encontrar as forças necessárias para vencermos todas as tentações que vêm nos estimular a perpetramos pecados contra Nosso Senhor. Reconheçamos a nossa fraqueza e mergulhemos no Espírito, que “sonda tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1 Cor 2, 10).

Procedamos realmente como cristãos! Não nos deixemos desanimar! Fortaleçamos o espírito pela oração, para que o demônio nos encontre sempre atentos e animados, na certeza de que estamos intrinsecamente unidos ao Espírito, de tal modo que já não podemos viver longe dEle.

Enfim, no Evangelho vemos que por não serem acolhidos em Samaria, Tiago e João queriam que Jesus implorasse “fogo do céu”, para que matasse a todos; buscavam uma atitude agressiva. No entanto, Jesus os repreende. Ora, a atitude do cristão nunca deve passar pela força. Deve ser, antes, algo de livre abertura à vontade de Deus, para que se cumpra o que Jesus ensinou.

“Segue-me”, diz Jesus. E nós não devemos impor resistência, como fizeram algumas das personagens do Evangelho de hoje. Se formos escolhidos demos nosso sim disponível! Pois mais vale um sim verdadeiro e disponível aos olhos de Deus, que um sim de má vontade.

Que Maria, humilde serva do Senhor, nos auxilie em nosso caminho missionário. Ela que com o seu sim permitiu que a salvação entrasse no mundo, nos ajude a também darmos um “sim” destemido a Jesus e sua graça santificadora.

Desça sobre vós abundantes bênçãos, em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

A eficácia da oração

“Através desta oração coral, que encontra o seu cume na participação cotidiana no Sacrifício Eucarístico, a vossa dedicação ao Senhor no silêncio e no escondimento é tornada fecunda e fértil, não somente em ordem do caminho de santificação e purificação pessoal, mas também no que diz respeito àquele apostolado de intercessão que desenvolveis por toda a Igreja, para que possa aparecer pura e santa diante do Senhor. Vós, que bem conheceis a eficácia da oração, experimentais todo o dia quantas graças de santificação ela pode obter à Igreja.”

(Papa Bento XVI, Homilia no Mosteiro Dominicano de Santa Maria do Rosário; 24 de junho de 2010)

O Santo Padre mais uma vez manifesta-nos a necessidade constante da oração, e não apenas dela, como também da vida contemplativa. Urge cada vez mais alto a necessidade de termos pessoas constantes na oração, que possam levar uma vida contemplativa e nela descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Verdadeiramente não são as alegrias terrenas que nos farão contemplar a face de Deus, mas o nosso interior, a nossa condição de pessoas e de cristãos.

Para quantos no mundo hodierno parece-se uma insensatez, ou até mesmo uma loucura, a vida de clausura, ao qual muito dos nossos irmãos se detém? Mas a Igreja, constantemente, por meio dos Santos Padres sobretudo, nos convida a olharmos de forma diferenciada para esta vida de oração que a muitos enriquece. Quem sabe orar faz da sua vida um céu, quem não sabe a transforma em um inferno. Isto porque se a oração não nos dirige para Deus, e fere a nossa fé cristã nos fazendo cair na presunção da autossuficiência, não poderá ser boa e muito menos poderá pôr-nos em profundo contato com Deus, mas atirar-nos-á em um abismo, um existencialismo puro, sem um destino e sem Alguém que lhe dará pelo valor.

Só a oração verdadeira e íntima com Deus, que brota do coração, pode realmente fazer com que os homens e mulheres – especialmente os que dedicam suas vidas a rezar pelo mundo nos mosteiros – sintam o abraço do Pai e nele encontrem plena realização. Em um mundo tomado por ideologias que contrastam fortemente os sagrados ensinamentos evangélicos e os preceitos da moral católica, somos convidados a perseverar, como bem nos exorta São Pedro: “Sede, portanto, prudentes e vigiai na oração.” (1 Pd 4, 7).

São João Crisóstomo fala sobre os monges:

Ali há uma só riqueza para todos, a verdadeira riqueza, e uma só glória para todos, a verdadeira glória, pois não põem os bens nos nomes, mas nas coisas: um só prazer, um só desejo, uma só esperança para todos. Tudo está perfeitamente ordenado como com régua e esquadro. Não há ali desordem alguma. Tudo é ordem, ritmo e harmonia, e concórdia absoluta, e motivo constante de alegria. Por isto todos fazem e sofrem tudo para que todos vivam felizes e contentes. E assim, só entre os monges podemos ver esta pura alegria que não acontece em nenhuma outra parte, não só porque desprezaram o presente e cortaram pela raiz toda ocasião de dissensão e luta; não só porque têm as mais belas esperanças para o futuro, mas também pelo fato de que cada um considera como seu tudo quanto acontece de alegria ou tristeza aos demais. Deste modo, a tristeza desaparece facilmente, pois todos levam a carga, como se fossem um só, e se acrescentam os motivos de alegria, pois não se alegram só pelos próprios bens, mas também – e não menos que pelos próprios – pelos bens alheios”.

- Contra os impugnadores da vida monástica
Discurso III, cap. 21

Se muitos soubessem o verdadeiro valor da vida monástica e religiosa não a atacariam tão vorazmente, e muito menos a colocariam como castigo. Da oração brota o amor. E quem primeiro ama são aqueles que mais rezam. Logo, em nenhum momento ousaria dizer que amo mais que um religioso, ou um monge, ou uma freira. É Deus que ama o mundo por meio deles, é Deus que nos ama por meio dos sacerdotes.

Os Santos são exemplo vivo disto: Santa Teresinha do Menino Jesus, São Bento, Santo Antonio e tantos outros, que, apesar de não serem monges, viviam em alguma congregação.

Doar-se e doar-se sem reservas: eis um lema que deve centralizar a vida cristã. Aquele que se doa em primeiro lugar doa-se à oração. E se muitos soubessem o inexaurível valor da oração não a excluiriam de suas vidas, mas saberiam que ali achariam forças para nutrir a caminhada neste mundo e nos garantir a salvação no próximo.

Não basta rezar, é necessário saber rezar.

Encerro com as sábias palavras de São Paulo, que são tão consoladores à todos nós: “Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12, 12).

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Não só de pão vive o homem

http://theblackcordelias.files.wordpress.com/2009/06/pope.jpg?w=220&h=331“Dom Orione viveu de modo lúcido e apaixonado a missão da Igreja de viver o amor para fazer entrar no mundo a luz de Deus. Ele deixou tal missão a seus discípulos, como via espiritual e apostólica, convencido de que “o amor abre os nossos olhos à fé e aquece os corações pelo amor a Deus”. Continuai, queridos Filhos da Divina Providência, sobre esta via carismática por ele iniciada, porque, como ele dizia, “o amor é a melhor apologia da fé católica”, “o amor arrasta, o amor move, conduz à fé e à esperança”. As obras de caridade, sejam como atos pessoais ou serviços às pessoas vulneráveis oferecidos por grandes instituições, não podem nunca ser reduzidas a gesto filantrópico, mas devem sempre ser expressão tangível do amor providente de Deus. Para fazer isso – recorda padre Orione -, deve-se estar “mesclado à caridade suavíssima de Nosso Senhor” mediante uma vida espiritual autêntica e santa. Somente assim é possível passar das obras de caridade à caridade das obras, pois – adiciona o vosso Fundador – “também as obras sem a caridade de Deus, que as valorizam diante d’Ele, são inúteis”.”

(Papa Bento XVI, discurso na benção da estátua de Maria Salus populi romani, 24 de junho de 2010)

O Santo Padre alude ao mistério do amor de Cristo: citando São Luís Orione, diz que o amor abre os nossos olhos à fé e aquece os corações pelo amor de Deus. De fato, Sua Santidade não faz referência a qualquer amor. “O termo « amor » tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes” (Deus Caritas Est, n. 2). É preciso resgatar o conceito cristão de amor. É preciso que voltemos a olhar para o amor que Deus tem por nós, amor tão grande que fez com que Ele entregasse Seu Filho único para a nossa salvação (cf. Jo 3, 16). Por esse amor que o Senhor tem por cada um de nós, cremos no mistério da Redenção; por esse amor, que Ele manifestou em Cristo Jesus, amamos ao próximo.

É esse amor que nos motiva a praticarmos a caridade, lembra Bento XVI. Por isso, não podemos nos esquecer de propagar cada vez mais a fé de Nosso Senhor. Se é verdade que a genuína caridade brota desse amor de Deus que se encontra com a miséria humana, também é verdade que, ao ajudarmos ao próximo nas suas necessidades materiais, não devemos nunca nos esquecer que mais importante que isso é matar a sede espiritual presente na nossa alma. As obras de caridade “não podem nunca ser reduzidas a gesto filantrópico”; com efeito, elas são ações sociais, mas devem ser feitas com os olhos fixos em Cristo e na vida eterna. “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (1 Cor 15, 19). Manifestamos o amor para com os irmãos tendo em vista principalmente a salvação de sua alma.

E as outras obras de filantropia, praticada pelos não-cristãos, devem ser desprezadas? Atentemo-nos às palavras de São Luís Orione. As obras sem a caridade de Deus são inúteis. E por que se diz isso? Porque, muito embora possam ajudar e confortar materialmente as pessoas, as obras meramente filantrópicas deixam de lado o mais importante. “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 36). Sobrenaturalmente falando, as obras de caráter unicamente filantrópico são realmente inúteis. De que adianta dar comida, roupa e bens necessários para uma boa vida nesse mundo, se não se ocupa em dar às pessoas a palavra de Deus? Não só de pão vive o homem, já dizia Nosso Senhor, citando o Antigo Testamento.

Preocupemo-nos em garantir aos famintos e doentes assistência material e principalmente espiritual. Sejam saciados não só com o pão que alimenta o corpo, mas também com o Pão do Céu, a Eucaristia.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Sacerdócio não é para prestígio social

O sacerdócio não pode jamais representar um caminho para obter segurança na vida ou conquistar uma posição social. Quem aspira o sacerdócio para aumentar seu prestígio pessoal e seu próprio poder interpreta equivocadamente o sentido deste ministério. Quem quer, sobretudo, alcançar uma própria ambição, alcançar o próprio sucesso, será sempre escravo de si mesmo e da opinião pública. Para ser considerado deverá adular; deverá dizer aquilo que as pessoas gostam; deverá se ajustar às novas modas e opiniões e, assim, privar-se-á da relação vital com a verdade, reduzindo-se a condenar amanhã o que será louvado hoje. Um homem que colocou assim sua vida, um sacerdote que veja nestes termos o próprio ministério, não ama verdadeiramente a Deus e aos outros, mas só a si mesmo e, paradoxalmente, acaba por se perder.”

“O sacerdócio – lembremo-nos sempre – depende da coragem para dizer “sim” à outra vontade, na consciência, de fazer crescer a cada dia, que a sua conformidade com a vontade de Deus, “imerso” nesta vontade, não só não será cancelada a nossa originalidade, mas, ao contrário, entraremos sempre mais na verdade do nosso ser e do nosso ministério.”

- Papa Bento XVI, Homilia na ordenação de novos sacerdotes
20 de junho de 2010

Não há Bíblia sem Igreja

Meu avô é um católico e leitor assíduo das Sagradas Escrituras. Certa vez, conversando com um adventista sobre a Bíblia, este lhe revelava sua admiração pela fé do meu avô. “Mas, como o senhor, sendo católico, lê tanto a Bíblia?”, o adventista perguntava. Meu avô explicou que infelizmente muitos católicos se deixavam levar pelo comodismo de não querer anunciar a Palavra de Deus e acabavam não dando tempo à leitura das Escrituras. O adventista insistiu: “O senhor, lendo a Bíblia assim, vai deixar de ser católico fácil”, ao que meu avô retrucou: “Se eu for ler a Bíblia pra deixar de ser católico, prefiro parar de ler a Bíblia”.

Quando meu avô me contou a história, fiquei feliz em ver que ele confiava na autenticidade do Magistério da Igreja e não se deixava levar pela tola conversa do livre exame proposta por Lutero. São Pedro já advertia que “nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular” (2 Pd 1, 21). E não é mesmo. O intérprete das Escrituras é o Espírito Santo e, como esse foi dado à Igreja, somente Ela pode interpretar autenticamente as Escrituras. A primeiro momento, pode parecer arrogância. “Ah, por que a Igreja pode interpretar de maneira correta a Bíblia?”

Ora, justamente porque foi a Igreja Católica que definiu o Cânon das Escrituras. Foram os bispos da Igreja que se reuniram e decidiram quais seriam os Livros Sagrados. Mais exatamente no século IV, o papa Dâmaso estabeleceu, num decreto denominado gelasiano, quais seriam os livros verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. “Agora verdadeiramente devemos discutir sobre as Divinas Escrituras, quais são aceitas pela Igreja Católica no universo e quais devem ser rejeitadas.” Foi assim que nasceu a Sagrada Escritura. Da autoridade do Magistério da Igreja, da análise dos bispos da Igreja Católica, do exame dos Santos Padres.

Quando você tira a base da autoridade da Bíblia, que é a Igreja Católica, sobra a incoerência. Os protestantes bradam “Bíblia sim, Igreja não”, mas não percebem o quanto é louca e insana essa afirmação. Eles dizem, sem dúvida, que a Bíblia é inspirada pelo Espírito mas negam que devem se submeter à autoridade da Igreja. Para eles, a Igreja é coisa de homens e, portanto, não deve ser levada a sério. O grande problema é que essa fé nas Escrituras deriva justamente da fé na infalibilidade do juízo da Igreja. E é aí que a base da sola scriptura vai para o buraco.

E como é justamente a Igreja a pedra sobre a qual está autoridade da Bíblia Sagrada, é justamente sobre a Igreja que deve estar consolidada a verdadeira interpretação das Escrituras. Se foi ela que definiu os livros que estavam verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo, também é ela que vai afirmar qual interpretação dos Livros Sagrados está correta. Como os protestantes não têm essa base, cria-se, então, uma confusão. É o livre exame. Cada um interpreta a Sagrada Escritura do jeito que quer. São, como dizia Nosso Senhor, cegos guiando cegos. E se aquela interpretação não agrada, uma nova igreja é fundada; e se aquela nova igreja fundada desagrada em seu discurso, criam-se outras. Criam-se mais e mais igrejas.

Nós cremos nas palavras da Bíblia e cremos que ela é inspirada pelo Espírito. Mas nós também cremos na Igreja, pois, assim como as ovelhas reconhecem a voz do pastor, assim também os primeiros Padres da Igreja, em comunhão com o bispo de Roma, reconheciam Nosso Senhor, identificavam os verdadeiros Evangelhos e rejeitavam os falsos. Que a Virgem Santíssima conduza ao redil de Nosso Senhor os cristãos que ainda não crêem na autoridade da Santa Igreja Católica. Abra-lhes os olhos o Espírito da Verdade.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Não deixe de ouvir: Por que não há Bíblia sem Igreja?, do blog do pe. Paulo Ricardo

E você, quem diz que eu sou?

O Evangelho deste domingo põe-nos em profundo contato com a profissão de fé de Pedro e um riquíssimo sentido da vida cristã, que jamais pode ser ab-rogado da nossa caminhada.

Tendo como ponto de partida a afirmação de Pedro, desejo dar inicio à nossa reflexão dominical. Em primeiro lugar é necessário ressaltar o que diz o evangelista ao afirmar que o Senhor se encontrava em oração, e logo em seguida interroga seus discípulos sobre o que falavam dele. Ora, Jesus antes de tomar tal decisão, e de por os seus discípulos “à prova”, por assim dizer, pôs-se em oração. Antes de qualquer atitude importante Jesus colocava-se em oração. Mesmo sendo Filho de Deus, e sendo Deus, ele não se absteve de orar incessantemente. Muitas vezes, no entanto, nós queremos nos sobrepor com nossas ações e ideologias e nos esquecemos que somos frágeis e constantemente devemos recorrer à oração. Esta não é um esvaziamento da realidade, não busca tornar os problemas invisíveis; no entanto, coloca-nos em profundo contato com Deus, nos une a Ele e nos dá coragem para enfrentarmos todas as dificuldades. Bem recordou o Santo Padre o Papa Bento XVI: “Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens” (Spe Salvi, 33).

Jesus pergunta aos apóstolos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus” (Lc 9, 20). Eis uma afirmação que quer persuadir-nos da verdadeira missão de Cristo, vivificada constantemente pelos sacerdotes, alter Christus. Cristo (ungido) são também os sacerdotes que assumem esta grande responsabilidade, e que, esquecidos pela mídia que focaliza apenas os maus sacerdotes, não mostram a grande maioria que doam suas vidas pelo Reino de Deus. E você, quem diz que eu sou? Pergunta também Jesus a nós hoje. Pergunta a mídia e aos que constantemente atacam a Igreja. “Acaso ignorais que vivo hoje por meio dos sacerdotes?”, poderia indagar-lhes Jesus. Infelizmente vemos que Cristo está sendo novamente crucificado, e O crucificam por que não creem nas palavras da Igreja, por que não querem enxergar nos sacerdotes a imagem viva de Cristo.

A Igreja poderia contemplar apenas um Cristo vitorioso, se nos momentos de tribulação ela não tivesse que contemplar o Cristo crucificado. Pois se excluíssimos o Cristo sofredor das nossas vida não saberíamos o caminho da ressurreição: passar pela cruz.

Mas adiante Jesus chama seus discípulos e expõe-lhes sua missão. Ele não era um Cristo que queria ser engrandecido. Nós O engrandecemos, e é o mínimo que poderíamos fazê-lo, mas Ele não queria ser o “centro das atenções”, o “maioral”. Quão grande foi a surpresa dos discípulos ao ouvirem: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22).

Mas como? Será mesmo que Jesus não poderia redimir o mundo de outra forma? Somente derramando o seu sangue Jesus poderia lavar os pecados da humanidade, destruir Satanás e dar novo sentido à nossa existência humana: Pela redenção de Cristo foram-nos abertas as portas da misericórdia e a esperança duradoura da nossa ressurreição no mundo vindouro. Assim, Jesus, com seu lado aberto, não só realiza a profecia – Olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10) –, como também faz com que desse lado brotem abundantemente sangue e água, prefiguração dos sacramentos da Igreja.

Somente se pode alcançar a verdadeira ressurreição depois que passarmos pela morte. Só se chegará à alegria verdadeira depois que superarmos as tribulações. E o primeiro e principal método para superá-las é por meio da oração. Sendo que um cristão que não se põe em atitude de oração não saberá qual é o caminho certo a trilhar.

Enfim, Jesus propõe algo que todos nós devemos assumir, mesmo que pareça paradoxal ou radical: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (v. 23-24).

Tomar a cruz talvez seja para o mundo de hoje algo impensável. Muitos podem indagar-se como em uma sociedade com tantos prazeres desnecessários e efêmeros, mas que satisfazem, mesmo que apenas no âmbito da vida terrena, pode o homem pensar em caminhar levando uma pesada cruz, dos fardos cotidianos, dos desafios, das pedras que dificultam o caminho cristão? Mas para quem está com Cristo a tristeza maior é estar sem Ele. A dificuldade maior é perdê-lo, o medo maior é não encontrá-lo.

Será realmente que teríamos coragem de perder nossas vidas por causa do nome de Jesus e de tudo o que Ele ensinou e fez? A felicidade duradoura e verdadeira só pode ser encontrada quando pudermos estar face a face com Deus. Quando nos pusermos em atitude de serviço e soubermos que, mesmo onde o perigo é constante, a fidelidade e o amor a Deus se fazem maior.

Só nós poderemos responder a uma pergunta de Jesus que, perpassados estes dois mil anos, continua a ecoar em nossos ouvidos: “E você, quem diz que eu sou?”

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!