O engodo do moderno discurso ambiental: uma arma da “cultura de morte” e do “laicismo intolerante”

Já tinha escrito, aqui, alguma coisa sobre o aborto na Rio+20. Mais do que propor a descriminalização da prática como um impulso à sustentabilidade, tentaram colocar a ideia no documento final da conferência. Mas, graças aos protestos vindos – atenção! – não só da Santa Sé, como do Chile, seguidos de Nicarágua, Rússia, Honduras, Síria, República Dominicana, Costa Rica e Egito, a expressão “direitos reprodutivos” – clara estratégia eufemística para defender o homicídio do nascituro – foi retirada do texto final da reunião. E, apesar dos protestos das feministas, o aborto ficou mesmo de fora.

Trata-se de uma vitória – e não seria exagero dizer que foi alcançada com a intercessão de Dom Luiz Bergonzini. A vitória parcial de uma concepção ecológica que coloca no centro da discussão ambiental a importância do homem. Como lembrou o Jorge Ferraz, “o atual movimento ecológico adota quase que em uníssono um discurso xiita – e francamente inaceitável – segundo o qual é legítimo (ou até mesmo necessário) sacrificar o ser humano para (supostamente) ‘salvar o Planeta’.” Em suma, todo este discurso de “sustentabilidade” e “preservação” seria mero pretexto para a legitimação do controle da natalidade, do aborto e da esterilização artificial.

E é por isto que o Vaticano “se intromete” nestas conferências. Por mais que muitos grupos reclamem, dizendo que “o Estado é laico” e, por isso, a Igreja não deveria emitir sua opinião sobre estes assuntos relevantes para a vida pública, ela permanecerá exercendo o seu papel de anunciar não só o Evangelho de Cristo, como também os valores que a nossa Civilização herdou dele. Em uma sociedade democrática, como suponho que seja a nossa, mesmo as opiniões de pessoas de fé devem ser ouvidas, não podendo ser relegadas à esfera do privado sem grande injustiça. Por esse motivo ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (§ 572) o que segue:

“O princípio da laicidade comporta o respeito de toda confissão religiosa por parte do Estado, que assegura o livre exercício das atividades cultuais, espirituais, culturais e caritativas das comunidades dos crentes. Numa sociedade pluralista, a laicidade é um lugar de comunicação entre as diferentes tradições espirituais e a nação. Infelizmente permanecem ainda, inclusive nas sociedades democráticas, expressões de laicismo intolerante, que hostilizam qualquer forma de relevância política e cultural da fé, procurando desqualificar o empenho social e político dos cristãos, porque se reconhecem nas verdades ensinadas pela Igreja e obedecem ao dever moral de ser coerentes com a própria consciência; chega-se também e mais radicalmente a negar a própria ética natural. Esta negação, que prospecta uma condição de anarquia moral cuja consequência é a prepotência do mais forte sobre o mais fraco, não pode ser acolhida por nenhuma forma legítima de pluralismo, porque mina as próprias bases da convivência humana. À luz deste estado de coisas, a marginalização do Cristianismo não poderia ajudar ao projeto de uma sociedade futura e à concórdia entre os povos; seria, pelo contrário, uma ameaça para os próprios fundamentos espirituais e culturais da civilização.”

Sob o pretexto de “laicidade do Estado”, muito tem sido feito para marginalizar o Cristianismo… E, na verdade, sabemos que é a moral judaico-cristã um dos pilares da cultura ocidental. Tentar eliminar na população este respeito que existe por esta moral milenar seria minar “as próprias bases da convivência humana”, “os próprios fundamentos espirituais e culturais da civilização”.

Por isso, a Igreja não se calará; continuará erguendo a sua voz profética contra o crime abominável do aborto, contra a perversidade dos métodos artificiais de controle da natalidade, contra o desprezo desta sociedade utilitarista aos seus membros mais frágeis e indefesos. Porque nós, que somos Igreja, cremos firmemente que não pode haver verdadeiro progresso em uma “cultura de morte”, que “coisifica” seres humanos e “endeusa” animais irracionais; que cultua o direito de a mulher dispor do seu próprio corpo, defendendo, ao lado disto, que um ser humano seja arbitrariamente massacrado por instrumentos de curetagem; que coloca a autoridade do Estado acima da dignidade da vida humana e do próprio Deus. “Contra esta cultura, na qual a mentira se apresenta na veste da verdade e da informação, contra esta cultura que busca somente o bem-estar material e nega a Deus, dizemos, com o Papa Bento XVI, ‘não’.”

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

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Leia também: As fanáticas do aborto protestam na Rio+20. Tentemos entender a alma dessas militantes da morte, no blog do Reinaldo Azevedo.

Leia mais: Dilma mostra irritação ao ser criticada na Cúpula de Mulheres, na Folha Online.