Pentecostes: Amor e Coragem no discipulado

“Et repleti sunt omnes Spiritu Sancto et coeperunt loqui aliis linguis, prout Spiritus dabat eloqui illis” (At 2,4)¹.

           formacoes66 Fala mal quem deseja falar todas as línguas e em nenhuma se detém, visto que nem tem tempo para aprimorar-se – já que deseja chegar ao conhecimento de todas – e tampouco terá a exatidão da compreensão, que tem os que em alguma detiveram-se. Assim o é conosco, assim o foi outrora com os apóstolos. Para as diversas nações que ali se encontravam, nenhuma era a compreensão pela diversidade de línguas; pardos não compreendiam os elamitas; romanos não compreendiam os mesopotâmicos; frígios não entendiam os capadócios e assim por diante. Parecia-nos esta a Babel, o caos, o desentendimento. Mas, notai! Os construtores de Babel foram confundidos por Deus, e no Cenáculo não foram confundidos, senão que unificados. Lá fizera o Senhor confusão onde havia unidade; cá, o Senhor faz unidade onde há confusão; lá os homens almejavam edificar uma torre que chegasse até o céu – que era a ideia de espaço físico onde Deus se encontrava – para que elevassem seu nome sobre a terra; cá os homens não edificavam torre, senão que estavam temerosos para irem ao encontro de Deus, para o testemunharem, para traçarem uma ponte que pudesse chegar até Ele. Comparai uma e outra e vereis que há uma inversão, por assim dizermos, entre Babel e o Cenáculo. O que naquela se perdera, nesta se restaurara; o que naquela se destruíra, nesta se edificara.

            Diz-nos também o evangelista que o Espírito aparece e todos Dele ficam “repletos”. Pois não ficaram cheios, mas repletos. E por quê? Porque aquilo que está cheio pode não estar repleto, mas tudo o que está repleto, em si, já está cheio – e mais que cheio, está pleno. E aqui, sim, cumpre-se aquilo que houvera predito o Senhor aos seus antes de elevar-Se aos céus: “Recebereis o poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1,8).

Agora estão todos preparados e munidos da força interior para serem testemunhas, sem temor, sem tremor, levando somente o que por Si basta: O Espírito Santo. E por que vão eles aos “confins da terra” e não apenas à Palestina ou a Roma? Por que cada um dirige-se a um território diferente? Porque a salvação é para todos, não somente para alguns, isto é representado com maior clarividência na diversidade de povos acima citada. Todos tem a oportunidade de aderirem a salvação, mas não é a ninguém obrigado porque o Espírito, nos diz Paulo, é de liberdade. E porque testemunhar é servir e o amor é serviço, põem-se eles a irem a lugares tão distantes, espalhando o Reino de Deus e o Logos divino que permeia o homem.

Ao Filho de Deus, Segunda Pessoa da Trindade, atribui-se a sabedoria; ao Espírito, Terceira Pessoa, atribui-se o amor. Todo amor é serviço, entretanto, nem todo serviço é feito com amor. Quando se serve sob pretexto de algo, procurando favorecer-se ou sob ameaça de alguém, o amor perde o seu sentido mais belo: a liberdade, liberdade para amar e, por conseguinte, para servir. E os apóstolos são testemunhas autênticas de tal verdade. Ou não poderiam eles negar ao nome de Jesus, retornarem à comodidade de suas vidas e livrarem-se de todos os perigos e ameaças que a tarefa apostólica acarretaria? Pois optam por amarem o Amor, por servi-Lo e por darem as suas próprias vidas, encorajados pelo Espírito da Verdade, da Sabedoria, e do destemor dos homens, mas do Temor a Deus.

Eis, pois, que nenhum cristão sinta-se medroso diante das realidades do mundo! Se somos membros da mesma Igreja, se outrora viera o Espírito aos Apóstolos, agora Ele no-Lo é concedido, vem também a nós e, como fora a dois mil anos, o faz também hoje. Pois que medo há mais do que aquele de omitir-se no projeto salvífico de Cristo? Que vergonha maior há do que não testemunhar o Senhor da Igreja à qual somos membros? Que tristeza há mais do que aquela de estarmos na Igreja mas pensarmos como o mundo?

Hoje é a Festa do Espírito, mas é também a Festa da Igreja. O dia em que, encorajada pelo Espírito, ela abre-se ao mundo, torna-se missionária e testemunha; aliás, contraditório e perigoso é um missionário que não testemunhe. E justamente por ser missionária é também universal, fala várias línguas com apenas um entendimento. Não se entendem diversas coisas daquilo que ela diz nas diversas línguas, mas apenas uma – e necessária – cousa se-nos-é compreensível. A mesma doutrina é transmitida à variedade de línguas, de forma que todos possam saber que apenas um é seu ensinamento transmitido desde os tempos apostólicos. Bem o disse Paulo: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1Cor 12,13). Bebemos de um único Espírito porque não há de ter mais de um, mas somente aquele que inspira a Igreja durante seus dois milênios. Se alguém não bebe desta fonte, se alguém bebe de algum outro ensinamento, não bebe do Espírito de Deus mas de fontes desconhecidas e contrárias ao que se tem pregado por séculos.

Pouco é o que aqui tenho dito, muito é o que ainda há de se falar. Peçamos ao Espírito de Deus que nos conceda sabedoria, humildade e coragem para bem exercermos a nossa vivência cristã. Que Ele desça eficazmente sobre cada um de nós. Concede perseverança, Senhor, aos que falam em teu nome, e, como outrora fizestes descer língua de fogo sobre os apóstolos, dê fogo de língua aos nossos pregadores e com toda a Igreja clamemos: Veni, Sancte Spiritus, et emitte caelitus, lucis tuae radium – Vem, Santo Espírito, e mandai dos céus um raio de luz”.

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1.”Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”.

Os papabiles de um conclave sem Ratzinger

Muito tem sido escrito nos últimos dias sobre a Igreja Católica e o conclave que se aproxima. Não é para menos. Estamos vivendo um capítulo importante da história da Igreja, contemplando a despedida de um Papa que renuncia, mais de 700 anos depois de São Celestino V, e a eminência de um conclave sem grandes figuras, o que, segundo os especialistas, é sinal de que a votação vai ser um pouco mais demorada do que foi em 2005, quando os cardeais elegeram Ratzinger para Papa.

Antes de qualquer coisa, urge que, diferente da mídia secular, reconheçamos, de imediato, que o Espírito Santo conduz o conclave. Sem esta convicção, muita bobagem pode ser dita – e escrita. Podemos expor fatidicamente as supostas “rixas” existentes no Sacro Colégio entre conservadores e progressistas (o que não consigo vislumbrar com muita clareza) e, no entanto, o Espírito sopra onde quer (para usar uma expressão carismática). O fato de o Senhor mesmo conduzir o rumo das votações na Capela Sistina, porém, não significa que os jornalistas – e os próprios católicos – estejam impedidos de fazer especulações, estudando o perfil dos cardeais e inclusive escolhendo um favorito para o conclave. Primeiro, porque é este o trabalho da mass media: “mediar”, expor ao público a grande notícia que permeia a Igreja nos últimos dias (embora o tenha feito com muitas incongruências e imprecisões, diga-se de passagem). Segundo, porque Deus age também – e principalmente, eu diria – nas coisas ordinárias. É óbvio que nada disto nos exime de rezar – precisamos, sim, rezar, e muito, pela eleição do próximo Romano Pontífice. Mas, condenar, em cima disto, quem acompanha o trabalho dos vaticanistas, ou mesmo quem faz torcida para determinado cardeal, soa como uma incompreensão de como Deus age no seio de Sua Igreja.

Acontece que, como disse, estamos em um conclave sem uma grande figura de frente. Fica difícil até escolher para quem torcer.

Quem tem acompanhado as agências de notícias nacionais e internacionais, pode ficar impressionado com a ascensão da figura do cardeal brasileiro Dom Odilo Scherer, por exemplo. Uma campanha teria sido lançada: Scherer para Papa, e Piacenza ou Sandri para Secretário de Estado. Qual o fundamento dessas especulações, não dá para avaliar com precisão. A imagem de Dom Odilo, entre os brasileiros, é, sem dúvida, a mais confortante. Ainda assim, como disse em outra ocasião, acredito que o Brasil precise mais dele que Roma. A menos que o Espírito decida o contrário, mantenho esta ideia.

Cardeal Ouellet

Cardeal Ouellet

Outra figura muito falada ultimamente é a do cardeal Marc Ouellet, do Canadá. Ouvi de um amigo que possivelmente seria uma figura “progressista”. Talvez por ser um sulpiciano – os sulpicianos, explica John Allen Jr., “estão associados a correntes liberalizantes seguindo o Concílio Vaticano II (1962-65), consideradas culpadas por alguns conservadores pelas quedas nas vocações e perda de fé”. A falta, no entanto, não caberia a Ouellet, sobre quem não pesam absolutamente acusações de heterodoxia. Muito pelo contrário. O purpurado canadense “tem laços de longa data com os círculos ligados a revista Communio cofundada pelo jovem Joseph Ratzinger”. E, em uma entrevista concedida em 2003, defendeu a recuperação do “sentido sagrado da liturgia”:

“[D]epois do Concílio Vaticano II houve um movimento progressista litúrgico muito exagerado, que fez com que desaparecessem os tesouros da tradição como, por exemplo, o canto gregoriano. Tesouros que deveriam ser recuperados. Mas, como afirma o cardeal Joseph Ratzinger, deve-se recuperar principalmente o sentido sagrado da liturgia, ou seja, a percepção de que a liturgia não é algo que fabricamos, que podemos recompor segundo os nossos gostos passageiros, mas sim algo que se recebe, que nos é legado. Portanto, as objetividades das reformas litúrgicas têm a sua importância. Creio que as chamadas do cardeal Ratzinger sejam muito importantes. Penso que o Concílio Vaticano II tenha feito uma boa constituição sobre a sagrada liturgia, a Sacrosanctum Concilium. Mas a atuação da reforma litúrgica não foi – sempre – à altura. Seria preciso voltar à essência da Sacrosanctum Concilium.”

Vê-se no discurso de Ouellet um traço parecido com o de Ratzinger: o da necessidade de voltar à letra do Concílio – que foi um apelo insistente do pontificado de Bento XVI. Isto é um bom sinal.

Dos ambientes ligados à revista Communio também vem o cardeal arcebispo de Milão, Angelo Scola, que, para os vaticanistas, larga na pole position dos papabiles. Com sua eleição, teríamos também um pontificado de continuidade.

Os nomes são muitos… Há o arcebispo de Budapeste, Péter Erdõ, de grande influência na Europa e na África; há Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, que, por sua linha conservadora, seria para a Ásia o que Burke representa para a América; há o arcebispo de Gana, Peter Turkson, alvo recente do lobby anticlerical; há o atual presidente da Conferência Episcopal Italiana, Angelo Bagnasco, de Gênova, discípulo do memorável cardeal Giuseppe Siri.

Em meio a tantas possibilidades, a melhor alternativa é a oração. Hoje começam as congregações gerais que antecedem o conclave. É momento de pedir a Deus um Pastor segundo o Seu Coração, um Pastor que conduza com coragem a barca de Pedro nestes tempos tão difíceis que vivenciamos. Mas também é momento de agradecer. Agradecer pelo pontificado de Bento XVI, e por seu trabalho tão frutuoso à frente da Igreja. Agradecer porque da “corrente progressista [comprometida com a agenda liberal] já não resta quase nada dentro do sacro colégio”. Agradecer, porque o Senhor é bom, não abandona a Sua Igreja, e contra ela “as portas do inferno não prevalecerão”.

Duras batalhas se avizinham, mas confiamos no triunfo final do Coração Imaculado de Maria. Que ela esteja à frente do colégio cardinalício nestes dias.

A Santíssima Trindade e alguns pontos de fé

“Ao pensarmos na Trindade Santíssima, temos que estar em guarda contra um erro: não podemos pensar em Deus Pai como aquele que ‘vem primeiro’, em Deus Filho como aquele que vem depois, e em Deus Espírito Santo como aquele que vem ainda um pouco mais tarde. Os três são igualmente eternos porque possuem a mesma natureza divina; o Verbo de Deus e o Amor de Deus são tão sem tempo como a Natureza de Deus. E Deus Filho e Deus Espírito Santo não estão subordinados ao Pai de modo algum; nenhuma das Pessoas é mais poderosa, mais sábia, maior que as demais. As três têm igual perfeição infinita, igualmente baseada na única natureza divina que as três possuem.”

“Não obstante, atribuímos a cada Pessoa divina certas obras, certas atividades que parecem mais apropriadas à particular relação desta ou daquela Pessoa divina. Por exemplo, atribuímos a Deus Pai a obra da criação, já que pensamos nEle como o ‘gerador’, o instigador, o motor de todas as coisas, a sede do infinito poder que Deus possui.”

“Do mesmo modo, como Deus Filho é o Conhecimento ou a Sabedoria do Pai, atribuímos-lhe as obras de sabedoria; foi Ele que veio à terra para nos dar a conhecer a verdade e transpor o abismo entre Deus e o homem.”

“Finalmente, sendo o Espírito Santo o amor infinito, apropriamos-lhe as obras de amor, especialmente a santificação das almas, que resulta da habitação do Amor de Deus em nossa alma.”

“Deus Pai é o Criador, Deus Filho é o Redentor, Deus Espírito Santo é o Santificador. E, não obstante, o que Um faz, Todos os fazem; onde Um está, estão os Três.”

“Este é o mistério da Trindade Santíssima: a infinita variedade na unidade absoluta, cuja beleza nos inundará no céu.”

- Padre Leo Trese, A Fé Explicada;
edição em PDF, pg. 12

Papa: “Apesar das debilidades humanas (…), a Igreja é guiada pelo Espírito Santo.”

O Santo Padre comentou, durante a Audiência Geral desta quarta-feira (30), o vazamento de informações confidenciais do Vaticano, crime que culminou com a detenção de um mordomo do Papa. Nas palavras de Bento XVI,

“Os fatos que vêm sucedendo nos últimos dias em torno da Cúria e de meus colaboradores provocam profunda tristeza em meu coração, mas nunca deixei de ter a certeza que, apesar das debilidades humanas, da dificuldade e da provação, a Igreja é guiada pelo Espírito Santo e o Senhor nunca deixará de oferecer-nos Sua ajuda para sustentá-la em seu caminho.”

“Há muitas intromissões, ampliadas por alguns meios de comunicação e especialmente gratuitas, que vão mais além dos fatos, oferecendo uma imagem da Santa Sé que não corresponde à realidade. Desejo renovar minha confiança e meu alento aos meus mais estreitos colaboradores e a todos os que cotidianamente, com fidelidade, espírito de sacrifício e em silêncio me ajudam no cumprimento do meu ministério.”

“Não crê verdadeiramente no Espírito Santo quem não ama a Igreja.”

“Estamos convencidos (…) de que possuímos o Espírito Santo na medida em que amamos a Igreja de Cristo.”
- Santo Agostinho

Non est abbreviata manus Domini, não se tornou mais curta a mão de Deus: Deus não é hoje menos poderoso do que em outras épocas, nem é menos verdadeiro seu amor pelos homens. A nossa fé ensina que a criação inteira, o movimento da terra e dos astros, as ações retas das criaturas e tudo quanto há de positivo no curso da história, tudo, numa palavra, veio de Deus e para Deus se ordena.”

“A ação do Espírito Santo pode passar-nos despercebida, porque Deus não nos dá a conhecer seus planos e porque o pecado do homem turva e obscurece os dons divinos. Mas a fé recorda-nos que o Senhor atua constantemente: foi Ele que nos criou e nos conserva o ser; é Ele quem, com a sua graça, conduz a criação inteira para a liberdade da glória dos filhos de Deus.”

“Por isso, a tradição cristã resumiu num só conceito a atitude que devemos adotar perante o Espírito Santo: docilidade. Temos que ser sensíveis àquilo que o Espírito divino promove à nossa volta e em nós mesmos: aos carismas que distribui, aos movimentos e instituições que suscita, aos efeitos e decisões que nos faz nascer no coração. O Espírito Santo realiza no mundo as obras de Deus: como diz o hino litúrgico, Ele é dador de graças, luz dos corações, hóspede da alma, descanso no trabalho, consolo no pranto. Sem a sua ajuda, nada há no homem que seja inocente e valioso, pois é Ele quem lava o que está manchado, cura o que está enfermo, aquece o que está frio, reconduz o extraviado e encaminha os homens até o porto da salvação e da felicidade eterna.”

“Mas nossa fé no Espírito Santo deve ser plena e completa: não é uma crença vaga na sua presença no mundo; é uma aceitação agradecida dos sinais e realidades a que Ele quis vincular especialmente a sua força. Quando vier o Espírito de Verdade – anunciou Jesus -, Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. O Espírito Santo é o Espírito enviado por Cristo para realizar em nós a santificação que Ele nos mereceu na terra.”

“É por isso que não pode haver fé no Espírito Santo se não houver fé em Cristo, na doutrina de Cristo, nos sacramentos de Cristo, na Igreja de Cristo. Não é coerente com a fé cristã, não crê verdadeiramente no Espírito Santo quem não ama a Igreja, quem não tem confiança nEla, quem só se compraz em apontar as deficiências e as limitações dos que a representam, quem a julga de fora e é incapaz de se sentir seu filho. E sou levado a considerar também como é extraordinariamente importante e abundantíssima a ação do Divino Paráclito durante a celebração da Santa Missa nos nossos altares, enquanto o sacerdote renova o sacrifício do Calvário.”

- São Josemaría Escrivá em O Grande Desconhecido,
extraído do livro “É Cristo que passa”, cap. 13

Papa em Pentecostes: “O Espírito Santo anima a Igreja”

Não sei se vocês tiveram a oportunidade, mas não podem deixar de ler a homilia que o Santo Papa Bento XVI pronunciou no último domingo, por ocasião da solenidade de Pentecostes. A exortação é uma catequese riquíssima e, por abranger pontos deveras relevantes à nossa fé católica, julgo ser importante fazer alguns comentários às palavras do nosso Pastor.

“Para nós, cristãos, o mundo é fruto de um ato de amor de Deus, que fez todas as coisas e das quais Ele se alegra porque é “coisa boa”, “coisa muito boa”, como recorda-nos a narração da criação (cf. Gên. 1,1-31). Deus, por isso, não é o totalmente Outro, inominável e obscuro. Deus revela-se, tem um rosto, Deus é razão, Deus é vontade, Deus é amor, Deus é beleza. A fé no Espírito Criador e a fé no Espírito que o Cristo Ressuscitado dá aos Apóstolos e dá a cada um de nós estão, portanto, inseparavelmente unidas.”

O nosso Pontífice tem este convenientíssimo costume de desacreditar o agnosticismo. Quando adverte, com insistência, que Deus se fez carne e habitou em nosso meio; que aquele Homem nascido de Maria é, como nos diz o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, “gerado do Pai antes de todos os séculos”; que o Altíssimo não está afastado ou separado de nossa pobreza, está, na verdade, traduzindo tudo aquilo que o homem de nosso século está voltando, com a graça de Deus, a acreditar. O Senhor não se contenta em fazer com que todos os homens O conheçam (sabemos bem que, para chegarmos à existência de Deus, a razão natural certamente nos basta); Ele quer que todos participemos de Sua glória. Se, em Adão, entramos na desgraça e perdemos aquela sublime comunhão que tínhamos com o Pai, em Cristo recuperamos novamente tão sagrado dom e podemos gozar novamente de uma alegria que supera toda e qualquer angústia humana.

Com efeito, os sofrimentos aos quais todos nós estamos sujeitos não podem ultrapassar a grandeza do amor do Altíssimo por cada um de nós. O desespero definitivamente não vem do Pai. Toda miséria, por mais deplorável e terrível que seja, não é e nem pode ser justificativa para que deixemos de reconciliarmo-nos com Deus. Quando bater em nós o medo, a incerteza, a angústia, o desejo de talvez desistir do compromisso firmado no dia de nosso Batismo, é sempre bom que lembremo-nos que, para dar-nos a vida, Ele desceu até nós, fazendo-se Homem, habitando em nosso meio. “Deus se mostra em Jesus e, com isso, dá-nos a verdade sobre nós mesmos”, diz o Papa. E por que neste mistério redescobrimos a verdade sobre nós? Ora, porque é justamente quando somos resgatados do pecado em Cristo que podemos dizer que estamos verdadeiramente vivos e, no mistério da Cruz, humilhando-nos a nós mesmos com o Cristo, podemos redescobrir a nossa identidade, a profunda sede de transcendência que existe em nosso ser. A alma que recupera a vida e a consciência de sua pequenez pode finalmente ser saciada pelo Espírito. “O salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

“Recitando o Credo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da desordem de Babel, daquelas vozes que se chocam uma contra a outra, acontece uma radical transformação: a multiplicidade se faz multiforme unidade, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo, que nos une de todos os ângulos da Terra, que, mediante o Espírito Santo, permite que nos compreendamos, ainda que na diversidade das línguas, por meio da fé, a esperança e o amor, forma-se a nova comunidade da Igreja de Deus.”

É na imutabilidade do Credo que se forma a Igreja de Deus. Não nos confundamos. São muitas as línguas que falam os discípulos do Cordeiro ao redor do mundo, mas o conteúdo da fé é um para todos. Por isso a diversidade de hábitos e costumes ao redor do mundo não pode se tornar argumento para que abdiquemos da pregação do Evangelho. E é aqui que está o verdadeiro sentido da inculturação. Se esta palavra não for plenamente compreendida, pode levar muitos pregadores a mutilarem as palavras do Cristo, a adaptarem as exortações do Senhor às doutrinas dos novos tempos. Esta última atitude não congrega fiéis; apenas provoca cisão dentro da Igreja. Lembremo-nos o que diz o sucessor de São Pedro! É na unidade da Fé que se funda a Santa Igreja. Sim, ela é universal, católica; reúne todos os povos e nações, abarca variadas culturas; mas são todos crentes no mesmo Jesus Cristo que se encarnou, morreu e ressuscitou para que, morrendo para o pecado, pudéssemos receber vida nova.

[O] Espírito Santo anima a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem e da sua capacidade organizativa, posto que se assim fosse já há tempos estaria extinta, assim como passa cada coisa humana. Ela é, ao contrário, o Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo.

(…)

[A] Igreja é católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é o fruto da inclusão sucessiva de diversas comunidades. Desde o primeiro instante, de fato, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; essa abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe, nação; abate todas as barreiras e une os homens na profissão do Deus uno e trino. Desde o início a Igreja é una, católica e apostólica: essa é a sua verdadeira natureza e como tal deve ser reconhecida. Ela é santa, não graças à capacidade dos seus membros, mas porque Deus mesmo, com o seu Espírito, cria-a, purifica-a e santifica-a sempre.

Os primeiros Apóstolos, sozinhos, não eram capazes de levar a cabo a missão que Jesus lhes havia confiado. Mas será que aquele Homem que se entregou por sua Esposa na Cruz a abandonaria depois de ascender aos céus? De modo algum. E é por isso que o Cristo envia à Igreja o Paráclito: para animar a Igreja. A promessa já havia sido feita, como nos relata o evangelista São João. E a promessa divina jamais pode ser desacreditada. É o mesmo Jesus que promete o envio do Espírito Santo aquele que garante que “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18) contra a Igreja. Urge confiarmos nas palavras do Salvador. Nenhum poder humano pode derrotar a Igreja, porquanto esta foi edificada pelo próprio Deus Todo-Poderoso. Se a Santa Igreja Romana derivasse pura e simplesmente da vontade humana, lembra-nos Bento XVI, ela já teria fracassado.

Não há porque desanimar. Deus é conosco. Se estivermos debaixo da autoridade de Pedro, nada precisamos temer. Ali encontramos uma rocha segura. Afinal, é o próprio Deus quem a sustenta.

Rezemos pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, para que continue guiando, com coragem, o rebanho que lhe foi confiado, e para que não pereça ante o escárnio e a zombaria de seus infames inimigos.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

O Espírito Santo: vivificador da Igreja

Neste domingo, encerrando o Tempo Pascal, celebramos a solenidade de Pentecostes. Hoje o Espírito Santo, maior de todos os dons, é dado a Igreja. Hoje a Igreja primitiva nasce do alto e encoraja os Apóstolos, reunidos com Maria Santíssima no Cenáculo. Hoje manifesta-se a pluralidade e, ao mesmo tempo, a universalidade da Igreja em todos os cantos da terra, tendo como cabeça visível Pedro, e hoje o Sumo Pontífice.

Na primeira leitura – ouvimo-la dos Atos dos Apóstolos – é lido: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam… Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2,1-6).

O dia de Pentecostes é um novo marco na história da salvação. Deus santifica a sua Igreja com o Espírito que a todos fortalece e alumia. Não mais as trevas! Não mais o erro! Não mais a violência e a laceração! Somente haverá de reinar agora a luz, a coragem, a sabedoria, o amor. E de onde emanam estes dons que nos afastam de uma realidade contrária a Cristo? De onde emanam estes dons que nos fazem brilhar como luzeiros para o mundo? Emanam daquele que dá-nos o conhecimento de toda a Verdade, isto é, do Paráclito (cf. Jo 16,13), só Ele e só nEle os homens podem encontrar a finalidade de sua existência e o sentido de suas vidas. Só Ele pode nortear os caminhos da humanidade sem que a mesma caia na perdição e esqueça o objetivo primeiro para que foi criada: manifestar a bondade do Criador e louvá-Lo pelos seus feitos.

Com esta leitura vemos a confirmação do Senhor para a atuação constante da Igreja na história da humanidade, e desta forma ela cumpre sua missão de fazer chegar a todos os povos o anúncio salvífico da ação de Cristo na história e da Sua Ressurreição. Do Cristo ressuscitado, e agora ao lado do Pai, emana uma força inédita e vivificante, uma força que impulsiona a Igreja a ser testemunha e a reconciliar os homens com Deus; uma força que é capaz de fazer com que os homens doem sua própria vida em confirmação àquilo que pregaram; acalma o que está turvo, purifica o que está impuro, acolhe o que está disperso; uma força que procede do Pai e do Filho; uma força que reúne o que está dividido.

Mas, cabe-nos perguntar, que unidade é essa? Como ela realiza-se? Deveras, esta unidade não pode jamais ser comparada a unidade de Estados e muito menos ela concretizar-se-á para fins políticos. Não é uma unidade que é resultante deste mundo finito, mas poderíamos dizer que é transcendente. Ela transcende as barreiras do tempo e dos lugares; sobrepõe-se a todos os confins políticos e a todos é dirigida.

Nos sermões de um anônimo autor africano encontramos uma colocação que reflete precisamente a missão do Espírito: “O amor haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. E como naquela ocasião um só homem, recebendo o Espírito Santo, podia falar em todas as línguas, também agora, uma só Igreja, reunida pelo Espírito Santo, se exprime em todas as línguas. Se por acaso alguém nos disser: ‘Recebeste o Espírito Santo; por que não falas em todas as línguas?` devemos responder: ‘Eu falo em todas as línguas. Porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da sua Igreja, que se exprime em todas as línguas. Que outra coisa quis Deus significar pela presença do Espírito Santo, a não ser que sua Igreja haveria de falar em todas as línguas?” (Sermo 8,1-3: PL 65,743-744).

O Espírito Santo não conhece fronteiras! O Espírito Santo possui apenas uma linguagem: O amor; e é no amor que Ele reúne a todos. A primeira leitura, portanto, não manifesta somente a vinda do Paráclito, mas manifesta também que Ele fundou sua Igreja sobre as bases do amor, e fez deste a sua centralidade e o seu idioma. Assim, a Igreja é o contrário de Babel, quando todos os povos falavam uma só língua. Na Igreja falam-se várias línguas – como outrora fora em Pentecostes – mas todos podem entender como se fosse a sua própria língua. Unidade na diversidade, eis o retrato da Igreja.

Lucas observa que o Espírito veio sobre os Apóstolos e Maria, ou seja, veio sobre toda a comunidade ali reunida. Não veio apenas para Pedro, João ou Maria, mas para todos. É também possível vermos que os apóstolos pregaram a todos os povos que se encontravam em Jerusalém: Partos, medos, elamitas, mesopotâmicos, capadócios, pontos e asiáticos, frígios e panfílios, egípcios, líbios, romanos, judeus e prosélitos, cretenses e árabes. O evangelho é para todos! A salvação é para todos! Tantos povos demonstram que a Igreja é uma vasta comunidade e aqueles que nela encontram-se devem demonstrar o espírito de fraternidade, comum a todo cristão. Os discípulos recebem a visita de Jesus de forma inusitada. Com as portas fechadas Ele entra, e estavam as portas fechadas por medo dos judeus. (cf. Jo 20, 19). O Espírito mostra aos apóstolos que eles deveriam enfrentar o vasto campo de missão. Não poderiam eles reter o Evangelho a si e colocarem-se em atitude cômoda. Deveriam vencer o medo e não serem vencidos por ele. Ao doar o Espírito Santo o Senhor abre as portas ao mundo, que outrora foram fechadas. Como Sócrates pensava que o filósofo é alguém que incomoda também o cristão deve incomodar, um incômodo que toque a outros, que converta, que seja sinal concreto de que o que realmente pregamos é o evangelho. A unidade e a coragem tornam-se, então, sinais da presença do Espírito Santo, e quem se fecha em seu mundo, ignorando as necessidades do próximo, demonstra que afastou-se dEle.

O vento impetuoso enche a casa onde se encontravam os discípulos. Hoje, também nós, invocamos este mesmo preenchimento para a Igreja e para nosso interior. Que o Espírito, que é sempre novo, possa renovar o ar que respiramos, revigorando-nos e dando-nos um renovado espírito de caridade. Que a Igreja seja revigorada pelo sopro do vento que a reanima e a faz capaz de continuar testemunhando o Evangelho mediante a hodierna sociedade. Que possamos respirar novos ares em tempos tão conturbados, onde a Igreja é lançada de um lado a outro em alto mar.

Nesta perspectiva de receber novos ares, Jesus sopra sobre os apóstolos o ar da vida que dele procede: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22). Vem Ele acompanhado da paz, não qualquer paz. Para que pudessem conceder a paz aos outros, primeiro os discípulos receberam-na de Cristo, pois esta paz é aquela que só Cristo, por meio do Seu Espírito, pode conceder. Uma paz que também é transcendente, que é dom para a vida eterna, comprada com o Seu sangue. A Igreja é a primeira a fazer com que essa paz chegue a todos os povos, e ela nunca pode esquivar-se desta sua missão.

Hoje queremos invocar a intercessão de Maria Santíssima, pois se “não há Igreja sem Pentecostes…  não há Pentecostes sem a Virgem Maria” (Bento XVI, Regina Coeli, 23 de maio de 2010), Façamos da Igreja um novo cenáculo, repetindo o incessante clamor: “Domine, emitte spiritum tuum et renova faciem terrae – Enviai o vosso Espírito Senhor, e renovai a face da terra”.

Meditações sobre as Cartas Paulinas – 1ª Tessalonicenses, Cap. 1

Estamos iniciando o estudo do corpo da Carta Paulina aos Tessalonicenses. Hoje gostaria de falar do capítulo 1º.

Como podemos ver logo no começo, dirige-se à comunidade de Colossos, não somente Paulo, como também Silvano e Timóteo, como eles mesmos definiram: “À igreja dos tessalonicenses reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (v. 1). Conforta-nos, de certa forma, saber que Paulo não dirigia-se a indivíduos isolados, mas a uma comunidade de fé, reunida em Deus, por meio de Jesus Cristo. Garante suas orações pela comunidade e deseja-lhes graça e paz, de todo o coração sabemos que ele no-lo faz. Nutria, verdadeiramente, um sentimento de alegria pela comunidade.

Lembramo-nos da ação de vossa fé, do esforço de vosso amor e da constância de vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 3).

O cristão ama! Esta verdade percorre dois mil anos com tamanha vivacidade. Não é um amor puramente sentimental, que restringe-se aos limites humanos. É um amor que plenamente se realiza em Deus. E poderíamos dizer que vai além: Um amor que é Deus. Que cativa a todos os homens não por bens materiais, ou por posses e títulos, mas por Sua Palavra, por Seu Filho, que, morrendo na cruz, destruiu todo o pecado, e nos inseriu no seu mistério de salvação. É preciso, não obstante, que deixemo-nos cativar por Ele, e não buscar impô-Lo em nossas ideologias, ou adaptá-Lo aos nossos sentimentos.

No versículo 6, porém, Paulo fala algo que me chama particular atenção: “Vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”.

Destas informações podemos fazer diversas analogias com nossos dias. Em primeiro lugar, o termo “imitadores nossos e do Senhor”. Devemos então centrar-nos um pouco aqui. Imitar! Como esta palavra é tão mais realista em nossos dias, e para nós cristãos. É preciso que nos tornemos imitadores. Imitadores na radicalidade, capazes de renunciarmos tudo para abraçar o ideal de Jesus Cristo, o qual Paulo abraçou e jamais se desapegou deste.

Porém, por vezes, parece que este imitar sente-se abalado mediante as divergências e oportunismos que figuram-se no mundo. Somos chamados a acolher a Palavra, e acolhendo-a então, poderíamos sentir-nos firmes, permeados da fortaleza que Deus nos concede dia a dia, ainda que mediante as dificuldades, possamos nos fixar unicamente no Evangelho. Um Evangelho que não é um conjunto de ideologias, mas é muito mais que isso: é o próprio Jesus Encarnado que faz-se Palavra de vida eterna. Só estando com Cristo poderemos ter plena força, e só então os homens poderão transcender. E esta transcendência não será apenas aparente, mas dar-se-á no interior, quando os homens não irão buscar mais o ter, e sim o ser.

Também nos é possível fazer uma associação com as palavras do Senhor, que nunca cessam de ressoar: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23).

Precisamos ter em mente, primeiramente, que estas palavras salvíficas, de certa forma, exprimem um intrínseco imitar. Aquele que imita a Cristo, aquele que deseja fazer de sua vida um modelo de santidade, deve também carregar sua cruz. Não se pode esperar que nosso seguimento e doação total a Ele não tenha reação por parte de uma sociedade subjetivista.

Em segundo lugar, centremo-nos nas palavras “acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”. Tribulações! E quantas vezes elas se põem no caminho do cristão! Quanto mais nos dedicamos ao anúncio do Evangelho, mais somos tentados a estarmos contra ele, a fazermos o que não nos é permitido. Parece-nos também paradoxal esta afirmação de São Paulo. Como pode alguém na tribulação, possuir a alegria?

A resposta para tal pergunta poderemos encontrar ao longo de toda a Sagrada Escritura. Precisamente no sofrimento, na tribulação, quando já não sentimos que Deus está conosco, aí então Ele se manifesta de uma forma forte, capaz de mover-nos, mesmo em nossos sentimentos mais profundos, seja de ódio ou de angústia; e no lugar dá-nos a alegria, vinda do Espírito, que atinge a cada um de forma diferente, mas com a mesma finalidade: tornar-nos cidadãos do céu. Alegria esta que nos impulsiona a sermos autênticas testemunhas do Evangelho. Testemunhando-o, antes de tudo, com nossa vida.

No capítulo 10, Paulo refere-se, pela primeira vez, à Parusia de Jesus Cristo. Escreve ele: “Pois todos contam como fomos recebidos por vós e como, virando as costas aos ídolos, vos voltastes para o Deus vivo e verdadeiro e vos pusestes ao seu serviço, na espera do seu Filho, Jesus, que ele ressuscitou dentre os mortos e que virá dos céus para nos arrancar da ira que vem vindo”.

Os tessalonicenses viraram as costas para os ídolos. Viremos também nós as costas para os ídolos que impregnam de forma maléfica a nossa sociedade. Voltemo-nos contra a ganância e o poder do consumismo; voltemo-nos contra as drogas e o uso desregrado do dinheiro; voltemo-nos contra os vícios e prazeres carnais, fora dos ensinamentos evangélicos.

Sigamos unicamente o Deus vivo e verdadeiro, que é capaz de confortar-nos e de nos abrir as portas para as eternas alegrias. Um Deus que nos ama sinceramente pelo que somos, e não pelo que possuímos. Deus que envia Seu Filho único para a Redenção do mundo, e para nos livrar dos abismos que nossos pecados causaram. Que o mundo se abra a Jesus Cristo e experimente o seu incomensurável amor por cada um de nós. Que o mundo se abra à verdadeira libertação, que não redime o homem por meio de seus bens, mas o liberta unicamente por Cristo Senhor.

O Ressuscitado, conforme diz São Paulo, vai nos “arrancar da ira que vem vindo”. Mas que ira seria esta?  Poderíamos associá-la ao Juízo Final, último acontecimento da obra Salvadora de Jesus Cristo. Não se expressaria exatamente pelo termo ira, seria demasiado pesado para nós; porém, para a comunidade da época, assim São Paulo no-la associou, visto que os pecados excediam, não a misericórdia de Deus, pois ela é verdadeiramente incomensurável, e o próprio Jesus atesta a Santa Faustina: “A falta de confiança das almas dilacera-Me as entranhas. Dói-me ainda mais a desconfiança da alma escolhida. Apesar do Meu amor inesgotável, não acreditam em Mim, mesmo a Minha morte não lhes é suficiente. Ai da alma que deles abusar!” (Diário de Santa Faustina, 50).

Portanto, também vemos uma perspectiva escatológica nestes textos. Que a nossa preparação para o advento definitivo do Senhor não seja apenas por temor do inferno ( = morte eterna), mas, sobretudo, por reconhecimento ao Amor de Jesus, que não faz distinções, e deveras olha a todos igualmente.

Peçamos neste dia a intercessão de Santa Isabel da Hungria, Padroeira da Ordem Franciscana Secular. Dela nos diz o Santo Padre Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Ratzinger:

“O que fez foi realmente viver com os pobres. Desempenhava pessoalmente os serviços mais elementares do cuidado com os doentes: lavava-os, ajudava-os precisamente nas suas necessidades mais básicas, vestia-os, tecia-lhes roupas, compartilhava a sua vida e o seu destino e, nos últimos anos, teve de sustentar-se apenas com o trabalho das suas próprias mãos.(…)

Deus era real para ela. Aceitou-o como realidade e por isso lhe dedicava uma parte do seu tempo, permitia que Ele e sua presença lhe custassem alguma coisa. E como tinha descoberto realmente a Deus, e Cristo não era para ela uma figura distante, mas o Senhor e o Irmão da sua vida, encontrou a partir de Deus o ser humano, imagem de Deus. Essa é também a razão por que quis e pôde levar aos homens a justiça e o amor divinos. Só quem encontra a Deus pode também ser autenticamente humano”. (Da homilia na igreja de Santa Isabel da Hungria de Munique, em 2 de dezembro de 1981).

“Eis que os céus se abriram…”

“Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus” (Mt 3, 16), diz o Evangelho. Sim, o Senhor pôs no Seu Servo toda a Sua complacência. A foto abaixo foi publicada no Fratres in Unum e dispensa mais comentários.

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Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus (Mt 3, 16)

Vós sempre resistis ao Espírito Santo

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Martírio de Santo Estevão, por Gustave Doré

“Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam os vossos pais, assim procedeis vós também! A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram os que prediziam a vinda do Justo, do qual vós agora tendes sido traidores e homicidas. Vós também que recebestes a lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes…”.

(Livro dos Atos dos Apóstolos, 7, 51-53)

O discurso acima proferido é de Santo Estevão. Segundo a Tradição bíblica ele é o primeiro mártir da Igreja. Celebramos, no dia de hoje, a sua memória. Suas palavras são muito importantes, não somente no contexto daquela época, mas também para nós nos dias de hoje: Vós sempre resistis ao Espírito Santo. O Espírito Santo, através da Igreja, fala aos nossos corações, mas muitas vezes resistimos à voz do Papa, dos santos doutores da fé, e dos próprios autores sagrados. Quantos católicos, movidos pelo espírito do egoísmo e da individualidade, pensam que podem promulgar seus próprios dogmas e fazer da sua fé aquilo que bem entenderem! Quantos cristãos ainda procedem injustamente e, com seus pecados, destroem o amor e a graça de Deus, adquirida por Cristo a preço de sangue para a nossa salvação! Resistimos, de todos esses modos, ao dom de Deus, à Sua graça. Fomos, de fato, remidos. Mas não queremos aceitar a remissão. Cristo nos conduz ao céu. Mas não queremos pegar na sua mão…

Não são somente as palavras de Estevão que nos comovem e nos impelem a agirmos de maneira diferente. O testemunho do seu martírio é sempre um convite cada vez mais forte ao amor total que devemos doar a Cristo e à Sua Igreja. Até na morte é preciso imitar a Cristo, nos ensina esse grande mártir da Igreja. Enquanto era apedrejado, dizia: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7, 59). E logo após, de joelhos, clamou, perdoando seus inimigos: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado…” (At 7, 60). O ato de doar-se inteiramente pelo Reino é um reflexo do nosso amor a Deus e também do nosso amor aos homens, desdobramento real da nossa fé no Altíssimo. Estevão, ao pedir perdão pelos pecados de seus assassinos, cumpria santamente aquela exortação de Nosso Senhor: “Amai vossos inimigos; (…) orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5, 44).

O martírio, aos olhos do mundo, é estupidez. Em um mundo onde o ato de se acomodar é cada vez mais idolatrado, o sacrifício – mesmo que por uma causa nobre – é banalizado e considerado “perda de tempo”. Precisamos resistir a esse modismo mundano que quer nos precipitar cada vez mais no abismo da infidelidade. Se amamos verdadeiramente a Deus e queremos buscar a salvação, temos que buscar viver o Evangelho de todas as maneiras. O brado bíblico é desafiador: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5). Busquemos viver o amor a Deus. E não resistamos ao Espírito Santo. Desgastemo-nos pelo Reino dos céus. Soframos. Lutamos. Se for preciso morrer por essa fé, disponhamo-nos. O Senhor quer servos que O amem, mas que O amem de verdade, até na hora da morte.

Santo Estevão,
rogai por nós!