A infância e juventude de Bento XVI – “um paraíso”.

“Você me perguntou sobre quais são as recordações de minha família: são muitas! Gostaria de dizer algumas coisas. Para nós, o ponto essencial da família sempre era o domingo, ele já começava no sábado à tarde. Meu pai fazia leituras para nós, as leituras do domingo, de um livro muito difundido, nesse tempo, na Alemanha, explicando os textos. Assim começava o domingo: já entrávamos na liturgia, dentro de uma atmosfera de alegria.”

“No dia seguinte, nós íamos à Missa. Morávamos numa casa perto de Salzburgo, por isso escutávamos muita música – Mozart, Schubert, Haydn – e quando começava o Kyrie era como se o céu se abrisse.”

“Depois, naturalmente, em casa era importante o grande almoço juntos. Em seguida, cantávamos muito: meu irmão é um grande músico, desde criança compunha obras para nós todos, para que a família toda cantasse. Nosso pai tocava cítara e cantava. Todos esses são momentos inesquecíveis.”

“Naturalmente, viajamos e caminhamos juntos; estávamos perto de um bosque e caminhar nos bosques era algo muito belo: com as aventuras, jogos, etc.”

“Numa palavra, éramos um só coração e uma só alma, com numerosas experiências comuns, também em tempos muito difíceis, porque vivíamos em tempos de guerra, diante da ditadura, depois na pobreza. Porém, este amor recíproco que havia entre nós, e esta alegria pelas coisas simples, eram fortes. É por isso que se podia superar e suportar, também, estas coisas.”

“Parece-me que isto foi muito importante: que também as pequenas coisas tenham dado alegria, porque deste modo se expressava o coração do outro. Assim, crescemos na certeza que é bom ser um homem, porque víamos a bondade de Deus se refletia nos pais e nos irmãos. E, para dizer a verdade, se busco imaginar um pouco mais como será o paraíso, sempre me parece que ele seria como o tempo de minha juventude e de minha infância. Éramos felizes dessa maneira, neste contexto de confiança, de alegria e de amor, e penso que no paraíso deveria ser semelhante a como era em minha juventude. Neste sentido, espero ir ‘para casa’, dirigindo-me para ‘a outra parte do mundo’.”

- Papa Bento XVI, em resposta às perguntas de algumas famílias
durante o VII Encontro Mundial das Famílias

Separação definitiva, comunicação impossível

O Evangelho deste 26ª domingo do Tempo Comum nos propõe a parábola do rico e Lázaro. É uma mensagem essencialmente escatológica. Os personagens dessa história são um homem rico, que não se preocupava com a situação miserável na qual viviam aqueles que circundavam a sua mesa, e Lázaro, um pobre faminto cujas feridas eram lambidas pelos cães (cf. Lc 16, 21).  Que situação terrível vivia Lázaro. Que compaixão deve suscitar em nós a sua miséria! Mais do que compaixão, no entanto, pelo personagem evangélico, é preciso que nos solidarizemos com aqueles que padecem de fome na nossa sociedade. Aludimos aqui não só à fome material, mas principalmente à fome espiritual, anseio por felicidade. Não podemos nos esquecer que a matéria tem o seu fim; a alma, no entanto, após a morte, permanece viva.

O rico da parábola se esqueceu disso. Jesus narra a morte dos dois homens de dois modos distintos, inclusive. Para aquele que se preocupou excessivamente em adquirir bens terrenos, mostrou o destino do corpo; para aquele que não tinha do que se fartar materialmente neste mundo, mostrou o destino da alma. “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado” (Lc 16, 22). O destino do corpo é o mesmo, para os dois. Por isso diz-se que a morte nivela todos os homens. Ricos e pobres, seus corpos o mesmo fim terão. Tanto o corpo do rico avarento quanto o corpo do pobre miserável serão consumidos. A alma, porém, dois destinos diferentes tem pela frente. Céu ou inferno, consolação ou tormento, alegria ou eterna penúria. Na situação apresentada por Nosso Senhor, vai o rico para o inferno e o pobre para a vida eterna. “Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado” (Lc 16, 23).

Mas, pode, por acaso, o condenado um dia ir para o Céu ou o salvo descer algum momento ao inferno? Pode ser alterada a justa sentença do Altíssimo acerca do destino eterno dos homens? “Há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós” (Lc 16, 26). E pode uma alma atormentada voltar à Terra para comunicar-se com os vivos e contar-lhes o que se passa no plano sobrenatural? A insistência do rico condenado também nos mostra que essa comunicação não é possível. Não se pode confundir evocação dos mortos, que é uma prática espírita severamente condenada pela Igreja, com a comunhão dos santos, que é a comunicação de bens espirituais entre os membros do Corpo Místico de Cristo. Admitir a comunicação com os mortos como fonte de revelação seria considerar insuficiente a obra redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, seria aderir à perversa doutrina dos espíritos de Allan Kardec.

Para complementar aquilo que já falamos sobre a rejeição do espiritismo pelo próprio Evangelho, nos utilizamos de comentários de frei Boaventura Kloppenburg escritos no livro Espiritismo – Orientação para católicos *:


O rico avarento é condenado ao inferno. A diferença entre os dois, depois da morte, é grande. O falecido rico gozador implora: “Pai Abraão, tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama”. Mas a separação entre ambos é definitiva e a comunicação, impossível. A resposta do céu é clara e dura: “Entre vós e nós existe um grande abismo, de modo que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o podem, nem tampouco atravessarem os de lá até nós” (v. 26).

O falecido epulão insiste num pedido com filantrópica proposta: “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que ele os advirta, para que não venham eles também para este lugar de tormento”. Era uma sugestão que parecia muito boa. Estabelecer-se-ia um útil intercâmbio entre os do além, com seus novos conhecimentos, e os da terra, sempre necessitados de esclarecimento e orientação. No entanto, a resposta do céu é seca: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam!” (v. 29).

Mas o proponente insiste, com uma justificação: “Não, pai Abraão, se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se converterão”. A razão parecia óbvia. É a solução proposta também pelos atuais movimentos espiritistas. Se é verdade que as almas dos falecidos sobrevivem conscientemente e que elas continuam solidárias conosco, afirmações que são corroboradas pela Bíblia e ensinadas pela Igreja católica, por que não poderia o Criador escolher esta via para trazer revelações úteis do além? A resposta do céu, entretanto, segundo Jesus, é sem rodeios: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão” (v. 31).

É a rejeição pura e simples da via espiritista. Deus certamente “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4). Ele não quer deixar-nos na ignorância. Mas o Criador dos homens escolheu outra Via para instruí-los sobre o sentido da vida e o destino eterno. (…) Depois de Moisés e dos Profetas, Deus nos enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Com Jesus recebemos a plenitude da revelação necessária para a nossa salvação.


As palavras do Santo Evangelho nos ajudem a rejeitarmos de todo o nosso coração todas as práticas que nos afastam dos mandamentos da lei do Altíssimo e nos motivem a termos movimentos de sincera compaixão e solidariedade para com o nosso próximo. Contemplando a imensa Misericórdia de Deus, possamos temer também obstinarmo-nos no pecado e rejeitarmos Sua Bondade que salva.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* O texto de cor verde, transcrito do livro do frei Boaventura Kloppenburg, se encontra na pg. 29 da edição da obra em PDF. 

Meditações na parábola do filho pródigo

O Evangelho põe diante de nós dois pecadores: um, abandonando de modo consciente e deliberado o seu pai, vai para “um país muito distante” (Lc 15, 13); o outro, deixando a casa de seu pai, mas obedecendo às suas ordens, se compraz no trabalho no campo (cf. Lc 15, 25). Atenhamo-nos às palavras de Cristo. Ouçamos a parábola que nos narra o bom pastor.

Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca. Porque era filho, o mais novo tinha uma herança que lhe tocava. Ora, um empregado, embora fosse bem servido (cf. Lc 15, 17), não recebia herança nenhuma. Na vida eclesial, podemos observar o mesmo. Pela porta do Batismo os homens se tornam filhos de Deus de fato. Sem Batismo, não somos merecedores da herança, já que nem filhos somos. Essa reflexão é importante, mas está mais do que claro que a herança da qual fala Jesus nesta parábola não é a herança eterna, mas sim a herança material, que são bens desse mundo. A herança que toca ao filho, na parábola, é constituída tão somente de riquezas materiais. Ora, se essa parábola é uma alegoria da reconciliação, então o que poderia representar essa “herança”? Meu pai, dá-me a liberdade. É o livre-arbítrio o bem que o Pai concede aos seus filhos. Bem que os faz capazes de amá-Lo, de obedecê-Lo, de glorificá-Lo. Ao mesmo tempo, bem que pode ser mal utilizado. Os homens, pelo ato da liberdade, podem também odiá-Lo, desobedecê-Lo, rejeitá-Lo. Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca. Meu pai, faço agora uso de meu livre-arbítrio.

O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois, ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou a sua fortuna, vivendo dissolutamente. Foi-se embora o filho mais novo, partiu para um país distante, foi para longe de seu pai. Decidiu, como ser livre, partir. É a dura realidade do pecado mortal. “Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte” (1 Jo 5, 17). E o pecado do filho mais novo é pecado de morte, segundo constatou o próprio pai: “Este meu filho estava morto” (Lc 15, 24). A doutrina da Santa Igreja Católica nos ensina que o pecado grave acontece quando temos plena consciência da ofensa, quando agimos dando à tentação pleno consentimento e quando a matéria do pecado é grave. Mas – pode se perguntar – por que não evitou o pai a partida do filho? Por que não recusou dar-lhe a herança? Quer dizer a nós o Pai: eu sou o Amor e desejo tê-Lo perto de Mim, em Minha morada. Mas, és livre. Dou-te a herança. Dou-te a liberdade. Pôs o pai diante do filho mais novo a herança. Pôs o pai diante do filho dois caminhos. “Ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal” (Dt 30, 15). Pois que bondade haveria em um pai que obrigasse seu filho a amá-lo?

Diz a Escritura que o filho dissipou sua fortuna. Todos os bens materiais gastou o filho. Vivendo dissolutamente, acrescenta o Autor Sagrado. Pecou contra si mesmo, profanando o seu corpo, templo do Espírito Santo. É o que nos confirma o irmão mais velho, dizendo ao pai que seu filho mais novo “gastou os teus bens com as meretrizes” (Lc 15, 30). O que mostra esse pecado de dissolução cometido pelo filho mais novo? Mostra o quanto o homem se deixa seduzir pela impureza e pela fornicação. Muitos se perdem por ofender a virtude da castidade. Não tenho medo nenhum em dizer que são esses pecados de impureza os que mais conduzem almas para o inferno. E o filho mais novo, pelo pecado, tornou-se merecedor do inferno. Pelo Batismo, recebeu de Deus a graça santificante. Por seu pecado, perdeu a graça e tornou-se inimigo do Altíssimo. Dolorosa e angustiante situação na qual vivem tantos batizados… Caminham lentamente a um país distante, vagam fora da Pátria Celeste, vivendo dissolutamente e gastando seus bens com prostitutas.

Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar penúria. “O salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). Penúria: foi o que experimentou o filho mais novo ao perceber que tinha buscado a felicidade no lugar errado. Depois da degradação, veio o vazio. Nada além de Deus pode saciar plenamente o homem. A euforia momentânea que vem com os prazeres carnais passa. Depois de ter esbanjado tudo, i. é, depois de ter experimentado a euforia do prazer, o condenado caiu em si. Sobreveio àquela região uma grande fome. Prazeres mundanos não saciam o homem. A refeição sacia o homem por algum tempo. Mais tarde, este precisa comer de novo, pois sente fome novamente. Depois de ter esbanjado tudo, o filho mais novo sentiu fome. Como?, pode perguntar o leitor. Acabou de se fartar, participando de festas com meretrizes e dissipando seus bens em comidas e bebidas, e já sente fome? Terrível a atitude do homem que deseja saciar os desejos de seu corpo, mas se esquece do bem de sua alma. Essa fome da alma é maior do que qualquer outra fome. Por isso o Evangelho fala de uma grande fome. Grande porque, assim como é maior a realidade da alma, realidade eterna, assim também saciá-la é mais necessário do que qualquer outra coisa.

Foi pôr-se ao serviço de um dos habitantes daquela região, que o mandou para os seus campos guardar os porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. A que ponto chega o pecador obstinado! Quantos homens viris gozavam de relações com várias parceiras… Quantas mulheres belas e jovens se entregaram aos prazeres, dando-se a vários garotos… Esbanjaram tudo. Sentiram fome. E uma fome devastadora. Os relacionamentos com várias pessoas do sexo oposto não lhes trouxeram felicidade. Buscaram, então, “fartar-se das vagens que os porcos comiam”. Entregaram-se à dissolução, ao extremo da dissolução. E deram-se uns aos outros, praticando uns com os outros a torpeza, trocando as relações naturais para com pessoas do mesmo sexo.

Quantas pessoas não podem se encaixar no exemplo acima dado! Depois de tanto buscarem a felicidade nos prazeres mais leves, foram se afundando cada vez mais, a ponto de desejar se alimentar das vagens dos porcos! Na história do filho pródigo, ninguém deu ao moço as vagens dos porcos. Na vida de muitos hoje, no entanto, o mesmo não se pode falar. Fartam-se os homens as vagens dos porcos e muitos desejam afundar ainda mais nesse lamaçal miserável de perdição. Na parábola contada por Nosso Senhor, o filho mais novo entrou em si e refletiu. Hoje, os pecadores vão para terras distantes e cavam a própria cova conscientemente; vão trabalhar com os porcos e se tornam um deles sem muito trabalho. Pois não querem mais entrar em si e refletir, ou porque estão contaminados pela cegueira ou porque, vendo o caminho do Bem distante, se sentem desanimados. Deram-se de tal modo ao materialismo que acreditam que a carne agora lhes salvará. Duvidam das verdades de fé e o pecado… seria uma imposição da Igreja Católica. Quanta cegueira! Quanta imundície! Quanta devassidão!

Sim, cego, imundo e devasso é o pecador obstinado. A exemplo do filho pródigo, no entanto, todos – inclusive os que se obstinaram – são chamados a refletirem: Levantar-me-ei e irei a meu pai. Por que levantar-se? Porque está caído o pecador. Para receber o Sacramento da Penitência, a Igreja fala primeiramente do arrependimento, da contrição: Dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O perdão não é concedido a quem é digno. E quem de nós é digno de receber o perdão de Deus? Recebemos o perdão pela Misericórdia do Altíssimo! E porque Sua luz atinge a nossa alma e reconhecemos o nosso pecado, voltamo-nos a Ele e acusamos os nossos pecados, ao que Ele nos responde, dando-nos Seu perdão e recobrando em nossa alma a Sua graça. Levanta-te, pois, homem! Ouve a voz do viajante que está à porta de seu coração e bate! Não seja tolo e abra-Lhe a porta! Não seja tolo e dê a mão a quem lha estende a ti.

Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. É o Pai que vem ao nosso encontro. Pelo ato da nossa liberdade, decidimos levantar-nos da queda do pecado, mas quem nos levanta de fato e nos dá de novo dignidade é o Pai. E quem é esse Pai? Fixemos o nosso olhar na figura de Jesus, o bom pastor. “Este homem recebe e come com pessoas de má vida!” (Lc 15, 2), reclamavam os publicanos e fariseus. Ora, a eterna tolice do homem, que se julga capaz de prescrutar os corações dos outros! As pessoas de má vida são os pecadores públicos. Podem tomar dois caminhos: ou se afundam no lamaçal do pecado ou se levantam e recuperam a graça. Para escolherem corretamente, precisam de um conselheiro que os ame. Esse conselheiro é Jesus. Os cristãos, à semelhança de Cristo, são obrigados a aconselhar aqueles que estão em situação angustiante de pecado. Os cristãos devem amar essas pessoas, assim como Cristo amou os homens e as mulheres de má vida. Diante da adúltera, Cristo dá amostra do verdadeiro amor: “Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11). Amemos o pecador, odiemos o pecado. Não temamos correr ao encontro dos pecadores, e abraçá-los. Temamos correr ao encontro do pecado e aprovar-lhe.

Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Os injustos não possuirão o Reino dos Céus (cf. 1 Cor 6, 9). Os pecadores públicos reclamam hoje uma atenção especial. “Lembrem-se de Cristo e da adúltera, lembrem-se da Misericórdia de Deus!” A esses pecadores que pedem clemência mas não desejam mudança de vida, pedimos que se lembrem de reconciliar-se com Deus. Porque o filho mais novo recebeu melhor veste, anel no dedo e calçado nos pés porque voltou. Reconciliar-se é um ato que exige profunda humildade! “Não mereço ser chamado teu filho”, reconheceu o filho pródigo. Assim, é sempre bom lembrar as palavras de S. Paulo, que nos lembram a importância de nos humilharmos diante de Jesus Cristo, nosso Senhor: “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. Ao menos alguns de vós têm sido isso” (1 Cor 6, 9-11). O apóstolo Paulo reconhece que muitos cristãos viveram em “um país distante”, dissiparam seus bens, foram pecadores. Ora, como distinguir os que possuirão o Reino dos céus de todos esses que constam na lista de São Paulo? “Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus”. Pecadores todos nós fomos e somos. “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 Jo 1, 8). A diferença está no que vem depois disso. Somos filhos transgressores; só nos falta ser pródigos. Só nos falta humildade para reconhecermos os nossos pecados e acusarmo-nos diante de Deus, pedindo seu perdão.

Pecadores todos nós somos. Inclusive o filho mais velho. Lancemos um olhar sobre ele. A Escritura nos diz que estava no campo. Não estava na casa do Pai. Estava fora dali, apesar de perto. É a realidade do pecado venial. Com efeito, o filho mais velho não havia morrido, mas é certo que também pecava (cf. 1 Jo 1, 8). Qual é, no entanto, a diferença deste para aquele filho? As diferenças, na realidade, são duas. A primeira é a gravidade do pecado. As ofensas do filho mais novo são narradas pelo autor sagrado, enquanto as do filho mais velho estão ocultas. Este é inclusive exaltado pelo pai como um filho obediente e fiel. A segunda diferença é o reconhecimento do pecado. Por que, no final da parábola, nos é passada a impressão de que agiu certo o filho mais novo? Porque Cristo vem nos mostrar que ninguém é justo (cf. Sl 13, 1). Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, escreve S. Paulo aos romanos. Onde está, então, a nossa esperança? “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os nossos pecados, Deus aí está fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniqüidade” (1 Jo 1, 8-9). O filho mais novo, assim como o mais velho, tinha pecados. Acontece que aquele reconheceu sua iniqüidade, enquanto este não só não reconhecia seus pecados, como, encolerizado, repreendia o pai por perdoar os pecados de seu irmão.

O desejo de reconciliação é importantíssimo diante da gravidade do pecado, assim como é infinitamente maior que nossos pecados a Misericórdia de Deus. Por que não perguntou o pai o que o filho tinha feito, os pecados que havia cometido? Por acaso o Cristo estaria desprezando a acusação dos pecados que fazemos diante do sacerdote no Sacramento da Confissão? Na verdade, Jesus Cristo quer nos mostrar que sua compaixão e seu amor por nós são infinitamente maiores que a nossa miséria. Não que não seja importante fugir do pecado! Longe de nós concordar com tamanho absurdo. Acontece que, tendo caído, é preciso buscar reconhecer a queda e levantar-se. O orgulho diante de Deus pode nos levar a outros pecados. A solução é, pois, a humildade. Aprendamos a nos colocar na condição de servos. Somos, sim, filhos, mas nos reconhecemos inúteis, dispensáveis.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

A salvação é o encontro entre o esforço humano e o dom de Deus

por frei Cleiton Robson, OFMConv.

A primeira leitura, do livro do profeta Isaías (cf. Is 66, 18-24), por sua terminologia e seu estilo apocalíptico, parece uma composição bastante tardia e reúne o melhor de todas as aspirações messiânicas. O advento messiânico se caracterizará pela reunião de todos os povos no templo do verdadeiro Deus. O exclusivismo judaico será totalmente superado pela participação de todos os não-judeus no culto e no sacerdócio. O sentido da unidade entre os povos é confirmado por um confronto entre Gn 10 e o v. 19; os povos enumerados aqui são elencados também em Gn. Isso indica que o tempo messiânico reconstituirá a unidade pela torre de Babel (Gn 11).

Já na segunda leitura, à luz da fé os sofrimentos que o cristão deve suportar para imitar o Mestre, são parte da pedagogia paterna de Deus para conosco, seus filhos. Através das provações da vida, Ele nos chama à sua santidade. Por outro lado, tendo-nos poupado a vida, pode exigir pelo menos a submissão aos sofrimentos. É normal sentir tristeza, mas nós, cristãos, devemos ver na ação providencial de Deus e na nossa preocupação em apoiar os fracos; (o coxo = cristão que vacila na fé), motivos eficazes de confiança e de força.

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O trecho do Evangelho de hoje, sobretudo se posto em relação com Mt 8, 11-12; 25, 10-12, é claramente marcado pela polêmica da rejeição dos judeus e da admissão dos pagãos na Igreja; em qualquer caso, porém, Lucas pretendeu aqui atualizar também o ensinamento de Jesus para os discípulos do seu tempo (DV 19). Os que, na qualidade de discípulos, têm familiaridade com o Senhor e ouvem seus ensinamentos, propõem-se uma pergunta crucial: Nós, cristãos, nos salvaremos? As palavras de Jesus dão uma resposta. O ser cristão não é um meio mágico de salvação; ela é o resultado do encontro entre o esforço humano e o dom de Deus!

* * *

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Quando alguém nos ama realmente e nos fala chamando-nos por nosso nome, descobrimo-nos a nós mesmos e não estamos mais sozinhos. A vitória sobre a solidão gera a alegria; viver, então, é uma festa. O reino de Deus é comunhão; seu advento inaugura, por isso, um tempo de alegria. É festa que não acaba, definitiva. Festa a que são convidados todos os homens.

A verdade da comunhão exige que estejamos juntos em torno de uma “mesa”, na alegria de uma “ceia”, na abundância de um “banquete”. A alegria de estarmos juntos nos leva a uma refeição comum, a uma partilha que significa aquilo que somos. O reino é simbolizado por um banquete, um lugar de encontro e de comunhão. Ele nos é oferecido, somos convidados, mas devemos ir a ele. É dom gratuito, mas deve ser recebido. E esta “mesa” é a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo; o Patíbulo no qual foi O Cordeiro sem mancha é imolado por nós!

O povo de Israel, devido à sua história e seu passado, se acreditava privilegiado com o poder de gozar incondicionalmente desse convite. O profeta, que penetra profundamente nos acontecimentos, reconhece que o privilégio não é incondicional nem exclusivo. Os homens estão diante de Deus como uma única humanidade. Nenhum povo, nenhum homem é excluído do encontro com ele. Todos os irmãos, porque uma relação radical os liga ao mesmo Pai. O privilégio de Israel tinha um significado: o de proclamar a todos os homens que não é a unidade de origem que fundamenta a igualdade entre os homens, nem a pertença a uma raça ou classe que justifica uma riqueza ou liberdade. Todos os homens devem ter as mesmas possibilidades, porque todos têm um mesmo fim: encontrar-se com o Pai, contemplar a mesma glória, e, portanto, trabalhar para uma convergência e uma igualdade universais (1ª leitura).

O fundamento de nova igualdade e de novas relações entre os homens está baseado num apelo que Deus dirige a todos os homens. Todos devemos chegar ao reino, entrar na casa do Pai, sentar à mesma mesa. Todos caminhamos, na história, para o mesmo futuro, a mesma terra prometida. Se há uma só meta, há também uma só porta de entrada. O universalismo entrevisto pelos profetas é levado à plenitude por Jesus. Para os seus compatriotas, fechados em seus privilégios, ele diz a parábola da porta estreita. Está nascendo um mundo novo, no qual judeus e pagãos se encontrarão juntos à mesma mesa, porque a impureza dos pagãos, que impedia os judeus de se sentarem à mesa com eles, está definitivamente anulada. A seleção à porta do banquete não consistirá na separação entre Israel e os pagãos, mas na escolha de quem respondeu ao convite com solicitude e praticou a justiça, quem quer que seja.

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Jesus, com sua ressurreição, é o primeiro convidado; entrou e já assentou à mesa do banquete; foi o primeiro que conquistou o reino. Esta é a prova de que o convite do Pai é real e espera verdadeiramente a todos nós. Cristo, com sua morte, demonstrou que a entrada no reino não é privilégio para ninguém. O convite é para todos.

Mas foi passando pela morte que ele entrou; pela porta estreita. Só quem tiver dado a vida como Jesus poderá entrar na sala e sentar-se à mesa. A tradição, o parentesco de nada adiantam para a salvação, nem as palavras, a cultura. Somente a dedicação à construção de um mundo que manifeste visivelmente a realidade do reino.

O convite ao banquete das “núpcias do Cordeiro” tem uma única resposta: dar a vida a exemplo de Jesus Cristo!

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Uma só coisa é necessária

Não tenho o costume de fazê-lo, mas, na ocasião desse domingo, senti a necessidade de fazer alguns comentários à Liturgia da Palavra. O tema central é a oração. Em verdade, a modernidade perdeu totalmente a noção da importância da oração. Vivemos uma rotina que muitas vezes não dá lugar a um efetivo encontro com o Senhor e acabamos por supervalorizar o material, o perecível, aquilo que, diante das grandezas espirituais, é inútil e completamente desnecessário.

http://farm4.static.flickr.com/3065/2698485089_5accc72d5f.jpgNo domingo passado, o Senhor nos convidava a fazer a experiência da escuta, porquanto “uma só coisa é necessária” (Lc 10, 42). Maria sentou-se aos pés de Jesus, enquanto escutava a sua palavra, ao contrário de sua irmã, Marta, que cuidava do serviço da casa. O que Marta faz não está em contradição com os ensinamentos do Altíssimo. O que o Cristo quis demonstrar, ao advertir Marta, era que todas as coisas com as quais ela estava preocupada e agitada (cf. Lc 10, 41) eram inferiores àquela disposição de Maria em ouvir Jesus. “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Enquanto tudo o que é deste mundo é efêmero, a Palavra de Deus não passará jamais. O Evangelho nos faz um questionamento muito interessante: A que estamos dando atenção? O que é mais importante em nossa vida? O primeiro mandamento da lei de Deus nos exorta a amá-Lo acima de todas as coisas. Será que estamos realmente fazendo isso? Será que estamos verdadeiramente preocupados com a eternidade, com o bem da nossa alma na vida futura?

No contexto de todas essas reflexões entra a importância da oração. Se estamos verdadeiramente preocupados com o bem da nossa alma, com a necessidade de estarmos constantemente em estado de graça, então devemos imprimir em nosso coração uma certeza: No momento que deixarmos de nos recomendar a Deus, o demônio nos vencerá. A frase é de Santo Afonso de Ligório e foi transcrita pela Andrea Patrícia no blog Borboletas ao Luar. Quer vencer as tentações? Quer fugir do pecado? Quer ter Deus sempre ao seu lado? Quer progredir na fé católica e ser perseverante na prática da caridade? Seja uma pessoa de oração!

É particularmente difícil ter que ouvir isso, nós que estamos tão preocupados e agitados com tantas coisas… Tantas coisas, todas elas abaixo de Deus! Talvez seja esse um dos grandes males do nosso século: a correria do dia-a-dia tornou a relação do homem com Deus tanto quanto superficial. Tão superficial que quando vamos orar, não estamos prontos a pedir dons e virtudes, como a castidade e a paciência; quando vamos falar com Deus, vamos logo pedir coisas materiais. Estamos nos esquecendo que uma só coisa é necessária! A nossa morada – entendamos – não é aqui; somos cidadãos do Céu. A oração é justamente a invocação da ajuda sobrenatural de Deus sobre a nossa vida, para que possamos herdar a vida eterna.

E quando deixarmos de nos recomendar a Deus, pedindo a Ele que nos auxilie espiritualmente, o demônio nos vencerá. Nós, por nós mesmos, somos fracos. Deus quer nos fortalecer. É preciso pedir. “Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá” (Lc 11, 9-10). Confiemos na misericórdia de Deus. Ela está pronta para receber os pecadores que querem realmente se emendar de vida e viver em estado de graça. Invoquemos a proteção de Maria, Mãe de Misericórdia; ela nos ajude a perseverar na fé e na oração.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

O rosto misericordioso de Deus, por Bento XVI

Fonte: Zenit

Papa Bento XVI

http://botecoliterario.files.wordpress.com/2007/06/perdao-filho-prodigo.jpg?w=236&h=318(…)

De fato, que seriam nossa cultura, a arte e, mais em geral, nossa civilização sem esta revelação de Deus Pai cheio de misericórdia?  Não deixa nunca de nos comover, e cada vez que a escutamos ou a lemos, tem a capacidade de nos sugerir sempre novos significados. Este texto evangélico tem sobretudo o poder de nos falar de Deus, de nos dar a conhecer seu rosto, mais ainda, seu coração. Depois de que Jesus nos falou do Pai misericordioso, as coisas já não são como antes; agora, conhecemos Deus: é nosso Pai, que por amor nos criou livres e dotados de consciência, que sofre se nos perdemos e que faz festa se regressamos. Por esse motivo, a relação com ele se edifica através de uma história, como sucede a todo filho com seus pais: ao início, depende deles; depois, reivindica sua própria autonomia; por último – se há um desenvolvimento positivo – alcança uma relação madura, baseada no reconhecimento e no amor autêntico.

Nestas etapas, podemos interpretar também momentos do caminho do homem na relação com Deus. Pode-se dar uma fase que é como a infância: uma religião movida pela necessidade, pela dependência. Na medida em que o homem cresce e se emancipa, quer libertar-se desta submissão e fazer-se livre, adulto, capaz de regular-se por si mesmo e de tomar as próprias opções de maneira autônoma, pensando inclusive que pode prescindir de Deus. Esta fase é delicada: pode levar ao ateísmo, mas com frequência esconde também a exigência de descobrir o autêntico rosto de Deus. Felizmente, Deus não desfalece em sua fidelidade e, ainda que nos distanciemos e fiquemos perdidos, Ele nos segue com seu amor, perdoando nossos erros e falando interiormente a nossa consciência, para nos atrair a si.

(…)

Só experimentando o perdão, reconhecendo que somos amados com um amor gratuito, maior que nossa miséria e que nossa justiça, entramos finalmente em uma relação verdadeiramente filial e livre com Deus. Queridos amigos, meditemos nesta palavra. Identifiquemo-nos com os dois filhos, e sobretudo contemplemos o coração do Pai. Lancemo-nos em seus braços e deixemo-nos regenerar por seu amor misericordioso. Que nos ajude nisso Maria, Mater misericordiae [Mãe da Misericórdia].

Bento XVI, Ângelus
14 de março de 2010

Deixaram tudo e seguiram Jesus

http://www.erain.es/departamentos/Religion/pricolor/nuevotest/evangelio/22PescaMilagrosa03.jpgCerto dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.
Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Subindo para uma das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-Se e, da barca, ensinava as multidões.
Quando acabou de falar, disse a Simão: «Avança para águas mais profundas e lança as redes para a pesca».
Simão respondeu: «Mestre, tentamos a noite inteira e não pescamos nada. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes».
Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam.
Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram as duas barcas, a ponto de quase se afundarem.
Ao ver isto, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: «Senhor, afasta-Te de mim, porque sou um pecador!»
É que o espanto tinha tomado conta de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.
Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Mas Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio! De hoje em diante serás pescador de homens».
Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus.

(Evangelho de São Lucas, 5, 1-11)

A beleza do Evangelho desse domingo simplesmente dispensa maiores reflexões. A atenção à palavra de Deus, o reconhecimento da inferioridade do ser humano diante da grandeza do poder de Deus, sem falar da entrega do apóstolo Pedro à missão de Cristo. Eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Largaram as barcas na margem e começaram a viver por uma causa maior, a causa do Reino de Deus. Somos também nós convidados a nos doarmos totalmente. Eles deixaram tudo, inclusive suas limitações. Quando olhamos para elas e nos esquecemos de contemplar a beleza do poder magnífico de Deus, fraquejamos. Aquele que não confia em Deus, que não tem “atenção à tua palavra”, não lança as redes, não colhe os peixes, não experimenta o milagre. Está na hora de sair da margem e partir para “águas mais profundas”. Está na hora de sairmos de nossas limitações.

“Lança as redes para a pesca”, diz Jesus. “Mestre, tentamos a noite inteira e não pescamos nada”. Se não confiamos em Deus e não obedecemos à Sua Palavra, nada pescamos. Se confiamos em nós mesmos e olhamos somente para nossos limites, esquecendo-nos de Deus, ficamos nas margens. Ousemos lançar as redes mais uma vez, em atenção à Palavra de Deus. Tenhamos os olhos fixos no Mestre. Nós lançamos as redes, mas quem realiza o milagre é Ele. “Não tenhas receio!” Confia no Senhor.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Em tempo: Papa Bento XVI no Ângelus de hoje | “A humildade testemunhada por Isaías, por Pedro e por Paulo inspira a todos os que receberam o dom da vocação a não se concentrar nos próprios limites, mas a manter o olhar voltado ao Senhor e sua surpreendente misericórdia, para converter o coração e continuar, com alegria, a “deixar tudo” por Ele. Ele, na verdade, não olha para aquilo que parece importante ao homem: “O Homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração” (1 Sam 16,7), e torna os homens, pobres e fracos, mas que nele têm fé, apóstolos intrépidos e anunciadores da salvação.” (§ 4)

Sermão 13 – São Cesário de Arles

Fonte: Patrística Brasil

São Cesário de Arles
Sermão 13

CAPÍTULO I

Eu vos rogo, irmãos caríssimos, que reflitamos sobre o significado de sermos cristãos e sobre o sinal da cruz de Cristo que trazemos na fronte. Não nos basta – bem devemos saber – termos recebido o nome de cristãos se não agimos como cristãos, conforme disse o próprio Senhor no Evangelho: “De que adianta dizer: ‘Senhor, Senhor’, se não fazeis o que eu digo?” (Lc 6, 46). Se mil vezes te proclamas cristão e fazes o sinal da cruz, mas não dás esmola de acordo com tuas possibilidades e não queres ter amor, justiça e pureza, de nada te aproveitará o nome “cristão”.

Sim, é uma grande coisa o sinal de Cristo e a cruz de Cristo, mas, precisamente por isso, grande e preciosa deve ser também a realidade assinalada por tão precioso sinal. De que adianta fazer um selo de ouro, se o que está por dentro é palha podre? De que adianta andar com o sinal de Cristo na fronte e na boca se o que ele encerra são nossos pecados e delitos? Pois, quem pensa mal, fala mal e age mal e, se não quiser corrigir-se, a cada sinal da cruz seu pecado não só não diminuirá como aumentará.

É o caso de muitos que, ao furtar, adulterar ou agredir a pontapés, fazem o sinal da cruz e nem por isso deixam de fazer o mal. Ignoram esses infelizes que, com isso, atraem mais demônios para dentro de si em vez de expulsá-los.

Já quem, com a ajuda de Deus, afasta de si os vícios e os pecados, lutando por pensar o bem e realizar o bem, este imprime de verdade o sinal da cruz sobre seus lábios: pois esse agir, sim, é digno de receber o sinal de Cristo. E já que está escrito: “O reino de Deus não consiste em palavras mas em virtudes” (1 Cor 4, 20) e também: “A fé sem obras é morta” (Tg 2, 26), não usemos, pois, o nome de cristãos para nossa condenação, mas para nossa cura e dediquemo-nos às boas obras enquanto ainda podemos lançar mão dos remédios.

CAPÍTULO II

E para que, com o auxílio de Deus, possais seguir esse caminho, convivei em paz e chamai à concórdia os que estão em discórdia. Fugi da mentira e temei o perjúrio como a morte perpétua. Não digais falso testemunho e não furteis. E, sobretudo, como já dissemos, dai esmolas aos pobres de acordo com vossas possibilidades. Apresentai vossas oferendas ao altar: um homem abastado deveria ter vergonha de agregar-se à oferenda do outro, dispensando-se de sua própria oferenda. Os que podem ofereçam círios ou óleo para as lâmpadas. Memorizai o Símbolo e o Pai-Nosso, e ensinai-os a vossos filhos, pois não sei como pode alguém dizer-se cristão e não se empenhar sequer em saber os poucos artigos do Símbolo e o Pai-Nosso.

Sabei que sois responsáveis diante de Deus pelos filhos, que trouxestes ao Batismo: deveis ensinar e corrigir tanto os vossos próprios filhos como os afilhados para que vivam uma vida pura, justa e sóbria. E vós mesmos agi de tal maneira que, querendo vossos filhos imitar-vos, não acabem ardendo convosco no fogo eterno mas, a vosso lado, atinjam o prêmio da vida eterna.

Que os juízes julguem justamente e não aceitem presentes para decidir contra os inocentes, “pois os presentes cegam os corações dos sábios e corrompem as palavras dos justos” (Dt 16, 19), e temam ganhar dinheiro à custa de perder a alma. Ninguém obtém um lucro injusto sem a justa perda: onde o lucro, aí a perda – lucro para os cofres, perda para a consciência…

Que ninguém se embebede ou induza outros, num repasto, a beber mais do que convém: não venha a perder sua alma pela bebedeira própria ou alheia.

CAPÍTULO III

Aos domingos, reuni-vos na igreja. Se os infelizes judeus celebram o sábado com tamanha devoção que nesse dia não realizam nenhum trabalho, quanto mais não deve o cristão dedicar o domingo somente a Deus e vir à igreja em benefício de sua alma? Quando vierdes às reuniões da igreja, orai por vossos pecados e não entreis em discussões nem provoqueis discórdias ou escândalos. Quem vem à igreja para tais coisas agrava a ferida de sua alma, precisamente onde, pela oração, poderia curá-la.

Na igreja, não fiqueis tagarelando, mas ouvi pacientemente as leituras da palavra de Deus. Quem fica conversando na igreja deverá prestar contas, não só do mal que causa a si mesmo, mas também do que causa aos outros: pois nem ele ouve a palavra de Deus nem deixa que os outros a ouçam.

Dai o dízimo de vossos proventos à Igreja. Aquele que foi soberbo seja humilde; o que era adúltero seja casto; o que costumava furtar ou apropriar-se das coisas alheias que comece a dar de seu próprio patrimônio aos pobres. Quem foi invejoso seja benevolente; seja paciente o iracundo, quem ofendeu apresse-se a pedir perdão e o ofendido apresse-se em ser misericordioso.

Toda vez que sobrevier uma doença, o que a sofre receba o corpo e o sangue de Cristo; peça humildemente e com fé ao sacerdote a unção com o óleo bento a fim de que se cumpra nele o que está escrito: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo, e a oração da fé salvará o enfermo, elevando-o ao Senhor. Se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão remitidos” (Tg 5, 14-15).

Vede, irmãos, como quem recorre à Igreja em sua doença obtém a saúde do corpo e a remissão dos pecados. Se é possível, pois, encontrar este duplo benefício na Igreja, por que há infelizes que se empenham em causar mal a si mesmos, procurando os mais variados sortilégios: recorrendo a encantadores, a feitiçarias em fontes e árvores, amuletos, charlatães, videntes e adivinhos?

CAPÍTULO IV

Como disse há pouco, exortai vossos filhos e parentes a viver uma vida pura, justa e sóbria. Não só com palavras mas também com a força do bom exemplo.

Antes de mais nada, onde quer que estejais, em casa, em viagem, comendo ou em reuniões, não profira vossa boca palavras torpes e obscenas, e exortai os vizinhos e vossos próximos a que falem sempre o que é bom e belo, e não palavras más ou maledicência. Evitai as danças organizadas nas festas religiosas, com suas canções torpes e obscenas: a língua, com a qual o homem deveria louvar a Deus, é então usada para ferir a si mesmo.

Esses infelizes e miseráveis que, sem vergonha e sem temor, promovem seus bailes e danças bem diante das próprias basílicas dos santos, tendo vindo à igreja como cristãos, dela saem como pagãos: pois tais bailes são restos de paganismo. E dizei-me que tipo de cristão é esse que veio à igreja para orar, mas se esquece da oração e não se envergonha de entoar cânticos sacrílegos pagãos. Considerai ainda, irmãos, se é justo que a boca cristã, que recebe o próprio corpo de Cristo, entoe cânticos obscenos, um veneno do diabo.

E, principalmente, fazei aos outros tudo o que quiserdes que os outros vos façam, e não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam. Se cumprirdes isto, podereis preservar vossas almas de todo o pecado. E todos, mesmo aqueles que são analfabetos, devem guardar estas duas sentenças na memória e, com a ajuda de Deus, podem e devem pô-las em prática.

CAPÍTULO V

E ainda que eu creia que, com a ajuda de Deus e graças a vossos esforços, erradicados estão daqui aqueles desgraçados costumes herdados do paganismo, no entanto, se ainda souberdes de alguém que pratique a torpeza sordidíssima das annicula ou do cervulus1, repreendei-o severamente para que se arrependa de ter cometido sacrilégio. E, se conhecerdes quem ainda lança clamores à lua nova, exortai-o e mostrai-lhe quão grande é este pecado de ousar confiar-se à proteção da lua – que, simplesmente, por ordem de Deus, esconde-se de tempos em tempos – por meio de seus gritos e imprecações sacrílegas.

E se virdes alguém dirigir votos junto a fontes ou a árvores e ir procurar, como já dissemos, charlatães, videntes e adivinhos, pendurar no próprio pescoço – ou no de outros – amuletos diabólicos, talismãs, ervas ou âmbar, repreendei-o duramente, dizendo que quem cometer estes males perderá a consagração do Batismo.

Ouvi dizer que ainda há certos homens e mulheres tão assolados pelo diabo que, às quintas-feiras, não fazem eles seus trabalhos nem elas fiam. Diante de Deus e de seus anjos, nós os admoestamos: todo aquele que persistir nessas observâncias, e não expiar por dura e longa penitência esse grave sacrilégio, será condenado ao fogo em que arde o demônio. Esses infelizes e miseráveis que não trabalham às quintas-feiras, em honra de Júpiter, são os mesmos, não duvido, que não temem nem se envergonham de trabalhar aos domingos. Se conhecerdes algum desses tais, repreendei-o duramente e, se ele não quiser se emendar, não o admitais em vossa mesa nem em vosso trato. Se são vossos escravos, castigai-os com o açoite: que temam a chaga do corpo, já que não se preocupam com a salvação de sua alma.

Nós, caríssimos irmãos, conscientes de nossa responsabilidade, advertimo-vos com solicitude paterna: se de bom grado nos ouvirdes, dar-nos-eis uma grande alegria e chegareis felizmente ao reino de Cristo. Que Ele se digne vo-lo conceder, Ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

São Cesário de Arles (470-543)
Sermão 13

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1. Cervulus e annicula – eram práticas pagãs que envolviam fantasias (de cervo e cordeirinha). Em outro sermão – 129,2 -, Cesário investe duramente contra o hábito – próprio das calendas de janeiro – de fazer cervulum: os que assim procedem, querem não só se vestir de animal, mas transformar-se em animal (“Qui cervulum facientes in ferarum se uelini habitus commutari”).

A voz da Tradição que clama no deserto

http://campus.queens.edu/depts/history/Syllabi/Italy%20IEP/Italy%20Images/St%20John%20the%20Baptist.jpgO Evangelho desse domingo – 2º do Advento, Ano C – dá ênfase à figura de São João Batista, a voz que clama no deserto, segundo a profecia de Isaías. Deus nunca quis que seu povo fosse dramaticamente surpreendido pela vinda do Cristo. Por isso sempre enviou profetas que prenunciariam a chegada do Salvador. São João Batista é um desses profetas. Ele foi aquele que anunciou a chegada de Jesus, que redimiria toda a humanidade com Seu Sangue.

A Igreja, no contexto do mundo atual, é profética. É Ela que, nos seus documentos e exortações, enfatiza sempre a necessidade do homem se deixar guiar por Cristo antes da Sua vinda. Exorta todos à vigilância, aquele sentimento pelo qual podemos de fato entrar na Vida Eterna junto de Deus, porque, diz a Sagrada Escritura, somente aquele que perseverar até o fim será salvo. Não fosse a Igreja, hoje o mundo se perderia definitivamente no mar do abismo e da corrupção, não teria esperança de ver a Luz de Cristo em meio às dificuldades do tempo presente.

Ah “o preceito da hora presente – já dizia Pio XII em sua Radiomensagem de Natal em 1942 – não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade”. A Igreja tem consciência disso e ao invés de lamentar sobre as ‘ruínas de Jerusalém’, ruínas de pecado que se abatem pelo mundo inteiro, busca agir em meio ao mundo, desempenhando seu papel de evangelizar.

São Paulo fala aos filipenses: “Sempre em todas as minhas orações rezo por vós, com alegria, por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do Evangelho, desde o primeiro dia até agora” (Fl 1, 4-5). Gostaria de dar ênfase a esse versículo em especial: a comunhão com os apóstolos na divulgação do Evangelho é muito importante. Sim, de fato, é preciso conciliar o espírito das Sagradas Escrituras com o espírito da Tradição Apostólica, coisa que, no contexto do cenário ocidental, queiram ou não os protestantes, somente a Igreja Católica faz. Diz o Papa João Paulo II, na Fides et Ratio: “a Sagrada Escritura não constitui, para a Igreja, a sua única referência; a « regra suprema da sua fé » provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três não podem subsistir de maneira independente” (n. 55).

A comunhão da Igreja com a Tradição Apostólica não é somente plena, mas também permanente. Assim como Jesus proclamou a Pedro que as portas do inferno contra a Sé não prevaleceriam assim também as portas do pecado e da corrupção não podem prevalecer contra essa comunhão da Igreja. Por isso São Paulo diz: “desde o primeiro dia até agora”. O Catecismo Maior de São Pio X explica o que é a Tradição: “A Tradição é a palavra de Deus não escrita, mas comunicada de viva voz por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, e que chegou sem alteração, de século em século, por meio da Igreja, até nós” (n. 885). Ora, se Ela é verdadeiramente a Palavra de Deus inalterada – e nisso cremos – é claro que ela deve ser também fonte de fé. E o mesmo Catecismo acrescenta que “a Tradição deve ter-se na mesma consideração em que se tem a palavra de Deus contida na Sagrada Escritura” (n. 887).

Para muitos pode parecer absurdo essa “igualação” de fontes de fé. O fato é que se torna absurdo porque infelizmente existe dentro da Igreja – e isso é muito de lamentar – um movimento protestante que visa permitir o livre exame da Bíblia – o que é expressamente condenado pela própria Escritura -, a extinção do Magistério da Igreja como fonte de fé etc. São todos os anseios do modernismo numa junção de heresia e arrogância. Inaceitável. E como podemos lutar contra essa protestantização que cada vez mais se infiltra nas famílias católicas?

Precisamos, através dos meios de comunicação, promover uma cultura que defenda a união concreta entre as três Palavras de Deus, reveladas a nós por meio de Tradição, Magistério e Escritura. Não nos esqueçamos nunca que a Igreja contém a verdade e fora da verdade, caríssimos, a salvação é impossível. Além disso, não nos esqueçamos de pensar e refletir nesse tempo do Advento, em que a oração é essencial para redescobrirmos os verdadeiros valores da fé em nosso meio. Assim como João Batista a anunciemos incessantemente a Palavra de Deus; e assim como Maria, Mãe Imaculada, concebida sem pecado, busquemos praticar as virtudes que nos levam ao Paraíso Celeste.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

A Luz magnânima de Cristo

http://www.segundavinda.net/sv1.jpeg“Então, pois, quando se consumir essa vida corruptível e passar, segundo o Apóstolo, a espécie desse mundo; e suceder um novo século, será tanto o brilho do Seu poder e de Sua glória, que o sol que hoje brilha, a lua e as demais estrelas serão ofuscados pela vinda da Luz maior” (Santo Eusébio via Catena Aurea).

O Evangelho desse primeiro Domingo do Advento nos convida a refletirmos a chegada do Filho do Homem, em sua Segunda Vinda. “Eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória” (Lc 21, 27), narra São Lucas evangelista. Com efeito, nós cremos – e rezamos essa proposição no Credo – que Jesus “há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Essa Segunda vinda não tem mais a mesma finalidade daquela primeira, onde Cristo exercia especificamente a missão de anunciar ao mundo a verdade. Dessa vez Ele virá para cumprir a verdade e exercer a justiça. Os homens já conhecem a Verdade. Agora Cristo vem para perguntar a cada um de nós se, em vida, praticamos essa Verdade ou preferimos nos guiar pelo cômodo caminho da mentira.

A nossa conduta, nesse sentido, é fundamental para que possamos ir para o céu e gozar da vida eterna junto de Deus. De fato, são aos que cumprem os mandamentos de Deus e seguem seus preceitos que Jesus dirige as palavras: “Levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21, 28). Àqueles que se deixaram levar pelas tentações do demônio e não resistiram aos desejos da carne está destinado o fogo do castigo eterno, a eterna condenação. Essa condenação nada mais é do que conseqüência da nossa trágica opção de seguir e servir ao Mal. Aqueles que em vida não buscaram se libertar das cadeias do pecado, após a morte, estarão eternamente ligados aos seus senhores. E quem é o senhor do pecado? Quem é o pai da mentira, o príncipe deste mundo? Satanás; e é a ele que estarão presos os pecadores impenitentes.

Mas, veja: Cristo dá uma última advertência para que nos cuidemos diante da realidade de Sua Vinda: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós” (Lc 21, 34). Todos nós temos consciência de que é preciso praticar o bem para participar do Banquete do Reino. Mas temos consciência também, baseados na Escritura que nos diz que “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24, 13), que se não praticarmos o bem até o fim a salvação para nós será somente ilusória. Por isso Jesus alerta: Tomai cuidado! Ele bem sabia, por exemplo, que os apóstolos, bispos da Igreja de Deus, praticariam à risca a Palavra de Deus. Mas Ele também sabia que, diante da realidade do pecado que é constantemente apresentada a nós pelo mundo, a nossa fé poderia esfriar. Portanto, é importante ser perseverante, pois só assim podemos verdadeiramente ser salvos. “Que esse dia não caia de repente sobre nós!”

Esse dia, em que seremos julgados, será o dia em que Cristo mostrará definitivamente a toda a humanidade a sua realeza, que nós confessamos no último domingo, celebração em que louvávamos Cristo, Rei do Universo. Nesse sentido a frase de Santo Eusébio é crucial para compreendermos a dimensão do Reino de Cristo. Com efeito, sabemos que toda realeza é magnânima. Mas Cristo, como Rei, governa todo o Universo; é, portanto, uma magnanimidade geral. Por isso, diz Santo Eusébio, “será tanto o brilho do Seu poder e de Sua glória, que o sol que hoje brilha, a lua e as demais estrelas serão ofuscados pela vinda da Luz maior”. “Tudo está submetido a Cristo”: eis uma realidade que o Evangelho hoje proclama para os cientistas e para os racionalistas, que pensam que a ciência está acima de Deus.

Proclamemos a realeza de Jesus. O Senhor que, na noite de Natal, estará novamente em nosso meio já reina sobre todas as criaturas, sobre todo o mundo, sobre todos os corpos celestes. Adoremo-lo. Elevemos a Ele a nossa alma.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!