Como todos devem saber, o tema da Campanha da Fraternidade deste ano é Fraternidade e a Vida no Planeta. Mais uma vez a Conferência episcopal brasileira escolhe um tema que, da maneira que vem sendo abordado, pouco contribui para adentrarmos no espírito da Quaresma, tempo de forte oração, jejum e penitência [*]. Essa situação desanimadora não é nova. O novo problema são os erros teológicos absurdos presentes no hino da Campanha deste ano.
Conforme notou o nosso amigo Everton Siqueira, que publicou, no blog Dominus Iesus, um artigo fazendo uma crítica à letra do hino da CF, a campanha parece mais a promoção de uma visão ecológica neopagã do que uma sadia tentativa de cooperar com a Teologia cristã na preservação das criaturas que Deus criou. A letra está recheada de palavras e expressões estranhas ao espírito da ecologia autenticamente cristã. É afirmado, na música, que a Terra seria “das criaturas todas, a mais linda”; que o “futuro” do planeta “vai depender só de nós” – apesar do Papa deixar bem claro que a Criação geme em dores de parto justamente por causa do egoísmo humano; sem falar de uma disfarçada adesão à teoria do aquecimento global e algumas outras frases que podem ser facilmente distorcidas a fim de defender um viés marxista e revolucionário. Que o homem é superior às demais criaturas, é doutrina perene da Igreja: “O homem é a obra-prima do obra do criação. A narração bíblica exprime isto distinguindo nitidamente a criação do homem da criação das outras criaturas” (Catecismo da Igreja Católica, § 343). Que essa ideia de que o futuro só depende de nós é claro resquício do materialismo dialético de Marx, também não resta dúvidas. Ou seja, há problemas evidentes – e graves – com a música que comumente cantamos em nossas igrejas neste tempo da Quaresma.
Mas será que dá pra viver de modo autêntico o tema que nos é proposto pela Campanha da Fraternidade deste ano? A resposta vem do sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá – já bastante conhecido pelos internautas católicos -, padre Paulo Ricardo. No Parresía desta semana, ele aborda especificamente este tema – como viver uma ecologia que esteja de acordo com as leis da Igreja -, deixando clara a necessidade de rejeitarmos o ecopanteísmo neopagão, que iguala as criaturas ao seu Criador. É sempre bom lembrar que a condenação desse neopaganismo que vê a natureza não como criatura, mas como “deusa”, faz parte da doutrina católica e foi recentemente confirmada por Sua Santidade o Papa Bento XVI, por ocasião da mensagem para o Dia Mundial da Paz do ano passado:
“[U]ma visão correta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa. Se o magistério da Igreja exprime perplexidades acerca de uma concepção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, fá-lo porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos. Deste modo, chega-se realmente a eliminar a identidade e a função superior do homem, favorecendo uma visão igualitarista da ‘dignidade’ de todos os seres vivos. Assim se dá entrada a um novo panteísmo com acentos neopagãos que fazem derivar apenas da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, a salvação para o homem. Ao contrário, a Igreja convida a colocar a questão de modo equilibrado, no respeito da ‘gramática’ que o Criador inscreveu na sua obra, confiando ao homem o papel de guardião e administrador responsável da criação, papel de que certamente não deve abusar mas também não pode abdicar. Com efeito, a posição contrária, que considera a técnica e o poder humano como absolutos, acaba por ser um grave atentado não só à natureza, mas também à própria dignidade humana.”
Além dessa ótima orientação do padre Paulo Ricardo para a vivermos bem a CF deste ano, recomendo a leitura de um excerto da entrevista concedida pelo até então cardeal Joseph Ratzinger ao jornalista alemão Peter Seewald, no livro “Sal da Terra”, no qual ele fala da necessidade de mantermos pura a nossa alma, para que possamos fazer uma verdadeira preservação do ambiente exterior.
“[A] poluição do ambiente exterior que observamos é o espelho e o resultado da poluição do ambiente interior, à qual não prestamos suficiente atenção. Julgo que é também o que falta aos movimentos ecológicos. Combatem com uma paixão compreensível e justificada a poluição do ambiente; a poluição espiritual que o Homem faz a si mesmo continua, pelo contrário, a ser tratada como um dos seus direitos de liberdade. Há aqui uma desigualdade. Queremos afastar a poluição mensurável, mas não tomamos em consideração a poluição espiritual do Homem e a figura da criação que nele se encontra, para que se possa respirar humanamente. Defendemos, pelo contrário, tudo o que a arbitrariedade humana produz, com base num conceito completamente falso de liberdade.”
“Enquanto mantivermos essa caricatura de liberdade, quer dizer, a liberdade de uma destruição espiritual interior, continuarão imperturbavelmente os seus efeitos exteriores. Julgo que devemos refletir sobre isso. Não é apenas a natureza que tem as suas regras e as suas formas de vida, que temos de respeitar, se quisermos viver dela e nela, mas também o Homem é interiormente uma criatura e está sujeito à ordem da criação. Não pode fazer de si mesmo tudo o que quer, como lhe apetece. Para que o Homem possa viver a partir do interior, tem de aprender a reconhecer-se como criatura e tem de se dar conta de que nela deve existir, por assim dizer, a pureza interior devida ao fato de ele ser criatura, a ecologia espiritual. Se esse elemento fundamental da ecologia não for compreendido, tudo mais se desenvolverá num sentido negativo.”
- Cardeal Ratzinger em A degradação do meio ambiente
e a poluição espiritual
Que as exortações destes bons pastores do rebanho do Senhor nos ajudem a criar uma visão autenticamente católica de ecologia, que contribua para a nossa mudança de vida, para a nossa conversão à vontade do Altíssimo.
Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!
“[A] poluição do ambiente exterior que observamos é o espelho e o resultado da poluição do ambiente interior, à qual não prestamos suficiente atenção. Julgo que é também o que falta aos movimentos ecológicos. Combatem com uma paixão compreensível e justificada a poluição do ambiente; a poluição espiritual que o Homem faz a si mesmo continua, pelo contrário, a ser tratada como um dos seus direitos de liberdade. Há aqui uma desigualdade. Queremos afastar a poluição mensurável, mas não tomamos em consideração a poluição espiritual do Homem e a figura da criação que nele se encontra, para que se possa respirar humanamente. Defendemos, pelo contrário, tudo o que a arbitrariedade humana produz, com base num conceito completamente falso de liberdade.”