“Considera como é grande a pessoa que recebeu o pão da vida, o alimento dos anjos, com as devidas disposições. Ela permanece em mim e eu nela, como o peixe está no mar e o mar no peixe.”
- Deus a Santa Catarina de Sena
Celebramos no dia de hoje a memória de Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja. Esta grande mística é muito conhecida por denunciar as imoralidades às quais aderiam os sacerdotes de sua época, chamando-os a abrir os olhos à necessidade de salvar as almas e glorificar o Altíssimo. Mas, muitos outros temas procurou abordar Catarina, seja no livro conhecido como O Diálogo, no qual ela mantém uma conversa profunda com Deus, seja em suas Cartas, muitas piedosamente redigidas, sendo que numerosas foram endereçadas a membros do clero, convidando-os ao zelo pelas almas e pelas coisas do alto.
Gostaríamos de fazer alguns comentários a um trecho d’O Diálogo, publicado no blog Tesouros da Igreja Católica, no qual Santa Catarina fala da maneira como deveríamos receber a Sagrada Eucaristia. Recordemos, a priori, aquilo que nos fala o Catecismo de São Pio X quanto às disposições para receber dignamente o excelso Sacramento: “Para fazer uma comunhão bem feita, são necessárias três coisas: primeira, estar em estado de graça; segunda, estar em jejum desde uma hora antes da comunhão; e terceira, saber o que se vai receber e aproximar-se da sagrada Comunhão com devoção” (n. 626). Aquilo que dizem os preceitos da Igreja não pode ser simplesmente ignorado e banalizado; o que sabemos, porém, é que muitas pessoas, em nossas igrejas, estão comungando em estado de inimizade com Deus. E o mesmo Catecismo de São Pio X é enfático ao falar de tal atitude: “Quem comungasse em pecado mortal, receberia a Jesus Cristo, mas não a sua graça; pelo contrário, cometeria sacrilégio e incorreria na sentença de condenação” (n. 630). A expressão usada explicita a gravidade do pecado de quem se aproxima indignamente de Jesus Eucarístico. Sublinhamos a palavra “indignamente” porque sabemos que nenhum de nós somos dignos nem mesmo de nos aproximarmos d’Aquele que é. Deus quis, entretanto, dar-se a nós, neste Sacramento; pede-nos, outrossim, pelo menos que estejamos em estado de amizade para com Ele. E a certeza de que comungar em pecado mortal é “sentença de condenação” remonta aos tempos apostólicos, como nos garante São Paulo: “Aquele que o come [o pão] e o bebe [o vinho] sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação” (1 Cor 11, 29).
A Palavra de Deus ecoa pelos séculos. E Santa Catarina é responsável por transmitir esta sempre nova mensagem aos cristãos de seu tempo; é Deus Quem lhe fala: “Sabes a que se assemelha a pessoa que comunga indignamente? Se assemelha a uma vela molhada na água que apenas faz barulho ao ser encostada ao fogo; e, se por acaso acende, logo se apaga, fazendo fumaça.” Não há como acender o pavio da “vela” da alma de uma pessoa que está em pecado mortal. Explica o Senhor a Catarina: “No dia do Batismo, recebeis uma vela; se depois pecais, derramais ‘água’ em vosso íntimo, umedecendo o ‘pavio’ de vossa graça batismal; então, sem procurar ‘secá-lo’ por meio da penitência, ides à mesa da comunhão receber a luz do sacramento eucarístico: recebê-la-eis materialmente, não segundo o espírito.” O exemplo dado é muito bom, pois ilustra com precisão o drama daquele que, recebendo o perdão dos pecados no dia do seu Batismo, acaba perdendo a graça de Deus aderindo ao Seu inimigo, que é o demônio. A nossa alma se encontra literalmente morta e não é a Eucaristia que irá restaurá-la a vida.
Ora, mas não é o padre mesmo que pede, antes de comungar, que a Eucaristia que ele irá receber seja “sustento e remédio para minha vida”? Ora, sim, mas as enfermidades mais graves – como é o caso do pecado grave -, devem ser curadas com outro Sacramento: o da Penitência. A Eucaristia apaga os pecados veniais, não os mortais. É por isso, sacramento de vivos, ao passo que a Confissão é sacramento de mortos – ou seja, daqueles que estão com alma em estado de desgraça. Sim, pode interrogar um cristão, mas e se eu sentir em meu coração o impulso a comungar, mesmo que eu esteja em pecado grave? Bom, se esta inspiração lhe incita a desobedecer um preceito da Igreja, certamente não é uma inspiração divina, definitivamente. Não podemos, como já foi dito, imaginar as palavras da Igreja como meros detalhes, coisas insignificantes que podemos burlar caso “sentirmos em nosso coração” um desejo contrário ao que por ela é exortado. O que diz a Igreja é o que quer dizer-nos o Senhor. Por isso entregou este a Pedro as chaves do Reino dos céus: para que tudo que fosse ligado na terra fosse também ligado nos céus (cf. Mt 16, 19).
Também pede-nos o Catecismo, para que bem comunguemos, “saber o que se vai receber e aproximar-se da sagrada Comunhão com devoção”. É o que Santa Catarina continua a nos falar:
“Todo homem deveria sentir o coração inflamado de caridade ao considerar, entre os outros favores meus, o benefício deste sacramento! Com que olhos, filha querida, tu e os demais deveríeis ver e tocar este mistério! Quero dizer: ‘ver’ e ‘tocar’ não apenas materialmente. Aqui, pouco valem os sentidos externos. O olho vê unicamente um pãozinho branco; a mão, ao tocar, nada percebe de mais profundo; o paladar sente só o gosto do pão. Enganam-se os pobres sentidos! Não se enganem, porém, os sentimentos do coração. Que o homem não queira enganar-se; que ele não recuse a luz da fé através do pecado da infidelidade. É pelo sentimento interior que o homem saboreia este sacramento; ele somente é visto pela inteligência iluminada com a fé. Somente esta enxerga na hóstia branca o todo-Deus e o todo-Homem, a natureza divina unida à humana, o corpo, alma, sangue de Cristo; sua alma unida ao corpo, o corpo e a alma unidos à divindade!”
Praestet fides suplementum sensuum defectui, diz o hino composto há oito séculos por São Tomás de Aquino. Aos nossos sentidos escapa o milagre da transubstanciação; à nossa “inteligência iluminada com a fé”, porém, não passa despercebida a notável verdade do Deus que se faz alimento para a nossa salvação. E é tendo sempre em mente esta certeza que devemos nos aproximar da Sagrada Eucaristia. Aquilo que nos oferece o sacerdote não é um simples pedaço de pão, não é um simples alimento, um rito do qual participamos como se participássemos de qualquer banquete; quando nos ajoelhamos diante da hóstia, ajoelhamo-nos diante do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O sacerdote diz-nos: “O Corpo de Cristo!” E é verdade: ali está verdadeiramente nosso Senhor! Que temor, pois, deve assaltar o nosso coração só de pensarmos em contristar Aquele que derramou o Seu Sangue para a nossa salvação! Este temor deve converter-se em ação concreta. Se estamos conscientes de tê-Lo ofendido gravemente, não entramos na fila da Comunhão. E não importa se a sua melhor amiga ali entrou, se aquela pessoa que tem uma conduta pouco exemplar ali está… Ali, na igreja, estão você e os homens. No dia do Juízo, estarão cara a cara você e Deus. A quem queremos, afinal, agradar?
Demos, enfim, graças a Deus por que Ele quis se fazer presente em nosso meio através do diviníssimo Sacramento da Eucaristia. E esforcemo-nos para comungar com frequência, buscando, ao mesmo tempo, manter em nossa alma seco o pavio, para que Ele, encontrando-nos, possa acender em nós o fogo da sua graça. E que Santa Catarina de Sena rogue ao Altíssimo por Seus sacerdotes, para que celebrem com piedade e profundo respeito o Sacrifício que Ele quis instituir para a remissão de nossas faltas.
Santa Catarina de Sena,
rogai por nós!
Graças e louvores sejam dados a todo o momento
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!
“Todo homem deveria sentir o coração inflamado de caridade ao considerar, entre os outros favores meus, o benefício deste sacramento! Com que olhos, filha querida, tu e os demais deveríeis ver e tocar este mistério! Quero dizer: ‘ver’ e ‘tocar’ não apenas materialmente. Aqui, pouco valem os sentidos externos. O olho vê unicamente um pãozinho branco; a mão, ao tocar, nada percebe de mais profundo; o paladar sente só o gosto do pão. Enganam-se os pobres sentidos! Não se enganem, porém, os sentimentos do coração. Que o homem não queira enganar-se; que ele não recuse a luz da fé através do pecado da infidelidade. É pelo sentimento interior que o homem saboreia este sacramento; ele somente é visto pela inteligência iluminada com a fé. Somente esta enxerga na hóstia branca o todo-Deus e o todo-Homem, a natureza divina unida à humana, o corpo, alma, sangue de Cristo; sua alma unida ao corpo, o corpo e a alma unidos à divindade!”
“Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.”
Ao contrário de outros padres que também cantam, o senhor sempre aparece de batina. Por quê?
Quem ama deve madrugar e só assim acharão aquele por que procuram: “Qui mane vigilant ad me, inveniet me – Os que por mim madrugam me acharão” (Pr 8, 17). Foram, pois, as três Marias a túmulo de madrugada e porque muito amavam madrugaram, para limpar o corpo do Senhor e perfumá-lo, dado que no dia anterior não houvera tempo para fazê-lo. Mas ao chegarem não acharam o que buscavam. “Assim não cumpre Deus sua palavra, não porque falta, mas porque excede o que promete. Não acham o que buscavam, mas acharam o que nem a buscar, nem a desejar, nem a imaginar se atreviam” (Pe. Antonio Vieira, Sermão da Madrugada da Ressurreição).
Hoje o Senhor oferece-se por nós todos, dando sua própria vida como preço pela nossa salvação. Ah, dia de luto e de grande tristeza! No entanto, esta tristeza não é aquela “que perdeu a esperança, que já não confia no amor nem na verdade e que por isso desagrega e arruína o homem por dentro”; porém, é “a tristeza que vem do abalo, da comoção provocada pela verdade, que leva o homem à conversão, à resistência contra o mal” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 88, Edit. Planeta). O Gólgota até este dia era o mais infame de todos os lugares do mundo; mas quando a cruz de Cristo ali elevou-se tornou-se o mais glorioso e santo lugar.
Hoje damos início ao Tríduo Pascal com a Santa Missa In Coena Domini, isto é, na Ceia do Senhor. Neste dia, os homens são chamados a identificar na cena evangélica o amor máximo que moveu os angustiados corações dos apóstolos, que dentro em breve já não mais teriam o Senhor entre eles. Quinta-feira Santa: dia em que manifestar-se-nos-á a maior prova de humildade que o Senhor transmitiu-nos. O Messias inclina-se perante os apóstolos e lava-lhes os pés e depois enxuga-os. O nosso Pontífice recordar-nos-á que “a subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e vê-lo” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 95, Edit Planeta). Sabendo que deveria voltar para o Pai, como nos relata o Evangelho de hoje (Jo 13, 1), ascender ao Céu, o Senhor desce, inclina-se, lavando os pés dos discípulos, e desta forma – assim querendo – Ele pode voltar ao Pai.
“Desde sempre – e hoje ainda mais – os homens nutriram o desejo de ‘ser como Deus’; de alcançar, eles mesmos, a altura de Deus. Em todas as invenções do espírito humano, em última análise, procura-se conseguir asas para poder elevar-se à altura do Ser divino, para se tornar independentes, totalmente livres, como o é Deus. A humanidade pôde realizar tantas coisas: somos capazes de voar; podemos ver-nos uns aos outros, ouvir e falar entre nós dum extremo do mundo para o outro. E todavia a força de gravidade que nos puxa para baixo é poderosa. A par das nossas capacidades, não cresceu apenas o bem; cresceram também as possibilidades do mal, que se levantam como tempestades ameaçadoras sobre a história. E perduram também os nossos limites: basta pensar nas catástrofes que, nestes meses, afligiram e continuam a afligir a humanidade.”
“[A] homossexualidade ocupou, no século XIX, o lugar que é hoje da pedofilia. A partir de critérios suposta e novamente científicos (medicina, psicologia), jurídicos e religiosos, a pedofilia se apresenta como doença, crime e pecado, o que é ampliado pelos meios de comunicação de massa. Mera coincidência para realidades bem diferentes? (…)
Mais uma vez, com o Domingo de Ramos, somos chamados a adentrarmos na Semana Santa, tempo de, no silêncio, meditarmos sobre os últimos dias de Jesus nesta terra e sua gloriosa Ressurreição.