O novo Prefeito da Congregação para o Clero responde

Oferecemos abaixo nossa tradução do trecho de uma entrevista concedida pelo novo Prefeito da Congregação para o Clero, Dom Mauro Piacenza, ao jornal Avvenire, disponibilizada em italiano no link que segue. O cardeal responde quais serão os seus desafios à frente da Congregação e faz alguns apontamentos importantes com relação à crise de vocações sacerdotais e ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por membros do clero.  O texto da entrevista foi traduzido para a língua espanhola pelo blog La Buhardilla de San Jerónimo.

http://www.arautos.org/resource/view?id=27851&size=2Com que o espírito o senhor guiará a Congregação para o Clero?

Espero que com o Espírito Santo! E tem-se a segurança de atuar no Espírito Santo se se está na comunhão verdadeira, leal e afetiva com o Papa. O serviço aos sacerdotes sempre animou, de modo particular, o meu ministério: desde jovem sentia como uma exigência de mim mesmo ser sacerdote. Estou muito contente, hoje, de poder oferecer a minha humilde colaboração ao Santo Padre no cuidado daqueles que são pupila oculi do Papa, indispensáveis colaboradores da Ordem episcopal para a missão da Igreja.

Quais são as principais linhas de ação que seguirá nesta tarefa?

A formação do clero, nas atuais circunstâncias, representa certamente uma prioridade à qual eu gostaria de colocar a justa atenção, tendo presente que a reforma da Igreja nasce quando dobramos os joelhos, nasce daquele espírito de oração que reconhece o primado absoluto de Deus na própria existência e na história. Disto brotam as conseqüências operativas.

O senhor seguiu bem de perto a concepção e a realização do Ano Sacerdotal. Que herança deixa este período vivido com base no exemplo da memória de São João Maria Vianney?

Certamente uma recentralização naquilo que, na vida do sacerdote, é essencial, superando os diversos “reducionismos secularizantes” que tem ocorrido nas últimas décadas. Olhar para São João Maria Vianney significa redescobrir o primado da Eucaristia, cotidianamente celebrada e adorada, da Confissão sacramental, recebida e oferecida, e da paciente escuta dos irmãos naquele importantíssimo serviço de guia das consciências na direção espiritual. Olhar para o Cura de Ars significa olhar para um sacerdote autêntico, que vive o Amor do Coração de Jesus, significa compreender o que se deve fazer para formar os sacerdotes para a eficácia do ministério pastoral.

Nos últimos anos, tem se dado uma grande ênfase no triste fenômeno dos abusos sexuais. De que maneira a Igreja pode viver e superar esta crise?

Com o esclarecimento da responsabilidade dos indivíduos, seguindo o exemplo do Papa Bento XVI; com o atento e devido cuidado pastoral com as vítimas; redescobrindo o grande valor da penitência e da reparação e, certamente, vivendo aquela fidelidade radical a Cristo, à Igreja e ao próprio estado de vida, que é capaz por si só de voltar a apresentar ao mundo a verdadeira figura do sacerdote.

De que modo se pode responder à crise de vocações que ameaça nossas comunidades?

Através da oração ao Senhor da messe, através do claro e humilde reconhecimento dos erros cometidos, através da fidelidade ao que somos e ao que devemos ser. As vocações – é um fato – florescem ali onde há radicalidade na fé, caridade evangélica, claridade de identidade e alegre entusiasmo. Os movimentos e as novas comunidades são exemplos neste sentido. O fato de ter se diluído, quase perdido, a identidade sacerdotal, que surge da configuração ontológica a Cristo Sacerdote, influenciou os jovens e fez com que eles perdessem toda forma de interesse pela especificidade da vocação sacerdotal. Não nos fazemos sacerdotes para ser “super-animadores” da comunidade, mas sim para ser no mundo a representação sacramental, portanto, real, de Jesus Cristo.

(…)

É hora de despertarmos! O Senhor vem ao nosso encontro!

Com o 1º Domingo do Advento, damos início ao novo tempo litúrgico que acontece nos ciclos trienais da Igreja.

Precisamente no Advento vemos “nascer” em nós a expectativa da vinda do Senhor. O Messias que vem para libertar-nos do mal e nos redimir com o Seu sangue redentor. É um tempo de deixar que floresça uma nova vida, unida a Deus e submissa aos seus mandamentos. E isto São Paulo nos apresenta na segunda leitura, particularmente, em uma passagem que consideramos riquíssima e profunda, pondo-nos em contato com Deus, que nos chama a sermos filhos da luz. Escreve ele:

“Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia; nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13, 11-14a).

Paulo utiliza de palavras escatológicas para alertar aquela comunidade e também a nós, sobre a demasiada situação de ociosidade. É hora de despertarmos! O Senhor vem ao nosso encontro, mas a nossa vida só terá verdadeiro sentido quando também nós formos ao encontro d’Ele. Este ir não deve ser apenas uma experiência de Cristo, senão também uma experiência nossa. Obviamente que Paulo se referia também a uma possível vinda iminente do Senhor Jesus para encerrar a História; no entanto, estas palavras que ecoam ainda hoje nesta sociedade que alguns vivem contra os valores do Evangelho, convidam-nos a um imediato despertar diário, e não apenas no momento próximo ao advento definitivo de Cristo Jesus.

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Nossa Senhora da Expectação

Mais adiante, o apóstolo nos afirma que a salvação está mais próxima que antes, nos primórdios, ao abraçarmos a fé. Não nos é difícil compreender tais palavras, pois, ao abraçarmos a fé ela ainda está como que imatura; mas, com o decorrer da caminhada ela se torna firme, consistente. Mas, para isso, é preciso que ela seja colocada no coração do Pai, e que n’Ele encontre o seu princípio e fim. Comparemo-la a uma planta que, para tornar-se verdejante e bela, precisa ser bem cuidada e receber toda a dedicação.

Aqui chegamos a uma das passagens de Paulo que mais me toca e fazem-me associá-las de imediato com a hodierna sociedade, com as quais ela incide e se configura. Despojar-nos das ações das trevas! Afastemo-nos da impureza! Abramo-nos a Cristo! Para que, entrando em nossas vidas, possamos achar plena realização, que dar-se-á unicamente n’Ele. Nos afastemos de tudo o que é mal! Nos afastemos do pecado, da ganância, da luxúria, da preguiça, da falta de amor, das drogas. Deixemos que Cristo seja a nossa armadura. Revistamo-nos d’Ele! Ele nos faz vencer qualquer perigo! Não é preciso que usemos de objetos violentos, mas que levemos conosco e em nós, aquele que pode nos dar a eterna felicidade; que é doce e, ao mesmo tempo, rigoroso, não obstante a isso, mesmo em sua rigorosidade, Ele é infinitamente misericordioso.

Assim, pois, escreve Santo Agostinho:

“Quem não tem inquietações, aguarda com serenidade a vinda do Senhor. Pois que amor a Cristo é esse que teme sua chegada? Irmãos, não nos envergonhemos? Amamos e temos medo de sua vinda. Odiemos, portanto, estes mesmos pecados e amemos aquele que virá castigar os pecados. Ele virá, quer queiramos, quer não. Se ainda não veio, não quer dizer que não virá. Virá em hora que não sabes; se te encontrar preparado, não haverá importância não saberes” (Santo Agostinho Apud Alimento Sólido, pág. 61).

A que horas vem o Senhor? A qualquer hora! Ele virá e nós seremos surpreendidos pela sua gloriosa vinda. E isto relata-nos Jesus no Evangelho de São Mateus: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem” (vv. 24, 37-39).

Na hora menos esperada vem o Senhor. E eis que devemos prepararmo-nos. Qual é o prazer que o pecado pode oferecer se sabemos que, por seu jugo poderemos padecer por toda a eternidade? Podemos nos perguntar se não é melhor sofrermos agora do que sofrer durante toda a eternidade?

Ora, como a imprudência dos homens fez com que Deus devastasse o mundo com o torrencial dilúvio, assim serão também as almas imprudentes e que fecham-se ao Evangelho, destinadas ao eterno tormento. É melhor padecermos aqui, abraçando a Cristo e tendo todas as consolações que d’Ele provêm.

Na quinta-feira passada estava andando pela rua, e em minha pequenina cidade todos sabem da minha vocação à vida sacerdotal. De repente, ouvi alguém gritar: “Os Padres são pedófilos!” E correu! Ora, sabia que aquelas palavras se dirigiam para mim. Mas o que fiz? O que poderia fazer senão rezar? Eu sei que os padres, em sua grande maioria não são pedófilos, mas sei também que Satanás se utiliza de diversas artimanhas para nos desviar do caminho de Cristo. Pois saiba Ele que, quanto mais nos provar mais serei fiel e mais rezarei. Tenho consciência que devo padecer aqui, para só em Cristo ser feliz eternamente.

Que Maria Santíssima nos ajude a esperarmos vigilantes e na oração o Seu Filhg Bendito. E que este novo Ano Litúrgico possa renovar-nos e colocar-nos em comunhão profunda com Jesus.

Infelicidade: O castigo do pecado

“Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o ser humano sobre a terra. Investiga, de um extremo a outro dos céus, se houve jamais um acontecimento tão grande, ou se jamais se ouviu algo semelhante! Existe porventura algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo? Ou terá vindo algum Deus escolher para si uma nação entre todas, por meio de provações, sinais e prodígios, por meio de combates, com mão forte e braço estendido, por meio de grandes terrores, como tudo quanto fez por vós o SENHOR, vosso Deus, no Egito — diante dos teus olhos? Reconhece, pois, hoje, e grava em teu coração que o SENHOR é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele. Guarda suas leis e seus mandamentos que hoje te prescrevo, para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e vivas longos anos sobre a terra que o SENHOR teu Deus te dará para sempre”. 

Deuteronômio 4,32-34.39-40

Esta é a primeira leitura da Solenidade da Santíssima Trindade, ano B. Enquanto ia acompanhando a leitura, esta frase particularmente me tocou: Guarda suas leis e seus mandamentos que hoje te prescrevo, para que sejas feliz.

Sempre que lia o Pentateuco eu encarava as ameaças contra os transgressores da Lei Divina como um castigo ativo. Deus garantiria que os pecadores fossem malditos. Ou seja, por uma ação divina os violadores da lei seriam punidos.

Porém a vida deu voltas. O filho pródigo sai da casa do Pai. O Pai não intervém. E o filho é a causa de sua própria infelicidade. Comecei a coigtar comigo que a transgressão da Lei Divina, o fundamento moral da lei natural, feito para as criaturas de livre-arbítrio e manchadas pela concupiscência da carne, é para sua felicidade, para a sua completude, para que atinjam a felicidade que Deus as havia reservado quando as criou. Criaste-nos para vós, Senhor, e nossa alma não repousa enquanto não descansar em vós disse Santo Agostinho, lapidarmente sintetizando o tão procurado Sentido da Vida.

Estou plenamente convicto, agora mais experiente, que não é Deus a causa da infelicidade que vém do pecado, mas é uma conseqüência natural, tal como uma bola cair ladeira abaixo quando solta. Qual é o estado de suprema infelicidade? O Inferno. O Inferno é o ponto de distância infinita de Deus, é o limite da criatura quando o pecado tende ao infinito. E é o ponto de maior infelicidade de universo.

Quando na desolação um demônio ou minha concupiscência vem me sugerir transgressão, não mais preciso apelar para as penas do Inferno, nem para a Lei Divina. Sou um homem vivido e curtido, tive minhas fases de filho pródigo, também comi lavagem de porcos na miséria de minhas escolhas ruins. Eu apelo para a memória e minha experiência mesmo. É minha razão que vai buscar toda a dor que já sofri no arquivo da memória e diz Você quer isso de volta? É a razão que pesa na balança os prazeres transitórios propostos e as penas que eles acarretaram em meu passado. E não são penas depreendidas pela Fé, nem a imaginação tentando visualizar o inimaginável Inferno, não. Não é a infelicidade após a morte, é a infelicidade também em vida!!! É a própria experiência, sofrida, comprovada, marcada a ferro em brasa na carne, são as cicatrizes de batalha, os traumas e a punição temporal dos pecados. Punição temporal, sim, aqui nesta terra o pecado também já cobra seu preço de dor e lágrimas. Aqui morro de fome!!! (Lc 15,17) Agora é a Razão que combate a concupiscência, já que não aprendeu pelo bem, pela Fé, aprendeu pelo mal, como filho miserával e faminto. Foi bom para mim ser afligido, a fim de aprender vossos decretos (Sl 118,71). Como diria o ditado: gato escaldado tem medo de água fria. O leitor que já passou por isso me entende, tenho certeza.

Felizes os que nunca precisaram se atirar na lama para saber que ela suja!!! Felizes os que obedientes a lei de Deus nunca se desviaram!!! Felizes os que repelem as tentações pela Fé apenas, não pela memória do que já viveram!!! Estes são os verdadeiros sábios!

O Deuteronômio é claro que a Lei de Deus deve ser seguida para que sejas feliz. Não é Deus quem castiga quem se desvia dele. É o desvio que faz já o castigo. Sendo que Deus é a felicidade, Criaste-nos para vós, Senhor, e nossa alma não repousa enquanto não descansar em vós, qualquer desvio é certeza de dar no vazio e rolar abaixo a longa ladeira do abismo da infelicidade…

Originalmente publicado no Jornadas Espirituais

Os padres dispensam o poder salvador do Sangue de Cristo

http://catolicos-na-florida-margate.org/joomla/images/stories/santa-catarina2.jpg“Podemos entender porque Catarina, embora consciente das carências humanas dos padres, sempre teve uma grandíssima reverência por eles: dispensam, através dos Sacramentos e da Palavra, o poder salvador do Sangue de Cristo.”

- Papa Bento XVI, Catequese sobre Santa Catarina de Sena
24 de novembro de 2010

Nós, cristãos, assim como Santa Catarina, temos consciência das carências humanas dos sacerdotes. Mas elas não devem jamais constituir-se barreiras que impeçam o devido respeito para com eles. E por quê? Porque são eles que “dispensam, através dos Sacramentos e da Palavra, o poder salvador do Sangue de Cristo”. E não é um poder simbólico, não é um poder no sentido “figurativo”. Ora, Cristo, ceando com seus discípulos, ordena-lhes que celebrem a Eucaristia em sua memória. E a Eucaristia é a celebração do próprio Sacrifício de Cristo, do Cordeiro que é imolado por cada um de nós. Com efeito, a mensagem da Cruz não acaba com a crucificação de Nosso Senhor. Nos altares de nossas igrejas o próprio Jesus é novamente vítima da expiação pelos nossos pecados. E é o sacerdote – “alter Christus” – que celebra este grandiosíssimo mistério. É também o ministro ordenado que recebe do próprio Filho de Deus o poder de perdoar pecados. “Recebei o Espírito Santo”, diz Nosso Senhor. “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 23). Com efeito, não é uma missão confiada “a qualquer um”. Jesus, quando institui os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, está reunido com os seus discípulos mais próximos, com os apóstolos.

Por isso, diz Santo Ambrósio, “a dignidade sacerdotal é neste mundo a mais alta de todas as dignidades”. São Francisco de Assis afirma: “Se eu visse um padre, primeiro ajoelharia diante do padre, e depois diante do anjo”. Quanta reverência para com os sacerdotes os santos nos ensinam a cultivar! E quantas vezes temos ousado dizer que o ofício sacerdotal é um como qualquer outro, ou que o padre é um ser humano comum, como qualquer um de nós e que, por este motivo, não seríamos obrigados a respeitar-lhe e reverenciar-lhe. “Ó venerável dignidade a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna como encarnou no seio da Virgem!”, exclama o piedoso Santo Agostinho. Quanta tolice deixar de considerar a grandeza deste ofício, pelo qual nós, os pecadores, recobramos a graça de Deus e nos alimentamos do Pão da imortalidade!

Demos graças todos os dias a Deus pelo sacerdócio, dom de cuja riqueza toda a Igreja se nutre. E que a Santíssima Virgem Maria seja modelo de humildade, obediência e fidelidade para os sacerdotes do nosso século.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Meditações das cartas paulinas – 1º Tes, cap. 2

No capítulo 2 da sua carta à Tessalônica (nos versículos 1 a 12), Paulo faz uma re-memória de como surgiu aquela comunidade e das dificuldades que logo no início, e ainda agora, estavam enfrentando.

Escreve ele que antes de fazer chegar o anúncio a ela, em Filipos, foram maltratados e sofreram ultrajes (cf. v. 2). Pois eis uma realidade que nunca deixou de fazer-se presente na história da Igreja: a perseguição, as injúrias. Quantas vezes a Igreja de Deus foi – e é – perseguida por um mundo que não deseja se adaptar ao Evangelho, mas quer que o Evangelho se adapte a ele? Quantas vezes cristãos morreram dando sua vida pela Igreja e pelo anúncio do Evangelho da Salvação?

Mas, o que consola a Igreja? O que a faz tornar-se mais firme a cada perseguição? O que faz com que ela não pereça mediante as investidas do inferno? São Paulo responderá para nós estas interrogações: “O nosso Deus nos deu coragem e segurança para vos anunciar seu evangelho, em meio a muitas lutas” (v. 2). Sim! Estamos firmes em Deus, e somente quando estamos firmes n’Ele, teremos coragem para anunciar a Boa Notícia, mesmo que venham inúmeras perseguições.

Estas, porém, não são maiores do que a certeza da presença de Deus conosco. Ele está conosco e nos guia! Não temamos! Se o mundo nos odeia por causa da nossa missão, não cabe a nós mudá-lo, mas devemos nos mudar, sobretudo, pelo nosso testemunho de discípulos do Senhor. E este não deve ser ilusão. Aliás, o cristão não pode fundamentar-se em ilusões; não pode ceder a ideologias que tendem a fazer com que este mundo nos traga plenamente a felicidade. Aqui seremos perseguidos para então, no céu, sermos agraciados em contemplar a face de Deus. Agraciados em contemplarmos o Amor, mas este contemplar não se restringe apenas a uma visualização, vai além: nos insere em Deus e faz com que possamos beber da Sua fonte inesgotável.

E é assim que falamos, não para agradar a seres humanos, mas a Deus, que examina em nossos corações. Aliás, sabeis muito bem que nunca bajulamos ninguém, nem fomos movidos por alguma ambição disfarçada – Deus é testemunha. Também não buscamos glória humana, nem junto de vós nem junto dos outros, embora, como apóstolos de Cristo, pudéssemos fazer valer nossa autoridade” (v. 5-7).

Mais uma vez vemos figurar um retrato da Igreja, um protótipo de como ela deve ser. É chamada a ser modelo dos apóstolos nos dias atuais. Mas, cabe também aqui meditar cada palavra desta bela afirmação do apóstolo.Se o Evangelho não incomoda, então há algo errado. As reações por parte de algumas pessoas, em protestos, de certa forma, dão a plena certeza de que a Igreja vai na direção certa; Ela cumpre sua missão em denunciar todas as obras do mal (cf. Ef 5,11) e em abrir as portas da sociedade para Deus, para que Ele possa renová-la.

Ambição disfarçada”. Com estas palavras, São Paulo exorta também aos nossos pastores, para que jamais se deixem levar pela ambição, e que jamais sua vida doada em prol do Evangelho seja revestida de um caráter ganancioso. O verdadeiro pastor serve, é humilde, e despretensioso. Não se configura com potências econômicas, mas modela a sua vida tendo Cristo como protótipo, não obstante as veementes perseguições pelo [e do] mundo.

O Pastor deve, antes de tudo, servir e, servindo, será elevado em sua obra. Agindo in persona Chrsti, o sacerdote é elevado pelo próprio Cristo, é resplandecido, é revestido das majestosas vestes do Rei, que na cruz reinou sobre o mal e o pecado, mostrando que, para ser Rei não é preciso ser detentor do poder material, mas antes e, sobretudo, do poder espiritual.

E aqui entra uma questão radical: “Estávamos dispostos, não só a comunicar-vos o evangelho de Deus, mas a dar-vos nossa própria vida” (v. 8). Tão grande era o carinho de Paulo com aquela comunidade que ele faria uma doação maior do que o anúncio que fazia: ele encarnaria as próprias palavras das Escrituras nele mesmo.

E hoje? Será que somos capazes de assumir o Evangelho em sua totalidade? Será que seríamos capazes de sofrer as conseqüências que suscitariam por nosso amor incondicional a Cristo? Quem busca felicidade já nesta vida encontrará dor na outra. Renunciar mesmo a vida parece ser uma decisão quase impossível, mas os mártires nos mostram que, para quem está com Deus, perder a vida é ganhar a alma, e isto mais vale.O cristão deve deixar exalar o perfume da santidade; deve deixar-se cingir pelo óleo da pureza e da perseverança; deixar emitir o “odor de Cristo”.

No versículo 9, Paulo se refere aos “trabalhos e fadigas”. Certamente, por ser ele um artesão, um confeccionador de tendas, ofício este que desempenhou desde a infância, tendo aprendido com seu pai, deveria atuar nesta área. Sabia da sua condição de apóstolo, e poderia viver à custa do anúncio do Evangelho, mas, na maioria das vezes, costumava não fazê-lo. Ademais, o fato de em Tessalônica fixar o trabalho, mostra que passou ali determinando tempo, dedicando-se a organizar aquela comunidade.

 

“Nós encorajamos e adjuramos todos e a cada um de vós a que leves uma vida digna de Deus, que vos chama para o seu Reino e glória.” (v. 12).

Também a nós são dirigidas estas palavras. Deus nos convida, a cada instante, para participarmos do Seu Reino. Parusia não é apenas um acontecimento que conclui a história da humanidade; pelo contrário: ela abre as portas para uma nova vida. Uma vida em Deus, que nos faz mergulhar em seu coração, fonte de todo o Amor.

 

Mais comentários na polêmica dos preservativos

http://beinbetter.files.wordpress.com/2010/11/seewald2.jpg?w=265&h=181Voltando ao que o Papa falou… Realmente é difícil se omitir de comentar uma situação que envolve tanto o nome da Igreja. Mas, ao mesmo tempo, me parece complicado analisar o que Sua Santidade disse – como teólogo, repito – quando há tantas pessoas emitindo juízos diversos sobre o que foi afirmado.

Partamos, primeiro, àquilo que é dito pelo Magistério da Igreja em relação ao uso dos preservativos. Por que a Igreja é contra a contracepção e, mais especificamente, neste caso, a camisinha? O problema reside, primeiramente, na deturpação do plano de Deus para o ato sexual, que deve ser vivido na sacralidade do sacramento do Matrimônio. Está implícita, no incentivo do uso dos preservativos, uma exortação contrária ao espírito da castidade. Pela camisinha, o homem não deveria se preocupar com o número ou o gênero de seus parceiros sexuais. A camisinha “protege” ele de qualquer eventual “problema” no futuro. Assim, pelo preservativo, seria evitada tanto a gravidez indesejada quanto as doenças sexualmente transmissíveis. A camisinha funcionaria como uma válvula de escape, como um “não” àquela famosa frase de São Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). O que pensaria o homem moderno? Que ele pode pecar sem precisar encarar as consequências de suas infrações.

Além disso, o ato sexual deve ser vivido de acordo com o plano de Deus. Quando criou o homem, o Altíssimo disse: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 28). O Magistério da Igreja deixa claro que, no sexo, deve estar presente tanto o aspecto unitivo quanto o procriativo. O casamento deve ser fecundo. “A Igreja, que está do lado da vida, ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida. Esta doutrina, muitas vezes, exposta pelo Magistério, está fundada na conexão inseparável, que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador” (Catecismo da Igreja Católica, § 2366). Se, por um lado, é perfeitamente lícito ao homem gozar do prazer que a ele advém pelo união sexual, por outro, é preciso lembrar que fechar este ato conjugal à transmissão da vida acarreta funestos problemas para o relacionamento matrimonial. Aqui entra a condenação da Igreja à contracepção. “É intrinsecamente má toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento de suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (Catecismo da Igreja Católica, § 2370).

Em que contexto se introduz a afirmação de Bento XVI ao jornalista Peter Seewald? Ora, primeiro que o caso de utilização do preservativo mencionado por Sua Santidade não diz respeito à camisinha como método anticoncepcional. Massimo Introvigne, em artigo intitulado O papa, o preservativo e os imbecis, que foi parcialmente traduzido pelo blog A Saúde da Alma, fez questão de enfatizar o termo “prostituto”, que foi erroneamente traduzido por vários meios de comunicação como “prostituta”. Ele explica, ademais, que aqui Bento XVI se refere exatamente aos prostitutos homossexuais. O jornalista escreve: “O Papa tem em mente exatamente a prostituição masculina, em que muitas vezes – como relatado na literatura científica – os clientes insistem que o ‘prostituto’ não use preservativos, e onde muitos ‘prostitutos’ – o caso do Haiti, de longe um paraíso do turismo homossexual – sofrem de SIDA, infectando centenas de seus clientes, muitos dos quais morrem. Alguns podem dizer que ‘prostituto’ também se aplica aos heterossexuais ‘gigolôs’, que se fazem ‘acompanhar’, por pagamento, por mulheres, mas o argumento é capcioso, porque é nos ‘prostitutos’ homossexuais que a SIDA é epidêmica”.

Ora, está fora de questão o tema anticoncepção, porque o ato homossexual é naturalmente fechado à transmissão da vida. E aqui está a chave do problema. Um prostituto que está prestes a ter uma relação sexual com o seu “cliente” está cometendo, utilizando ou não a camisinha, um pecado mortal. E esta doutrina é imutável, porquanto o testemunho da Tradição, do Magistério e das Escrituras é unânime em dois mil anos de Cristianismo em condenar severamente a prática da sodomia.

Então, a que aludiu o Papa? Massimo Introvigne explica: “Se (…), consciente de ter SIDA, [o prostituto] infecta o seu cliente sabendo que o está a infectar, além do pecado mortal contra o sexto mandamento, comete ainda um quinto, porque se trata de homicídio, pelo menos tentado.” Então, aqui são cometidos dois pecados (É preciso levar em conta a consciência da soropositividade, pois, sem ela, não podemos falar de pecado grave): um cometido contra o “não matarás” e o outro contra o “não pecar contra a castidade”. Do que o Papa está falando? Quando um prostituto – indiscutivelmente imoral – utiliza o preservativo para evitar que o outro venha a ser contaminado com o HIV, há, ali, certa consciência de responsabilidade pela vida do outro. Esta primeira consciência – de que há a vida do outro a ser preservada – pode ser “um primeiro passo para (…) uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer”.

Mas, o Papa realmente acha que é assim que vamos combater efetivamente a AIDS? É óbvio que não. O que a Igreja anseia realmente é combater toda esta banalização da sexualidade; o que ela quer, de fato, é tirar da lama do pecado esses “prostitutos” que sujam seu corpo com um prazer sujo e vil, com um “trabalho” degradante e indigno. Por isso ele insiste que “[aquela] não é (…) a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV”.

Portanto, a Igreja Católica, fiel às palavras de Cristo, continuará promovendo o anúncio do Evangelho a todos os povos, e isto implica denunciar também o ato sexual que se fecha ao pedido do Criador de que nos multipliquemos. Insistimos nas palavras de João Paulo II: “É moralmente inaceitável que, para regular a natalidade, se encoraje ou até imponha o uso de meios como a contracepção, a esterilização e o aborto” (Evangelium Vitae, n. 91).

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Contracepção – moralmente inaceitável

Mais uma vez, a mídia distorceu o que o Papa falou. As manchetes insistem na ideia de que Bento XVI teria feito uma defesa do uso dos preservativos. Na Folha está estampado: Papa Bento 16 defende uso da camisinha em casos de prostituição. No Estadão está escrito praticamente o mesmo. A notícia ainda foi veiculada em muitos outros sites de informações na internet, nos telejornais e nos informativos impressos. As recentes palavras do Papa sobre o assunto foram lançadas em um livro no qual ele é entrevistado pelo jornalista Peter Seewald. O título da obra é “Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”.

O que o Papa disse que deixou a mídia secular tão agitada? Abaixo transcrevemos o trecho da entrevista em que Ratzinger fala sobre a sexualidade e o uso de preservativos no combate ao vírus HIV.

http://www.paolorodari.com/wp-content/uploads/2010/11/seeward4.jpg“Efetivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.”

“Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.”

(…)

“É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.”

- Bento XVI, Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos
via Fratres in Unum

O que foi veiculado pela imprensa está em desacordo com a verdade dos fatos, já que o Papa não defende o uso de preservativos em casos de prostituição. Ele apenas afirma que quando um prostituto reconhece a necessidade de se prevenir o vírus da AIDS, quando ele percebe a existência de limites numa relação sexual, esta percepção, este reconhecimento, pode vir a apontar, adiante, para uma maior conscientização acerca do real valor da sexualidade. Por outro lado, o Papa continua considerando o uso do preservativo uma forma inapropriada para se combater o HIV. E por quê? Porque a ideia da abstinência e da fidelidade, da qual Bento XVI fala, se apresentou – e continua sendo – muito mais eficiente para o combate da doença, além de que a camisinha desvirtua o ato sexual, fechando-o à transmissão da vida.

Então, o ensino da Igreja acerca da contracepção não mudou. Até porque o bispo de Roma não se pronuncia “no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos” em livros de entrevistas. A Peter Seewald falou o teólogo Ratzinger, e não o Papa Bento XVI exercendo sua “suprema autoridade apostólica”. E mesmo que admitíssemos coisa do tipo, ali o Santo Padre não defendeu que fosse moralmente aceitável o uso de contraceptivos, mesmo que fosse para combater a AIDS.

A doutrina moral da Igreja insiste: “É moralmente inaceitável que, para regular a natalidade, se encoraje ou até imponha o uso de meios como a contracepção, a esterilização e o aborto” (Evangelium Vitae, n. 91), porquanto “a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida” (Humanae Vitae, 11).

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Somos sempre chamados ao Reino de Jesus

Chegando ao final de mais um ano litúrgico, a Igreja nos convida a celebrarmos a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI, em 1925. E seria muito interessante, mesmo já tendo feito em outras oportunidades, que meditássemos sobre o Reino de Deus e o seu advento escatológico.

Uma pergunta que justamente é feita em nossos dias é: Jesus é Rei? Como pode ser Ele rei, se vivemos em um mundo secularizado, anticlerical, que vive como se Deus já não mais existisse, que põe-se contra os valores do Evangelho e os ensinamentos da Igreja? “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe, Soberano e Senhor das nações! Ó Juiz, só a vós é devido julgar mentes, julgar corações”. Assim canta a Igreja neste dia, reconhecendo que, ainda que sejam impetuosas as forças contra o Evangelho, maior é o senhorio de Jesus, que jamais abandona a sua Igreja e os seus filhos.

Tenhamos em mente, por primeiro, que o Reino do qual nosso Senhor fala manifesta-se de forma diferente dos reinos deste mundo. Não é um reino de precipitação e nem deixa-se corromper. Mas, manifesta-se, sobretudo, com características cristãs: “Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei).

Celebrar a Solenidade de Cristo Rei é celebrar também a realeza da Igreja. Não seria, porém, audaz fazê-lo? Verdadeiramente não! Porque ela é Esposa de Cristo, e é participante perene da sua realeza e dos seus mistérios salvíficos. Por isso, na segunda leitura, no hino cristológico que introduz a carta aos Colossenses, São Paulo afirma: “Ele é a Cabeça do Corpo, isto é, da Igreja” (Cl 1, 18). Cabeça e corpo, eis uma outra definição comumente presente nas cartas paulinas. Jesus é cabeça da Igreja, nada seria feito sem seu consentimento. Ele guia a Igreja como seguidora dos seus mandamentos, e nos torna servos por meio de sua realeza. Porém, esta realeza não é uma imposição, muito menos uma obrigação. Ela parte de uma consciência de estarmos contritos a Deus, unidos a Ele, sabendo que com Ele as dificuldades podem ser suprimidas mais facilmente, e que teremos sempre uma luz a guiar nossos passos.

Jesus Cristo não é um rei de ira. Não é alguém que nos força a segui-lo; mas, amando a todos igualmente, nos faz um convite ao qual nos cabe decidir: segui-Lo para as eternas alegrias, ou precipitarmo-nos no abismo do pecado. O inferno, no entanto, não é para que se imponha medo a quem não segue Cristo, mas é uma conseqüência das nossas ações já neste mundo. Como relata Jesus a Santa Faustina: “Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei de Misericórdia” (Diário, 83).

Eis um Rei ao qual todos podem recorrer! Um Rei que é misericórdia, que ama e que perdoa. Um Rei que sabe que os valores espirituais superam os meros bens materiais, ao qual muitas vezes nos apegamos exacerbadamente. Ora, o próprio Cristo dá-nos o exemplo de humildade. O que Ele abraçou? As riquezas? Os poderes reais passageiros? O ouro? O luxo? Em que consiste seu Reino? Em uma suposta satisfação material? Em aparências? Não! O que Cristo abraçou muitos não teriam coragem de fazê-lo. O que Jesus abraçou, com todo o olhar misericordioso e com todo o seu amor, é a cruz. Unicamente a cruz!

Na cruz atinge-se o ápice da manifestação messiânica e real de Jesus. Ali Ele não apenas se mostra como Rei, como também redime o mundo por seu sacrifício, que também e sobretudo é um sacrifício real de Amor. Agora, pois, se perguntarmos: para que tanto apego às riquezas? Para que tanta ganância que consome as pobres almas que agora riem, mas irão padecer nos tormentos? Voltemo-nos para a única riqueza: Jesus Cristo. Submetamo-nos à sua realeza singular e salvífica!

O Evangelho nos apresenta a cena da crucifixão do Senhor. Prometendo o Paraíso ao ladrão arrependido, Jesus mostra que, mesmo diante da imensidão dos nossos pecados, maior é sua misericórdia, e as portas do seu Reino estão abertas para acolher a todos: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Por isso, observa Santo Ambrósio:

“Ele pedia ao Senhor para que se recordasse dele, quando estivesse no seu Reino, mas o Senhor respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. A vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo ali está o Reino” (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 10, 121).

Poderíamos convictamente afirmar que o Reino, no quadro evangélico, foi antecipado ao ladrão, pois não estará com Cristo no fim dos tempos, quando vier o tão esperado Reino; mas já o está hoje, neste momento! Mesmo diante das zombarias para que descesse da cruz, Cristo não cede a essas tentações de manifestação de poder. Parece-nos paradoxal, mas justamente permanecendo na cruz Ele manifesta sua glória. Também a nós é dito: não fujamos da cruz. Não nos deixemos seduzir pelas tentações do prazer e de uma vitória superficial. E, desta forma, poderemos dizer a Deus, como o povo disse a Davi: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). Conduza-nos e não nos deixes sucumbir perante as tentações de relativização da verdade e de uma conquista meramente material. Faze-nos que sejamos servos de uma realeza eterna e salvadora, a nós confiada pelo Batismo.

Que Maria, nossa mãe, Rainha do Céu e da terra, nos guie ao encontro de Seu Filho, o Rei dos séculos!

 

Um cristão que não luta é um mau cristão ou Coragem e credibilidade de mãos dadas

http://www.cancaonova.com/portal/arquivos/fotos/2009/janeiro/18_eventos_006.jpg“A palavra ‘mundo’ às vezes é usada de forma positiva, às vezes é usada de forma negativa. Então, qual é o relacionamento do cristão com o mundo? Para nós entendermos isto, é importante darmos um passo atrás na sinceridade e entendermos uma coisa: mundo, seja ele positivo, seja ele negativo; seja o conceito positivo de mundo criado por Deus, seja o conceito negativo de mundo, aquele que o homem criou e que rejeita Deus, o mundo, antes de estar lá fora, está dentro de nós. Isso quer dizer o seguinte: se nós queremos nos relacionar com o mundo, com as pessoas que estão fora, se nós queremos evangelizar esta sociedade, se nós queremos fazer diferença, se nós queremos ser sal da terra, luz do mundo, nós precisamos entender que existe mundo dentro de nós. (…) Quando nós falamos de cristãos e de mundo, não estamos falando de dois grupos de pessoas, onde a gente põe de um lado os bonzinhos, os cristãos santinhos, e do outro lado os mauzinhos, os malvados, o pessoal das trevas. Nós estamos falando de uma divisão que está dentro de nós. Nós não somos gente. Nós somos um campo de batalha.

“Dentro de mim existe o que há de mais santo porque nós somos batizados. (…) Isso quer dizer que o Santíssimo Deus está em nosso coração; nós somos templo do Espírito Santo. Nós somos lugar da morada do Altíssimo. Dentro de nós existe o mais santo, o mais sublime. Só que dentro de nós também tem muita cafajestagem, muita sem-vergonhice. (…) Se você não é a Virgem Maria e se você não é nosso Senhor Jesus Cristo, então você não é imaculado. Imaculados são eles dois. Nós não somos imaculados. Nós temos o pecado original, portanto, temos miséria dentro de nós. Isto significa que existe batalha dentro de nós.”

“Acontece, no entanto, o seguinte: o Inimigo – estamos falando de Satanás e dos seus anjos, dos demônios – e os inimigos – agora falamos da cultura, das instituições e das pessoas que trabalham contra o Cristianismo – conseguiram, nas ultimas quatro décadas, colocar no coração dos cristãos uma ideia miserável chamada ‘pacifismo’, que é a paz custe o que custar; não seria atitude cristã lutar, fazer guerra, reagir. O cristão teria que ser pacífico. Ou seja, eles conseguiram colocar no nosso coração que nós temos que ser otários; que nós temos que apanhar e ficar quietos. Mas, não, meus queridos! Ser cristão é ser soldado, é ser guerreiro, é lutar. E se você não luta, se você não é guerreiro, se você não é soldado, você não é um bom cristão, você não é nada.”

- Padre Paulo Ricardo
Trecho do podcast Parresía, 17 de novembro de 2010

Disse Jesus que veio ao mundo trazer não a paz, mas a espada (cf. Mt 10, 34). Esta nossa vida que desfrutamos como simples peregrinos deve ser para nós como uma grande batalha. E são as próprias Escrituras que nos exortam a sermos soldados. “Revesti-vos da armadura de Deus” (Ef 6, 11), diz São Paulo aos cristãos em Éfeso. “Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações” (2 Cor 10, 4), alude o mesmo apóstolo aos corintos, deixando clara a existência de uma guerra travada entre o cristão e o mundo. E, aos romanos, Paulo especifica ainda mais onde se dá esta luta: “Assim, pois, de um lado, pelo meu espírito, sou submisso à lei de Deus; de outro lado, por minha carne, sou escravo da lei do pecado” (Rm 7, 26).

A vida do cristão deve ser, então, uma tomada de decisão, um compromisso. A partir do seu Batismo, é preciso que ele ame a Deus com todas as suas forças e acima de todas as coisas. Da mesma forma, é necessário que Ele rejeite, de todo o seu coração, aquilo que contraria a vontade de Deus e os seus mandamentos. Não há verdadeiro amor pelo Bem sem real ódio pelo mal, sem real inconformidade com o pecado. Reafirmar todas estas verdades é dar um golpe fatal na falsa ideia de que os cristãos deveriam ser pacifistas, idealizadores de uma paz absoluta e total. De maneira alguma podemos aceitar tal absurdo, porquanto Cristo, consumido pelo zelo pela casa de Seu Pai, não permitiu que ela fosse transformada em casa de comércio. De modo algum nos calaremos e seremos pacíficos enquanto crianças continuarem sendo deliberadamente mortas no ventre de suas próprias mães, enquanto injustiças forem defendidas por instituições, organizações e pessoas como direitos humanos.

A Igreja colhe os frutos de seu trabalho

Com efeito, o maior país católico do Brasil brinda os bons bispos de nosso país com uma demonstração de solidariedade para com a luta da Igreja contra a implantação da cultura de morte em nossa nação. Conforme reportou Wagner Moura, o Índice de Confiança na Justiça revelou um aumento de confiança da população na Igreja Católica. Segundo a coordenadora da pesquisa, Luciana Gross Cunha, “é evidente que é o ataque ao aborto [durante as eleições] o motivo principal do aumento significativo da confiança na Igreja”. De 7ª instituição mais confiável no segundo trimestre deste ano, a Igreja passou para a segunda posição nos últimos meses, ficando atrás apenas das Forças Armadas.

Resta-nos parabenizar os bispos brasileiros que, de alguma forma, contribuíram para mostrar o Amor de Deus, indignado com a injustiça e com a opressão que representa a prática do aborto. Não, o povo brasileiro não quer uma fé politicamente correta. O que os cristãos desta Terra de Santa Cruz desejam é ver a fortaleza brilhar nos pronunciamentos de seus pastores, é ver resplandecer a aberta denúncia às obras das trevas nas homilias dos sacerdotes do Altíssimo! Enquanto tantos pedem paz sem muitas vezes conhecer o seu verdadeiro significado, os cristãos fazem guerra… ao mal, à injustiça, à morte, à falta de fé.

Que Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos fortaleça no combate. E que nossa nação não pereça perante o flagelo do comunismo e a maldição do aborto.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Quanta coisa nossa época precisa aprender dos Santos!

Recentemente a blogosfera católica se inquietou com mais uma ocorrência lastimável de abuso litúrgico. A paróquia da vez é brasileira e está situada na cidade de Maringá, no sul do país. O vídeo abaixo, que faz um resumo da situação, alude a uma missa pré-balada, celebrada de maneira dita “jovem”.

Poucos comentários precisariam ser feitos. O Jorge Ferraz já trouxe considerações oportunas sobre o que aconteceu e transcreveu inclusive um trecho importantíssimo da instrução Redemptionis Sacramentum: “O Mistério da Eucaristia é demasiado grande para que alguém possa permitir tratá-lo ao seu arbítrio pessoal, pois não respeitaria nem seu caráter sagrado, nem sua dimensão universal” (n. 11). O documento é de 2004 mas sua exortação é, de fato, muito atual. Assaz adequada para a ocasião é também a observação de São Leonardo de Porto-Maurício: “Lemos no Antigo Testamento que, quando os israelitas ofereciam seus sacrifícios, nos que somente se imolavam touros, cordeiros e outros animais, admirava ver a atenção, o silêncio e veneração com que assistiam àquelas solenidades. Mesmo que o número de assistentes fosse imenso e os ministros e sacrificadores chegassem a setecentos, parecia, no entanto, que o templo estava vazio, tanto era o cuidado com que cada um procurava não fazer o menor ruído. Pois bem; se tanta era a veneração com que se celebravam esses sacrifícios que, no fim, não eram mais que uma sombra, uma simples imagem do nosso, com que respeito, com que devoção e silêncio não devemos assistir à celebração da Santa Missa, onde o Cordeiro sem mancha, o Verbo Divino se imola por todos nós?

Respeito, devoção, silêncio… Quanta coisa nossa época precisa aprender dos Santos! Os tempos mudaram, mas os remédios para os velhos males que buscam afetar nossa alma são os mesmos. E trazer a agitação deste mundo tão conturbado para dentro de nossas igrejas certamente não é a melhor forma de demonstrar a riqueza de nossa fé ou o respeito às prescrições litúrgicas. Seria realmente interessante se os jovens ouvissem o apelo do Papa, dos santos, do próprio Cristo, portanto. Que o Sacrifício no qual o Verbo é imolado por todos nós seja celebrado com piedade, com respeito. E que o conselho de São Pio de Pietrelcina – que assistamos à Santa Missa como assistiram Maria Santíssima e São João às dores de Cristo no Calvário – seja atendido pela juventude de nosso tempo.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!