Elevados com Cristo a uma vida nova

“Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, na Samaria e até aos confins do mundo” (Act 1, 8). Com estas palavras, na primeira leitura, o Senhor Jesus despede os discípulos antes de ascender gloriosamente aos céus. Imediatamente acrescenta São Lucas que “se elevou à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos” (Act 1, 9).

Celebramos hoje a Solenidade da Ascensão do Senhor. Este é o último ato terreno de Jesus após sua ressurreição. Ele é elevado ao alto pelo poder de Deus e desta forma é introduzido no espaço da proximidade divina. Mas estas palavras de Cristo são também uma exortação veemente da nossa responsabilidade cristã que, com a vicissitude dos tempos, não é menos importante. Analisemos a nossa sociedade, por exemplo, tomada por ideologias anti-cristãs, por leis que tendem a afastar os homens de Deus e a criar isolamentos, sobretudo com a falta de comunhão entre os povos. Mediante este cenário as palavras de Jesus ganham maior intensidade e nos mostram que ser cristão não é apenas ser batizado e dizer-se um, mas é, no batismo, dar testemunho do que propôs-se a viver.

Agora, caberia perguntar-nos o que transmite-nos hoje esta Solenidade? Qual a mensagem que ela vem trazer ao nosso mundo frenético e sem tempo para Deus? Esta mensagem é sempre nova e quer introduzir-nos também neste “novo”. “Na Ascensão de Cristo ao Céu, o ser humano entra numa nova intimidade com Deus, sem precedentes. O homem encontra agora, e para sempre, espaço em Deus. O ‘Céu’ não é um lugar sobre as estrelas, mais uma coisa muito mais ousada e sublime: é o próprio Cristo, a Pessoa divina que acolhe plenamente e para sempre a humanidade, Aquele no qual Deus e o homem estão inseparavelmente unidos para sempre” (Papa Bento XVI, Homilia em Cassino, 24 de maio de 2009).

Daí cria-se a certeza de que, se outrora descera o Senhor à humanidade para humanizar-se, agora, com sua subida, Ele a santifica e, desta forma, rompe o abismo máximo que afastava o homem de Deus. Sobe o Senhor aos céus, e com Ele é necessário que subam nossas almas, purificadas de todo o pecado pelo seu Sangue, e fortalecidas pelo mistério salvífico do Ressuscitado, que vence a morte e dá aos homens uma vida fortalecida pelo Seu Amor, que, deveras, só deseja em troca o nosso amor.

Na segunda leitura, o autor sagrado escreve: Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania, ou qualquer título que se possa mencionar, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro. Sim, ele pôs tudo sob seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal” (Ef 1, 20-23).

Deus sujeita tudo a Cristo; Ele submete tudo ao Seu Poder. Mas esta submissão não é autoritária e tirana, que priva o homem de sua liberdade. Ela está muito acima disso. É a submissão do amor e da liberdade, do respeito e da tolerância. Por isso, digo: quem teme a Cristo por medo do inferno e não por amor, não o teme verdadeiramente, mas vive em uma constante incerteza. É a certeza de que Cristo está conosco que fortalece a nossa fé e nos faz amá-lo cada dia mais. “Cristo está no céu, mas também está conosco; e nós, permanecendo na Terra, estamos também com ele. Por sua divindade, por seu poder e por seu amor ele está conosco; nós, embora não possamos realizar isso pela divindade, como ele, ao menos podemos realizar pelo amor que temos para com ele” (Sermo de Ascensione Domini, Mai 98,1-2; PLS 2,494-495).

Uma vez que Cristo sobe à glória do Pai, a Igreja também encontra na promessa do Senhor este mesmo destino: contemplar a face de Deus, e ser elevada à Sua glória. Ela não anuncia um Deus desconhecido e distante, mas anuncia um Deus próximo, feito homem, que quis tornar-se nosso amigo e quis padecer para redimir-nos dos nossos pecados; um Deus que desce aos abismos humanos, à miséria humana, e fazendo-o torna-nos capazes de podermos chamar a Deus de Pai.

O evangelho narra que “quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (Mt 28, 17). A dúvida sempre fez-se presente nos homens, sobretudo pela sua capacidade de incredulidade. Também naquele momento alguns duvidaram que Jesus realmente estivesse ali, que fosse Ele. No entanto, Ele não exclui a esses, não os põe à margem dos escolhidos, mas os confirma e os faz missionários: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).

Esta é a promessa confortadora que o Senhor nos dá: Estarei convosco. E para aqueles que duvidaram esta é a maior prova da presença do Senhor. “Pode o mundo vos abandonar e perseguir, deixando-os sozinhos, mas Eu estarei ao vosso lado”, nos diz Cristo todos os dias. E aí verão os incrédulos que, aquele que os falava, não era um fantasma, mas o Senhor que torna-se sustento para os caminhos do mundo que temos que enfrentar.

Que Maria, Mãe de Deus e nossa, interceda em nossa caminhada para que jamais possamos desanimar.

Solenidade da Ascensão do Senhor

Celebramos o Domingo da Ascensão de Jesus Cristo aos céus. O termo ascensão, cuja definição está relacionada primordialmente à subida de alguém, gira em torno desse conceito: “subir pelos seus próprios meios”. Ao contrário de Maria, que foi assunta ao céu, ou seja, elevada, Jesus elevou-se. “Ser elevado” traz um conceito de passividade enquanto “elevar-se” mostra uma atividade própria. Jesus, de fato, voltava para o Pai. Durante essa 6ª semana da Páscoa, Ele nos alertava frequentemente sobre esse acontecimento próximo: “Eu me vou para junto do Meu Pai” (Jo 16,10). Bom, de fato, aconteceu. Ele foi para junto do Pai.

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E nesse contexto de “abandonamento” – superficialmente falando – a Liturgia vem nos mostrar justamente esse fato segundo a visão dos apóstolos, primeiramente assustada e, posteriormente, saciada com a vinda do Paráclito. Jesus ficou, como mostra Lucas na narração da primeira leitura dos Atos dos Apóstolos, 40 dias depois de sua morte e Ressurreição com os apóstolos, anunciando a eles o Reino de Deus e preparando-lhes para a vinda do Espírito Santo. Ele fala do “batismo com Espírito Santo” (cf. At 1,5).

Mudemos nossa mentalidade acerca disso. Primeiramente consideremos que esse batismo no Espírito Santo não é algo qualquer, realizado por alguns ditos “profetas” em qualquer salão que aparece no meio da avenida. Batizar-se com o Espírito é, antes de tudo, professar a fé que Jesus nos manda proclamar. Diz Ele, ainda no Evangelho: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16). Jesus usa então o termo da – crer – primeiro, antes desse batismo. E Ele faz isso na intenção de anunciar a nós que para que ocorra uma verdadeira e vivificadora transformação do Espírito Santo em nossas vidas é preciso haver primeiramente . Não liguemos isso com RCC, movimentos pentecostais, igrejas protestantes ou outras “correntes” que, geralmente, ensinam muitos a ter uma visão completamente diferente desse verdadeiro “advento do Espírito”. Deixar que esse Espírito de fato venha significa cumprir a vontade do Pai, que se manifesta especialmente por meio de Sua Igreja.

E por que é importante esclarecer isso? Porque a fé e o cumprimento da Palavra são requisitos básicos para que possamos obter a salvação. O Espírito Santo, como fogo renovador, quer justamente entrar em nossos corações com força missionária, trazendo-nos à realidade da conversão, sem se esquecer, claro, do que manda Jesus, por meio do seu Corpo, que é a Igreja (cf. Ef 1,22). Essa necessidade é maior ainda quando vemos que não determinamos em nosso poder o tempo que o Pai designou para o fim dos tempos: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade” (At 1,7). Como não sabemos que hora o Senhor virá, faz-se preciso estabelecer um momento para a nossa mudança de vida: hoje mesmo. Se soubéssemos que hora o Senhor viria, ora, converter-nos-íamos a hora que bem entendêssemos. No entanto, esse fato – o de não sabermos os momentos que o Pai designou para o fim – nos obriga a fazermos rapidamente um reavivamento de valores, uma renovação de fé.

Assim, depois que Jesus confirma a seus apóstolos a necessidade da fé, do batismo e da conversão, sobe aos céus: “Homens da Galiléia,”, interrogam-nos os anjos, “por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1,11). Essa mensagem dada a eles é hoje para nós sinal de duas coisas: vigilância e esperança. A vigilância nos encoraja a não mais ficarmos parados e pormos em prática o que nos pede Jesus por meio das suas sublimes palavras no Evangelho; no mesmo sentido, nos motiva a manter essa atitude sempre constante, de modo a, quando Jesus em sua glória vier, estarmos prontos para com ele subirmos. A esperança, por sua vez, é o que nos motiva a perseguir essa caminhada. Por que qual seria o motivo pelo qual praticaríamos a Palavra no mundo de hoje? É justamente essa esperança da qual tanto nos fala o Evangelho que nos enche de vontade de cumprir o mandato de Deus a todos nós. É preciso, portanto, vigiar, esperar, agir, obedecer.

E para que isso em nossa vida se faça presente, São Paulo, na segunda leitura, faz-nos uma bela exortação, acompanhada de uma oração a Deus pedindo que mande sobre nós sabedoria (cf. Ef 1,17) para que possamos compreender a sua existência e a sua vontade. Pede a Deus, ao mesmo tempo, que nos ilumine com sua luz, a fim de que percebamos três coisas muito importantes, as quais merecem peculiar destaque: (1) “para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá” (Ef 1,18); (2) “qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos” (Ef 1,18); (3) “que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos” (Ef 1,19).

(1) Essa esperança que seu chamamento nos dá trata justamente do que falávamos anteriormente quando citávamos a mensagem dos ‘homens de branco’ aos apóstolos. A esperança que o chamamento de Deus nos dá é especialmente a de saber que, através do cumprimento fiel da Sua Palavra, podemos confiar que haverá para nós algo maior. Esperançar-se nesse amor de Deus é, ao mesmo tempo, não deixar-se desesperar quando o mal vem e tenta nos tirar do seu caminho. Para tudo isso, a necessidade da luz de Deus é também empenho para a obediência dos seus mandamentos.

(2) A herança que temos com os santos é missão que conquistamos a cada dia. A riqueza da glória que nos fala São Paulo é dever nosso adquirir. Por meio da bondade de Deus, a nossa conduta desempenha um papel fundamental na nossa entrada jubilosa na vida eterna. Desfrutar da herança dos santos é, ao mesmo tempo, ser santo! Esse compromisso de santidade mostra que somos capazes das virtudes, mas ao mesmo tempo demonstra a nossa limitação quanto aos nossos aspectos humanos. Se precisamos ser santos, é porque ainda não o somos. Nesse sentido, mais uma missão é-nos apresentada.

(3) Aqueles que temem o Senhor recebem d’Ele total apoio. Deus, por eles, intercede sempre porque agradam a Deus. Quando Paulo fala então desse “poder que ele exerce” em favor dos que crêem, encerra uma triologia de coisas fundamentais que devemos saber a respeito das conseqüências da fé: primeiramente, a esperança, depois, a santidade; e, enfim, a intercessão divina.

Na mesma linha – a de apresentar preceitos fundamentais – o apóstolo trata de anunciar a verdade do Corpo de Cristo: “Ele pôs tudo sob seus pés e fez dele [Jesus], que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (Ef 1,23). Jesus então é a cabeça da Igreja, que é seu Corpo. Então Jesus é cabeça e ao mesmo tempo, o Corpo. Assim, identifica-se uma impossibilidade de separação entre Cristo e Sua Igreja. Não há como separá-los porque são o mesmo Corpo, a mesma carne. Ensinam, portanto, a mesma coisa e são fiéis à Palavra do Pai. Jesus Cristo, por meio da Igreja, se faz presente hoje. Ele não deixa de advertir os homens sobre os perigos da sociedade moderna e das vãs filosofias. Prometeu que não nos abandonaria e, pela Igreja, manifesta sua eterna presença.

Essa eterna presença é acompanhada do caráter missionário da Igreja, cumprindo o que nos manda Jesus no Evangelho de hoje: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15). A Igreja, como Corpo, conta com seus membros para que, junto com sacerdotes, bispos e diáconos, possam promover essa cultura de evangelização no mundo hoje. É preciso, assim como São Paulo, ter sempre um desejo sempre maior pelo anúncio de Jesus: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1 Cor 9,16) Isso é não só falar, mas sim pôr em prática. Porque o mais rico testemunho é o daquele que cumpre a Palavra de Deus agindo concretamente segundo a sua vontade. E o pior testemunho é o daquele que fica apontando o dedo para os outros, mas não muda sua conduta.

Jesus quer que sejamos esses evangelizadores em meio ao mundo. Peçamos a Ele que mande sobre nós a nossa luz. Que nossas palavras sejam não nossas, mas, que, por meio da nossa boca, Ele possa revelar os seus mandamentos. Queremos, Senhor, ouvir o que tu tens a nos falar. Como Maria, digamos: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa Palavra” (Lc 1,38). Ela nos ajudará nesse caminhar tão difícil rumo ao Pai.

Graça e paz.