À procura de um debate sério – I

http://img.sparknotes.com/content/sparklife/sparktalk/debater_Large.jpgUm defensor da Maçonaria e da Ordem DeMolay se apresentou recentemente neste blog dizendo querer um debate sério. Animou-me profundamente a proposta do garoto, mas a sua linha de raciocínio segue praticamente a mesma dos seus companheiros de Ordem. A priori, o rapaz conseguiu identificar o centro do debate: a incompatibilidade entre a doutrina católica e a filosofia maçônica. No entanto suas afirmações saem imediatamente do eixo da discussão. Ele não procura refutar os princípios apresentados para se afirmar que são incompatíveis Maçonaria e Igreja Católica. Ele procura – assim como os outros – afirmar que a culpa de toda a desavença é da Igreja, que, segundo ele diz, “intitula-se a dona da fé e a poderosa instituição que salvará todos os homens”.

Pois bem, não é a Igreja que se intitula “dona da fé”. É o próprio Cristo que assim o quer, quando confia a São Pedro, primeiro papa, as chaves do Reino dos céus (cf. Mt 16, 18). Fica difícil para os maçons ou simpatizantes de associações ligadas à Maçonaria reconhecer isso justamente porque a filosofia desta instituição está intimamente ligada ao deísmo iluminista, que nega qualquer ideia que faça menção à Revelação. E o Evangelho é justamente a narração do testemunho daqueles que contemplaram “a Palavra que se fez carne”, ou seja, o próprio Deus que assumiu a nossa humanidade para nos mostrar seus caminhos. Para os maçons, no entanto, a única maneira pela qual chegamos à verdade é através do uso da razão natural. Parece inconcebível a eles a ideia de Deus interferindo na história. Pois aqui está a incompatibilidade entre catolicismo e Maçonaria. “A Igreja editou bulas contendo instruções e conceitos” contra a referida instituição porque tem o dever de orientar seus fiéis, mostrando-lhes aquilo que é ou não coerente com a fé que dizem professar quando afirmam que são católicos.

O nosso debatedor confia cegamente na ideia de que a Maçonaria “nunca trabalhou secreta ou abertamente para destruir a Igreja”. Ora, como não?! Não é esse um dos principais objetivos da Maçonaria? A instituição se coloca abertamente do lado do livre-pensamento, definindo-o como “um protesto contra todas as religiões”. Em meados do século passado, boletim maçônico paulista afirmava que “o livre-pensamento não tem dogma: há verdades de ontem que não são verdades de hoje, e há verdades de hoje que não são verdades de amanhã. O pensamento não pode sofrer domínio algum…” Ora, ora, a Verdade é imutável, diz a doutrina católica. Mas os maçons fazem uma pregação contra este princípio, defendo o relativismo e exortando, aos quatro ventos, a promoção de um protesto ao dogma, à teologia, à Revelação.

O nosso valente guerreiro insiste: “Muitos Papas foram maçons e sabem que a Ordem trabalha para auxiliar quem necessita, o único conceito que talvez conflite com os da Igreja, que só pretende amealhar e jamais distribuir”.

Não vou nem comentar o absurdo da frase “muitos papas foram maçons”. Partamos imediatamente à incansável ladainha dos heróis demolays que salvam a humanidade das dores da miséria e da fome, enquanto a Igreja, perversa, está cercada de dinheiro e poder e não se preocupa com as necessidades dos outros. Quanta ingenuidade dos magnânimos exemplos de caridade da Ordem DeMolay! Será que até hoje eles não conhecem as obras de caridade criadas pela Igreja durante seus dois mil anos de existência? Será que até hoje não tomaram conhecimento da existência de inúmeros hospitais e casas de saúde fundados por santos ou pessoas inteiramente comprometidas com a Igreja? Não é só a Maçonaria que dá auxílio material não. Também a Igreja desempenha importante papel neste sentido. E vai além. Porque, enquanto a filantropia maçônica pára no material, a caridade cristã ensina aos miseráveis o caminho do Céu, que lhes dá a felicidade eterna.

O simpatizante da ideologia maçônica também comentou o fato de que pessoas de diferentes religiões participam da instituição. O problema da Igreja com isto é a transformação de qualquer acepção a respeito de Deus em verdade. O sujeito que não crê em Cristo estaria no caminho da verdade assim como o que n’Ele tem fé. Ora, é Leão XIII quem condena a perniciosa ideia de que todas as religiões podem ser elevadas ao mesmo nível. E a sua exortação deve ser prestigiada pelo menos por aqueles que dizem ser membros do Corpo Místico do Redentor. “Como todos que se oferecem [a entrar na Maçonaria] são recebidos qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam o grande erro desta época – que uma consideração por religião deveria ser tida como assunto indiferente, e que todas as religiões são semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião Católica, que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões” (Humanum Genus, n. 16).

O nosso corajoso comentarista finaliza de modo magistral: “Não adoramos nada além de Deus e nem acreditamos que algo como diabos e demônios possam existir.”

A existência de anjos maus, verdade contida na doutrina da Igreja Católica, negada por um membro ou admirador da Ordem DeMolay, não é algo que assusta. O que impressiona é o catolicismo self-service dos que ainda insistem em negar qualquer forma de incompatibilidade existente entre os princípios maçônicos e as palavras da Santa Madre Igreja. Estes arranjam mil e um subterfúgios para manter uma aparentemente agradável máscara de incoerência e hipocrisia.

Infelizmente muitos só acreditarão na existência de demônios quando estiverem padecendo com eles no inferno. Peçamos a Deus que nos livre a todos nós da insensatez e da condenação eterna. Amém.

Fazer a vontade de Deus (Meditações das Cartas Paulinas 1Tes 4,1-8)

Dando continuidade às meditações, detenhamo-nos hoje sobre o quarto capítulo, versículos de 1-8, da Carta de São Paulo à comunidade de Tessalônica, que transparece uma solícita preocupação do apóstolo, sobretudo, com a vinda definitiva do Senhor que terá reflexo nas ações da comunidade.

Tomemos o versículo que dá título ao artigo: “Enfim, irmãos, nós vos pedimos e exortamos, no Senhor Jesus, que progridais sempre mais no modo de proceder para agradar a Deus. A vontade de Deus é que sejais santos e que vos afasteis da imoralidade” (1Tes 4, 1.3). Paulo usa o termo Senhor, isto é Kyrie, não se referindo a Deus Pai, mas a Cristo, Senhor de todas as coisas.

Nunca é demais falar de santidade! Em nossos dias, tanto quanto antes, precisamos de Santos que deem testemunho autêntico do Evangelho, ainda que por vezes este pareça ser radical.

Fazer a vontade de Deus hoje parece impossível e não dá, por assim dizer, prestígio, mas acarreta em um sofrimento, que deve ser vivido com resignação na hodierna sociedade. A forma de viver do mundo contradiz os preceitos do Evangelho, e clama para muitas almas que caminhem para a perdição. Nesta ideologia, neste contexto que se desponta ante nossos olhos, somos chamados, como cristãos, a darmos testemunho de vida e de santidade irrepreensível. Ainda que a fragilidade pareça nos derrubar e nos humilhar em nossa condição, Deus estende sua mão para todos nós, e nos chama a recomeçar de onde paramos. Por isso, a vida do cristão é sempre um recomeço. Já o insensato caminha direto, sem fazer a parada necessária para recarregar suas forças e nutrir-se do próprio Cristo. Este, ao chegar ao final do longo percurso, estará cansado e sobrecarregado e não terá forças para concluir sua jornada.

Por isso, devemos nos perguntar: qual a vontade de Deus para nós? Qual a vontade de Deus em um mundo que deixa-se dominar pela profanação e se esquece do seu Criador? Qual a vontade de Deus em um mundo onde os homens perpetram maldades contra seu próximo?

Não é fácil submeter-se a alguém e sujeitar-se a seus desejos. Mas, em contraposição aos desejos do homem, os desejos de Deus nos dão a garantia eterna da salvação. Só em Deus há salvação, e só n’Ele está a garantia da eterna felicidade do homem. Qualquer um que queira salvar-se fora de Deus nada mais encontrará do que vazio e tormento. Não é necessário que nos aprofundemos em diversos livros para conhecer a vontade de Deus; de diversas formas Ele nos fala. A Sagrada Escritura é um dos meios eficazes para conhecermos aquilo que Deus espera de nós.

Agora nos detenhamos nos versículos 4-8, que soam de forma específica para todos hoje, e mais ainda, é como que duro em suas afirmações.

“Saiba cada um de vós viver seu matrimônio com santidade e com honra, sem se deixar levar pelas paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus. Neste assunto, ninguém prejudique ou lese o irmão, pois o Senhor é vingador de todas estas coisas, como já vos dissemos e atestamos. Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Portanto, quem rejeita esta instrução não rejeita a uma pessoa humana, mas ao próprio Deus, que vos dá também o seu Espírito Santo”.

São Paulo dirige-se aos casais para que vivam seu matrimônio com santidade e honra. Não obstante os dois mil anos que nos separam do escrito paulino, suas palavras incidem veementemente nos nossos tempos tomados pela desunião entre os casais, a falta de fidelidade e outros problemas que corroem a vida conjugal.

Quanto ao fato de afirmar que o Senhor é vingador este termo São Paulo não usa para designar um Ser de ira implacável; ele afirma, sim, que Deus faz justiça, e que também em seu nome vem o adjetivo Justo.

E eis que aqui São Paulo responde à pergunta feita anteriormente: Qual a vontade de Deus? A vontade de Deus é que sejamos santos. Não devemos nos entorpecer nos caminhos obscuros da impureza, mas devemos trilhar o caminho da salvação, o qual Cristo aponta a todos os homens, sem distinção: seja para o rico ou para o pobre; para o negro ou para o branco; para o homem ou para a mulher.

E quantos rejeitam este convite de nosso Senhor transmitido pela Igreja?! Mas saibam que não rejeitam senão ao Espírito Santo, que nos foi e é dado por Deus. E sem o Espírito Santo presente em nós, estejamos certos de que todas as nossas ações serão vãs. Se fazemos as coisas, façamo-las bem, e façamos tudo para a maior glória de Deus! Ora, é insensato aquele que busca a Deus somente por interesse. Deus nos reserva algo maior que um bem estar econômico neste mundo. Ele nos reserva o maior bem que poderíamos ter: a contemplação incessante da Sua face.

De nosso coração deixemos que surja uma oração de clamor e de agradecimento: Nós te rendemos graças, Senhor, e te suplicamos que possas excluir da terra toda a ganância que surja no coração do homem, e tudo aquilo que o torna escravo de suas paixões. Te agradecemos pela vida, e pedimos por aqueles que dela são privados. Te agradecemos pelo Teu Espírito Santo, e pedimos que Ele seja derramado novamente em profusão sobre toda a Igreja, para que, ainda mediante as dificuldades, ela seja a primeira a dar testemunho autêntico do Evangelho. Amém!

Deus habita em uma família

Após a Solene Celebração do Natal, e ainda nestas festividades, dado que estamos na Oitava (os oito dias que se seguem após a celebração do Natal, como sendo um único e mesmo dia), a Igreja nos convida a celebrar a Festa da Sagrada Família, protótipo para todas as famílias.

Vivemos em uma sociedade que visa desestruturar a família, “Igreja doméstica” (Papa João Paulo II) e de onde brotam todas as vocações. Neste dia, contemplando a condição humana de Jesus, vemos como Ele também quis estar numa família, dando valor à mesma. A família é o núcleo da sociedade. Não há sociedade sem família! Os diversos programas que vemos hoje, sobretudo na questão da sexualidade, como os métodos que visam impedir o nascimento de novos seres humanos, devem ser repudiados pois se põe contra os preceitos evangélicos. A família é dom de Deus e, como tal, deve ser preservada.

Na primeira leitura medita-se o livro do Eclesiástico onde se ressalta o respeito aos pais, o qual todos os filhos devem manifestar. É necessário que os filhos, para constituir uma damília segundo o Evangelho, saibam respeitar os pais. O próprio Jesus, como nos narra São Lucas, respeitava a sua mãe e ao seu pai, José, mesmo sabendo que não era pai biológico: “Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era obediente a eles” (Lc 2,51). Também a obediência aos pais faz parte dos mandamentos. E por que? Será tão importante essa obediência que, por meio dela, poder-se-á gerar cidadãos melhores e cristãos melhores. Também para a glória a honra é uma das vias necessárias. Se não honramos como poderemos chegar a glória? Se não honramos nossos pais poderíamos honrar a Deus?

O livro do Eclesiástico ainda afirma: “Deus honra o Pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe. Quem honra o seu pai, alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana” (3, 3-4).

A honra dada aos pais confirma-se nos filhos. E que retribuição teremos por esta honra atribuída? O perdão dos pecados, além de não mais cometê-los. E mais ainda: será ouvido na oração cotidiana. Para isto basta que respeitemos, amemos, tenhamos paciência, com nossos pais.

Deus não é mais inacessível, mas faz-se homem na pessoa de Jesus. Por isso poderíamos perguntar: como Deus, criador de tudo, submete-se à tutela de Maria e José? Ora, fazendo-se homem Jesus aceita também ser formado como homem, Ele aceita passar por todos os estágios e todas as condições humanas, exceto o pecado.

O amor que Deus tem por nós manifesta-se também no amor dos pais. Não pertencemos a ninguém! Os filhos não pertecem aos pais, mas são confiados por Deus a eles para que cuidem por um tempo. Abramo-nos ao amor de Deus! Deixemos que seu amor possa transormar-nos e fazer de nós pessoas mais convictas da nossa identidade cristã.

Na segunda leitura São Paulo dirige uma mensagem a família, mas também nos une a família trinitária, que é modelo perfeito e inigualável de família.

“Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também” (Cl 3, 12-13).

Este convite de Paulo, não obstante esses dois mil anos, continua a ressoar de forma clara e nos convida a abrirmo-nos ao amor de Deus. Somos chamados à santidade, somos eleitos, mas, para isso, devemos assumir condições que muitas vezes não nos parece fácil. Fomos perdoados pelo Senhor, e em cada confissão que um sacerdote administra é Deus que nos perdoa; é Ele que se volta para nós com olhar de misericórdia e ternura. E assim como por Ele fomos perdoados, perdoemos também nós. Não guardemos mágoas, ressentimentos, mas abramo-nos ao perdão. Se ao menos não amamos o próximo, que o suportemos, como nos recomenda o apóstolo, de certo, há pessoas que são impossíveis de se amar.

Que a palavra de Cristo habite em vós com abundância” (v. 16). Cristo é A Palavra por excelência do Pai. O Verbo, o Logos, faz-se carne para que os homens possam tornar-se divinizados. A condição divina do homem é a contemplação da face de Deus por toda a eternidade. Assim, o homem tornar-se divino não é impossível, mas uma condição escatológica de participação no Reino de Deus. Logo, ao nos convidar a abrimo-nos a palavra de cristo, Paulo nos chama a abrimo-nos a Cristo, Senhor e Juiz da História. As famílias são também convidadas a estarem com Cristo, só assim elas encontrarão força para resistir às tentações e superar as tendências relativistas e pornográficas dos dias de hoje, que tentam infundir novas ideias em seu seio.

Falando às famílias São Paulo diz: “Mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais ásperos com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isto agrada ao Senhor. Pais, não irriteis vossos filhos, para que eles não desanimem” (v. 18-21).

O respeito e o amor na família fazem falta em muitos lares hoje. São Paulo pede que as mulheres submetam-se aos maridos, como convém, no Senhor. Esta submissão hoje poderíamos afirmar como uma dedicação da esposa para com o esposo. Infelizmente, muitas mulheres hoje já não respeitam seus maridos e não o amam. Aos maridos, que amem suas esposas e não sejam duros com elas. A traição presente entre os casais e que tem se mostrado cada vez mais presente em nossos dias é uma praga que corrói os ambientes familiares e tira o valor e a sacralidade do seio familiar. Assim também é o divórcio, o aborto, etc.

A Santa Mãe Igreja condena todas estas formas de violação da sacralidade familiar, pois ferem o amor de Deus que faz-se presente em cada membro da família. E, como já ficou dito, todos são chamados à santidade.

No Evangelho, vemos a cena da fuga de Jesus, Maria e José para o Egito. Ainda pequeno Jesus já era perseguido por Herodes (que representa o poder do mal). Herodes imaginava que Jesus, Rei dos reis, fosse tomar o seu trono; no entanto, ele não sabia que o Reino de Jesus divergia-se do reino dos homens. Seu reino não é daqui, não é um reino do interesse econômico, mas é o Reino do amor e da paz.

O cerne da narração evangélica é o cumprimento da palavra do profeta: “Do Egito chamei meu filho”. Esta profecia aplicava-se ao povo de Israel, mas encontra pleno cumprimento em Jesus Cristo. Como o povo de Israel atravessou o deserto para que chegassem à Terra prometida, assim também Jesus atravessou o deserto, renovando de forma incomparável o cumprimento da promessa da salvação. Vemos também que assim como o Faraó tratou de matar os meninos hebreus, Herodes mata os filhos de Belém; Aqui nasce a Festa dos Santos Inocentes, que celebraremos no próximo dia 28. Eles doam sua vida pelo Menino-Deus – são os primeiros mártires. Não temem a morte. Jesus, como um novo Moisés, escapa da matança e refaz a peregrinação do povo de Israel para a salvação. Como Moisés foi educado na casa da filha do Faraó, por sua própria Mãe, a Jesus também aprouve ser educado por seus pais.

Que Jesus encontre em nossas famílias uma feliz recepção. E que tenhamos em mente que o Natal sempre se renova, e neste “hoje” do Natal queremos confiar todas as famílias à proteção da Sagrada Família.

Quanto a nós, caminhemos segundo as Escrituras e estejamos seguros nas mãos de Jesus, Maria e José!

Algumas recomendações de leitura

Recomendo, no fim deste dia em que celebramos o Natal de Nosso Senhor, algumas reflexões oportunas para apreciarmos com dignidade a grandeza do acontecimento que se dá na gruta de Belém.

- Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, sermão de São Leão Magno, bispo de Roma e doutor da Igreja. “Lembra-te de que a cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te que fostes arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo.” A proposta de leitura está contida no Ofício Divino e também considera a necessidade de alegrarmo-nos, nós todos, já que “nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos”.

- Mensagem de Natal do Papa Bento XVI para a rádio da BBC de Londres. “Deus é sempre fiel às suas promessas, mas frequentemente nos surpreende com o modo de cumpri-las. O menino nascido em Belém trouxe sim a libertação, mas não somente para as pessoas daquele tempo e daquele lugar – ele seria o Salvador de todos, em todos os lugares do mundo e em todos os tempos da história. E a libertação que ele trouxe não era política, concretizada através de meios militares: ao contrário, Cristo destruiu a morte para sempre e renovou a vida por meio da sua morte infame sobre a cruz. E ainda que tenha nascido na pobreza e no escondimento, longe dos centros do poder terreno, ele era o próprio Filho de Deus. Por amor a nós, ele tomou sobre si a nossa condição humana, a nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade, e abriu para nós a via que leva à plenitude da vida, à participação na vida mesma de Deus.”

- Jesus: histórico porque divino, do blog do Frei Clemente Rojão. “O Natal de Jesus é histórico porque aconteceu um fato histórico: Verbum caro factum est – O Verbo se fez carne. Este é o fato histórico. Deus se fez homem, sem deixar de ser Deus e sem deixar de se tornar perfeito homem. Esta é a fé católica, esta é a verdade que devemos defender com nossas vidas.”

Deus não se limitou a inclinar o olhar para baixo

Papa na Santa Missa de Natal de 2010

“Na verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não passavam de palavras rituais de esperança, que de longe previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o domínio das terras distantes (Sal 2, 8 ) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações apontando para um futuro que então era ainda inconcebível. Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de Belém, é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava intuir. É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus, é verdadeiramente ‘Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai’. Fica superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os Salmos; Ele ‘desceu’ verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de nós para nos atrair a todos para Si. Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus conosco. O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da terra. Na imensidão universal da Sagrada Eucaristia, Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que é própria de Deus. Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração, Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do coração. Mas é verdade também que ‘o bastão do opressor’ não foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos soldados e temos ainda incessantemente a ‘veste manchada de sangue’ (Is 9, 3-4). Assim faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus. Damos graças porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por assim dizer mendiga o nosso amor, infunde a sua paz no nosso coração. Mas este júbilo é também uma prece: Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe. Realizai a promessa de ‘uma paz sem fim’ (Is 9, 6). Nós Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também: mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa verdade, do vosso amor – o ‘reino da justiça, do amor e da paz’.”

“‘Maria deu à luz o seu filho primogênito’ (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como ‘primogênito’. Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, ‘primogênito’ não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra ‘primogênito’ é um título de honra, independentemente do fato se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus ‘o meu filho primogênito’ (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus ‘o primogênito’ simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb 1, 5-7). O primogênito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogênito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogênito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a ideia de Jesus como primogênito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogênito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogênito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogênito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro de uma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rômulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o “primogênito” em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família.”

- Bento XVI, Homilia na Santa Missa da Noite de Natal
24 de dezembro de 2010

O exemplo de Dom Luiz Bergonzini

Este ano, brilhou o exemplo de pastores zelosos com seu rebanho, de bispos verdadeiramente preocupados em anunciar o Evangelho da vida, em combater com todas suas forças os atentados promovidos por várias organizações e partidos brasileiros contra a dignidade da vida humana.

http://beinbetter.files.wordpress.com/2010/12/bpdeguarulhosquervoltar.jpg?w=275&h=206Entre estes apóstolos corajosos, resplandeceu o modelo de Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, da diocese de Guarulhos. Tudo começou quando o bispo paulista escreveu um artigo condenando a adesão, na forma de voto, a candidatos que estivessem, de alguma forma, comprometidos com o aborto. “Denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus, como o suicídio, o homicídio, assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico”, afirmou, na ocasião, Dom Luiz.

O artigo ganhou repercussão nacional. Dom Bergonzini foi acusado de intolerante e as vozes dos laicistas bradavam dizendo que o Estado era laico e que a Igreja não deveria interferir em questões políticas. Veio, por fim, o Papa Bento XVI intervir: “Quando (…) os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. O resultado das eleições – venceu a candidata do Partido dos Trabalhadores, que é comprometido há alguns anos com a proposta de legalizar o aborto em nosso país –, apesar de contrário aos anseios do povo de Deus, foi apenas um detalhe diante da belíssima batalha que a Igreja brasileira travou em defesa da vida.

E Dom Luiz Bergonzini é protagonista da vitória da Igreja que, após as eleições, viu sua credibilidade subir entre os brasileiros. O bispo de Guarulhos foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes de 2010:

http://beinbetter.files.wordpress.com/2010/12/sem-tc3adtulo-2.jpg?w=500&h=304

Em entrevista concedida à Comunidade Família de Deus, Dom Luiz afirmou, com alegria: “Nada me deixa triste. A vida sacerdotal, para mim, sempre foi feliz, pois me dediquei, exclusivamente, a ela. Este ano foi muito feliz, pois conseguimos esclarecer uma grande parte da população sobre o aborto. O Evangelho da Vida foi vencedor.

Ao pastor da diocese de Guarulhos e aos demais que não se calaram ante a impiedade que representa a tentativa de se promover a descriminalização do aborto, um Feliz Natal recheado das bênçãos do Altíssimo! Celebrem a vida do menino Deus aqueles que tanto defendem a vida de Seus filhos.

Os ímpios hipócritas celebram o Natal

Despojemo-nos (…) do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne.”
- São Leão Magno

http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2004/espaco47set/ilustras/comporta04.jpgA expressão facial eufórica dos ímpios é uma das melhores imagens a ser estampadas nos cartões natalinos. Não que o cerne da mensagem do Natal seja menos importante. Longe de nós ousarmos insinuar que a encarnação do Verbo é uma realidade de pouca importância. O que observamos, no entanto, é que a festa não está mais voltada para Aquele que realmente importa. O Natal da modernidade se converteu em uma reunião familiar profana, celebrada para comemorar a desunião que se disfarça por uma noite, a discórdia que se transforma subitamente, a precariedade dos relacionamentos que se fortalecem por um instante. Jesus Cristo deveria nascer em nossos corações, mas o único lugar da casa em que ele está é no presépio, e isso quando as famílias não estão mais preocupadas com a árvore natalina.

Toda esta falta de preocupação com a mensagem cristã do Amor encarnado é apenas conseqüência do mal e da indiferença que o homem cultiva no decorrer do ano. E, por mais que haja o esforço em ao menos semear uma aparência de felicidade, um pedaço que seja de bondade, o coração dos ímpios continua tramando ciladas aos justos, praticando impiedades, celebrando a injustiça. Não nos referimos aos pecadores convertidos. Aqueles que se arrependem de suas faltas e se aproximam com temor diante do altar do Senhor certamente recebem d’Aquele que é a Misericórdia o perdão e a graça. É a própria Escritura que nos exorta a nos aproximarmos do “trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4, 16). Ao falarmos desta injustiça que é todo ano celebrada pelos inimigos da fé, nos referimos à hipocrisia dos que se assentam à mesa dizendo crer no Cristo, mas que sequer se sentem movidos pelo mistério de Amor presente no Sacramento da Eucaristia. Ao falarmos desta impiedade que é todos os anos praticada pelos irreligiosos, nos referimos aos falaciosos que defendem a morte (estampada principalmente no crime abominável do aborto) mas se reúnem – veja só quanta incoerência! – para celebrar a vida do Menino Deus. Ao falarmos das ciladas preparadas contra os seguidores da Palavra, aludimos à inveja e ao ódio que reina no coração de muitos cristãos self-service.

Queremos mesmo alegrar a Deus neste Natal? Ofereçamo-nos, nós mesmos, a Ele; sejamos nós mesmos a oferenda desta festa. Deixemos de celebrar a hipocrisia e a maldade, transformemos os nossos corações duros e sejamos contagiados pelo amor d’Aquele que habitou entre nós para nos salvar de nossos pecados. Só assim celebraremos de fato o nascimento de Cristo, vivendo este acontecimento na nossa própria alma.

Um feliz e santo Natal a todos!

“Et Verbum caro factum est!”

Celebramos a partir da noite santa de hoje a grande Solenidade do Natal do Senhor, a segunda maior da Igreja. Após a preparação meditativa proposta pelo tempo do Advento, hoje podemos experimentar e reviver a grande graça que vem a nós e rebaixa-se a nossa condição. Jesus faz-se homem! Eis a grande novidade. Como Deus pode humanizar-se? Como Ele pode assumir as nossas fraquezas? Por que Ele fez isso? Porventura somos dignos de tão grande maravilha?

Não somos! Mas Deus, unicamente por amor e misericórdia, volta-se para nossa pobre condição, compadece-se de nós e vem ao nosso encontro para nos redimir, e todo o mistério da Redenção inicia-se precisamente na encarnação. O profeta Isaías já afirmava que “o amor apaixonado do Senhor dos exércitos é que há de fazer tudo isso” (9,6). E este Amor é que torna-se visível. “Por sua vontade, nasceu hoje para nós no tempo, a fim de nos conduzir à eternidade do Pai. Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem” (Santo Agostinho).

Ele não quis habitar unicamente em luz inacessível, mas veio estar ao nosso lado, consolar-nos e dar-nos a certeza de que confiando n’Ele poderíamos encontrar a salvação. “Tudo o que Nosso Senhor realizou, ele o fez por nenhuma outra razão a não ser para que Deus esteja conosco que nós sejamos um com ele; e por isso Deus se tornou homem” (Sermões do Mestre Eckhart, p. 99).

Mediante uma cultura consumista, que tende a fazer desaparecer os valores religiosos do Natal, a Igreja nos convida a olharmos para a simples gruta de Belém. Ali, e não em palácios, nasceu o Salvador. Seus primeiros visitantes foram simples pastores, e Ele foi aquecido por animais que se encontravam no estábulo. Pobre veio o Senhor; pobres também devemos ser em nosso interior e, na medida das nossas possibilidades, também no exterior. Não queiramos luxo e riqueza; não busquemos prestígio e poder, mas simplicidade e pureza de coração, pois a Onipotência manifesta-se pela humildade. Ademais a verdadeira felicidade não está no supérfluo, mas no eterno. E só o eterno pode nos dar aquilo que ninguém nos pode tomar. Só neste Eterno, que justamente por ser eterno não tem limites, a humanidade pode descansar segura, sem temer os vendavais que, por vezes, abatem-na. Só neste Eterno a “transcendência” tão desejada pelo homem pode ser plenamente cumprida, sabendo que esta não é supérflua, vã e vazia, mas é cheia, cheia do Amor de Deus e do Amor que é Deus.

Em sua homilia para o Natal de 2005, escreveu o Santo Padre Bento XVI, de feliz reinado:

“Logo a seguir, porém, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontrá-lo com a nossa capacidade metal? Como amá-Lo com todo o nosso coração e a nossa alma, se este coração consegue entrevê-Lo só de longe e contempla tantas coisas contraditórias no mundo que velam o seu rosto diante de nós? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus «abreviou» a sua Palavra. Ele não está mais longe. Não é mais desconhecido. Não é inalcançável para o nosso coração. Fez-se menino por nós e, com isto, dissolveu toda ambigüidade. Fez-se o nosso próximo, restabelecendo também deste modo a imagem do homem que, com freqüência, se nos revela tão pouco amável. Deus, por nós, fez-se dom. Doou-se a si próprio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si próprio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por nós doou-se a si próprio. Deixemos que o nosso coração, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato!”

As leituras nos revelam esta manifestação amor-misericórdia de Deus. Na primeira leitura Isaias escreve: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam na sombra da morte uma luz resplandeceu” (9,1).

E em que dia resplandece melhor a luz senão no Natal e na Páscoa? Enquanto uma resplende ainda ofuscada pelas trevas, a outra já não mais poderá ser ofuscada, pois já dissipou as trevas do mundo; e onde habita Jesus as trevas já não mais terão lugar. Onde há luz, não mais imperam as trevas!

O povo andava sobrecarregado pelos pecados e pelo peso da Lei; ainda hoje, o pecado tenta oprimir a sociedade, que muitas vezes deixa-se corromper por ele; Jesus, porém, vem dar novo vigor a humanidade, vem dizer-nos que Ele nunca nos abandona; Ele caminha conosco! E, ao olharmos para o presépio, de onde irradia a luz do mundo, ali devemos ver um caminho verdadeiro e próspero para os homens. Quem se deixa guiar por Cristo jamais poderá perecer pelas forças do mal.

A leitura também é uma exortação para os poderes opressores. Não aqueles que oprimem meramente em sentido econômico, mas sobretudo aqueles que oprimem a fé do povo; aqueles que se põem como Deus e desejam fazer valer todas as suas vontades. Nenhum poder poderá subsistir senão estiver unido a Cristo. Unamo-nos a Cristo, amados irmãos, e não pesará sobre nós o seu poderoso braço; pelo contrário: o Senhor mostrará seu incomensurável Amor, que se derrama sobre homens.

O menino-Deus vem instaurar a paz, onde já não haverá mais limites e as guerras não terão vez (cf. 8,6). E  esta consumação se inicia com o Evangelho, pois a Parusia está próxima! O que os anjos disseram Isaías já havia profetizado. E este tempo novo dá-se em Cristo, Senhor e Juiz da História.

A vida de Jesus, às vezes, parece um paradoxo: Como um Rei – sabendo ainda que se trata de Deus – pode nascer num estábulo? Como pode alguém trazer a paz se todos os que O seguem sempre foram e serão perseguidos? Jesus refere-se a um sentido escatológico; o próprio nascimento foi voltado para a escatologia. A grandeza de Jesus está na humildade, e a glória da Igreja e do cristão está na perseguição.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2,11). Jesus manifesta-se! Ele é a graça salvífica do Pai destinada a todos os homens. Todos são chamados a experimentarem e mergulharem neste mar de benevolência. Manifesta-se Cristo para que os homens não silenciem-se. Sempre repetimos: Vinde Senhor Jesus! Ele veio! Ele está conosco! Seja louvado o Deus que desce para elevar a nossa mísera condição. E tudo isso Ele faz por Amor. Amor! Palavra doce que ecoa tão suave em nossos ouvidos. E onde poderíamos achar maior doçura do que em Jesus?

Ainda hoje clamamos para que o Senhor se manifeste. Manifeste-se o Senhor e dissipe o mal da nossa sociedade. Manifeste-se e quebre os poderes opressores do pecado que dominam muitos dos vossos filhos. Manifeste-se e toque no coração daqueles que vos esqueceram; daqueles que já não mais Vos buscam; daqueles que procuram salvação onde não há; daqueles que deixam-se seduzir pelas concupiscências e desejos carnais. Vivamos neste mundo como peregrinos, e elevemos nossos olhos aos imperecíveis bens celestiais. Deixemo-nos pertencer ao Senhor; sejamos d’Ele, e só d’Ele!

O Evangelho de São Lucas lido na Santa noite de Natal nos diz que, após ser rejeitado nas casas, o Senhor nasce em um estábulo, numa gruta, em uma noite fria, ao lado de animais. Não encontrou o Senhor abrigo em sua primeira vida, e ainda hoje continua a ser rejeitado por aqueles que deveriam acolhê-lo. Procura um lugar para nascer, mas as portas se fecham para Ele, ou, muitas vezes, lhe oferecem uma gruta fria.

Após seu nascimento São Lucas vai afirmar que haviam alguns pastores na região, aos quais apareceu um anjo avisando do nascimento do Senhor. E, de repente, juntou-se uma grande multidão da milícia celeste e entoaram: “Gloria in altissimis Deo, et super terram pax in hominibus bonae voluntatis – Glória a Deus nas alturas, e paz na terra as homens de boa vontade” (Lc 2,14). E os pastores foram imediatamente a Belém. A Igreja nos aponta o Menino-Deus, vamos também nós em direção ao presépio. Deixemo-nos impelir por esta fragilidade fortalecedora. Aquele bebê parece pequeno e frágil como todos os outros, Mas sua fortaleza perpassa também por esta aparente pequenez. E ali em Jesus repousa a verdadeira paz, que a humanidade só encontrará quando deixar-se envolver por seu abraço.

O Senhor veio! Despertem! Não estejais cansados, mas revigorados pela sua força regeneradora. Maria Santíssima e São José nos ensinem a caminharmos ao encontro do Salvador que jamais nos abandona.

Santo Natal a todos!

A prostituição é imoral e deve ser combatida, lembra a Igreja

http://beinbetter.files.wordpress.com/2010/12/cardeal-levada.jpg?w=222&h=324A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser combatida. Se alguém, apesar disso, pratica a prostituição mas, porque se encontra também infectado pelo HIV, esforça-se por diminuir o perigo de contágio inclusive mediante o recurso ao preservativo, isto pode constituir um primeiro passo no respeito pela vida dos outros, embora a malícia da prostituição permaneça em toda a sua gravidade”. A afirmação está contida na recente nota da Congregação para a Doutrina da Fé, publicada como resposta a diversas leituras não-católicas feitas na recente declaração do Papa Bento XVI sobre os preservativos.

A nota emitida pela Congregação é, de fato, digna de aplausos, embora saibamos que a mídia internacional não dará a estas palavras a repercussão merecida. As pessoas que não têm acesso a outros meios de informação, como a Internet, por exemplo, permanecerão achando que “o Papa autorizou o uso de preservativos em alguns casos”, como foi noticiado pela imprensa há algumas semanas atrás. É lamentável o desserviço que os meios de informação de maior acessibilidade prestam à verdade.

Já que a mídia não está preocupada com o anúncio da verdade, cabe aos cristãos, que foram chamados pelo próprio Deus a serem testemunhas do Ressuscitado, proclamar ao mundo a perene doutrina da Igreja acerca da castidade. “A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser combatida”. A Esposa do Cordeiro também denuncia a distorção que hoje se faz do ato sexual, que deixa de ser vivido na fecundidade do Sacramento do Matrimônio para ser praticado de maneira banal por pessoas que desconhecem o real significado da palavra “compromisso”. O Senhor nos chama a viver de maneira radical o Evangelho, e isto inclui combater as forças tenebrosas do Mal e lutar corajosamente para que o sexto mandamento do Decálogo – que nos ordena não pecar contra a castidade – seja cumprido.

Pergunta-se onde devemos buscar forças. A nossa força está na perseverança na oração e na recepção assídua dos Sacramentos. Todos somos chamados ao combate. Que Maria Santíssima, a Virgem que se aproxima “temível como o exército em ordem de batalha”, nos auxilie na guerra.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Papa denuncia perversão de ativismo pró-pedofilia

[610x[3].jpg]

“Existe um mercado da pornografia que envolve as crianças, e que de algum modo parece ser considerado cada vez mais pela sociedade como algo normal. A devastação psicológica de crianças, na qual pessoas humanas são reduzidas a um artigo de mercado, é um terrível sinal dos tempos. Continuo a ouvir, de Bispos de países do Terceiro Mundo, que o turismo sexual está a ameaçar toda uma geração e danificá-la na sua liberdade e na sua dignidade humana. O Apocalipse de São João menciona entre os grandes pecados de Babilônia – símbolo das grandes cidades irreligiosas do mundo – o fato de comercializar os corpos e as almas, fazendo deles uma mercadoria (cf. Ap 18, 13). Neste contexto, coloca-se também o problema da droga, que estende fortemente os seus tentáculos como um polvo por todo o globo terrestre – eloquente expressão da ditadura do dinheiro que perverte o homem. Todo o prazer se torna insuficiente e o excesso no engano da alucinação torna-se uma violência que dilacera regiões inteiras, e isto em nome de um equívoco fatal da liberdade, no qual a própria liberdade do homem acaba minada e por fim completamente anulada.”

“Para nos opormos a estas forças, devemos lançar um olhar sobre os seus alicerces ideológicos. Nos anos Setenta, teorizou-se sobre a pedofilia como sendo algo totalmente consentâneo ao homem e também à criança. Mas isto fazia parte duma perversão fundamental do conceito de vida moral. Defendia-se – mesmo no âmbito da teologia católica – que o mal em si e o bem em si não existiriam. Haveria apenas um “melhor que” e um “pior que”. Nada seria em si mesmo bem ou mal; tudo dependeria das circunstâncias e do fim pretendido. Segundo os fins e as circunstâncias, tudo poderia ser bem ou então mal. A moral é substituída por um cálculo das consequências, e assim deixa de existir. Os efeitos de tais teorias são, hoje, evidentes. Contra elas, o Papa João Paulo II, na sua encíclica Veritatis Splendor, de 1993, com vigor profético apontou na grande tradição racional da vida moral cristã as bases essenciais e permanentes do agir moral. Hoje, deve-se colocar de novo no centro este texto como caminho na formação da consciência. É nossa responsabilidade tornar de novo audíveis e compreensíveis entre os homens estes critérios como caminhos da verdadeira humanidade, no contexto de preocupação pelo homem em que estamos imersos.”

- Bento XVI à Cúria Romana por ocasião das felicitações de Natal
20 de dezembro de 2010