A chamada universal à santidade iniciada por Cristo e continuada pela Igreja perpetua-se durante estes vinte e um séculos sobre o foco de um convite. Em verdade, esta nunca se impôs como uma obrigação, mas foi manifestada àqueles que escutam atenciosamente o chamado do Senhor e que, com Ele, desejam estreitar suas vidas em conformidade com o projeto salvífico.
“Beati mundo corde – Bem-aventurados os puros de coração” (Mt 5,8). Bem aventurados todos os que conformam sua vida ao projeto de Cristo, aqueles que adentram o seu coração e que deixam-se adentrar por Ele. É relevante o tema da santidade uma vez que ela é a via para conduzir-nos a Deus. Todos são conclamados a este mistério de amor dado por Deus, Santo por excelência, “Santo e fonte de toda a santidade”; o Deus vivo e verdadeiro que existe antes de todo o tempo e permaneceis para sempre, habitando em luz inacessível (Oração Eucarística II; cf. Ora. Euc. IV). Tal a magnitude de sua santidade, que nem todos os Santos, unidos a bem-aventurada Virgem Maria, poderiam superá-lo, afinal Ele é o Criador e Senhor de todas as coisas, autor da santidade e Sumo Bem. Por isso, Ele é três vezes Santo – Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth -, o Senhor dos exércitos, que enche o céu e a terra (cf. Is 6,3).
Se perguntarmos aos teólogos qual o maior atributo de Deus dir-nos-ão que n’Ele são todos os atributos iguais, porque todos e cada um deles é Deus, e portanto não podem ser ditos maiores ou menores, mas constituem parte inerente e indizível da mesma natureza. Entretanto, São Dionísio Areopagita, que outrora escrevera magnanimamente sobre os atributos divinos, diz-nos: “Deus per excellentiam cuncta excellentem Sanctus Sanctorum praedicatur – Quando dizemos que Deus é santo, e Santo dos Santos, louvamos em Deus uma excelência que é mais excelente que todas”. Há também que ressaltarmos que as Escrituras nos apresentam o nome Santo como um outro nome de Deus. Podemos vê-lo em um dos exemplos: “Blasphemaverunt Sanctum Israel – Blasfemaram o Santo de Israel” (Is 1,4).
A noção bíblica de santidade é riquíssima de significados. A Escritura não apenas põe a santidade como renúncia ao profano, mas coloca-a em Deus, sua própria fonte e origem. Se, de um lado, a santidade de Deus, como já dissera, é inacessível ao homem; por outro lado o próprio Deus quis comunicar essa sua santidade, Ele “se santifica”, se mostra santo, manifestando sua glória. Poderíamos deter-nos sobre diversas manifestações da santidade divina, no entanto convém deter-nos sobre a santidade comunicada por amor aos homens.
“Agora celebramos, e depois seremos celebrados: agora nós celebramos a eles, e depois outros celebrarão a nós” (Pe. Antônio Vieira, Sermão de Todos os Santos). Com estas palavras do egrégio orador, possuidor de riquíssima sabedoria intelectual, mas sobretudo de um uma riqueza espiritual, vemos o convite veemente à santidade.
A Igreja triunfante recebeu o mérito da vida que levara enquanto Igreja militante. Mas, donde lhes provém a santidade divina, se os laços humanos foram rompidos com Deus? A santidade humana não provém diretamente de Deus, mas antes disso ela deve passar pelo sacrifício de Cristo que santifica a todos os crentes. A participação na vida de fé move-nos a este caminho de santidade, nos conclama a uma participação na comunidade eclesial, onde podemos melhor exercê-la.
O Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II, com o qual devemos estreitar mais ainda nossos laços neste Ano da Fé, faz-nos uma advertência sobre a Santidade: “Munidos de tantos e tão salutares meios, todos os cristãos de qualquer condição ou estado são chamados pelo Senhor, cada um por seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai” (nº 31).
Não é um convite indiferente às necessidade do tempo hodierno. Também hoje ressoa o convite de Cristo, que, embora às vezes, sufocado pelos prazeres e comodismos de vida, nunca é totalmente ab-rogado do homem. Por isso, na segunda leitura, São João faz-nos recobrar a grandeza própria do homem, de ser chamado filho de Deus: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai.
Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,1-2).
Graças a filiação adotiva podemos ser chamados filhos de Deus. E o somos por meio de Cristo Jesus. Este é o presente primeiro que nos concede Deus em sua infinita bondade. Rompidos os laços do homem com o pecado, Deus, por meio da encarnação do Verbo, nos reconstitui a Ele, nos faz seus filhos e nos concede a dignidade de podermos chamá-lo: Pai.
Mas esta filiação adotiva leva-nos também a professarmos a nossa certeza da luta pela santidade. “Seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como ele é”. Estas palavras do apóstolo fazem mergulhar-nos na grande misericórdia de Deus. Eis a recompensa para aqueles que fazem da sua vida um sinal do amor de Deus. Contemplar a face de Deus, é isso que tanto pedimos, e isto nos será concedido se mantivermos em nós os mesmos sentimentos de Cristo, a retidão e a estreita união com Deus.
“Beati mundo corde – Bem-aventurados os puros de coração”, diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 5,8). Sim, é no coração que está a fonte da santidade, por isso o homem deve mergulhar o seu coração no Coração de Deus.
Por isso dirá Padre Antônio Vieira: “De sorte que, para um homem ser santo, não é necessário coisa alguma fora do homem, nem ainda é necessário todo homem; basta-lhe uma só parte, e essa a primeira que vive e a última que morre, para que lhe não possa faltar em toda a vida, que é o coração” (Sermão de Todos os Santos).
Para Deus basta-nos a pureza do coração para que obtenhamos os bens celestiais concedidos aos já participantes da Igreja triunfante. Por isso, de nada nos adiantam títulos e honras se não obtivermos, antes de tudo, a maior honra que é a de um coração límpido, tocado pelo amor de Deus. Não são as Mitras, os Báculos, os Solidéus, as Coroas, os graus hierárquicos, o estado civil, os bens materiais, que fazem ou deixam de fazer santos, mas antes de tudo (e somente isso!): a pureza interior. Não fosse assim não o seriam Luiz, Rei da França; Estevão, Rei da Hungria; Erico, Rei da Dinamarca; Benedito, o Negro, Cozinheiro do Convento; Lázaro, pobre; Floro, serrador; Jacó de Boêmia, carpinteiro; Alderico, vaqueiro; Arnoldo, marinheiro; Leonardo, pastor, entre tantos outros que me abstenho de enumerar aqui. E não há ofício tão baixo, tão trabalhoso e imundo para os homens, que não seja tão alto para Deus se em todos eles mantivermos aquele grau primeiro para a santidade: Beati mundo corde.
Neste dia da Solenidade de Todos os Santos, proponhamo-nos a vivenciar com pureza de coração o exemplo destes homens e mulheres que doaram sua vida a Cristo, cada qual em seu estado de vida e em sua profissão. Para Deus não vale-se a grandeza terrena mas a grandeza do coração. O céu não está longe, mas muito próximo. Ele pode ser encontrado a começar do interior de cada homem. Pois que adianta o corpo está no claustro e o coração no mundo? Que adianta consagra-se a Deus, mas continuar a oferecer sacrifício aos ídolos? Que adianta abraçar um estado de vida, se teu coração e tua vocação te apontam outro caminho? Busquemos a santidade onde quer que estejamos. E onde quer que estejamos mostremos que a santidade produz a alegria dos filhos de Deus, não é triste nem monótona, é alegre, fiel e esperançosa.

Texto incrível! ^^