Fonte: Zenit
Papa Bento XVI
Audiência Geral – sobre Santo Alberto Magno
Um dos maiores mestres da teologia medieval é Santo Alberto Magno. O título de “grande” (magnus), com o qual ele passou à história, indica a vastidão e profundidade da sua doutrina, associada à santidade de vida. Mas já seus contemporâneos não hesitaram em atribuir-lhe títulos excelentes; um discípulo seu, Ulrico de Estrasburgo, definiu-o como “assombro e milagre da nossa época”.
(…)
A Igreja o propôs ao culto dos fiéis com a beatificação, em 1622, e com a canonização, em 1931, quando o Papa Pio XI o proclamou Doutor da Igreja. Tratava-se de um reconhecimento sem dúvida apropriado para este grande homem de Deus e insigne pesquisador, não somente das verdades da fé, mas de muitíssimos outros campos do saber: de fato, dando uma olhada nos títulos das suas numerosas obras, podemos perceber que a sua cultura tem algo de prodigioso e que seus interesses enciclopédicos o levaram a ocupar-se não somente da filosofia e da teologia, como outros contemporâneos, mas também de qualquer outra disciplina então conhecida, da física à química, da astronomia à mineralogia, da botânica à zoologia. Por este motivo, o Papa Pio XII o nomeou padroeiro dos que cultivam as ciências naturais e ele também é chamado de Doctor universalis, precisamente pela vastidão dos seus interesses e do seu saber.
Certamente, os métodos científicos utilizados por Santo Alberto não são os que se afirmariam nos séculos posteriores. Seu método consistia simplesmente na observação, descrição e classificação dos fenômenos estudados, mas assim abriu as portas a trabalhos futuros.
Ele tem muito a nos ensinar ainda. Sobretudo, Santo Alberto mostra que entre fé e ciência não há oposição, apesar de alguns episódios de incompreensão registrados na história. Um homem de fé e de oração, como Santo Alberto Magno, pode cultivar serenamente o estudo das ciências naturais e progredir no conhecimento do micro e do macrocosmo, descobrindo as leis próprias da matéria, já que tudo isso coopera para alimentar a sede e o amor de Deus.
A Bíblia nos fala da criação como da primeira linguagem por meio da qual Deus – que é suma inteligência, que é Logos – nos revela algo de si. O Livro da Sabedoria, por exemplo, afirma que os fenômenos da natureza, dotados de grandeza e de beleza, são como as obras de um artista, por meio das quais, por analogia, podemos conhecer o Autor da criação (cf. Sb 13, 5). Com uma similitude clássica na Idade Média e no Renascimento, pode-se comparar o mundo natural com um livro escrito por Deus, que nós lemos com base nas diversas aproximações das ciências.
Quantos cientistas, de fato, seguindo os passos de Santo Alberto Magno, levaram adiante suas pesquisas inspirados pelo assombro e pela gratidão frente ao mundo que, aos seus olhos de pesquisadores e de crentes, aparecia e aparece como obra boa de um Criador sábio e amoroso! O estudo científico se transforma, então, em um hino de louvor. Um astrofísico da nossa época, Enrico Medi, de quem se iniciou a causa de beatificação, compreendeu muito bem isso; ele escreveu: “Ó vós, misteriosa galáxia (…) Eu vos vejo, calculo, entendo, estudo e descubro, penetro e recolho. De vós eu tomo a luz e faço ciência, tomo o movimento e o torno sabedoria, tomo o brilho das cores e o torno poesia; recolho-vos, estrelas, em minhas mãos e, tremendo na unidade do meu ser, levanto-vos acima de vós mesmas e, em oração, ofereço-vos ao Criador, que somente por meu intermédio vós mesmas podeis adorar” (Le opere. Inno alla creazione).
Santo Alberto Magno nos recorda que existe amizade entre ciência e fé, e que os homens de ciência podem percorrer, por meio da sua vocação ao estudo da natureza, um autêntico e fascinante caminho de santidade.
Sua extraordinária abertura de mente se revela também em uma operação cultural que ele empreendeu com êxito, isto é, na acolhida e na valorização do pensamento de Aristóteles. Na época de Santo Alberto, de fato, estava se difundindo o conhecimento de numerosas obras desse grande filósofo grego, que viveu no século IV a.C., sobretudo no âmbito da ética e da metafísica. Estas demonstravam a força da razão, explicavam com lucidez e clareza o sentido e a estrutura da realidade, sua inteligibilidade, o valor e o fim das ações humanas.
Santo Alberto abriu as portas para a recepção completa da filosofia de Aristóteles na filosofia e teologia medievais, uma recepção elaborada depois de maneira definitiva por São Tomás. Esse acolhimento de uma filosofia, digamos, pagã pré-cristã foi uma autêntica revolução cultural para aquela época. E, no entanto, muitos pensadores cristãos temiam a filosofia de Aristóteles, a filosofia não-cristã, sobretudo porque esta, apresentada pelos seus comentaristas árabes, havia sido interpretada de tal maneira que parecia, pelo menos em alguns pontos, como irreconciliável com a fé cristã. Apresentava-se, então, um dilema: fé e razão se contradizem ou não?
Aqui está um dos grandes méritos de Santo Alberto: com rigor científico, estudou as obras de Aristóteles, convencido de que tudo o que é realmente racional é compatível com a fé revelada nas Sagradas Escrituras. Em outras palavras, Santo Alberto Magno contribuiu, assim, para a formação de uma filosofia autônoma, diferente da teologia e unida a ela somente pela unidade da verdade. Assim nasceu, no século XIII, uma clara distinção entre estes dois ramos do saber, filosofia e teologia, que, dialogando, cooperam harmonicamente para a descoberta da autêntica vocação do homem, sedento de verdade e de felicidade: é sobretudo a teologia, definida por Santo Alberto como “ciência afetiva”, que indica ao homem seu chamado à alegria eterna, uma alegria que brota da plena adesão à verdade.
Santo Alberto Magno foi capaz de comunicar estes conceitos de maneira simples e compreensível. Autêntico filho de São Domingos, pregava com prazer ao povo de Deus, que era cativado por sua palavra e exemplo de vida.
Queridos irmãos e irmãs: oremos ao Senhor para que nunca faltem na santa Igreja teólogos doutos, piedosos e sábios como Santo Alberto Magno e para que nos ajude a fazer nossa a “fórmula da santidade” que ele seguiu em sua vida: “Querer para a glória de Deus tudo o que eu quero, tal como Deus quer para a sua glória tudo aquilo que Ele quer”, isto é, conformar-se sempre à vontade de Deus, para querer e fazer tudo somente e sempre para a sua glória.
Papa Bento XVI, Audiência Geral
24 de março de 2010
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