Dom Aquino de fibra: “Combater a serpente, eis a missão da mulher!”

Segue excerto de discurso de Dom Francisco de Aquino Corrêa, servindo de paraninfo a Professoras diplomadas pela Escola Normal Dom Bosco, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O tema do texto é a elevação da mulher.

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Adão e EvaO elevadíssimo conceito, que da mulher nos inculca o cristianismo, podemos entrever desde os primeiros capítulos da Bíblia, nesse estupendo livro do Gênesis, assim chamado, como sabeis, porque nele se contém a gênese ou origem do mundo e de todos os seres.

Pasmosa é a superficialidade satisfeita, com que olham para esse e outros livros santos, alguns espíritos contagiados pela escola de Voltaire, onde o cânone fundamental da exegese consistia em lançar, sobre tão sagradas cartas, o descrédito e o ridículo. Não leem, não estudam, não meditam, e por isso desprezam e blasfemam. Os maiores sábios, ao contrário, aí se lhes depararam as mais supremas e castas delícias. Nesses estudos consumiram o viço da juventude e neles se lhes cobriram de cãs as frontes venerandas. Já não podiam viver sem essas lucubrações profundas, por onde sentiam reverberarem clarões de eternidade e do infinito. E, deveras, se depois de folhear alguns dos primores das letras profanas, abrimos essas páginas veneráveis, experimentamos a mesma impressão que nos empolga, quando, depois de contemplar um monumento da arte humana, por grandioso que seja, repousamos a vista e o pensamento na majestade dos montes ou na imensidade dos mares.

Pois nesse livro divino, e com a simplicidade adorável dum Deus falando a linguagem dos homens, é que se nos revela a história da criação do primeiro homem e da primeira mulher, com a tremenda catástrofe da queda original e do paraíso perdido. Bem conheceis tudo isso, e quero apenas pedir a vossa atenção para algumas circunstâncias que, em geral, por minúsculas e rápidas, passam despercebidas, e nas quais, entretanto, vejo prefigurada, de alguma forma, a grandeza primitiva da mulher e dos seus destinos.

Aí se nos diz que a mulher foi a última obra, que saiu das mãos de Deus. Diz-se-nos mais, que o homem foi formado do limo da terra, mas a mulher, não; Eva foi tirada do corpo de Adão, adormecido como num profundo êxtase. Assim é que também ela, por certo, vem do pó, mas indiretamente, através dos ossos e da carne do homem, mais do que este, portanto, distanciada e desapegada da terra. Não vedes nisso, não sei que predestinação da mulher a ser menos terra e menos material do que o homem? Não descobris aí, desde logo, a sua vocação a uma espiritualidade maior, que há de ser todo o segredo da sua beleza e da sua glória?

Ouvi agora o que nos ensinam os santos doutores, comentando lindamente tão singelos versículos. A primeira mulher, dizem eles, foi extraída do corpo de Adão, mas não dos pés, nem da cabeça, senão de junto do coração. E por quê? Para indicar-nos que a mulher não é uma escrava do homem, posta a seus pés, nem tampouco sua senhora pela autoridade da razão, que reside no cérebro, mas só pela autoridade do amor, que tem por sede ou símbolo o coração. Tão grande, porém, é esta força e ascendência do coração, que o mais astuto dos animais, a infernal serpente, dela se valeu, como sabeis, recorrendo, desde logo, à mediação de Eva, para abater a santidade do caráter de Adão, o qual desobedece a Deus, para satisfazer à sua esposa. Experiência foi essa tristíssima e fatal, mas bem prova que a mulher não precisa de outros poderes, para firmar no mundo o império da sua fraqueza.

Onde, porém, o futuro da mulher, através dos séculos, refulge com os esplendores dum íris avassalando os céus, é na sentença que, aí mesmo, fulmina o Eterno contra o príncipe do mal, transfigurado na serpe: “Porei inimizades entre ti e a mulher… ela há de esmagar-te a cabeça!” (Gen. III, 15)

Não sei de página literária, em que a aparição da mulher sobre a terra, nos entremostre em tanta beleza, como nesses versetos de ouro, cuja simplicidade escandaliza as vaidades da crítica. As filhas de Eva não precisam buscar fora da Bíblia os pergaminhos da sua nobreza, nem o poema das suas glórias. A própria fantasia grega não se lhe avantaja, nem mesmo com a criação das suas deusas a florirem dentre a espuma dos mares, ou a surdirem, armadas de ponto em branco, do crânio de Júpiter Olímpio. São poéticas fábulas, que não vencem aqui a poesia da verdade. Esta tem a grandiosidade simples do sublime. Vede: Deus prepara todas as suas maravilhas do universo para receber a mulher, a última das suas obras-primas. E ela nasce dum sono do primeiro homem, como um sonho, uma visão, uma flor sagrada do céu, brotando-lhe das mãos de Deus. Não surge como Minerva, armada em guerreira, mas em pacífica dominadora. Deus a coroa, desde logo, com a auréola do sofrimento e da paciência: multiplicabo aerumnas tuas, da submissão e da doçura: sub viri potestate eris (Gen. III, 16). Mas ao mesmo tempo, transformando essa coroa de espinhos em rosas de triunfo, traça-lhe o mais luminoso dos fadários: ela há de ser inimiga irreconciliável da serpente do mal, cuja cabeça esmagará: inimicitias ponam… ipsa conteret! Não importa que o texto se refira propriamente à maior das mulheres: todas devem imitá-la. Resumamos, pois: combater a serpente, eis a missão da mulher; esmagar-lhe a cabeça, eis a sua vitória! Aflora ela assim, no mundo, feita aliada natural de Deus para a guerra do bem contra o mal: que grandeza! que elevação! e que glória!

[Dom Aquino Corrêa, 9 de dezembro de 1934. Discursos, vol. II, tomo II. Elevação da mulher. pp. 133-135. Brasília, 1985.]

Vai votar? Conheça os três princípios inegociáveis pelos cristãos na discussão política.

As eleições se aproximam, e ainda tem muita gente indecisa, pensando em quem vai votar. O nosso apostolado não tem nenhum candidato a indicar, mas o ensinamento da Igreja leva em conta alguns aspectos que vale a pena sublinhar. É o que vamos fazer nesta postagem. Afinal, quais são os valores pregados pela Igreja e dos quais não podemos, em situação alguma, abrir mão?

Durante um Congresso organizado pelo Partido Popular Europeu, ainda em 2006, no início de seu pontificado, Bento XVI lembrou os católicos dos valores inegociáveis na vida política – e que devem ser considerados por todos os cidadãos (especialmente os cristãos) na hora de votar. Destacamos:

“No que se refere à Igreja Católica, o interesse principal das suas intervenções no campo público é a tutela e a promoção da dignidade da pessoa e, por conseguinte, ela chama conscientemente a uma particular atenção aos princípios que não são negociáveis. Entre eles, hoje emergem os seguintes:”

“tutela da vida em todas as suas fases, desde o primeiro momento da concepção até à morte natural;”

“reconhecimento e promoção da estrutura natural da família, como união entre um homem e uma mulher baseada no matrimônio, e a sua defesa das tentativas de a tornar juridicamente equivalente a formas de uniões que, na realidade, a danificam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu caráter particular e o seu papel social insubstituível;”

“tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos.”

“Estes princípios não são verdades de fé mesmo se recebem ulterior luz e confirmação da fé. Eles estão inscritos na natureza humana e, portanto, são comuns a toda a humanidade. A ação da Igreja de os promover não assume, por conseguinte, um caráter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, prescindindo da sua filiação religiosa. Ao contrário, esta ação é tanto mais necessária quanto mais estes princípios forem negados ou mal compreendidos porque isto constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma grave ferida infligida à própria justiça.”

- Papa Bento XVI, Discurso durante Congresso do Partido Popular Europeu
30 de março de 2006

Os princípios apresentados pelo Santo Padre são três: o primeiro diz respeito à “tutela da vida em todas as suas fases”; condena, portanto, a descriminalização do aborto, da eutanásia, ou o uso arbitrário da vida humana para manipulação genética. Este ponto se sobressaiu durante as eleições de 2010, quando o compromisso político do Partido dos Trabalhadores com a legalização do aborto no Brasil foi trazido a público. Os debates intensos em torno do abortismo da então candidata Dilma Rousseff foram importantes para mostrar aos políticos brasileiros que o povo brasileiro é majoritariamente contrário à prática do aborto. Este ano, continua valendo a regra de votar em candidatos comprometidos com a vida. – São só representantes municipais do Legislativo e Executivo! – Não há problema. Interferem diretamente na vida pública de nossas cidades. Se não conseguem sequer valorizar a dignidade da vida nascente, como vão lutar pelos demais interesses da população? Estes candidatos comprometidos com a morte não merecem a nossa aprovação, muito menos o nosso voto.

O segundo princípio inegociável apresentado por Bento XVI diz respeito à integridade da família tal como ela foi idealizada por Deus, ou seja, “como união entre um homem e uma mulher”. Condena-se, aqui, o reconhecimento das uniões homossexuais – ou mesmo as ingerências de alguns para facilitar o processo do divórcio civil. Mas as palavras do Papa neste discurso dirigem-se especificamente ao tópico dos relacionamentos homoafetivos. Não se trata – o Papa é claro – de uma posição religiosa, de uma “verdade de fé”; trata-se de um princípio inscrito na natureza humana. Daí a possibilidade prática de que todos a defendam, independente de sua profissão religiosa. De fato, a maioria da população brasileira tem consciência de que a família não pode ser “redefinida” ou modelada de acordo com os interesses de um grupo ou movimento social. E ninguém precisa ser católico para saber que confusão isto poderia provocar futuramente.

Por fim, o Papa fala do “direito dos pais de educar os próprios filhos”. Segundo os seus próprios princípios! Contrasta com a situação de nosso país, quando o Estado deseja ensinar às crianças o estilo de vida homossexual, por meio de programas educacionais estranhamente arbitrários.

Qualquer campanha política que apresente propostas que, de alguma forma, firam estes três princípios inegociáveis, precisa ser rechaçada, especialmente pelos católicos. Afinal, é este o interesse da Igreja na vida pública: “a tutela e a promoção da dignidade da pessoa”. Este deve ser o nosso interesse fundamental no debate político: o apreço pela vida humana – seja pela vida do nascituro, seja pela vida dos mais fracos, que pelejam em leitos de hospital. O direito à vida é irrenunciável. Como ensinava o bem-aventurado João Paulo II, “sobre o reconhecimento de tal direito é que se funda a convivência humana e a própria comunidade política” (Evangelium Vitae, n. 2).

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

A intolerância católica II. De um bispo matogrossense.

Dom Aquino Corrêa, OSB

Proferida na Academia Brasileira de Letras.
Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1937.

(…)

Peço vênia, pois, para, aproveitando o ensejo tecer aqui algumas ponderações, na esfera alta e serena das ideias, e naturalmente, sem nenhuns intuitos de sermão ou parênese, mas com o só desejo de esclarecer a posição dos católicos, que pode tornar-se desagradável a posição dos católicos, que pode tornar-se desagradável a eles próprios, não menos que aos outros. E a razão é que, em ocasiões que tais, avulta desde logo a nota clássica de intolerância, a estigmatizar-lhes, como um ferrete, a estranha atitude. Vejamos, pois, se um “filho legítimo” da Igreja logra, de alguma forma, elucidar este ponto.

INTOLERÂNCIA DE PESSOAS

Senhores! Aprendi com os velhos mestres escolásticos que um dos recursos mais frequentes nas justas cavalheirescas do espírito há de ser a distinção lógica dos termos: assim aconselhavam eles no final dum conhecido hexâmetro didático: distingue frequente. Onde quer que se insinue a confusão, aí se impõe ela. E, não raro, nos dá, deveras, a sensação dum raio de sol em plena treva. Ora, um dos vocábulos mais confusos da linguagem polêmica é precisamente a intolerância. Tanto assim que podemos distingui-la, não em duas, mas em três espécies, que, para maior clareza ou efeito gráfico e mnemônico, designarei por três pês: intolerância de pessoas, de palavras e de pensamentos.

Nada mais anticristão do que a intolerância de pessoas. Basta abrir os evangelhos: Jesus levou nesse terreno a tolerância a tal auge que escandalizou os fariseus, pois, afrontando-lhes embora a indignação e o desprezo, achegou-se aos publicanos e pecadores. E máxime em pritaneus acadêmicos, como o nosso, é que se ela impõe, como já fazia notar, com a costumada lepidez, o saudoso confrade Carlos de Laet: “Neste habitáculo das letras, escreveu ele, a tolerância de pessoas não é somente uma virtude, mas uma exigência impreterível, para a serenidade em nossos debates, mesmo naqueles que mais nos escandecem, isto é, os da questão ortográfica”.

Não é, portanto, essa, a intolerância, de que se possa acusar o catolicismo, porque ninguém menos católico, nem mais intolerável, do que um católico intolerante para com as pessoas.

… DE PALAVRAS

Em segundo lugar, vem a intolerância de palavras, compreendendo-se nesta expressão toda a intolerância no modo de expor ou defender a doutrina. E esta igualmente, longe de praticar, há de condená-la quem quer que se preze de verdadeiro católico. Mestre das controvérsias católicas, investido oficialmente nesse título pelo Papa reinante, é S. Francisco de Sales. E é ele próprio quem nos diz que o polemista, que se enfada, torna suspeita a sua causa. A luz da verdade, ensina ainda ele, não se dardeja aos olhos do adversário, com perigos de cegá-lo: faz-se-lhe alvorecer de mansinho. E tamanho era o seu cavalheirismo, que desejara tratar os contendores, não somente com luvas, mas luvas perfumadas. E aqui vem a propósito aquelas duas palavras com que os livros santos definem a ação da Providência no governo do mundo: fortiter e suaviter, as quais bem se podem aplicar ao floreio elegante da dialética, na mão dos paladinos da causa católica: firmeza na verdade, gentileza no defendê-la. Fortiter in re, suaviter in modo.

… DE PENSAMENTO

Esta firmeza na verdade nos leva naturalmente a considerar a terceira classe de intolerância, que é a do pensamento. E esta, sim, meus Senhores, devo confessar-vos que o catolicismo não somente a professa, mas dela faz timbre nas armas heráldicas do seu apostolado, outra coisa não sendo ela, senão a intolerância do erro. E não há condescendências nem amizades que valham a justificar a adoção do erro, um só que seja. Já dizia Aristóteles que, com ser amigo e admirador de Platão, não deixava de o ser, e muito mais, da verdade: Amicus Plato, sed magis amica veritas.

Muitos, todavia, nem com essa intolerância se conformam, e a razão se me antolha óbvia: é que não admitem a verdade integral dos dogmas do cristianismo. Diante destes, a situação dos católicos continua a ser aquela mesma de Jesus em presença de Pilatos: ante a convicção com que o Cristo falava da verdade, que viera revelar ao mundo, pergunta-lhe o procurador da Judéia, com um sorriso de humorismo, que bem se lhe adivinha nos lábios: “E que vem a ser a verdade?” Quid est veritas?

E, efetivamente, para os que veem na doutrina católica, a par de algumas verdades, não poucas superstições e crendices, nada mais insuportável que a presunção, com que a proclamamos e defendemos contra tudo que lhe repugne. Mas, por outro lado, se o católico, convencido como deve estar dessas verdades, a ponto de, no dizer de Pascal, deixar-se degolar por elas, não praticasse essa intolerância daria bem triste prova da sua convicção, ou, melhor, documentaria a sua incoerência. Tolerar ideias contraditórias é próprio só de espíritos que ainda não se firmaram na verdade. Há de se, pois, fazer justiça aos católicos, reconhecendo, ao menos, a coerência da sua atitude: verdade e erro não se toleram entre si, repelem-se: hurlent de se trouver ensemble.

FÓRMULAS CLÁSSICAS

O que vos eu acabo de expor, não é meu, nem novo: acha-se já admiravelmente cristalizado, há 16 séculos, naquela fórmula clássica de Santo Agostinho, que assim reza: “Amai aos homens, destruí os erros, certos, mas não soberbos de possuir a verdade, e lutando, mas sem paixões, por ela!” Diligite homines, interficite errores: sine superbia de veritate praesumentes, sine saevitia pro veritate certantes.

Não se pense, entretanto, que tudo no cristianismo sejam dogmas: ao lado destes, existem aí também não poucas teses incertas e duvidosas. A intolerância, de que falamos, circunscreve-se aos domínios do dogma; fora daí, há liberdade de pensamento. É o que lapidarmente, como costumava, fixou o mesmo Santo Agostinho neste brocardo, que tão de molde vem ao nosso assunto: “No dogma, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade.” In certis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

Nem será por demais frisar melhor aqui esta liberdade de pensamento, para que se não cuide que, em se tratando de dogmas, desapareça ela, de todo em todo, o que seria falso. Basta, para isso, distinguir na fé o seu ato e o seu objeto. O ato de fé é sempre livre, essencialmente livre, tão livre que sem liberdade não pode existir a fé: ou se crê livremente, ou não se crê. Daqui a estultícia da fábula do “crê ou morre!” O objeto da fé, este sim, é que exclui a livre escolha, não podendo ser outro que a verdade.

(…)

[Dom Francisco de Aquino Corrêa. Discursos, vol. II, tomo II; pp. 176-178. Mensagens aos Homens de Letras. Brasília, 1985.]

* * *

Leia também: A intolerância católica, sermão do Cardeal Pio, na Catedral de Chartres, em 1841.

Petistas reagem com violência a discurso de Bento XVI

Conforme já tinha sido comentado neste blog, o Papa Bento XVI fez recentemente um discurso aos bispos do nordeste brasileiro. Sua Santidade foi clara, direta. Citando a Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, lembrou aos bispos que “quando (…) os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”.

E, mesmo não citando o histórico abortista do Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma Rousseff, a reação dos simpatizantes do PT ao discurso de Bento XVI foi imediata.

É uma reação agressiva, mas, ao mesmo tempo, esclarecedora. Porque se é verdade que nos últimos dias a candidata Dilma tem maquiado o seu discurso sobre a questão da descriminalização do aborto no Brasil, é também verdade que toda essa distorção é puro oportunismo. Dom Luiz Gonzaga Bergonzini já havia denunciado isso em entrevista à Folha de São Paulo. Agora, Bento XVI põe às claras aquilo que estava sendo ocultado pelo jogo de interesses políticos do PT.

O Papa denunciou o aborto e o PT se identificou com a defesa da prática.

E você, católico? Com quem se identifica? Com o Sucessor de Pedro, o doce Cristo na Terra, ou com o Partido dos Trabalhadores?

Guardar a fé na sua pureza e integridade

O Santo Padre se dirigiu mais uma vez aos bispos do Brasil. Dessa vez, foram os pastores do regional Leste 2 da CNBB que se encontraram com o bispo de Roma. Poderíamos comentar muitas passagens do discurso do Papa – ele fala sobre a necessidade de darmos uma atenção especial à Liturgia e também explica o múnus santificandi dos sacerdotes -, mas penso ser necessário, observando a estrutura da fé do povo brasileiro hoje, destacar um pequeno período, no qual Bento XVI pede aos bispos que guardem e defendam a fé na sua pureza:

“Como bem sabeis, crer consiste sobretudo em abandonar-se a este Deus que nos conhece e ama pessoalmente, aceitando a Verdade que Ele revelou em Jesus Cristo com a atitude que nos leva a ter confiança nele como revelador do Pai. Queridos irmãos, tende grande confiança na graça e sabei infundir esta confiança no vosso povo, para que a fé sempre seja guardada, defendida e transmitida na sua pureza e integridade.”

- Bento XVI, aos bispos do Regional Leste 2 da CNBB
19 de junho de 2010

No último século, os nossos pastores deram uma atenção especial à necessidade de se praticar a caridade, ajudando os mais pobres e mais necessitados a vencer as barreiras da desigualdade que infelizmente estão presentes em nossa sociedade. Enquanto se espelha nos conselhos evangélicos, essa atitude é realmente muito louvável e mostra o empenho do povo de Deus em fazer da fé um instrumento que deve agir nesse mundo.

Foi-se criando, porém, uma estrutura de pensamento não-cristão no seio da própria Igreja. Parece que a ênfase dada aos problemas sociais estava deixando totalmente de lado a necessidade de guardar, defender e transmitir a fé dos apóstolos. Junto com a Teologia da Libertação, contribuiu para esse processo o pensamento espírita, que desconsiderando a importância da verdadeira fé e supervalorizando a prática da “caridade” – se é que podemos chamar de verdadeira caridade aquela que resolve os problemas terrenos, mas leva a pessoa, após a morte, ao inferno -, acabou por conduzir o povo brasileiro a um irenismo relativista – “todas as religiões salvam e conduzem a Deus”. Em suma, a fé do povo brasileiro foi sendo, pouco a pouco, destruída.

Hoje, em reação a todas essas seqüelas causadas pela infiltração do pensamento marxista na Igreja brasileira, há a necessidade de “guardar, defender e transmitir a fé na sua pureza e integridade”. É preciso combater aquela Teologia da Libertação que pegou emprestado do marxismo o pensamento materialista e acabou por negar os dogmas de fé da Igreja. Os nossos bispos são chamados a dar atenção aos problemas sociais, mas também a buscar a solução para essas dificuldades na Doutrina Social da Igreja. São exortados a combater a injustiça, tendo sempre em mente que ela é conseqüência do pecado original e que, por causa dele, não poderemos “construir um Céu na terra”. São chamados a driblar a tentação de transformar Jesus em uma espécie de revolucionário político; são convocados a aceitar a Verdade que Deus revelou em Jesus Cristo e anunciá-La, promovê-La e difundi-La sempre mais.

Rezemos para que as palavras do Santo Padre sejam ouvidas; e que Nossa Senhora, modelo de obediência e humildade, ajude os nossos pastores a cumprirem a difícil missão de guardarem íntegra e pura a fé que receberam dos apóstolos.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

A Igreja, a bioética e a lei moral natural

Fonte: Fratres in Unum

Papa Bento XVI

http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAANW8v7l0Og2wICniSEG6-ptfQdKF2rkoB_nftYbgY91ASZxbZM6I4Kg7AdVOb4-Rx9Kvf0CFqDyMgcUA0SuEJ4kAm1T1UDmj01eNQjyPFSdRhSadE9H0bEm2.jpg[O] Magistério da Igreja pretende oferecer sua própria contribuição para a formação da consciência não só dos crentes, mas de todos que buscam a verdade e querem dar ouvidos aos argumentos que vêm da fé, mas também da própria razão. A Igreja, ao propor juízos morais para a pesquisa biomédica sobre a vida humana, extrai, verdadeiramente, a luz tanto da razão como da fé, pois é sua convicção que “aquilo que é humano não só é acolhido e respeitado pela fé, mas também é purificado, elevado e aperfeiçoado” (Dignitas Personae, 7).

Neste contexto, também é dada uma resposta à mentalidade generalizada, segundo a qual a fé é apresentada como um obstáculo à liberdade e à investigação científica, porque seria constituída por uma série de preconceitos que viciariam a compreensão objetiva da realidade.

Perante esta atitude, que tende a substituir a verdade pelo consenso, frágil e facilmente manipulável, a fé cristã, em vez disso, oferece, uma verdadeira contribuição também no âmbito ético-filosófico, não fornecendo soluções pré-construídas para problemas concretos, como a investigação e a experimentação biomédica, mas propondo perspectivas morais confiáveis dentro das quais a razão humana pode investigar e encontrar soluções válidas.

Há, de fato, determinados conteúdos da revelação cristã que lançam luz sobre a problemática bioética: o valor da vida humana, a dimensão relacional e social da pessoa, a ligação entre o aspecto unitivo e procriativo da sexualidade, a centralidade da família fundada sobre o matrimônio de um homem e de uma mulher. Estes conteúdos, escritos no coração do homem, são compreensíveis também racionalmente como elementos da lei moral natural e podem receber acolhida, mesmo daqueles que não se reconhecem na fé cristã.

A lei moral natural não é exclusiva ou predominantemente confessional, mesmo que a Revelação cristã e a realização do homem no mistério de Cristo iluminem e desenvolvam em plenitude a doutrina. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, ela “indica as normas primeiras e essenciais que regulam a vida moral” (n. 1955). Fundada na própria natureza humana e acessível a toda criatura racional, a lei moral natural constitui, portanto, a base para entrar em diálogo com todos os homens que procuram a verdade e, mais genericamente, com a sociedade civil e secular. Esta lei, inscrita no coração de todo homem, toca um dos pontos essenciais da própria reflexão sobre o direito e interpela igualmente a consciência e a responsabilidade dos legisladores.

Papa Bento XVI, Discurso aos participantes
da sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé

15 de janeiro de 2010

Sofrer por Cristo, com Cristo e em Cristo

“Sua enfermidade (…) é uma prova dolorosa e singular, mas ante o mistério de Deus, que assumiu nossa carne mortal, adquire seu sentido e se converte em um dom e ocasião de santificação. Quando o sofrimento e o mal-estar se façam mais intensos, pensem que Cristo os está associando à sua cruz porque quer dizer através de vocês uma palavra de amor a quantos perderam o atalho da vida e, fechados no próprio egoísmo vazio, vivem no pecado e no afastamento de Deus.”

(Papa Bento XVI, discurso em visita ao Asilo Fundação Roma, 13 de dezembro de 2009, via ACI Digital)

As oportuníssimas palavras do Sumo Pontífice em visita aos enfermos são sempre importantes para recordarmo-nos daquela célebre frase de Santo Agostinho: “Deus onipotente, sendo sumamente bom, não deixaria mal algum em sua obra, se não fosse tão poderoso e bom que pudesse tirar até do mal o bem”. Nesse sentido, a visão cristã sobre a dor e sobre o sofrimento é magnífica. O sofrimento é o caminho para a vitória e para a superação. É como demolir uma casa para construir outra… Não podemos parar a obra no meio do caminho. Não podemos demolir e derrubar a casa e depois nos esquecermos de construir novamente a nossa moradia. Deus permite que soframos para que possamos enxergar as nossas fraquezas e possamos recorrer a Ele, Pai onipotente, para que nos ajude a caminhar. Permite o mal, para que daí possa extrair um bem maior para a nossa vida.

O Papa fala também de como a sociedade contemporânea enxerga aqueles que sofrem e padecem. Desse modo é interessante ver a semelhança entre esses e Jesus: “Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele” (Is 53, 3). Jesus é o homem das dores, aquele que carrega sobre Si as nossas maldições, os nossos desesperos, as nossas aflições. Quer que nos acheguemos a Ele, afinal, “eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11, 29). Unindo os nossos sofrimentos às dores de Cristo, certamente encontraremos repouso e consolação. Que a Virgem Santíssima, Nossa Senhora das Dores, possa vir em nosso socorro e que interceda por nós para que sejamos contemplados com o amor de Cristo; Ele nos basta.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Proteger as famílias do secularismo, pede o Papa

Discurso do Papa Bento XVI aos prelados da Conferência Episcopal dos bispos do Brasil dos regionais Nordeste 1 e 4 em visita «Ad Limina Apostolorum»

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Fonte: Vaticano

Caríssimos Irmãos no Episcopado,

http://jovenesclub.googlepages.com/jesusmariaejose.jpg

Sede bem-vindos! Com grande satisfação acolho-vos nesta casa e de todo coração desejo que a vossa visita ad Limina proporcione o conforto e o encorajamento que esperais. Agradeço a amável saudação que acabais de dirigir-me pela boca de Dom José, Arcebispo de Fortaleza, testemunhando os sentimentos de afeto e comunhão que unem vossas Igrejas particulares à Sé de Roma e a determinação com que abraçastes o urgente compromisso da missão para reacender a luz e a graça de Cristo nas sendas da vida do vosso povo.

Queria falar-vos hoje da primeira dessas sendas: a família assentada no matrimônio, como «aliança conjugal na qual o homem e a mulher se dão e se recebem» (cf. Gaudium et spes, 48). Instituição natural confirmada pela lei divina, está ordenada ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, que constitui a sua coroa (cf. ibid., 48). Pondo em questão tudo isto, há forças e vozes na sociedade atual que parecem apostadas em demolir o berço natural da vida humana. Os vossos relatórios e os nossos colóquios individuais tocavam repetidamente esta situação de assédio à família, com a vida saindo derrotada em numerosas batalhas; porém é alentador perceber que, apesar de todas as influências negativas, o povo de vossos Regionais Nordeste 1 e 4, sustentado por sua característica de piedade religiosa e por um profundo sentido de solidariedade fraterna, continua aberto ao Evangelho da Vida.

Sabendo nós que somente de Deus pode provir aquela imagem e semelhança que é própria do ser humano (cf. Gn 1, 27), tal como aconteceu na criação – a geração é a continuação da criação –, convosco e vossos fiéis «dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra, que por sua graça, segundo a riqueza da sua glória, sejais robustecidos por meio do seu Espírito, quanto ao homem interior» (Ef 3, 14-16). Que em cada lar o pai e a mãe, intimamente robustecidos pela força do Espírito Santo, continuem unidos a ser a bênção de Deus na própria família, buscando a eternidade do seu amor nas fontes da graça confiadas à Igreja, que é «um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Lumen gentium, 4).

Mas, enquanto a Igreja compara a família humana com a vida da Santíssima Trindade – primeira unidade de vida na pluralidade das pessoas – e não se cansa de ensinar que a família tem o seu fundamento no matrimônio e no plano de Deus, a consciência difusa no mundo secularizado vive na incerteza mais profunda a tal respeito, especialmente desde que as sociedades ocidentais legalizaram o divórcio. O único fundamento reconhecido parece ser o sentimento ou a subjetividade individual que exprime-se na vontade de conviver. Nesta situação, diminui o número de matrimônios, porque ninguém compromete a vida sobre uma premissa tão frágil e inconstante, crescem as uniões de fato e aumentam os divórcios. Sobre esta fragilidade, consuma-se o drama de tantas crianças privadas de apoio dos pais, vítimas do mal-estar e do abandono e expande-se a desordem social.

A Igreja não pode ficar indiferente diante da separação dos cônjuges e do divórcio, diante da ruína dos lares e das conseqüências criadas pelo divórcio nos filhos. Estes, para ser instruídos e educados, precisam de referências extremamente precisas e concretas, isto é, de pais determinados e certos que de modo diverso concorrem para a sua educação. Ora é este princípio que a prática do divórcio está minando e comprometendo com a chamada família alargada e móvel, que multiplica os «pais» e as «mães» e faz com que hoje a maioria dos que se sentem «órfãos» não sejam filhos sem pais, mas filhos que os têm em excesso. Esta situação, com as inevitáveis interferências e cruzamento de relações, não pode deixar de gerar conflitos e confusões internas contribuindo para criar e gravar nos filhos uma tipologia alterada de família, assimilável de algum modo à própria convivência por causa da sua precariedade.

É firme convicção da Igreja que os problemas atuais, que encontram os casais e debilitam a sua união, têm a sua verdadeira solução num regresso à solidez da família cristã, lugar de confiança mútua, de dom recíproco, de respeito da liberdade e de educação para a vida social. É importante recordar que, «pela sua própria natureza, o amor dos esposos exige a unidade e a indissolubilidade da sua comunidade de pessoas, a qual engloba toda a sua vida» (Catecismo da Igreja Católica, 1644). De fato, Jesus disse claramente: «O que Deus uniu, o homem não separe» (Mc 10, 9), e acrescenta: «Quem despede a sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se uma mulher despede o seu marido e se casa com outro, comete adultério também» (Mc 10, 11-12). Com toda a compreensão que a Igreja possa sentir face a tais situações, não existem casais de segunda união, como os há de primeira; aquela é uma situação irregular e perigosa, que é necessário resolver, na fidelidade a Cristo, encontrando com a ajuda de um sacerdote um caminho possível para pôr a salvo quantos nela estão implicados.

Para ajudar as famílias, vos exorto a propor-lhes, com convicção, as virtudes da Sagrada Família: a oração, pedra angular de todo lar fiel à sua própria identidade e missão; a laboriosidade, eixo de todo matrimônio maduro e responsável; o silêncio, cimento de toda a atividade livre e eficaz. Desse modo, encorajo os vossos sacerdotes e os centros pastorais das vossas dioceses a acompanhar as famílias, para que não sejam iludidas e seduzidas por certos estilos de vida relativistas, que as produções cinematográficas e televisivas e outros meios de informação promovem. Tenho confiança no testemunho daqueles lares que tiram as suas energias do sacramento do matrimônio; com elas torna-se possível superar a prova que sobrevém, saber perdoar uma ofensa, acolher um filho que sofre, iluminar a vida do outro, mesmo fraco ou diminuído, mediante a beleza do amor. É a partir de tais famílias que se há de restabelecer o tecido da sociedade.

Estes são, caríssimos Irmãos, alguns pensamentos que deixo-vos ao concluirdes a vossa visita ad Limina, rica de notícias consoladoras mas também carregada de trepidação pela fisionomia que no futuro possa adquirir a vossa amada Nação. Trabalhai com inteligência e com zelo; não poupeis fadigas na preparação de comunidades ativas e cientes da própria fé. Nestas se consolidará a fisionomia da população nordestina segundo o exemplo da Sagrada Família de Nazaré. Tais são os meus votos que corroboro com a Bênção Apostólica que concedo a todos vós, extensiva às famílias cristãs e diversas comunidades eclesiais com seus pastores e todos os fiéis das vossas diletas dioceses.

Papa Bento XVI