A especialidade da Liturgia dominical do dia 6 de junho de 2009 está totalmente ligada a um dos maiores mistérios da nossa fé: a Santíssima Trindade. É fundamentado nesse dogma que o católico, quando faz o Sinal da Cruz, professa a existência do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Esse mistério de ver um Deus trino e ao mesmo tempo uno está explicado nas Escrituras de uma maneira implícita. Coube à Igreja aprofundar esse tema; e ela o fez devidamente por meio do seu Sagrado Magistério.

Verdadeira felicidade
A primeira leitura, do Livro do Deuteronômio, está introduzida no contexto do Antigo Testamento. Moisés, personagem famoso da Sagrada Escritura, depois de narrar tudo o que o povo de Israel tinha passado, com a graça de Deus, diz ao povo que ele devia gratificá-Lo por tudo o que fez em seu favor. Diz o profeta:
“… terá jamais algum Deus vindo escolher para si um povo entre as nações, por meio de provações, de sinais e prodígios, por meio de combates, com mão forte e braço estendido, e por meio de grandes terrores, como tudo o que por ti o Senhor vosso Deus fez no Egito, diante de teus próprios olhos?” (Dt 4,34)
É voltando atrás, investigando o passado, que observamos quão grandes são as maravilhas que Deus realiza em nossa vida. Moisés, mesmo sabendo que isso havia acontecido (passado) põe o verbo em que pronuncia suas palavras não só no passado, mostrando que Deus age agora: Ele não é o Deus do ontem, do passado, mas do hoje. Isso significa que Ele está a querer realizar em nós incessantemente aquele milagre que domingo passado celebramos: Pentecostes. O Espírito Santo, terceira pessoa da Trindade, Deus, quer agir em nós todos os dias e não só num dia isolado de todos os outros.
Esse hoje quer denotar a ação de Deus e ao mesmo tempo a nossa atitude como cristãos, como filhos de Deus renovados. É preciso praticar a Palavra de Deus hoje, como um símbolo da nossa união com Ele. Se Ele age em nós todos os dias, somos capazes de praticar a Sua Palavra também todos os dias. Perseverar no amor de Deus, nos dias de hoje, é muito difícil e só conseguimos realizar essa meta se caso renovarmos o Pentecostes em nossa vida a cada momento. Na dor, na aflição, na tristeza, na tribulação, na alegria, na felicidade, é preciso sempre invocar a graça de Deus para que, por meio de Seu Filho, nos envie o Seu Espírito e assim possamos proclamar: Espírito Santo, vinde!
“Reconhece, pois, hoje, e grava-o em teu coração, que o Senhor é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele” (Dt 4,39). Com essas palavras, Moisés ‘comprova’ a oração do PAI NOSSO, cuja estrutura estamos a meditar aqui no blog. Quando dizemos “seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”, estamos proclamando o senhorio de Jesus na Terra – em nossas atitudes e princípios – e no Céu – na Sua justiça e no Julgamento final. Não basta, ainda na fala de Moisés, saber que Deus O é lá em cima e cá embaixo; é preciso reconhecer e gravar ISSO em nosso coração. “Saber”, “reconhecer” e “gravar no coração”, com efeito, são processos diferentes: enquanto saber não exige nenhuma persuasão da pessoa que sabe, ou seja, quem sabe se convence que aquilo é verdade, no entanto, não se adepta a essa verdade, reconhecer constitui justamente essa adequação à verdade revelada. Gravar no coração, nesse processo de amadurecimento, é algo ainda mais profundo, pois revela um reconhecimento de fé e de caridade, de atitude.
Ao mesmo tempo, saber, reconhecer e gravar no coração que “Deus é Deus em todo lugar” e que Ele é o Único Deus verdadeiro são passos que todo cristão devia dar para conhecer de fato a verdadeira natureza do Senhor, o que Ele realmente é. Muitas pessoas, de fato, têm uma visão errada sobre Deus, sobre Sua Igreja, sobre os seus ensinamentos. Só assim, gravando no coração o conceito certo de Deus, o homem poderá achegar-se a Ele e salvar-se. O homem não está no centro, como professavam os “homens modernos”; quem está no centro é Deus e Ele é o Centro. Não é uma invenção minha ou arrogância divina; é a verdade.
E como só podemos ser felizes conhecendo a Deus e à sua verdade, Moisés termina dizendo: “Guarda suas leis e seus mandamentos (…) para que sejas feliz” (Dt 4,40). Muitas vezes ouvimos, de pessoas que não professam a fé cristã, palavras do tipo: “Vocês, religiosos, vivem uma vida infeliz, triste e inútil porque não aproveitam a vida…”. Sabemos, com efeito, que o mundo criou uma imagem muito deturpada do que é aproveitar a vida: seria transar com quantas mulheres fosse preciso para se ter fama. É essa a realidade, pelo menos quando se fala do setor masculino. Tiveram a coragem de perguntar pra mim: “Você vai ser padre, mas, antes vai ‘aproveitar a vida’?” E eu: “Como assim aproveitar a vida”? Já esperava aquela resposta, mas era decepcionante demais.
Viver feliz, hoje, é sinônimo de fazer o que bem entender. E quando não se faz isso, então se é apelidado de atrasado, bobo, igual todo mundo. Mas que lembremo-nos das palavras verdadeiras da Santa Bíblia: para sermos feliz, precisamos guardar os mandamentos de Deus. Veja: Moisés não falou de ter fé ou coisa parecida. Ele falou de atitude. Portanto, a felicidade é uma conseqüência dos nossos atos. Aquilo que praticamos tem um fim e, caso estamos praticando o que nos pede o Senhor, então, caminhamos para a felicidade, a verdadeira felicidade.
Filhos amados de Deus
“Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”, diz São Paulo na segunda leitura hoje, encontrada em Romanos 8,14-17. Ao mesmo tempo em que isso mostra a estreita relação que há entre o Pai e o Espírito, respectivamente 1ª e 3ª pessoas da Trindade, revela a nós a importância de nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo. É isso o que dizia Moisés na primeira leitura: cumprir os mandamentos de Deus. Na carta aos romanos, de um modo especial, São Paulo mostra a diferença em “viver pela Lei” e “viver pelo Espírito”. Com efeito, ele não quer fazer uma distinção entre “Lei” e “Espírito”, como, a primeira vista, se pode pensar. Aqui ele demonstra que, a partir de Jesus, o homem não vê a lei como algo difícil de ser cumprido. Antes de cumpri-la, contudo, invoca o Espírito Santo para que possa guardar os mandamentos do Pai.
Para sermos mesmo chamados filhos de Deus, é preciso, portanto cumprir o que Ele nos manda. O sinal dum filho verdadeiro e considerado está na sua obediência. A desobediência, no entanto, não nos torna menos ou mais filhos de Deus, como esse trecho da leitura pode dar a entender. Prova disso é a parábola do filho pródigo. O filho que foi embora, mesmo desobediente, afastado da vontade de Deus, não deixou de ser filho de seu pai. Pelo contrário, Deus está sempre de braços abertos, a nos amar, esperando a nossa conversão, a nossa obediência. Somos filhos de Deus mesmo não agradando a Ele. Todos o somos. Mas Paulo vê a necessidade de enfatizar que especialmente aqueles que praticam Sua Palavra o são de corpo e coração.
Depois desse versículo, São Paulo diz que não recebemos espírito de escravo, mas de filho. É preciso pôr em avaliação, nesse momento, o que diferencia o escravo do filho. O escravo é obrigado a cumprir a Lei enquanto o filho aprende a cumprir a Lei e a pratica de livre e espontânea vontade. Essa é a diferença entre os dois! Não pensemos que ser filho nos torna capazes de fazermos o que bem entendermos. Não! Ambos – tanto filho como escravo – cumprem a Lei. No entanto, os dois de modos diferentes. Enquanto um é guiado pela opressão, outro é guiado pelo Espírito Santo de Deus. São Paulo quer dizer que, pela Paixão e Ressurreição de Cristo, somos novas pessoas, “livres da Lei”: ela agora não mais representa um fardo, uma carga pesada a se carregar. O Espírito é o auxílio que precisávamos para que pudéssemos cumprir a Lei de modo pleno. Na Lei imperfeita do Velho Testamento, nada muda, no entanto, tudo é levado à perfeição. E assim o homem se torna capaz de, pelo Espírito Santo, guardar TODA a Lei.
Se somos filhos, completa São Paulo, também somos herdeiros. Como vos disse, todos somos filhos. No entanto, ser herdeiro e receber a herança são duas diferentes dimensões. Para recebermos a herança, que é um direito que todos temos, é preciso “sofremos com ele (…) para sermos também glorificados com ele” (Rm 8,17). Sofrer com Jesus Cristo significa passar por tudo o que ele passou e, portanto, viver como Ele viveu. É SER SANTO! Somos todos herdeiros, filhos do Pai Celeste. Se queremos de fato receber a herança que Ele tem a nos dar, precisamos nos compromissar com Sua vontade e sua Palavra, que são, no sentido literal da palavra, vida e vida em abundância.
Essa vida que o Senhor tem a nos dar por meio de sua herança já nos é dada aqui na terra por meio da felicidade descrita na primeira leitura e que recebemos com a presença de Jesus. Ora, Ele ao céu não se elevou? Sim. Mas sua presença, pelo Espírito Santo, aqui se perpetua: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Deus não abandonou seu povo, seus filhos. Por meio do Espírito Santo, que age na Igreja Católica, deixou-nos uma fonte plena de verdade, que podemos confiar.
Geremos em nosso coração uma confiança capaz de criar a verdadeira felicidade. Não, não queremos a felicidade que o mundo nos dá. Como “cidadãos do Céu” e filhos do Pai Celeste, exigimos nossa herança e lutamos por esse “passaporte” a cada dia, negando sem parar o que o mundo nos quer conceder. Roguemos à Santa Virgem que implore a Jesus, seu Filho, por cada um de nós, pecadores. É só buscando apoio em Jesus e na Sagrada Mãe Maria que vamos achegar-nos a Deus.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Graça e paz.
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