Este ano será beatificada a fundadora das Irmãs dos Anjos, Irmã Maria Serafina Micheli. Conta-se que, enquanto rezava por engano na escadaria de uma igreja protestante, o seu anjo da guarda apareceu-lhe e revelou-lhe o local para onde foi o líder da Reforma Protestante, Martinho Lutero. Segundo artigo publicado recentemente no Fratres in Unum, “ela viu um terrível abismo de fogo, no qual eram cruelmente atormentadas um incalculável número de almas”. “No fundo deste precipício – continua o texto – havia um homem, Martinho Lutero, que se distinguia dos demais: estava cercado por demônios que o obrigavam a se ajoelhar e todos, munidos de martelos, se esforçavam, em vão, em fincar em sua cabeça um grande prego.” Conforme mostrou-lhe o anjo, a pena que sofreu foi consequência do primeiro pecado capital, o orgulho.
Este relato é valiosíssimo e mostra ao homem moderno a necessidade da obediência, da submissão à autoridade da Igreja Católica Apostólica Romana, única verdadeiramente fundada por nosso Senhor Jesus Cristo. Quando o homem se rebela contra uma autoridade instituída pelo próprio Deus, quando renega tenazmente as verdades de fé reveladas pelo Altíssimo à Sua Igreja, certamente está condenando-se a si mesmo e também àqueles que lhe cercam. Infelizmente até mesmo muitas pessoas que se dizem católicas têm o feio costume de exaltar essas pessoas que se rebelaram, ao longo da história, contra a santa Sé. Vários estudantes e professores de História dão muitas vezes um parecer deveras positivo à rebelião incentivada por Martinho Lutero. “Porque havia inúmeros membros do clero corruptos, porque a Igreja estava imunda de pecados…” Ora, é certo que a conduta de muitos homens de cargos eclesiásticos importantes não era muito digna de respeito na época de Lutero. Repugna-nos pensar na figura de um bispo que seja ao menos parecido com Alexandre VI. Essa alegação, no entanto, não justifica uma rebelião contra a Fé; não justifica uma transgressão à Lei de Deus (lembrar que a heresia é um pecado cometido contra o 1º mandamento, “amar a Deus sobre todas as coisas”). Muitos homens do tempo de Lutero reconheciam a necessidade de uma reforma – e posteriormente, através do Concílio de Trento, ela acabou por efetivar-se -, mas esta deveria ser empreendida não contra a Revelação cristã, santa e imaculada, mas sim contra os pecados dos filhos da Igreja, que constituíam o verdadeiro problema.
Foi distorcido, no entanto, o foco da reforma. E um número considerável de católicos pulou da barca de Pedro para se afogar nos violentos mares da heresia protestante. E quantas doutrinas estranhas começaram a se espalhar pelo mundo afora, quantas “verdades” têm sido pregadas em nome de Cristo, em nome da Bíblia! Para legitimar essa absurda situação na qual se encontra o protestantismo, desde as suas raízes, tem-se recorrido a recursos falaciosos (o relativismo é o melhor exemplo deles) e, então, qualquer sujeito pode se tornar pastor; basta que leia a Bíblia e “se sinta” inspirado pelo Espírito Santo. O resultado é fantástico: mil línguas protestantes pregando mil doutrinas diferentes. Não podemos aceitar de braços cruzados essa mutilação da nossa fé, essa tentativa perniciosa de arruinar a beleza da única Igreja fundada pelo próprio Senhor. Não podemos esquecer tão facilmente da declaração de Jesus Cristo de que seria São Pedro o apóstolo que “apascentaria as Suas ovelhas”. Deus não se engana nem pode nos enganar. Peçamos a Ele a graça de viver e morrer na fé católica, fé pela qual foi derramado o sangue dos Mártires; e que Maria Santíssima, a mulher que acreditou, nos ajude a sermos fiéis ao Magistério da Santa Madre Igreja por todos os dias de nossa vida.
Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Já por diversas vezes temos falado, neste espaço, sobre os males do relativismo moral, esta ideia de que a verdade está submetida a parâmetros e configurações subjetivas, isto é, a verdade seria apenas um produto da ação individual. A Verdade não deveria ser buscada, mas sim, inventada. O texto que exerce mais influência nas análises que muitas vezes se faz acerca deste problema é certamente a homilia proferida pelo cardeal Joseph Ratzinger – hoje Papa Bento XVI –
Pouca gente entende a ligação que existe entre um relativismo moral e um governo tirânico. Mas uma coisa vai junto com a outra. (…) Quando eu tenho o relativismo moral, não existe algo que é errado em si mesmo. As coisas são erradas pra mim ou erradas pra você. “Pra mim o homossexualismo não é pecado; é só uma opção”. “Pra mim é pecado”. “Tudo bem, você fica na sua opinião e eu fico na minha opinião…” Só que acontece o seguinte: quando não existe um parâmetro moral objetivo, quando cada um faz a sua lei moral, chega um governo e diz: “Já que tudo é relativo e cada um tem a sua lei moral, nós precisamos pôr ordem na casa. Então, a lei moral vai ser a nossa. Nós ditamos. Nós fazemos”. E eles impõem uma ditadura.

Quem renova continuamente a Igreja e o sacerdócio é o Espírito Santo! Fora de uma visão sobrenatural, é impossível pensar mesmo em uma renovação. Considero que este é precisamente um dos principais caminhos a percorrer: o da recuperação da dimensão vertical e espiritual do ministério. Nas últimas décadas, muitos “reducionismos”, animados pela assim chamada teologia da desmistificação, acabaram por transformar o sacerdócio simplesmente em um “superministério” de animação e coordenação eclesial. O sacerdote é também aquele que anima a vida pastoral de uma comunidade, porém exerce tal ministério em virtude de uma vocação sobrenatural e de sua configuração a Cristo, determinada pelo sacramento da Ordem. Antes de todo “serviço ministerial”, ele representa Jesus Bom Pastor no coração da Igreja, e, concretamente, na comunidade à qual ele é enviado.
Esta clara demonstração de indiferença ante os abomináveis crimes perpetrados contra o princípio da liberdade religiosa – e, de uma maneira especial, contra os seguidores de Cristo – se assemelham – é pavoroso constatar – a Pôncio Pilatos, que, incomodado pelo tumulto daqueles que pediam a crucificação de Jesus, “lavou as mãos diante do povo e disse: Sou inocente do sangue deste homem” (Mt 27, 24). É graças ao silêncio dos bons, à cumplicidade dos poderosos, que os inocentes são perseguidos e a injustiça passa a ser aplaudida. Nosso Senhor profetizou a ruína de várias cidades por onde passou. “E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia” (Mt 11, 23). Que diria Cristo destes políticos que ignoram propositalmente o fato de que há um número preocupante de pessoas sendo mortas simplesmente porque pregam o escândalo da Cruz…!