Mais um dia amanhece para a mitocôndria. Trabalhadora competente, só se lamenta de ser a única a trabalhar no meio em que vive. Se levanta e já começa a fazer o serviço de geração de energia. Sem ela, certamente todo o ambiente celular em que ela vive estaria sujeito à morte. Responsável pela respiração da célula, sem a mitocôndria nós – aglomerados de células – não viveríamos.
_Bom dia, lisossomo!
_Fala, mitocôndria… Tudo beleza?
_Só um pouco cansada, mas, enfim, é esse o meu trabalho, não é?
_É. Hora de pegar no batente. Lá vem substâncias aí para eu digerir.
_Cuidado, lisossomo, com uma tal de sílica. Diz que mês passado a bicha destruiu a cidade vizinha e não sobrou sequer um ribossomo pra contar história.
_Nossa! Sério mesmo?
_Eu estava perto da fronteira na hora que aconteceu. Fiquei com um medo de acontecer conosco também.
_Pode deixar, mitocôndria! Eu me cuido.
Ambas compareciam, enquanto servas, ao gabinete, no Núcleo da célula. Ainda não entendiam porque ele chamava DNA, mas sentiam medo de perguntar e serem despedidas. Sabiam que a demissão era o fim não só do emprego, mas da sua própria vida. O trabalho de hoje? O de sempre. Para a mitocôndria, era hora de oxidar a glicose e produzir energia; para o lisossomo, contudo, era hora de digerir alimentos.
_E seu pai, lisossomo? Vai trabalhar não?
_Hoje é o dia de descanso dele, sabe? Trabalhou muito últimos dias. O número dos meus irmãos quase se igualou ao dos ribossomos.
_Deus me livre! Quanta liberação de vesículas!
_É. Ninguém conseguia dormir à noite lá em casa. Era um barulhão: lisossomo atrás de lisossomo.
_Sorte a sua de ter muitos irmãos pra te ajudar. Eu sou sozinho nesse ofício.
_Pena que eu não posso te ajudar…
_É. O jeito é worká, como dizem os Mamonas Assassinas.
Foram cada um para o seu trabalho. Mas em meio a entrada de uma substância misteriosa, o lisossomo se assustou. O receio de que fosse sílica o fazia temer. Danava incessantemente com a membrana: “Como deixaste passar tal material?” O medo de que o DNA a ‘matasse’ literalmente a obrigava a digerir aquele alimento.
Englobou-o. Suicidou-se. Liberou-se. O fim da célula estava próximo. O complexo golgiense que dormia acordava ao som do desesperador barulho do fim dos tempos. Não havia mais esperança para ninguém. A mitocôndria, que acabava de realizar um trabalho difícil, não pôde nem contar a sua alegria ao chefe. Os ribossomos iam pouco a pouco morrendo. Não havia mais vida. Uma tragédia se sucedeu. Bem que a mitocôndria o havia avisado. Mas ali os avisos de subordinados são de serventia nenhuma. Quem manda mesmo é o DNA. Seu autoritarismo parou de representar respeito; passou a ser medo. Medo esse que culminou no fim daquela célula.
Choros de tristeza se ouviam por todo o pulmão. Tudo culpa do maldito trabalho de José. Ser mineiro de fato não é uma boa idéia.