O Papa e a oração IV

“Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, Moisés voltar ao monte para pedir de novo a salvação de Israel, dirá ao Senhor: Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste (Êx 32, 32). Com a oração, desejando a vontade de Deus, o intercessor entra cada vez mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia, tornando-se capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Em Moisés, que está no alto do monte face a face com Deus e que se faz intercessor para o seu povo e se oferece a si próprio — apaga-me — os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho. E não só se oferece — apaga-me — mas com o seu coração trespassado faz-se cancelar, torna-se como diz o próprio São Paulo, pecado, carrega sobre si os nossos pecados para nos salvar a todos; a sua intercessão é não só solidariedade, mas identificação conosco: traz todos nós no seu corpo. E assim toda a sua existência de homem e de Filho é um clamor ao Coração de Deus, é perdão, mas perdão que transforma e renova.”

“Penso que devemos meditar sobre estas realidades. Cristo está diante do Rosto de Deus e reza por mim. A sua oração na Cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: http://beinbetter.files.wordpress.com/2011/08/ogaaaj2-7chr1e4ww_w0ifqu8gamkvbxyd68mwwjiyns_4rdvbtmuktdoyamxhrusjabnrbgrdj_lyl5y6nxqmlhzsqam1t1uca5p3hvhsoiomv62mma6d2hzrti.jpg?w=213&h=307Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo, assumindo o nosso corpo e a nossa alma humana. E convida-nos a entrar nesta sua identidade, fazendo-nos um corpo, um só espírito com Ele, porque do alto da Cruz Ele não trouxe novas leis, tábuas de pedra, mas trouxe a si mesmo, o seu corpo e o seu sangue, como nova aliança. É assim que nos faz consanguíneos com Ele, um corpo com Ele, identificados com Ele. Convida-nos a entrar nesta identificação, a estar unidos com Ele no nosso desejo de ser um corpo, um só espírito com Ele. Oremos ao Senhor, para que esta identificação nos transforme, nos renove, porque o perdão é renovação, é transformação.”

- Papa Bento XVI, Audiência Geral
1º de junho de 2011

O Papa e a oração III

http://beinbetter.files.wordpress.com/2011/08/jacob_angel.jpg?w=210&h=265“A noite de Jacó no vau do Jaboc [cf. Gn 32, 24-32] torna-se para o fiel um ponto de referência para compreender a relação com Deus que, na oração, encontra a sua máxima expressão. A oração exige confiança, proximidade, quase num corpo a corpo simbólico não com um Deus adversário, inimigo, mas com o Senhor que abençoa, que permanece sempre misterioso, que parece inalcançável. Por isso, o autor sagrado utiliza o símbolo da luta, que implica força de espírito, perseverança e tenacidade para alcançar aquilo que se deseja. E se o objeto do desejo é a relação com Deus, a sua bênção e o seu amor, então a luta não poderá deixar de culminar no dom pessoal a Deus, no reconhecimento da própria debilidade, que vence precisamente quando consegue entregar-se nas mãos misericordiosas de Deus.”

“Caros irmãos e irmãs, toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, que deve ser consumida no desejo e na busca de uma bênção de Deus, a qual não pode ser arrebatada nem vencida contando com as nossas forças, mas deve ser recebida d’Ele com humildade, como dom gratuito que enfim permite reconhecer o rosto do Senhor. E quando isto acontece, toda a nossa realidade muda, recebemos um nome novo e a bênção de Deus.”

(…)

“Aquele que se deixa abençoar por Deus abandona-se a Ele, deixa-se transformar por Ele e torna o mundo abençoado. Que o Senhor nos ajude a combater o bom combate da fé (cf. 1 Tm 6, 12; 2 Tm 4, 7) e a pedir, na nossa oração, a sua bênção para que nos renove na expectativa de ver a sua Face.”

- Papa Bento XVI, Audiência Geral
25 de maio de 2011

Os padres dispensam o poder salvador do Sangue de Cristo

http://catolicos-na-florida-margate.org/joomla/images/stories/santa-catarina2.jpg“Podemos entender porque Catarina, embora consciente das carências humanas dos padres, sempre teve uma grandíssima reverência por eles: dispensam, através dos Sacramentos e da Palavra, o poder salvador do Sangue de Cristo.”

- Papa Bento XVI, Catequese sobre Santa Catarina de Sena
24 de novembro de 2010

Nós, cristãos, assim como Santa Catarina, temos consciência das carências humanas dos sacerdotes. Mas elas não devem jamais constituir-se barreiras que impeçam o devido respeito para com eles. E por quê? Porque são eles que “dispensam, através dos Sacramentos e da Palavra, o poder salvador do Sangue de Cristo”. E não é um poder simbólico, não é um poder no sentido “figurativo”. Ora, Cristo, ceando com seus discípulos, ordena-lhes que celebrem a Eucaristia em sua memória. E a Eucaristia é a celebração do próprio Sacrifício de Cristo, do Cordeiro que é imolado por cada um de nós. Com efeito, a mensagem da Cruz não acaba com a crucificação de Nosso Senhor. Nos altares de nossas igrejas o próprio Jesus é novamente vítima da expiação pelos nossos pecados. E é o sacerdote – “alter Christus” – que celebra este grandiosíssimo mistério. É também o ministro ordenado que recebe do próprio Filho de Deus o poder de perdoar pecados. “Recebei o Espírito Santo”, diz Nosso Senhor. “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 23). Com efeito, não é uma missão confiada “a qualquer um”. Jesus, quando institui os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, está reunido com os seus discípulos mais próximos, com os apóstolos.

Por isso, diz Santo Ambrósio, “a dignidade sacerdotal é neste mundo a mais alta de todas as dignidades”. São Francisco de Assis afirma: “Se eu visse um padre, primeiro ajoelharia diante do padre, e depois diante do anjo”. Quanta reverência para com os sacerdotes os santos nos ensinam a cultivar! E quantas vezes temos ousado dizer que o ofício sacerdotal é um como qualquer outro, ou que o padre é um ser humano comum, como qualquer um de nós e que, por este motivo, não seríamos obrigados a respeitar-lhe e reverenciar-lhe. “Ó venerável dignidade a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna como encarnou no seio da Virgem!”, exclama o piedoso Santo Agostinho. Quanta tolice deixar de considerar a grandeza deste ofício, pelo qual nós, os pecadores, recobramos a graça de Deus e nos alimentamos do Pão da imortalidade!

Demos graças todos os dias a Deus pelo sacerdócio, dom de cuja riqueza toda a Igreja se nutre. E que a Santíssima Virgem Maria seja modelo de humildade, obediência e fidelidade para os sacerdotes do nosso século.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Ouvir a voz de Deus e abrir-Lhe a porta

http://www.yeti.be/files/image/benedictusXVI_1.jpgO papa Bento XVI lembrou hoje a figura de Santo Agostinho, cuja memória a Liturgia celebra no próximo dia 28.

“Desejo dizer a todos, também àqueles que estão em um momento difícil em sua caminhada de fé, a quem participa pouco na vida da Igreja ou a quem vive como se Deus não existisse, que não tenham medo da Verdade, não interrompam nunca o caminho rumo a ela, não deixem de procurar a verdade profunda sobre si mesmos e sobre as coisas com o olho interior do coração. Deus não deixará de dar Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir no coração que nos ama e que deseja ser amado.”

- Papa Bento XVI, Catequese sobre Santo Agostinho
25 de agosto de 2010

“Santo Agostinho compreendeu, em sua incansável busca, que não é ele que havia encontrado a Verdade, mas a Verdade mesma, que é Deus, perseguiu-o e o encontrou”. A conclusão do Papa faz alusão a uma verdade bíblica: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). É preciso que ouçamos a voz de Deus. Por isso, “as criaturas devem ficar em silêncio quando se deve dar lugar ao silêncio em que Deus pode falar”, aponta o Papa. Em meio ao barulho e à correria em que vive o homem moderno, o convite ao silêncio é também um desafio. Silenciar-se significa desprender-se, desapegar-se. Para ligar-se em Deus, é preciso que o homem se desligue do mundo e ouça ao Altíssimo, que é Este homem que está à porta e bate, esperando que a porta lhe seja aberta.

Quando o Senhor mostra que, para que sejamos Sua morada, devemos abrir-Lhe a porta, logo nos remetemos à ideia da liberdade. O Altíssimo deseja derramar sobre todos os homens a Sua misericórdia, a Sua graça, a Sua bondade, os Seus dons. O Onipotente, no entanto, se faz necessitado do ato da liberdade humana, para que possa agir de fato no mundo. Com efeito, santos de uma espiritualidade viva e encantadora, como São Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila e São Pio de Pietrelcina, todos eles só puderam ser modelo para o mundo graças ao sim que deram a Deus. Ele não impõe sua Vontade a ninguém. Não arromba a porta. Está diante dela, batendo. Portanto, se Ele apenas bate à porta, por que temer?

Encoraja-nos o Papa: “Não tenham medo da Verdade.” Tenhamos, antes, medo de perder a maravilhosa oportunidade de abrir a porta do nosso coração aos chamados do Senhor. A rejeição de Deus, por um ato da nossa liberdade, é a rejeição de todo Bem, de toda Verdade, de toda consolação. Enquanto não ouvirmos a voz de Deus, Ele continuará batendo e nos chamando. Deixemos de lado a indiferença e a irreligião. Silenciemo-nos e abramos a porta Àquele que bate. A Virgem Santíssima nos ajude a responder sim à vontade do Senhor.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

A autoridade que brota da obediência a Cristo

Como compreender na cultura contemporânea uma dimensão assim, que implica no conceito de autoridade e tem sua origem no próprio convite do Senhor a apascentar o seu rebanho? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa Oriental e Ocidental no século XX, fizeram o homem contemporâneo suspeitar deste conceito. Uma suspeita que, com frequência, traduz-se em considerar necessário o abandono de toda a autoridade, que não venha exclusivamente dos homens e esteja perante eles, controlada por eles. Mas, precisamente, olhar para os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com força que a autoridade, em todo o âmbito, quando exercida sem uma referência para o Transcendente, ignora a Autoridade suprema, que é Deus, termina inevitavelmente voltando-se contra o homem. É, então, importante reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e somente um meio e que, necessariamente e por todo o tempo, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com sua própria dignidade intangível e chamada a relacionar-se com seu Criador, na estrada terrena da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade perante Deus, o Criador. Uma autoridade entendida deste modo, que tem como único objetivo servir ao verdadeiro bem da pessoa e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só não é estranha aos homens, mas, pelo contrário, é uma preciosa ajuda na estrada para a plena realização em Cristo, para a salvação.

(…)

http://joinville.blog.arautos.org/files/2009/07/00381.jpg

Para ser um Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3, 15) é necessário um profundo afinco na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma clara consciência da identidade recebida na Ordenação Sacerdotal, uma disponibilidade incondicional para conduzir o rebanho confiante para onde o Senhor desejar e não na direção que, aparentemente, seja mais conveniente ou mais fácil. Isto requer, em primeiro lugar, a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que o próprio Cristo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. Com efeito, ninguém é capaz de apascentar o rebanho de Cristo, se não vive uma profunda e real obediência ao Cristo e à Igreja, e a mesma docilidade do Povo com seus sacerdotes depende da docilidade dos sacerdotes com Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo Dele, submetendo a própria vontade à vontade de Cristo.

(…)

Onde pode encontrar hoje um sacerdote a força para tal exercício do próprio ministério, na plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total ao rebanho? A resposta é única: em Cristo Senhor. A maneira de governar de Jesus não é a do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do lavatório dos pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas que encontra seu ápice no tronco da Cruz, que transforma-se em juízo para o mundo e ponto de referência para o exercício de uma autoridade que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, e entre eles São João Maria Vianney, exercitaram com amor e dedicação a tarefa de cuidar da porção do Povo de Deus a eles confiada, mostrando também serem homens fortes e determinados, com o único objetivo de promover o verdadeiro bem das almas, capazes de pagar pessoalmente, até o martírio, para permanecerem fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

(…)

Queridos irmãos e irmãs, eu gostaria de convidar-vos a rezar por mim, Sucessor de Pedro, que tenho uma tarefa específica no governo da Igreja de Cristo, como também por todos vossos Bispos e sacerdotes. Rezai para que saibamos cuidar de todas as ovelhas, também das perdidas, do rebanho confiado a nós.

- Papa Bento XVI, Audiência Geral
26 de maio de 2010

O discípulo de Cristo, testemunha

Fonte: Canção Nova Notícias

Papa Bento XVI
Audiência Geral – Oitava da Páscoa

http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAKvaKWYTxYVcby2sVOM5qOKV9O78HrGOZ2XLeGcvzSlXAXcCOIN_Z7fgVb_AgIkyYW1k0M6uSiL6Rl2JNE7QMKQAm1T1UAiH_BlnToJdJNUHL6AeYyTRHl23.jpgSim, queridos amigos, toda a nossa fé se baseia sobre a transmissão constante e fiel desta “boa notícia”. E nós, hoje, desejamos expressar a Deus nossa profunda gratidão pela incontável legião de crentes em Cristo que nos precederam através dos séculos, porque não menosprezaram o chamado fundamental de anunciar o Evangelho que haviam recebido. A boa notícia da Páscoa, portanto, requer o trabalho de testemunhas entusiastas e corajosas. Todo o discípulo de Cristo, também cada um de nós, é chamado a ser testemunha. É esse o preciso, desafiador e emocionante mandato do Senhor Ressuscitado. A “notícia” da vida nova em Cristo deve resplandecer na vida do cristão, deve ser viva e ativa – no que a toca, realmente capaz de mudar o coração, a existência toda. Ela é viva, antes de tudo, porque Cristo mesmo é sua alma vivente e que lhe dá vida. Nos recorda São Marcos ao final de seu Evangelho, onde escreve que os Apóstolos “partiram e pregaram por toda parte, enquanto o Senhor agia junto com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam” (Mc 16, 20).

(…)

Para toda a parte, portanto, o Senhor nos envia como suas testemunhas. Mas o podemos ser apenas a partir e em referência contínua à experiência pascal, aquela que Maria Madalena expressa anunciando aos outros discípulos: “Eu vi o Senhor” (Jo 20, 18). Nesse encontro pessoal com o Ressuscitado está o fundamento inabalável e o conteúdo central da nossa fé, a fonte inesgotável e inexaurível da nossa esperança, o dinamismo ardente da nossa caridade. Assim, a nossa própria vida cristã coincidirá plenamente com o anúncio: “Cristo Senhor ressuscitou verdadeiramente”. Deixemo-nos, por isso, conquistar pelo fascínio da Ressurreição de Cristo. A Virgem Maria nos sustente com sua proteção e ajude-nos a desfrutar plenamente da alegria pascal, para que saibamos levá-la a nossa volta e a todos os nossos irmãos.

“Existe amizade entre ciência e fé”

Fonte: Zenit

Papa Bento XVI
Audiência Geral – sobre Santo Alberto Magno

http://4.bp.blogspot.com/_6dKQTchkJaA/RzuRofJJSmI/AAAAAAAABsw/2D6lVKI7tow/s400/St.+Albertus+Magnus+by+Joos+van+Gent.jpgUm dos maiores mestres da teologia medieval é Santo Alberto Magno. O título de “grande” (magnus), com o qual ele passou à história, indica a vastidão e profundidade da sua doutrina, associada à santidade de vida. Mas já seus contemporâneos não hesitaram em atribuir-lhe títulos excelentes; um discípulo seu, Ulrico de Estrasburgo, definiu-o como “assombro e milagre da nossa época”.

(…)

A Igreja o propôs ao culto dos fiéis com a beatificação, em 1622, e com a canonização, em 1931, quando o Papa Pio XI o proclamou Doutor da Igreja. Tratava-se de um reconhecimento sem dúvida apropriado para este grande homem de Deus e insigne pesquisador, não somente das verdades da fé, mas de muitíssimos outros campos do saber: de fato, dando uma olhada nos títulos das suas numerosas obras, podemos perceber que a sua cultura tem algo de prodigioso e que seus interesses enciclopédicos o levaram a ocupar-se não somente da filosofia e da teologia, como outros contemporâneos, mas também de qualquer outra disciplina então conhecida, da física à química, da astronomia à mineralogia, da botânica à zoologia. Por este motivo, o Papa Pio XII o nomeou padroeiro dos que cultivam as ciências naturais e ele também é chamado de Doctor universalis, precisamente pela vastidão dos seus interesses e do seu saber.

Certamente, os métodos científicos utilizados por Santo Alberto não são os que se afirmariam nos séculos posteriores. Seu método consistia simplesmente na observação, descrição e classificação dos fenômenos estudados, mas assim abriu as portas a trabalhos futuros.

Ele tem muito a nos ensinar ainda. Sobretudo, Santo Alberto mostra que entre fé e ciência não há oposição, apesar de alguns episódios de incompreensão registrados na história. Um homem de fé e de oração, como Santo Alberto Magno, pode cultivar serenamente o estudo das ciências naturais e progredir no conhecimento do micro e do macrocosmo, descobrindo as leis próprias da matéria, já que tudo isso coopera para alimentar a sede e o amor de Deus.

A Bíblia nos fala da criação como da primeira linguagem por meio da qual Deus – que é suma inteligência, que é Logos – nos revela algo de si. O Livro da Sabedoria, por exemplo, afirma que os fenômenos da natureza, dotados de grandeza e de beleza, são como as obras de um artista, por meio das quais, por analogia, podemos conhecer o Autor da criação (cf. Sb 13, 5). Com uma similitude clássica na Idade Média e no Renascimento, pode-se comparar o mundo natural com um livro escrito por Deus, que nós lemos com base nas diversas aproximações das ciências.

Quantos cientistas, de fato, seguindo os passos de Santo Alberto Magno, levaram adiante suas pesquisas inspirados pelo assombro e pela gratidão frente ao mundo que, aos seus olhos de pesquisadores e de crentes, aparecia e aparece como obra boa de um Criador sábio e amoroso! O estudo científico se transforma, então, em um hino de louvor. Um astrofísico da nossa época, Enrico Medi, de quem se iniciou a causa de beatificação, compreendeu muito bem isso; ele escreveu: “Ó vós, misteriosa galáxia (…) Eu vos vejo, calculo, entendo, estudo e descubro, penetro e recolho. De vós eu tomo a luz e faço ciência, tomo o movimento e o torno sabedoria, tomo o brilho das cores e o torno poesia; recolho-vos, estrelas, em minhas mãos e, tremendo na unidade do meu ser, levanto-vos acima de vós mesmas e, em oração, ofereço-vos ao Criador, que somente por meu intermédio vós mesmas podeis adorar” (Le opere. Inno alla creazione).

Santo Alberto Magno nos recorda que existe amizade entre ciência e fé, e que os homens de ciência podem percorrer, por meio da sua vocação ao estudo da natureza, um autêntico e fascinante caminho de santidade.

Sua extraordinária abertura de mente se revela também em uma operação cultural que ele empreendeu com êxito, isto é, na acolhida e na valorização do pensamento de Aristóteles. Na época de Santo Alberto, de fato, estava se difundindo o conhecimento de numerosas obras desse grande filósofo grego, que viveu no século IV a.C., sobretudo no âmbito da ética e da metafísica. Estas demonstravam a força da razão, explicavam com lucidez e clareza o sentido e a estrutura da realidade, sua inteligibilidade, o valor e o fim das ações humanas.

Santo Alberto abriu as portas para a recepção completa da filosofia de Aristóteles na filosofia e teologia medievais, uma recepção elaborada depois de maneira definitiva por São Tomás. Esse acolhimento de uma filosofia, digamos, pagã pré-cristã foi uma autêntica revolução cultural para aquela época. E, no entanto, muitos pensadores cristãos temiam a filosofia de Aristóteles, a filosofia não-cristã, sobretudo porque esta, apresentada pelos seus comentaristas árabes, havia sido interpretada de tal maneira que parecia, pelo menos em alguns pontos, como irreconciliável com a fé cristã. Apresentava-se, então, um dilema: fé e razão se contradizem ou não?

Aqui está um dos grandes méritos de Santo Alberto: com rigor científico, estudou as obras de Aristóteles, convencido de que tudo o que é realmente racional é compatível com a fé revelada nas Sagradas Escrituras. Em outras palavras, Santo Alberto Magno contribuiu, assim, para a formação de uma filosofia autônoma, diferente da teologia e unida a ela somente pela unidade da verdade. Assim nasceu, no século XIII, uma clara distinção entre estes dois ramos do saber, filosofia e teologia, que, dialogando, cooperam harmonicamente para a descoberta da autêntica vocação do homem, sedento de verdade e de felicidade: é sobretudo a teologia, definida por Santo Alberto como “ciência afetiva”, que indica ao homem seu chamado à alegria eterna, uma alegria que brota da plena adesão à verdade.

Santo Alberto Magno foi capaz de comunicar estes conceitos de maneira simples e compreensível. Autêntico filho de São Domingos, pregava com prazer ao povo de Deus, que era cativado por sua palavra e exemplo de vida.

Queridos irmãos e irmãs: oremos ao Senhor para que nunca faltem na santa Igreja teólogos doutos, piedosos e sábios como Santo Alberto Magno e para que nos ajude a fazer nossa a “fórmula da santidade” que ele seguiu em sua vida: “Querer para a glória de Deus tudo o que eu quero, tal como Deus quer para a sua glória tudo aquilo que Ele quer”, isto é, conformar-se sempre à vontade de Deus, para querer e fazer tudo somente e sempre para a sua glória.

Papa Bento XVI, Audiência Geral
24 de março de 2010

Vaticano II, continuidade na obra de Cristo

“[T]alvez seja útil dizer que também hoje existem visões segundo as quais toda a história da Igreja no segundo milênio teria sido um declínio permanente; alguns veem o declínio subitamente após o Novo Testamento. Na verdade, “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt” ["As obras de Cristo não retrocedem, não são enfraquecidas, mas progridem"]. O que seria a Igreja sem a nova espiritualidade dos Cistercienses, dos Franciscanos e Dominicanos, da espiritualidade de Santa Teresa de Ávila e de São João da Cruz, e assim por diante? Também hoje vale afirmar: “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt“, ide avante. São Boaventura nos ensina, pelo exemplo, o discernimento necessário, por vezes severo, do realismo sóbrio e da abertura a novos carismas doados por Cristo, no Espírito Santo, à sua Igreja. E, enquanto se repete essa ideia de declínio, há também uma outra, esta utopismo espiritualístico que se repete. Nós sabemos como, depois do Concílio Vaticano II, alguns estavam convencidos de que tudo é novo, que há uma outra Igreja, que a Igreja pré-conciliar é finita e teríamos outra, totalmente diferente. Um utopismo anárquico e, graças a Deus, os sábios timoneiros da barca de Pedro – Papa Paulo VI, Papa João Paulo II – defenderam, por um lado, a novidade do Concílio e, ao mesmo tempo, a unicidade e continuidade da Igreja, que é sempre Igreja de pecadores e sempre um lugar de graça.”

Papa Bento XVI, Audiência Geral
Sobre a obra de São Boaventura
10 de março de 2010

Santo Antônio, por Bento XVI

Fonte: Zenit

Papa Bento XVI
Audiência Geral – sobre Santo Antônio de Pádua

http://conversademenina.files.wordpress.com/2009/06/santo-antonio-2.jpg?w=240&h=319(…)

Antônio contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com seus fortes traços de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

(…)

No último período da sua vida, Antônio escreveu dois ciclos de “Sermões”, intitulados, respectivamente, “Sermões dominicais” e “Sermões sobre os santos”, destinados aos pregadores e professores de estudos teológicos da ordem franciscana. Neles, comentou os textos da Sagrada Escritura apresentados pela liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos: o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o tropológico ou moral e o anagógico, que orienta à vida eterna. Trata-se de textos teológicos-homiléticos, que recolhem a pregação viva, na qual Antônio propõe um verdadeiro e próprio itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos “Sermões”, que o venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou Antônio como Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor Evangélico”, porque destes escritos surge a frescura e beleza do Evangelho; ainda hoje podemos lê-los com grande proveito espiritual.

Nos “Sermões”, ele fala da oração como uma relação de amor, que conduz o homem a conversar docemente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que envolve suavemente a alma em oração. Antônio nos recorda que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio, que não coincide com o afastamento do barulho externo, mas é experiência interior, que procura evitar as distrações provocadas pelas preocupações da alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração se compõe de quatro atitudes indispensáveis que, no latim de Antônio, definem-se como: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las assim: abrir com confiança o próprio coração a Deus, conversar afetuosamente com Ele, apresentar-lhe as próprias necessidades, louvá-lo e agradecer-lhe.

Neste ensinamento de Santo Antônio sobre a oração, conhecemos um dos traços específicos da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel designado ao amor divino, que entra na esfera dos afetos, da vontade, do coração, e que é também a fonte de onde brota um conhecimento espiritual que ultrapassa todo conhecimento. Antônio escreve: “A caridade é a alma da fé, é o que a torna viva; sem o amor, a fé morre” (Sermões Dominicais e Festivos II).

Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: este foi o objeto privilegiado da pregação de Santo Antônio. Ele conhecia bem os defeitos da natureza humana, a tendência a cair no pecado; por isso, exortava continuamente a combater a inclinação à cobiça, ao orgulho, à impureza e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza.

No começo do século XIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescimento do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, Antônio convidou os fiéis muitas vezes a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que, tornando-os bons e misericordiosos, leva-os a acumular tesouros para o céu. “Ó ricos – exorta – tornai-vos amigos (…); os pobres, acolhei-os em vossas casas: serão depois eles que os acolherão nos eternos tabernáculos, onde está a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta quietude da saciedade eterna” (Ibid.).

Não seria este, queridos amigos, um ensinamento muito importante também hoje, quando a crise financeira e os graves desequilíbrios econômicos empobrecem muitas pessoas e criam condições de miséria? Em minha encíclica Caritas in veritate, recordo: “A economia tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa” (n. 45).

Antônio, na escola de Francisco, sempre coloca Cristo no centro da vida e do pensamento, da ação e da pregação. Este é outro traço típico da teologia franciscana: o cristocentrismo. Alegremente, ela contempla e convida a contemplar os mistérios da humanidade do Senhor, particularmente o do Natal, que suscitam sentimentos de amor e gratidão pela bondade divina.

Também a visão do Crucificado lhe inspira pensamentos de reconhecimento a Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de forma que todos, crentes e não crentes, possam encontrar um significado que enriquece a vida. Antônio escreve: “Cristo, que é a tua vida, está pregado diante de ti, porque tu vês a cruz como em um espelho. Nela poderás conhecer quão mortais foram tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o sangue do Filho de Deus. Se olhas bem, poderás perceber quão grandes são tua dignidade e teu valor (…). Em nenhum outro lugar o homem pode perceber melhor o quanto vale, a não ser no espelho da cruz” (Sermões Dominicais e Festivos III).

Queridos amigos: que Antônio de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceda pela Igreja inteira, sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação. Que estes, inspirando-se em seu exemplo, procurem unir a doutrina sã e sólida, a piedade sincera e fervorosa e a incisividade da comunicação. Neste Ano Sacerdotal, oremos para que os sacerdotes e diáconos levem a cabo com solicitude este ministério de anúncio e atualização da Palavra de Deus aos fiéis, sobretudo através das homilias litúrgicas. Que estas sejam uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como recomendada Santo Antônio: “Se pregas Jesus, Ele amolece os corações duros; se o invocas, Ele adoça as amargas tentações; se pensas nele, ilumina-te o coração; se o lês, sacia-te a mente” (Sermões Dominicais e Festivos III).

Papa Bento XVI, Audiência Geral
10 de fevereiro de 2010

São Domingos: “ele falava sempre com Deus e de Deus”

Fonte: Zenit

Papa Bento XVI
Audiência Geral – sobre São Domingos de Gusmão

http://dominicanos.pmeevolution.com/upload/1628_20060630173527.jpg(…)

“Inflamado do zelo de Deus e de ardor sobrenatural, por sua caridade sem fim e pelo fervor do espírito veemente, tu te consagraste todo inteiro, com o voto de pobreza perpétua, à observância apostólica e à pregação evangélica”. É precisamente este traço fundamental do testemunho de Domingos que é preciso sublinhar: ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.

(…)

Ordenado sacerdote, foi eleito cônego do capítulo da catedral da sua diocese de origem, Osma. Ainda que esta nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal nem como o começo de uma brilhante carreira eclesiástica, mas como um serviço a ser realizado com dedicação e humildade. Não seria talvez uma tentação a da carreira, do poder, uma tentação da qual nem sequer estão imunes aqueles que têm um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei isso há alguns meses, durante a consagração de alguns bispos: “Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos. (…) Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja sofrem pelo fato de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade” (Homilia. Capela Papal para a ordenação de cinco novos bispos, 12 de setembro de 2009).

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Este grande santo nos recorda que, no coração da Igreja, deve arder sempre um fogo missionário, que conduz incessantemente a levar o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização: é Cristo, de fato, o bem mais precioso que os homens e as mulheres de todas as épocas e lugares têm o direito de conhecer e amar! E é consolador ver como, também na Igreja de hoje, são tantos – pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais – que, com alegria, gastam sua vida por este ideal supremo: anunciar e dar testemunho do Evangelho.

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Domingos, com um gesto valente, quis que seus seguidores adquirissem uma sólida formação teológica e não hesitou em enviá-los às universidades da época, ainda que muitos eclesiásticos olhassem com desconfiança para estas instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores dão muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos quis que seus frades se dedicassem a ele sem reservas, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de cada saber teológico, isto é, na Sagrada Escritura, e respeitoso diante das perguntas apresentadas pela razão. O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que realizam o ministério da Palavra, nos diversos níveis, uma boa preparação.

Portanto, exorto todos, pastores e leigos, a cultivarem esta “dimensão cultural” da fé, para que a beleza da vida cristã possa ser mais bem compreendida e a fé possa ser verdadeiramente nutrida, reforçada e também defendida. Neste Ano Sacerdotal, convido os seminaristas e sacerdotes a estimarem o valor espiritual do estudo. A qualidade do ministério sacerdotal depende também da generosidade com que a pessoa se aplica ao estudo das verdades reveladas.

Domingos, que quis fundar uma ordem religiosa de pregadores-teólogos, recorda-nos que a teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os sacerdotes, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda “alegria interior” ao contemplar a beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre atual e sempre viva. O lema dos Frades Pregadores – contemplata aliis tradere – nos ajuda a descobrir, além disso, um desejo pastoral no estudo contemplativo destas verdades, pela exigência de comunicar aos demais o fruto da própria contemplação.

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Domingos foi canonizado em 1234 e é ele mesmo que, com sua santidade, nos indica dois meios fundamentais para que a ação apostólica seja penetrante. Antes de tudo, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e que deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, os quais, na história da Igreja, tiveram o grande mérito de difundir a oração do santo rosário, tão querida pelo povo cristão e tão repleta de valores evangélicos, uma verdadeira escola de fé e de piedade. Em segundo lugar, Domingos, que se encarregou de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou profundamente na oração de intercessão pelo êxito do trabalho apostólico. Somente no Paraíso compreenderemos quanto a oração das religiosas de clausura acompanhou eficazmente a ação apostólica! A cada uma delas dirijo meu pensamento agradecido e carinhoso.

Queridos irmãos e irmãs: que a vida de Domingos de Gusmão nos leve a ser ferventes na oração, valentes na vivência da fé, profundamente enamorados de Jesus Cristo. Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.

Papa Bento XVI, Audiência Geral
3 de fevereiro de 2010