Obscuridade da relação entre presciência divina e liberdade humana
Fonte: Scribd
Santo Agostinho
9. Ag. O que então te embaraça ainda? Talvez esqueceste as conclusões de nosso primeiro diálogo (cf. III, 1, 2.3) e por isso negas que sem sermos forçados por ninguém, nem por agente superior, nem por inferior, nem por igual, não pecamos senão por nossa própria vontade?
Ev. Não ouso negar nenhuma dessas verdades. Entretanto, confesso que não vejo ainda como não se contradizem estes dois fatos: a presciência divina de nossos pecados e a nossa liberdade de pecar. Porque, enfim, Deus é justo. É preciso reconhecê-lo. E ele prevê tudo. Mas quisera saber em virtude de que justiça ele castiga os pecados que não podem deixar de acontecer. Ora, como o que ele previu não pode deixar de acontecer necessariamente, como não se há de atribuir ao Criador o que em suas criaturas inevitavelmente acontece?
Resposta: prever não é forçar
10. Ag. Conforme teu parecer, de onde vem a oposição a nosso livre-arbítrio em face à presciência de Deus? Da presciência ou do caráter divino dessa presciência?
Ev. Sobretudo por ser presciência de Deus.
Ag. Então, se fosse tu a prever, com alguma certeza, que alguém haveria de pecar, não seria necessariamente que ele haveria de pecar?
Ev. Ao contrário, seria necessário que ele viesse a pecar. De outra maneira, minha previsão não seria uma presciência, por não se referir a fatos verídicos.
Ag. Nesse caso, se as coisas previstas acontecem necessariamente, não é porque a presciência de Deus, mas somente porque há uma presciência. Porque, se a coisa prevista não fosse certa, haveria presciência.
Ev. De acordo, mas aonde tudo isso nos levará?
Ag. Se não me engano, não se segue da tua previsão que tu forçarias a pecar aquele de quem previste que haveria de pecar; nem a tua presciência mesma o forçaria a pecar. Ainda que, sem dúvida, ele houvesse de pecar, pois de outra forma não terias tido a presciência desse acontecimento futuro. Assim também, não há contradição a que saibas, por tua presciência, o que outro realizará por sua própria vontade. Assim Deus, sem forçar ninguém a pecar, prevê, contudo, os que hão de pecar por própria vontade.
11. Ag. Por que, pois, como justo juiz, não puniria ele os atos que sua presciência não forçou a cometer? Porque, assim como tu, ao lembrares os acontecimentos passados, não os força a se realizarem, assim Deus, ao prever os acontecimentos futuros, não os força. E assim, como tens lembrança de certas coisas que fizeste, todavia não fizeste todas as coisas de que te lembras, do mesmo modo Deus prevê tudo de ele mesmo é o autor, sem, contudo ser o autor de tudo o que prevê. Mas dos atos maus, de que não é o autor, ele é o justo punidor. Compreende, destarte, com que justiça Deus pune os pecados: pois ainda que os sabendo futuros, ele não é quem os faz. Porque se não tivesse de castigar os pecadores porque prevê os seus pecados, ele não teria tampouco de recompensar os que procedem bem. Visto que não deixa de prever tampouco as suas boas ações. Reconheçamos, pois, pertencer à sua presciência o fato de nada ignorar dos acontecimentos futuros. E também, visto o pecado ser cometido voluntariamente, ser próprio de sua justiça julgá-lo, e não deixar que seja cometido impunemente, já que a sua presciência não os forçou a serem cometidos.
Santo Agostinho, O Livre-Arbítrio
Livro III, 1ª parte, Capítulo 4
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