Küng: contra a unidade e a santidade da Igreja

A nova do teólogo suíço Hans Küng foi aderir ao sedevacantismo. O professor – amigo de Ratzinger, mas não da doutrina católica – está revoltado com uma possível reconciliação entre a Igreja Católica e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Ele questiona inclusive a validade da sagração episcopal dos quatro bispos da Fraternidade. “Em vez de se reconciliar com essa irmandade ultraconservadora, antidemocrática e antissemita, o papa deveria se preocupar com a maioria dos católicos que está pronta para as reformas e com a reconciliação com todas as Igrejas reformadas e com todo o âmbito ecumênico”, afirmou Küng, em entrevista concedida ao jornal La Repubblica e publicada, na íntegra, pelo IHU Online.

Além de sugerir a Bento XVI o que ele deve fazer como Papa, Küng comentou o recente escândalo do vazamento de notícias confidenciais do Vaticano. “É triste quando, justamente coincidindo com a festa do Espírito Santo, ficamos sabendo, no Vaticano, de tantos eventos e comportamentos ocorridos lá, que na verdade não são exatamente algo santo nem sagrado”, disse.

Ora, não é nenhuma novidade que a Igreja “é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio” (Paulo VI, Credo do povo de Deus, n. 19). Pecados e misérias na Cúria Romana existem desde os tempos do infame João XII ou do corrupto Alexandre VI. O que não pode fraquejar com isso é a nossa fé na Igreja, no fato de que nosso Senhor prometeu permanecer com os seus discípulos até o fim dos tempos, na promessa que ele fez a São Pedro de que as portas do inferno não prevaleceriam sobre Sua Igreja (cf. Mt 16, 18).

A propósito, não é atitude digna de um católico ficar apontando os erros da Igreja e as limitações dos Seus membros. “Não é coerente com a fé cristã – lembra São Josemaría Escrivá -, não crê verdadeiramente no Espírito Santo quem não ama a Igreja, quem não tem confiança n’Ela, quem só se compraz em apontar as deficiências e as limitações dos que a representam, quem a julga de fora e é incapaz de se sentir seu filho.”

Mas, ora, o que estamos dizendo? Hans Küng deixou de ser católico há um bom tempo. Desde quando negou o dogma da infalibilidade papal e perdeu a licença de lecionar teologia católica. Para falar em nome desta Mãe que é a Igreja, precisa fazer um longo caminho de volta à verdadeira Fé. Só que aparentemente não é isto que Küng quer. Uma pena.

Hans Küng analisa o pontificado de Bento XVI

http://beinbetter.files.wordpress.com/2009/02/hans-kung.jpg?w=240&h=423&h=337Enquanto o sucessor de Pedro celebrava ontem sua natividade, o heterodoxo teólogo Hans Küng enviava uma carta aos bispos do mundo inteiro. Na carta, o suíço qualificou o pontificado de Bento XVI como o das oportunidades desperdiçadas. Segundo ele, o Papa regrediu e voltou aos ensinamentos pré-conciliares – como se o Concílio Vaticano II tivesse representado ruptura com os 2000 anos de Tradição Apostólica -, sem falar da sua resistência em aderir aos projetos de anticoncepção já proibidos e condenados por Paulo VI na famosa Humanae Vitae. Enfim, de uma maneira geral, o que Küng quer é que o Papa modernize a Igreja, não somente na forma como ela anuncia o Evangelho; quer o teólogo que o Papa mude inclusive o conteúdo de nossa fé, algo simplesmente inaceitável.

Ao falar das oportunidades desperdiçadas, cita a oportunidade do entendimento com os judeus. Segundo ele, o Papa errou quando “readmitiu na Igreja os bispos cismáticos notoriamente antissemitas” e também quando “impulsionou a beatificação de Pio XII”. Isso teria feito com que a Igreja só começasse a levar “a sério o judaísmo como raiz histórica do cristianismo, não como uma comunidade de fé que perdura e que tem um caminho próprio para a salvação”. Sobre a retirada das excomunhões dos bispos da FSSPX, Bento XVI já havia explicado que a intenção dele não era entrar “em contradição” com o Concílio Vaticano II, não era negar a autoridade do mesmo e nem se associar a Dom Williamson na sua ideia de negar o Holocausto, uma vez que o Santo Padre não tinha consciência das suas declarações.

Por ocasião da retirada das excomunhões em março do ano passado, escrevia o Sumo Pontífice: “Poderá deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade [no caso, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X] onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deixá-los andar à deriva longe da Igreja?” A atitude do Papa foi movida pelo zelo pastoral, e não pelo desejo de retroagir no Concílio, já que o Santo Padre tem consciência do compromisso do Vaticano II com os dois mil anos de história da Igreja.

Outra oportunidade desperdiçada, segundo Hans Küng: a de manter um diálogo sólido com os muçulmanos. O teólogo suíço lembra o memorável discurso do Santo Padre na Universidade de Regensburg, dizendo que, nele, o Papa teria caracterizado “o Islã como a religião da violência e da desumanidade, atraindo assim a permanente desconfiança dos muçulmanos”. O problema criado naquela ocasião não foi relacionado às palavras do Papa, mas à interpretação delas, já que o Papa queria condenar “a difusão da fé mediante a violência”, e não necessariamente a religião islâmica. Ao dizer “Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas”, o Sumo Pontífice citava uma frase do imperador Manuel II; não queria dizer necessariamente que ele concordava com a afirmação dele. Muito pelo contrário. Antes de proferir a frase desse imperador, afirmou que a afirmação é tão brusca que se torna inaceitável. Está claro que as palavras do Papa não estavam erradas; foram somente mal interpretadas.

Ainda na lista de “oportunidades perdidas”, Küng cita o grande prejuízo que o Papa teria infligido à humanidade condenando o uso de camisinha na África onde os casos de AIDS se multiplicam de modo gigantesco. O teólogo brada inconformado como se a camisinha representasse uma solução para os povos da África… Em lugares onde há epidemia da Síndrome da Imunodeficiência Humana, o uso de preservativos simplesmente não é eficaz, conforme afirmou um especialista, Edward Green. Segundo ele, “só um comportamento sexual responsável pode fazer frente à pandemia”. Além disso, a missão da Igreja é sobretudo ser fiel ao Evangelho de Cristo. Por isso, o Papa condena a promiscuidade sexual e combate o uso de preservativos. Há uma mentalidade de permissivismo sexual presente nesses métodos anticoncepcionais que não está de acordo com a doutrina da Igreja.

Por fim, Küng aponta o Papa como “inimigo da ciência moderna”. Cita, nesse aspecto, o uso de embriões para pesquisas com células-tronco. Mas, será que a ciência está a favor ou contra o ser humano? A ciência está a serviço da dignidade do homem ou é o homem quem está subordinado à ciência?

O Hans Küng quer – está provado – é que uma mudança completa seja feita no cristianismo. Ele quer o fim do celibato clerical, muito embora a sábia tradição da Igreja tenha encontrado nessa norma disciplinar um tesouro inestimável de riquezas espirituais; ele quer um ecumenismo relativista, que reconheça as crenças nãocristãs como verdadeiras e sacrossantas; quer a liberação do uso de preservativos, e, consequentemente, a mudança das normas da Igreja no que se refere à castidade… Ou seja, ele quer que a religião cristã se adapte às paixões do homem moderno. Definitivamente não dá pra levar nenhuma dessas proposições a sério, não enquanto elas estiverem fundamentadas simplesmente em um desejo desordenado de modernizar, como se a Igreja fosse uma instituição revolucionária.

As críticas de Hans Küng não têm nenhum fundamento sólido. Quem entende seu trabalho teológico como um serviço à Igreja mas prefere estar em constante desobediência com o Papa, acaba se tornando incoerente e hipócrita.

Rezemos pelo Santo Padre, para que continue guiando com coragem e fé a Santa Igreja; resista às críticas que lhe fazem a mídia, os ateus e até mesmo seus amigos. Também pela conversão dos revoltosos, rezemos. Que encontrem a luz de Cristo em meio à escuridão da desobediência.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

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Leia mais: Ainda ele?!, do blog Credo in Ecclesia.

O celibato e os abusos sexuais

http://www.asj.org.br/files/images/790_padre.jpgLamentáveis escândalos sexuais no clero da Alemanha, que foram noticiados pela mídia global recentemente, trouxeram à tona, ao seio da Igreja Católica, uma antiga discussão: seria o celibato a causa da existência desses abusos sexuais?

Para Hans Küng não há dúvidas: “Com a mesma franqueza para abordar, enfim, de peito aberto a questão dos próprios abusos sexuais, seria preciso enfrentar a discussão da sua causa essencial e estrutural: a regra do celibato.” O teólogo suíço afirmou ainda, em artigo para o jornal Le Monde, que a regra do celibato é a “raiz de todos os males”. “[A] obrigação do celibato constitui hoje a causa principal do déficit catastrófico no número de padres, do abandono – carregado de consequências – da prática da comunhão e, em muitos casos, do desmoronamento da assistência espiritual personalizada”, concluiu.

Outro que tem opinião semelhante é o Cardeal Schönborn, arcebispo de Viena: ele disse que, entre as causas dos abusos sexuais, figuram “a educação dos sacerdotes, assim como as consequências da revolução sexual da geração de 1968 e o celibato como desenvolvimento pessoal”. O cardeal pediu uma “mudança de visão” sobre o celibato. Também falou sobre o assunto o jornalista italiano Luigi Accattoli, em artigo publicado em jornal italiano, traduzido e publicado no IHU. Segundo ele, a extinção do celibato clerical está cada vez mais próxima.

Citações a parte, culpar o celibato pela existência de abusos sexuais não é somente uma atitude equivocada, mas uma opinião bastante reducionista. O que verdadeiramente provoca esses escândalos não é o celibato sacerdotal que é, em si, uma dádiva de Deus, um presente maravilhoso. O problema está principalmente na visão que o mundo moderno tem dessa norma da Igreja. É frequente, por exemplo, vermos os meios de comunicação tratando o celibato, a castidade, como se fossem decisões que nos aprisionam, que nos fecham e nos reprimem psicologicamente. Essa ideia equivocada da vida celibatária infelizmente prejudica a conduta sexual de alguns sacerdotes, que, impelidos a pensar que não serão fortes para vencer as tentações que o mundo lhes oferece, acabam perdendo a confiança em Deus e cedendo às paixões desordenadas.

O celibato oprime? Não é isso o que nos ensina a Tradição da Igreja; não é isso o que nos mostra o testemunho da vida dos santos. O celibato, como entrega fiel a Deus, não aprisiona o homem. Muito pelo contrário: enriquecido com a constante graça sobrenatural, com a oração e a mortificação, é um canal que liberta o homem e o faz cada vez mais parecido a Nosso Senhor, Sumo Sacerdote. Diz o Concílio Vaticano II sobre o celibato no sacerdócio:

“Pela virgindade ou pelo celibato observado por amor do reino dos céus, os presbíteros consagram-se por um novo e excelente título a Cristo, aderem a Ele mais fàcilmente com um coração indiviso, n’Ele e por Ele mais livremente se dedicam ao serviço de Deus e dos homens, com mais facilidade servem o seu reino e a obra da regeneração sobrenatural, e tornam-se mais aptos para receberem, de forma mais ampla, a paternidade em Cristo.”

- Presbyterorum Ordinis, n. 16

Então, onde está o problema? Como foi dito anteriormente, o problema está na visão que as pessoas têm do celibato. O Papa destacou, em discurso aos sacerdotes participantes do Congresso Teológico, a importância de “compreender e reafirmar, (…) em nossos dias, o valor do sagrado celibato”. Como a mídia distorce o valor do celibato! Como o mundo desrespeita esse dom sagrado de Deus! É preciso que resgatemos o verdadeiro sentido do celibato e da virgindade consagradas. O papa Pio XII fala delas como um “[d]os mais preciosos tesouros deixados como herança à Igreja pelo seu Fundador” (Sacra Virginitas, n. 1). Ainda nessa encíclica o Venerável Papa faz uma veemente exortação, deixando claro que a castidade não é nociva ao organismo humano:

“Infelizmente, depois do pecado de Adão, as faculdades e as paixões do corpo, estando alteradas, não só procuram dominar os sentidos mas até o espírito, obscurecendo a razão e enfraquecendo a vontade. Mas é-nos dada a graça de Cristo, especialmente nos sacramentos, para nos ajudar a manter o nosso corpo em servidão e a viver do espírito (cf. Gl 5, 25; 1 Cor  9, 27). A virtude da castidade não exige de nós que nos tornemos insensíveis ao estímulo da concupiscência, mas que o subordinemos à razão e à lei da graça, esforçando-nos, segundo as próprias forças, por seguir o que é mais perfeito na vida humana e cristã.”

“Para conseguir, porém, o domínio perfeito do espírito sobre a vida dos sentidos, não basta abstermo-nos apenas dos atos diretamente contrários à castidade, mas é absolutamente necessário renunciar com generosidade a tudo o que ofende de perto ou de longe esta virtude: poderá então o espírito reinar plenamente no corpo e ver a sua vida espiritual em paz e liberdade. Quem não verá, à luz dos princípios católicos, que a castidade perfeita e a virgindade, bem longe de prejudicarem o desenvolvimento normal do homem e da mulher, os elevam pelo contrário à mais alta nobreza moral?

- Pio XII, Sacra Virginitas, n. 34-35

“A castidade perfeita e a virgindade, bem longe de prejudicarem o desenvolvimento normal do homem e da mulher, os elevam pelo contrário à mais alta nobreza moral”. As palavras do Papa Pio XII são bastante válidas para os nossos dias. Não é preciso extinguir o celibato, mas sim educar os nossos sacerdotes numa visão correta da sexualidade, para que se sintam vivamente amparados pela graça de Deus, em constante oração e devoção a Nossa Senhora. “Ah, como fogem os demônios à presença de Nossa Senhora!”, exclama Santo Afonso de Ligório. Tenham os sacerdotes constante confiança em Maria. Que eles recorram constantemente à sua poderosa intercessão, que os livra e afugenta de todos os males.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

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Leia também: Celibato e pedofilia, do blog O Possível e O Extraordinário.