“Coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida”

Hoje é dia de Santo Tomás de Aquino, doutor angélico. Aproveito a oportunidade para deixar o excerto de um documento desse grande santo da Igreja, chamado De Rationibus Fidei, cujas partes estão sendo publicadas em partes pelo padre Elílio em seu blog. No capítulo V do documento Santo Tomás fala da encarnação de Nosso Senhor. Por que se encarnaria o filho de Deus? É recomendada também a leitura do texto em que Santo Tomás expõe as cinco vias para se chegar ao conhecimento de Deus, também publicado aqui no blog. Nesse dia, invoquemos a intercessão de Santo Tomás para que possa nos ensinar a amar sempre mais a Igreja, ele, que foi exemplo de sabedoria e obediência.

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Qual foi a causa da encarnação do Filho de Deus

Tradução: Blog do Pe. Elílio

São Tomás de Aquino

Com semelhante cegueira de espírito, impugnam a fé cristã por confessar que Cristo, Filho de Deus, morreu, não entendendo a profundidade de tão grande mistério. E para que a morte do Filho de Deus não seja perversamente entendida, antes é preciso dizer algo sobre a sua encarnação. Não dizemos que o Filho de Deus esteve sujeito à morte segundo a natureza divina, pela qual é igual ao Pai e que é a fonte de toda vida, mas segundo a nossa natureza, que assumiu na unidade da pessoa.

Para considerar o mistério da divina encarnação, é preciso advertir que tudo o que age pelo intelecto opera pela concepção do intelecto, concepção que chamamos verbo, como é claro a respeito do construtor e de qualquer artífice, que opera exteriormente segundo a forma que concebe na mente. Sendo o Filho de Deus o próprio Verbo de Deus, conseqüentemente Deus fez todas as coisas através do Filho.

Qualquer coisa é feita e reparada pela mesma razão: se, portanto, uma casa for danificada, será reparada pela mesma forma de arte através da qual foi construída. Entre as criaturas feitas por Deus através de seu Verbo, a criatura racional ocupa o principal lugar, sendo que todas as demais criaturas servem-na e lhe parecem estar ordenadas; tal se dá de acordo com a reta razão, pois que somente a criatura racional tem domínio de seu ato pela liberdade de arbítrio. As outras criaturas, na verdade, não agem a partir do livre juízo, mas são levadas a agir por uma espécie de força da natureza. Quem é livre está acima do servo, e os servos são ordenados ao serviço dos livres e pelos livres são governados.

A falta da criatura racional, desse modo, segundo uma avaliação verdadeira, deve ser mais considerada do que o defeito de qualquer criatura irracional. Nem é duvidoso que, de acordo com o juízo de Deus, as coisas sejam julgadas segundo a verdadeira avaliação. É conveniente, portanto, que a sabedoria divina repare principalmente a falta da criatura racional, e isso mais do que se os céus fossem abalados ou outra coisa nas coisas corpóreas pudesse acontecer.

Há, contudo, dois tipos de criatura racional ou intelectual: uma separada do corpo, denominada anjo; outra unida ao corpo, que é a alma humana. Em ambas pôde dar-se a falta devido à liberdade de arbítrio. Digo falta não como deficiência do ser, mas como deficiência da retidão da vontade. A falta, ou defeito, é considerada principalmente em relação àquilo através do qual uma coisa opera, como quando dizemos que o artífice erra se houver deficiência naquilo através do qual ele deve operar; também dizemos que uma coisa natural é deficiente e danificada se a virtude pela qual age estiver corrompida, como quando há deficiência no poder de germinação da planta ou no poder de frutificação da terra. Aquilo através do qual a criatura racional opera é a vontade, na qual está a liberdade de arbítrio. Portanto, a falta da criatura racional está relacionada à deficiência da retidão da vontade, o que se dá pelo pecado.

Remover o defeito do pecado, que não é senão a perversidade da vontade, convém principalmente a Deus, e isso através de seu Verbo, pelo qual fez o universo das criaturas. Para o pecado dos anjos não há remédio, uma vez que, de acordo com a imutabilidade de sua natureza, não são passíveis de penitência em relação àquilo em que uma vez se convertem. Os homens, todavia, segundo a condição de sua natureza, têm a vontade mutável, de modo que não somente podem escolher o bem ou o mal, mas também, depois de escolhido um, podem arrepender-se e voltar-se ao outro; e essa mutabilidade da vontade do homem permanece tanto tempo quanto estiver unido à variação do corpo. Quando, porém, a alma estiver separada do corpo, terá a mesma imutabilidade da vontade que, naturalmente, tem o anjo; donde a alma humana não ser passível de penitência após a morte, não podendo converter-se do bem ao mal ou do mal ao bem.

Assim, coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida. O modo da reparação devia ser tal que conviesse à natureza a ser reparada e à desordem. À natureza a ser reparada porque, sendo o homem de natureza racional e ordenado pelo livre-arbítrio, devia ser reconduzido ao estado de retidão, não por coação externa, mas pela própria vontade. À desordem também porque, consistindo ela na perversidade da vontade, foi preciso que a reparação fosse feita por algo que reduzisse a vontade à retidão. A retidão da vontade humana consiste na ordenação do amor, que é a principal afeição. O amor é ordenado quando amamos, como Sumo Bem, a Deus sobre todas as coisas e referimos-lhe, como ao fim último, tudo o que amamos, e, ainda, quando, para que a justa ordem seja preservada, preferimos as coisas espirituais às temporais.

Nada pode ser mais eficaz para provocar nosso amor a Deus do que o fato de o Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, ter assumido nossa própria natureza, de modo a ser Deus e homem, para nossa reparação. Primeiro, porque isso demonstra maximamente quanto Deus, que quis fazer-se homem para a salvação do homem, ama o homem. Nada mais provoca tanto o amor do que o fato de alguém saber-se amado. Depois, porque, tendo o homem o intelecto e o afeto voltado para as coisas corporais, não teria podido elevar-se facilmente ao que está acima de si. É fácil a qualquer homem conhecer e amar outro homem, mas considerar a altitude divina e a ela se dirigir pelo reto afeto do amor não é próprio de qualquer homem, mas daqueles que, pelo auxílio divino, com grande empenho e labor, se elevam das coisas corporais às espirituais. Portanto, para que a todos os homens se mostrasse fácil o caminho que conduz a Deus, quis Deus fazer-se homem, para que também os pequenos (os menos dotados) pudessem pensar em Deus e amá-lo como sendo-lhes semelhante, e, assim, por aquilo que podem apreender, pouco a pouco fossem levados ao que é perfeito. Por isso também, já que Deus se fez homem, é dada ao homem a esperança de participar da perfeita bem-aventurança, que só Deus possui naturalmente.

O homem, conhecendo sua enfermidade, mal poderia esperar pela posse da bem-aventurança, de que apenas os anjos são capazes e que consiste na visão e fruição de Deus, se tal posse lhe fosse prometida, a não ser que, de outra parte, lhe fosse mostrada a dignidade da natureza humana, tão estimada por Deus a ponto de ele querer fazer-se homem pela sua salvação. E, assim, pelo fato de Deus ter-se feito homem, foi dada ao homem a esperança de unir-se a Deus por beata fruição. O conhecimento de sua dignidade, que foi possível pelo fato de Deus ter assumido a dignidade humana, é também importante ao homem para que ele não submeta seu afeto a alguma criatura, cultuando pela idolatria os demônios ou quaisquer criaturas, nem se submeta às criaturas corporais por afeto desordenado. É indigno do homem, que possui tão grande dignidade e está tão próximo de Deus a ponto de Deus ter querido fazer-se homem, submeter-se desordenadamente a coisas inferiores a Deus.

Santo Tomás de Aquino
De Rationibus Fidei, cap. V

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Santo Tomás de Aquino,
rogai por nós!

Oração pedindo a intercessão de Santo Alberto

[Hoje é dia de Santo Alberto Magno. Peçamos, por meio dessa oração do Papa João Paulo II, a sua santa intercessão especialmente para que os cientistas do nosso tempo compreendam que a verdadeira razão conduz a Deus e à fé.]

Ó Deus, nosso Criador, Autor e Luz da inteligência do homem, Vós concedestes a Santo Alberto, no fiel seguimento de Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, um profundo conhecimento da Fé. A própria criação se tornou para ele a manifestação do vosso poder e da vossa bondade, enquanto ele aprendeu a Vos conhecer; e amar mais nas criaturas. Ao mesmo tempo, ele estudou a fundo as ciências humanas como também os escritos de filósofos não cristãos, e os abriu para o encontro com a vossa Boa Nova. Pelo dom do discernimento, Vós o habilitastes de maneira singular a evitar o erro e a aprofundar e difundir entre os homens a verdade. Por tudo isso Vós o constituístes Mestre da Igreja e de todos os homens.

Pela intercessão de Santo Alberto nós Vos pedimos:

— Concedei à vossa Igreja, também em nossos dias, mestres da Verdade, que pela palavra e por uma vida santa manifestem e anunciem aos homens a vossa Boa Nova.

— Abri pela graça de uma Fé viva os corações dos homens a fim de que reconheçam a presença de Deus na criação e na própria vida e respondam sempre mais perfeitamente à Sua vontade.

— Acompanhai e iluminai com o vosso Espírito Santo o trabalho dos cientistas e dos sábios, preservai-os do orgulho e da presunção, e concedei aos mestres das ciências naturais um trato responsável com os dons da vossa criação.

— Concedei aos responsáveis pelo Estado e pela sociedade visão e consciência de responsabilidade, a fim de que utilizem as descobertas da ciência e da técnica em favor da paz e do progresso dos povos, e, não, para a sua ruína e destruição.

— Ajudai-nos todos, em meio aos múltiplos perigos e erros do nosso tempo, a reconhecer sempre o que é verdadeiro e a Vos servir fielmente por uma vida iluminada pela Fé.

(…)

V. Rogai por nós, Santo Alberto.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:

— Ó Deus, nosso refúgio e nossa força, Vós concedestes ao Bispo e Doutor da Igreja Santo Alberto a graça de associar o conhecimento humano à Sabedoria eterna. Fortalecei e protegei, por sua intercessão, a nossa Fé, em meio à confusão espiritual dos nossos dias. Dai-nos a amplidão do seu espírito, a fim de que o progresso das ciências nos ajude também a nós a conhecer-Vos melhor e a nos aproximarmos mais de Vós. Fazei-nos crescer no conhecimento da Verdade, que sois Vós, a fim de que possamos um dia contemplar-Vos face a face, junto com todos os santos. Isto Vos pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

Papa João Paulo II, Oração junto ao túmulo de Santo Alberto
Viagem Apostólica à Alemanha, 15 de novembro de 1980

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Santo Alberto Magno,
rogai por nós!

A “teologia do coração” e a “teologia da razão”

Audiência do Papa Bento XVI no dia 4 de novembro de 2009

Tradução: Agência Zenit

Queridos irmãos e irmãs,

Na última catequese, apresentei as principais características da teologia monástica e da teologia escolástica do século XII, que poderíamos chamar, de certa forma, respectivamente, de “teologia do coração” e “teologia da razão”.

Entre os representantes de uma e de outra corrente teológica houve um amplo debate, às vezes intenso, simbolicamente apresentado pela controvérsia entre São Bernardo de Claraval e Abelardo.

Para compreender esta confrontação entre os dois grandes mestres, é bom recordar que a teologia é a busca de uma compreensão racional, enquanto for possível, do mistério da Revelação cristã, que acreditamos pela fé: fides quaerens intellectum – a fé busca a inteligibilidade –, por citar uma definição tradicional, concisa e eficaz.

Pois bem, enquanto São Bernardo, típico representante da teologia monástica, enfatiza a primeira parte da definição, isto é, a fides (a fé), Abelardo, que é um escolástico, incide sobre a segunda parte, isto é, sobre o intellectus, sobre a compreensão por meio da razão.

Para Bernardo, a própria fé está dotada de uma íntima certeza, fundada no testemunho da Escritura e no ensinamento dos Padres da Igreja. A fé, além disso, reforça-se pelo testemunho dos santos e pela inspiração do Espírito Santo na alma de cada crente. Nos casos de dúvida e de ambiguidade, a fé deve ser protegida e iluminada pelo exercício do Magistério eclesial.

Assim, para Bernardo, era difícil estar de acordo com Abelardo, e mais em geral com aqueles que submetiam as verdades da fé ao exame crítico da razão; um exame que comportava, em sua opinião, uma grave perigo, o intelectualismo, a relativização da verdade, a discussão das próprias verdades da fé.

Nesta forma de proceder, Bernardo via uma audácia levada até a falta de escrúpulos, fruto do orgulho da inteligência humana, que pretende “capturar” o mistério de Deus. Em uma de suas cartas, com muita dor, ele escreve: “A criatividade humana se apodera de tudo, não deixando nada para a fé. Enfrenta o que está acima dela, escruta o que lhe é superior, irrompe no mundo de Deus, altera os mistérios da fé, mais do que os ilumina; não abre o que está fechado e selado, mas o erradica; e o que não acha viável, considera como nada e rejeita crer nisso” (Epístola CLXXXVIII,1: PL 182, I, 353).

Para Bernardo, a teologia tem um único fim: o de promover a experiência viva e íntima de Deus. A teologia é, portanto, uma ajuda para amar cada vez mais e melhor o Senhor, como recita o título do tratado sobre o Dever de amar a Deus (De diligendo Deo).

Neste caminho, há diversos graus, que Bernardo descreve detalhadamente, até o cume, quando a alma do crente se embriaga nas alturas do amor. A alma humana pode alcançar, já na terra, essa união mística com o Verbo divino, união que o Doutor Melífluo descreve como “bodas espirituais”. O Verbo divino a visita, elimina as últimas resistências, ilumina-a, inflama-a e a transforma. Nesta união mística, a alma goza de uma grande serenidade e doçura, e canta ao seu Esposo um hino de alegria.

Como recordei na catequese dedicada à vida e à doutrina de São Bernardo, a teologia para ele não pode senão nutrir-se da oração contemplativa; em outras palavras, da união afetiva do coração e da mente com Deus.

Abelardo, que, por sua vez, é precisamente quem introduziu o termo “teologia” no sentido que entendemos hoje, coloca-se em uma perspectiva diversa. Nascido em Bretanha, na França, este famoso professor do século XII estava dotado de uma inteligência vivíssima e sua vocação era o estudo.

Ele se dedicou primeiro à filosofia e depois aplicou os resultados alcançados nesta disciplina à teologia, da qual foi professor na cidade mais culta da época, Paris, e sucessivamente nos mosteiros em que viveu.

Era um orador brilhante: suas aulas eram acompanhadas por verdadeiras massas de estudantes. De espírito religioso, mas personalidade inquieta, sua existência foi rica em golpes de cena: rebateu seus professores, teve um filho com uma mulher culta e inteligente, Eloísa; esteve frequentemente em polêmica com seus colegas teólogos; sofreu também condenações eclesiásticas, ainda que tenha morrido em plena comunhão com a Igreja, a cuja autoridade se submeteu com espírito de fé.

Precisamente São Bernardo contribuiu para a condenação de algumas doutrinas de Abelardo no sínodo provincial de Sens em 1140, e solicitou também a intervenção do papa Inocêncio II. O abade de Claraval rejeitava, como recordamos, o método intelectualista demais de Abelardo, que a seu ver reduzia a fé a uma simples opinião desvinculada da verdade revelada.

Os temores de Bernardo não eram infundados, mas compartilhados pelos demais, por outros grandes pensadores da sua época. Efetivamente, um uso excessivo da filosofia tornou perigosamente frágil a doutrina trinitária de Abelardo e, consequentemente, sua ideia de Deus.

No campo moral, seu ensinamento não estava privado de ambiguidade: ele insistia em considerar a intenção do sujeito como única fonte para descrever a bondade ou a malícia dos atos morais, descuidando, assim, do significado objetivo e do valor moral das ações: um subjetivismo perigoso.

Este é, como sabemos, um aspecto importante para a nossa época, na qual a cultura aparece frequentemente marcada por uma tendência crescente ao relativismo ético: só o “eu” decide o que é bom para mim, neste momento. Não podemos nos esquecer, contudo, dos grandes méritos de Abelardo, que teve muitíssimos discípulos e que contribuiu para o desenvolvimento da teologia escolástica, destinada a expressar-se de forma mais madura e fecunda no século seguinte.

Não devem ser desvalorizadas algumas das suas intuições, como, por exemplo, quando afirma que nas tradições religiosas não-cristãs já há uma preparação para a acolhida de Cristo, Verbo divino.

O que nós podemos aprender hoje da confrontação, frequentemente intensa, entre Bernardo e Abelardo e, em geral, entre a teologia monástica e a escolástica?

Antes de mais nada, penso que mostra a utilidade e a necessidade de uma discussão teológica sadia na Igreja, sobretudo quando as questões debatidas não foram definidas pelo Magistério, que continua sendo, contudo, um ponto de referência iniludível. São Bernardo, mas também o próprio Abelardo, reconheceram sempre sua autoridade. Além disso, as condenações que este último sofreu nos recordam que no campo teológico deve haver um equilíbrio entre os que poderíamos chamar de princípios arquitetônicos, que nos foram dados pela Revelação e que conservam por isso sempre uma importância prioritária, e os interpretativos, sugeridos pela filosofia, isto é, pela razão, e que têm uma função importante, mas só instrumental.

Quando este equilíbrio entre a arquitetura e os instrumentos de interpretação diminui, a reflexão teológica corre o risco de contaminar-se com erros, e corresponde então ao Magistério o exercício desse necessário serviço à verdade, que lhe é próprio.

Além disso, é preciso sublinhar que, entre as motivações que induziram Bernardo a colocar-se contra Abelardo e a solicitar a intervenção do Magistério, estava também a preocupação por salvaguardar os crentes simples e humildes, aqueles a quem é preciso defender quando correm o risco de ser confundidos ou desviados por opiniões muito pessoais e por argumentações teológicas sem escrúpulos, que poderiam colocar sua fé em perigo.

Eu gostaria de recordar, finalmente, que a confrontação teológica entre Bernardo e Abelardo concluiu com uma plena reconciliação entre eles, graças à mediação de um amigo comum, o abade de Cluny, Pedro o Venerável, de quem falei em uma das catequeses anteriores. Abelardo mostrou humildade em reconhecer seus erros. Bernardo usou de grande benevolência. Em ambos, prevaleceu o que deve estar verdadeiramente no coração quando nasce uma controversa teológica, isto é, salvaguardar a fé da Igreja e fazer a verdade triunfar na caridade. Que esta seja também hoje a atitude nas confrontações na Igreja, tendo sempre como meta a busca da verdade.

Papa Bento XVI

Audiência Geral”, 4-11-09

O conhecimento só cresce quando se ama a verdade

Audiência do Papa Bento XVI no dia 28 de outubro de 2009

Tradução: Agência Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje vamos falar de uma interessante página da história, relativa ao florescimento da teologia latina no século XII, que teve lugar por uma série providencial de coincidências. Nos países da Europa Ocidental, reinava então uma relativa paz, que assegurava à sociedade o desenvolvimento econômico e a consolidação das estruturas políticas, que favorecia uma vivaz atividade cultural, graças também aos contatos com o Oriente.

Dentro da Igreja, advertiam-se os benefícios da vasta ação conhecida como “reforma gregoriana”, que, promovida no século anterior, havia trazido uma maior pureza evangélica à vida da comunidade eclesial, sobretudo no clero, e havia restituído à Igreja e ao papado uma autêntica liberdade de ação. Além disso, ia se difundindo uma vasta renovação espiritual, apoiada pelo exuberante desenvolvimento da vida consagrada: nasciam e se expandiam novas ordens religiosas, enquanto as já existentes conheciam uma recuperação prometedora.

Voltou a florescer também a teologia, adquirindo uma maior consciência de sua própria natureza: afinou o método, enfrentou problemas novos, avançou na contemplação dos mistérios de Deus, produziu obras fundamentais, inspirou iniciativas importantes na cultura, da arte à literatura, e preparou as grandes obras do século posterior, o século de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio. Dois foram os ambientes em que se desenvolveu esta fervente atividade teológica: os mosteiros e as escolas cidadãs, as scholae, algumas das quais logo dariam vida às universidades, que constituem um dos típicos “inventos” do medievo cristão.

Precisamente a partir destes dois ambientes, os mosteiros e as scholae, pode-se falar de dois diferentes modelos de teologia: a “teologia monástica” e a “teologia escolástica”.

Os representantes da teologia monástica eram monges, em geral abades, dotados de sabedoria e de fervor evangélico, dedicados essencialmente a suscitar e alimentar o desejo amoroso de Deus. Os representantes da teologia escolástica eram homens cultos, apaixonados pela pesquisa; eram magistri desejosos de mostrar a racionalidade e a fundamentação dos mistérios de Deus e do homem, cridos com a fé, mas compreendidos também pela razão. A finalidade distinta explica a diferença do seu método e de sua forma de fazer teologia.

Nos mosteiros do século XII, o método teológico estava ligado principalmente à explicação da Sagrada Escritura, da sacra pagina, usando uma expressão dos autores daquele período; praticava-se especialmente a teologia bíblica. Os monges, portanto, eram ouvintes e leitores devotos das Sagradas Escrituras, e uma das suas principais ocupações consistia na lectio divina, isto é, na leitura orante da Bíblia. Para eles, a simples leitura do texto sagrado não bastava para perceber seu sentido profundo, sua unidade interior e sua mensagem transcendente. Era necessário, portanto, praticar uma “leitura espiritual”, conduzida em docilidade ao Espírito Santo. Na escola dos Padres, a Bíblia era assim interpretada alegoricamente, para descobrir em cada página, tanto do Antigo como do Novo Testamento, o que se diz de Cristo e da sua obra de salvação.

O Sínodo dos Bispos do ano passado, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, sublinhou a importância do agradecimento espiritual às Sagradas Escrituras. Com este objetivo, é útil fazer um tesouro da teologia monástica, uma exegese bíblica ininterrupta, como também das obras compostas pelos seus representantes, preciosos comentários ascéticos aos livros da Bíblia.

À preparação literária, a teologia monástica unia, portanto, a espiritual. Era consciente de que uma leitura puramente teórica e profana não era suficiente: para entrar no coração da Sagrada Escritura, é preciso lê-la no espírito em que foi escrita e criada. A preparação literária era necessária para conhecer o significado exato das palavras e facilitar a compreensão do texto, afinando a sensibilidade gramatical e filológica.

O pesquisador beneditino do século passado, Jean Leclerq, intitulou assim o ensaio com o qual apresenta as características da teologia monástica: L’amour des lettres et le désir de Dieu (“o amor das letras e o desejo de Deus”). Em efeito, o desejo de conhecer e de amar a Deus, que sai ao nosso encontro através da sua Palavra, que é preciso acolher, meditar e praticar, conduz a buscar o aprofundamento dos textos bíblicos em todas as suas dimensões.

Há também outra atitude sobre a que insistem aqueles que praticam a teologia monástica e é uma atitude íntima de oração, que deve preceder, acompanhar e completar o estudo da Sagrada Escritura. Dado que, em última instância, a teologia monástica é escuta da Palavra de Deus, não se pode não purificar o coração para acolhê-la e, sobretudo, não se pode não acendê-lo de fervor para encontrar o Senhor. A teologia se converte, portanto, em meditação, oração, canto de louvor e conduz a uma sincera conversão. Muitos representantes da teologia monástica chegaram, por esta via, às mais altas metas da experiência mística e constituem um convite, também para nós, a nutrir nossa existência da Palavra de Deus, por exemplo, mediante uma escuta mais atenta das leituras do Evangelho, especialmente na Missa dominical. É importante, além disso, reservar um tempo cada dia à meditação da Bíblia, para que a Palavra de Deus seja lâmpada que ilumina nosso caminho cotidiano na terra.

A teologia escolástica, no entanto, era praticada nas scholae, como comentei; estas surgiram junto às grandes catedrais da época, para a preparação do clero, ou em torno de um mestre de teologia e seus discípulos, para formar profissionais da cultura, em uma época na qual o saber era cada vez mais valorizado. No método dos escolásticos, era central a quaestio, isto é, o problema que se apresenta ao leitor ao enfrentar as palavras da Escritura e da Tradição. Diante de um problema que estes textos autorizados expõem, surgem questões e nasce o debate entre o professor e os estudantes. Neste debate, aparecem, por um lado, os argumentos da autoridade e, por outro, os da razão e o debate se desenvolve no sentido de encontrar, no final, uma síntese entre autoridade e razão, para chegar a uma compreensão mais profunda da Palavra de Deus.

Com relação a isso, São Boaventura diz que a teologia é per additionem (cf. Commentaria in quatuor libros sententiarum, I, proem., q. 1, concl.), isto é, a teologia acrescenta a dimensão da razão à Palavra de Deus e, assim, cria uma fé mais profunda, mais pessoal e, portanto, também mais concreta na vida do homem. Neste sentido, encontravam-se diversas soluções e se formavam conclusões que começavam a construir um sistema de teologia. A organização das quaestiones levava à compilação de sínteses cada vez mais extensas, ou seja, compunham-se as diversas quaestiones com as respostas resultantes, criando assim uma síntese, as chamadas summae, que eram, na verdade, amplos tratados teológico-dogmáticos nascidos da confrontação da razão humana com a Palavra de Deus.

A teologia escolástica buscava apresentar a unidade e a harmonia da Revelação cristã com um método, chamado precisamente de “escolástico”, da escola, que concede confiança à razão humana: a gramática e a filologia estão ao serviço do saber teológico, mas está ainda mais a lógica, isto é, esta disciplina que estuda o “funcionamento” do raciocínio humano, de forma que apareça claramente a verdade de uma proposição. Ainda hoje, lendo as summae escolásticas, a pessoa fica surpreendida pela ordem, pela clareza, pela concatenação lógica dos argumentos e pela profundidade de algumas intuições. Com linguagem técnica, atribui-se a cada palavra um significado preciso e, entre o crer e o compreender, estabelecia-se um movimento recíproco de clarificação.

Queridos irmãos e irmãs: seguindo o convite da Primeira Carta de Pedro, a teologia escolástica nos anima a estar sempre dispostos a responder a quem pedir razões da esperança que está em nós (cf. 3, 15). Sentir as perguntas como nossas e ser, assim, capazes também de dar uma resposta. Recorda-nos que entre fé e razão existe uma amizade natural, fundada na própria ordem da criação.

O Servo de Deus João Paulo II, no incipt da encíclica Fides et ratio, escreve: “Fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. A fé está aberta ao esforço da compreensão por parte da razão; a razão, por sua vez, reconhece que a fé não a mortifica, mas, ao contrário, leva-a a horizontes mais amplos e elevados. Insere-se aqui a perene lição da teologia monástica. Fé e razão, em diálogo recíproco, vibram de alegria quando ambas estão animadas pela busca da íntima união com Deus.

Quando o amor vivifica a dimensão orante da teologia, o conhecimento, adquirido pela razão, se engrandece. A verdade deve ser buscada com humildade, acolhida com estupor e gratidão; em uma palavra, o conhecimento só cresce quando se ama a verdade. O amor se converte em inteligência e teologia autêntica, sabedoria do coração, que orienta e sustenta a fé e a vida dos crentes. Oremos, portanto, para que o caminho do conhecimento e do aprofundamento dos mistérios de Deus seja sempre iluminado pelo amor divino.

Papa Bento XVI

Audiência Geral”, 28-10-09