Papa em Pentecostes: “O Espírito Santo anima a Igreja”


Não sei se vocês tiveram a oportunidade, mas não podem deixar de ler a homilia que o Santo Papa Bento XVI pronunciou no último domingo, por ocasião da solenidade de Pentecostes. A exortação é uma catequese riquíssima e, por abranger pontos deveras relevantes à nossa fé católica, julgo ser importante fazer alguns comentários às palavras do nosso Pastor.

“Para nós, cristãos, o mundo é fruto de um ato de amor de Deus, que fez todas as coisas e das quais Ele se alegra porque é “coisa boa”, “coisa muito boa”, como recorda-nos a narração da criação (cf. Gên. 1,1-31). Deus, por isso, não é o totalmente Outro, inominável e obscuro. Deus revela-se, tem um rosto, Deus é razão, Deus é vontade, Deus é amor, Deus é beleza. A fé no Espírito Criador e a fé no Espírito que o Cristo Ressuscitado dá aos Apóstolos e dá a cada um de nós estão, portanto, inseparavelmente unidas.”

O nosso Pontífice tem este convenientíssimo costume de desacreditar o agnosticismo. Quando adverte, com insistência, que Deus se fez carne e habitou em nosso meio; que aquele Homem nascido de Maria é, como nos diz o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, “gerado do Pai antes de todos os séculos”; que o Altíssimo não está afastado ou separado de nossa pobreza, está, na verdade, traduzindo tudo aquilo que o homem de nosso século está voltando, com a graça de Deus, a acreditar. O Senhor não se contenta em fazer com que todos os homens O conheçam (sabemos bem que, para chegarmos à existência de Deus, a razão natural certamente nos basta); Ele quer que todos participemos de Sua glória. Se, em Adão, entramos na desgraça e perdemos aquela sublime comunhão que tínhamos com o Pai, em Cristo recuperamos novamente tão sagrado dom e podemos gozar novamente de uma alegria que supera toda e qualquer angústia humana.

Com efeito, os sofrimentos aos quais todos nós estamos sujeitos não podem ultrapassar a grandeza do amor do Altíssimo por cada um de nós. O desespero definitivamente não vem do Pai. Toda miséria, por mais deplorável e terrível que seja, não é e nem pode ser justificativa para que deixemos de reconciliarmo-nos com Deus. Quando bater em nós o medo, a incerteza, a angústia, o desejo de talvez desistir do compromisso firmado no dia de nosso Batismo, é sempre bom que lembremo-nos que, para dar-nos a vida, Ele desceu até nós, fazendo-se Homem, habitando em nosso meio. “Deus se mostra em Jesus e, com isso, dá-nos a verdade sobre nós mesmos”, diz o Papa. E por que neste mistério redescobrimos a verdade sobre nós? Ora, porque é justamente quando somos resgatados do pecado em Cristo que podemos dizer que estamos verdadeiramente vivos e, no mistério da Cruz, humilhando-nos a nós mesmos com o Cristo, podemos redescobrir a nossa identidade, a profunda sede de transcendência que existe em nosso ser. A alma que recupera a vida e a consciência de sua pequenez pode finalmente ser saciada pelo Espírito. “O salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

“Recitando o Credo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da desordem de Babel, daquelas vozes que se chocam uma contra a outra, acontece uma radical transformação: a multiplicidade se faz multiforme unidade, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo, que nos une de todos os ângulos da Terra, que, mediante o Espírito Santo, permite que nos compreendamos, ainda que na diversidade das línguas, por meio da fé, a esperança e o amor, forma-se a nova comunidade da Igreja de Deus.”

É na imutabilidade do Credo que se forma a Igreja de Deus. Não nos confundamos. São muitas as línguas que falam os discípulos do Cordeiro ao redor do mundo, mas o conteúdo da fé é um para todos. Por isso a diversidade de hábitos e costumes ao redor do mundo não pode se tornar argumento para que abdiquemos da pregação do Evangelho. E é aqui que está o verdadeiro sentido da inculturação. Se esta palavra não for plenamente compreendida, pode levar muitos pregadores a mutilarem as palavras do Cristo, a adaptarem as exortações do Senhor às doutrinas dos novos tempos. Esta última atitude não congrega fiéis; apenas provoca cisão dentro da Igreja. Lembremo-nos o que diz o sucessor de São Pedro! É na unidade da Fé que se funda a Santa Igreja. Sim, ela é universal, católica; reúne todos os povos e nações, abarca variadas culturas; mas são todos crentes no mesmo Jesus Cristo que se encarnou, morreu e ressuscitou para que, morrendo para o pecado, pudéssemos receber vida nova.

[O] Espírito Santo anima a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem e da sua capacidade organizativa, posto que se assim fosse já há tempos estaria extinta, assim como passa cada coisa humana. Ela é, ao contrário, o Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo.

(…)

[A] Igreja é católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é o fruto da inclusão sucessiva de diversas comunidades. Desde o primeiro instante, de fato, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; essa abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe, nação; abate todas as barreiras e une os homens na profissão do Deus uno e trino. Desde o início a Igreja é una, católica e apostólica: essa é a sua verdadeira natureza e como tal deve ser reconhecida. Ela é santa, não graças à capacidade dos seus membros, mas porque Deus mesmo, com o seu Espírito, cria-a, purifica-a e santifica-a sempre.

Os primeiros Apóstolos, sozinhos, não eram capazes de levar a cabo a missão que Jesus lhes havia confiado. Mas será que aquele Homem que se entregou por sua Esposa na Cruz a abandonaria depois de ascender aos céus? De modo algum. E é por isso que o Cristo envia à Igreja o Paráclito: para animar a Igreja. A promessa já havia sido feita, como nos relata o evangelista São João. E a promessa divina jamais pode ser desacreditada. É o mesmo Jesus que promete o envio do Espírito Santo aquele que garante que “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18) contra a Igreja. Urge confiarmos nas palavras do Salvador. Nenhum poder humano pode derrotar a Igreja, porquanto esta foi edificada pelo próprio Deus Todo-Poderoso. Se a Santa Igreja Romana derivasse pura e simplesmente da vontade humana, lembra-nos Bento XVI, ela já teria fracassado.

Não há porque desanimar. Deus é conosco. Se estivermos debaixo da autoridade de Pedro, nada precisamos temer. Ali encontramos uma rocha segura. Afinal, é o próprio Deus quem a sustenta.

Rezemos pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, para que continue guiando, com coragem, o rebanho que lhe foi confiado, e para que não pereça ante o escárnio e a zombaria de seus infames inimigos.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Um comentário sobre “Papa em Pentecostes: “O Espírito Santo anima a Igreja”

  1. Amém!

    Por vias distinstas, seu post e o do Jorge Ferraz hoje estão em sintonia.

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