Dez curiosidades sobre a história dos conclaves

Fonte: Religión en Libertad – Tradução: Ecclesia Una | Enquanto esperas a fumaça branca com teus amigos e parentes, podes comentar algum destes pontos e parecer um autêntico especialista em história eclesial.

1) A forma de eleger um Papa que se manteve durante mais tempo foi a eleição “por aclamação” do clero e do povo romano. Em 1996 João Paulo II eliminou definitiva e formalmente esta possibilidade da legislação eclesial, mas resta algo dela na simbologia de aparecer na sacada diante da multidão – hoje em dia, internacional, mas ainda romana – na Praça de São Pedro.

2) Em 1059 os cardeais se converteram nos principais eleitores do Papa, mas até assim os leigos e clérigos de Roma mantinham um direito de confirmar a eleição.

3) Foi só em 1179, no III Concílio de Latrão, que a Igreja assumiu que o Papa seria eleito pelo voto de dois terços dos cardeais. Também Bento XVI, durante seu pontificado, voltou a estabelecer esta maioria de dois terços (que seriam 77 votos dos 115 que há no Conclave de 2013).

Foto de um dos conclaves de 1978. No detalhe, o Cardeal Joseph Ratzinger, terceiro cardeal da direita para a esquerda.

Foto de um dos conclaves de 1978. Em detalhe, o Cardeal Joseph Ratzinger, terceiro cardeal da direita para a esquerda.

4) O primeiro Conclave propriamente dito aconteceu em 1271 e não por decisão eclesial, mas por imposição popular. Durante 3 anos a Igreja ficou sem Papa, e o povo de Viterbo, onde estavam reunidos os doze cardeais, estava farto. Colocaram-nos juntos trancados e impediram-lhes de sair até que elegessem um Papa. Ao fim de alguns dias, como os cardeais se negavam, racionaram a sua comida a pão e água. Até tiraram o teto para que experimentassem o frio e a umidade.

Acabaram elegendo Gregório X, hoje beato. Como podia, no II Concílio de Lião, em 1274, Gregório, a partir do ocorrido em Viterbo, estabeleceu as normas do Conclave, incluindo uma norma que obriga a alimentar os cardeais só com uma comida se depois de 3 dias não se colocassem de acordo, e a pão e água a partir do oitavo. Ordenava que o Conclave começasse 10 dias depois da morte do Papa.

5) Os cardeais podem eleger qualquer homem batizado em uso da razão. Gregório X não era sacerdote quando foi eleito em 1271. Com toda a pressa ordenaram-no, sagraram-no bispo e fizeram-no Papa. Mas o Papa Urbano VI (1378-1389) foi o último homem eleito como Papa que não era cardeal. Na normativa deixada por João Paulo II em 1997 permanece a possibilidade de eleger como Papa alguém que não é nem bispo nem cardeal.

6) Em 1417 o Conclave incluía 30 delegados que não eram cardeais e representavam as “nações” da Cristandade: França, Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha. Era um caso muito especial: tratava-se de acabar com várias décadas do Cisma do Ocidente, no qual havia chegado a haver 3 Pontífices ao mesmo tempo. E conseguiram.

7) Este Conclave de 2013, com 115 eleitores, é o mais numeroso da história. No Conclave de 1261 só havia 7, por exemplo.

8) Em 1492, ano do descobrimento da América, aconteceu o primeiro Conclave na Capela Sistina, mas, até então, esta não era tão impressionante: seu teto e suas paredes estavam sem tinta. Faltavam 16 anos para que Michelangelo pintasse seus afrescos. Tampouco foi normativo celebrar ali os Conclaves seguintes.

9) Não é obrigatório que o Papa mude seu nome, nem foi assim sempre. João II em 533 parece ser o primeiro que tomou tal decisão. Mas não era comum nos primeiros mil anos de história da Igreja.

Ao contrário, desde o ano 996 tornou-se uma prática muito comum. Marcelo II, eleito em 1555, foi o último papa que manteve seu nome de batismo. “João Paulo”, de João Paulo I, foi o primeiro “nome novo” na lista papal depois de mil anos, e era uma combinação dos nomes de seus predecessores: João XXIII e Paulo VI.

10) Durante quase toda a história da Igreja, excetuando-se os três primeiros séculos e o último, um problema grave posto era como limitar as ingerências dos poderes políticos nas eleições papais. O imperador romano, e até o século VIII o bizantino, arrogava-se ao direito de “confirmar” a eleição do novo Papa.

Quando o Papa Leão III coroou Carlos Magno como “imperador romano”, foi o rei franco e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico quem se arrogou a este direito. Inclusive até 1903 França, Espanha e o Império Austro-Húngaro exerciam um direito a vetar um candidato papal no Conclave.

Nesse ano, Francisco José I da Áustria vetou o grande favorito, o cardeal Rampolla, o qual levou ao Trono de São Pedro o cardeal Sarto, São Pio X, que aboliu definitivamente este direito e estabeleceu excomunhão para qualquer cardeal que intentasse invocá-lo em um Conclave.

“Estamos assistindo a um daqueles acontecimentos plurisseculares característicos do cristianismo.”

Le Goff é historiador e especialista em Idade Média.

Le Goff é historiador e especialista em Idade Média.

IHU Online – Jacques Le Goff está surpreso e fascinado pelo gesto de Bento XVI, um daqueles raríssimos eventos que, segundo o grande historiador, demonstram a força plurissecular do cristianismo.

A reportagem é de Giampiero Martinotti, publicada no jornal La Repubblica, 12-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Le Goff, a renúncia do papa faz pensar no trono vazio: é uma imagem adequada para resumir o gesto do pontífice?

Sim e não. Pessoalmente, não é uma imagem que me toca muito, mas é importante para uma religião: ela mostra que, mesmo que a religião não tenha uma cabeça humana para mostrar, há sempre o trono que simboliza a existência de um rei no céu, Deus. Consequentemente, o trono vazio é o símbolo da continuidade. Ele é um dos atout do cristianismo, que sempre evitou as rupturas e para o qual a única ruptura foi a encarnação de Jesus. Pode haver crises, reviravoltas, catástrofes, mas o trono de Deus está sempre lá. Essa eterna associação entre a mudança e a continuidade, encarnada pelo trono vazio, é uma das virtudes do cristianismo.

Como o senhor reagiu à demissão?

Não se trata de demissão, porque a demissão é dada diante de uma assembleia perante a qual se é responsável. É um termo que se refere às democracias, não existe para o papa. Acredito que se deva voltar à palavra abdicação, como para os monarcas.

Por que ele o fez, na sua opinião?

Ele diz que é por causa da idade e do cansaço, mas, fundamentalmente, ele se retira diante do mundo moderno. Ele se sente incapaz de dominar este mundo, de fazer ouvir suficientemente a voz do Deus dos cristãos e da Igreja Católica neste mundo. Na sua retirada, sintetizam-se a lucidez, a modéstia, a esperança de permitir que a Igreja volte a subir a descida e enfrente melhor o futuro.

E agora o que acontecerá?

É a pergunta mais importante: o que o conclave fará? Certamente, eu não sei, não sou cardeal, nem eclesiástico e muito menos especialista da Igreja contemporânea. Como historiador, olho para o passado: nunca houve um papa que tenha se retirado entre o século XV e hoje. Na Idade Média, houve dois casos. Fala-se sobretudo de Gregório XII, papa no período do Grande Cisma, que se pode dizer que renunciou diante do Concílio de Basileia: na Idade Média, havia quem pensasse que o concílio era superior ao papa. Antes ainda, em 1294, houve Celestino V, do qual Dante fala na Divina Comédia como aquele que fez “a grande recusa”. Apesar das diferenças muito grandes, há algo em comum entre Celestino V e Bento XVI.

A mais de sete séculos de distância, o senhor vê alguma semelhança entre os dois casos?

Celestino V era um eremita tradicional; Ratzinger, um teólogo tradicional. Penso que há algo de comparável. Celestino V pensava ser incapaz de guiar a Igreja porque pertencia profundamente ao cristianismo medieval tradicional, dominado pelo monaquismo, o anacoretismo, enquanto a cristandade havia se modificado profundamente, havia conhecido um desenvolvimento rural e urbano considerável e, no fim do século XIII, havia se tornado um mundo novo. Eu vejo uma semelhança entre essa época e este início do século XXI. Faz-me pensar em uma coisa que, como historiador, sempre me chamou a atenção, mesmo não sendo crente: penso que uma parte do Ocidente teve a sorte de ter o cristianismo como religião.

Como assim? O que há de tão diferente das outras religiões?

Essencialmente por duas razões. A primeira é que o cristianismo distingue o que pertence a Deus e o que pertence a César, não mistura religião e política. A segunda razão é que, apesar dos atrasos e da lentidão, apesar da crise que atinge todas as religiões, ele sobreviveu bastante bem, porque soube se adaptar às mudanças profundas deste mundo. E eu acredito que, nestas horas, estamos assistindo a um daqueles acontecimentos plurisseculares característicos do cristianismo.

O senhor disse que Ratzinger se retira diante da modernidade. Porém, o teólogo que era catalogado como reacionário vai embora com um gesto moderno.

Havia acontecido a mesma coisa com Celestino V: nunca se havia visto nada do tipo e, por isso, Dante fala a respeito. Ratzinger não rende homenagem à modernidade, porque, ao mesmo tempo, o seu gesto é uma rejeição da modernidade: o papa que abdica se retira dela.

Dezembro de 1941: Pio XII denuncia a totaler Krieg, de Hitler. E The New York Times repercute.

Pio_XII_últiumoNa mensagem radiofónica natalícia de Dezembro de 1941, o Papa fala novamente da guerra. «A ideia da força sufoca e perverte a norma do direito. Se se oferece uma porá aberta aos indivíduos e aos grupos sociais e políticos para lesarem os bens da vida alheia; se se deixa que todas as outras destruições morais perturbem e incendeiem tempestuosamente a atmosfera civil; veremos as noções de bem e de mal, de direito e de injustiça perder os seus contornos definidas [sic], embotarem-se e ameaçarem desaparecer.

«A majestade e a dignidade da pessoa humana e das sociedades particulares é humilhada, aviltada e é suprimida a ideia de força que cria o direito; a propriedade privada torna-se para uns um poder directo de explorar a obra dos outros; nestes cria inveja, intolerância e ódio…

«No campo de uma nova ordem fundada sobre princípios morais, não há lugar – depois de eliminados os mais perigosos focos de conflito – para uma guerra total nem para uma desenfreada corrida aos armamentos…

«Portanto, torna-se inexplicável porque é que nalgumas regiões múltiplas disposições se atravessam no caminho da mensagem da fé cristã, enquanto concedem passagem ampla e livre a uma propaganda que a combate. Roubam a juventude à benéfica influência da família cristã e afastam-na da Igreja; educam-na num espírito adverso a Cristo, instilando nela concepções, máximas e práticas anticristãs; tornam árdua e perturbada a obra da Igreja na cura das almas e nas acções de beneficência; desconhecem e rejeitam a sua influência sobre o indivíduo e sobre a sociedade…»

É de notar, antes de mais, a referência à “guerra total”, totaler Krieg, uma expressão comum entre os nazis, repetida muitas vezes pelo próprio Adolfo Hitler. Ademais, observa Rosario Esposito, «não existem possibilidade de aplicar estas denúncias a mais ninguém que não seja à Alemanha. É de excluir a Rússia, já que, aqui e noutras passagens, Pio XII se refere à Igreja Católica que ali não está presente; são de excluir os Estados Aliados, porque em nenhuma das suas nações havia perseguição… Só na Alemanha existiam as condições a que Pio XII se referia, salvo nos poucos meses que seguiram imediatamente a conquista nazi do poder»1.

O “New York Times”: Pio XII, voz solitária

A 25 de Dezembro de 1941, no dia seguinte à difusão da mensagem radiofónica, no editorial do “New York Times” (jornal liberal, tradicionalmente próximo da comunidade judaica americana) pode-se ler um significativo reconhecimento ao Papa: «A voz de Pio XII é a uma voz solitária no silêncio e na escuridão em que caiu a Europa neste Natal. Ele é o único soberano do continente europeu que tem a coragem de levantar a sua voz… Só o Papa exigiu o respeito pelos tratados, o fim das agressões, um tratamento igual das minorias e a libertação da perseguição religiosa. Ninguém mais além do Papa é ainda capaz de falar a favor da paz»2. Também neste caso, como nas palavras de Einstein, deve-se fazer notar o apreço pelos pronunciamentos do Papa, que evidentemente não se prestavam a nenhum mal-entendido.

(TORNIELLI, Andrea. Trad. António Maia da Rocha. Pio XII, il Papa degli ebrei. Porto: Civilização, ANO. pp. 169-171.)

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1. Esposito R. F., Processo al Vicario, Editrice Saie, Turim 1965.
2. Editorial do “New York Times”, de 25 de Dezembro de 1941. Cfr. ANTÓNIO GASPARI, Nascosti in convento, Ancora, Milão, pág. 106.

Processo de beatificação da princesa Isabel em xeque

Dona Isabel do BrasilAparentemente, a possibilidade de abertura do processo de beatificação da princesa Isabel não foi bem acolhida por alguns. É o que indica uma reportagem publicada na IstoÉ desta semana. São “historiadores e parte do movimento negro, que questionam o papel de protagonista de d. Isabel na abolição dos escravos e não querem vê-la num altar de jeito nenhum”. O argumento usado pelos inimigos da causa é que a libertação dos escravos “foi resultado da luta desesperada dos cativos, de suas rebeliões e do ódio aos seus senhores” e, nas palavras da historiadora Wlamyra Albuquerque, “[c]anonizar d. Isabel a partir do episódio da assinatura da lei de 13 de maio é uma tentativa de reiterar uma memória que silencia sobre o papel do negro na sua própria história”.

O primeiro questionamento que surge é: por que a opinião desse pessoal que, pelo visto, entende paçocas do que seja uma beatificação, está ganhando tanto crédito assim? É óbvio que a princesa Isabel não está para ser elevada aos altares por causa da Lei Áurea, assim como está bastante claro, pela vida de inúmeros homens já beatificados e canonizados pela Igreja Católica, que um único ato heroico não torna uma pessoa santa. Se a filha de Pedro II tem ganhado a admiração de vários fiéis, a ponto de um grupo manifestar o desejo de que sua vida seja coroada pela Igreja, é porque a princesa, uma mulher de inegáveis virtudes, buscava ser fiel à doutrina católica e imitadora de nosso Senhor Jesus Cristo. Isto vai muito além de uma lei, por mais importante que seja.

Destarte, a opinião da professora da Universidade Federal da Bahia, de que a canonização da princesa Isabel seria “uma tentativa de reiterar uma memória que silencia sobre o papel do negro na sua própria história”, é uma interpretação bastante forçada dos reais desejos dos católicos do Brasil. Esta opinião coletivista parece mais ódio de republicano ressentido. Qual o problema em se reconhecer os méritos da princesa Isabel no processo de libertação dos negros, quando os homens de sua época mesmo não hesitaram em prestar-lhe “homenagens (…) como redentora dos negros”?

Não, não se trata de “silenciar o papel do negro” na abolição… Pombas! Como exaltar a figura de quem tanto desejou a libertação dos escravos pode ser uma ofensa a estes mesmos escravos, ou à atual comunidade negra?

Li o comentário de um amigo no Facebook que achei bastante oportuno. Afinal, a partir de quando a Igreja se tornou uma democracia? Desde quando as causas de santos são levadas adiante ou abandonadas a partir da avaliação – notavelmente tendenciosa, diga-se de passagem – de movimentos sociais, ou mesmo de alguns grupos religiosos? Se há Alguém que deve decidir se a causa da princesa Isabel – ou de Pio XII, cujas virtudes heroicas já foram reconhecidas – vai seguir adiante, este Alguém está na Igreja desde sua fundação… É o Espírito Santo.

Que Ele esteja com Dom Orani Tempesta, para prosseguir com fortaleza e coragem nesta primeira etapa do que parece ser um longo e minucioso processo de canonização.

Papa: “Quem não pode doar um pouco de si mesmo, doa sempre muito pouco”.

“No Santo Natal geralmente se troca algum presente com as pessoas mais próximas. Às vezes pode ser um gesto feito por convenção, mas geralmente exprime afeto, é um sinal de amor e de estima. Na oração sobre ofertas da Missa do alvorecer da Solenidade de Natal, rezamos assim: ‘Acolhei, ó Pai, a nossa oferta nesta noite de luz, e por essa misteriosa troca de dons transforma-nos no Cristo teu Filho, que elevou o homem ao seu lado na glória’. O pensamento da doação também está no centro da liturgia e traz à nossa consciência o presente original do Natal: naquela noite santa Deus, fazendo-se carne, quis fazer-se presente para os homens, doou a si mesmo por nós; Deus fez de seu Filho único um presente para nós, assumiu a nossa humanidade para doar-nos a sua divindade. Este é o grande presente. Também no nosso presentear não é importante que um presente seja caro ou não; quem não pode doar um pouco de si mesmo, doa sempre muito pouco; na verdade, às vezes busca-se substituir o coração e o compromisso de doação de si com o dinheiro, com coisas materiais. O mistério da Encarnação indica que Deus não fez assim: não doou qualquer coisa, mas doou a si mesmo no seu Filho Unigênito. Encontramos aqui o modelo do nosso doar, para que as nossas relações, especialmente aquelas mais importantes, sejam guiadas pela gratuidade e pelo amor.

(…)

“O fato da Encarnação, de Deus que se fez homem como nós, nos mostra o realismo sem precedentes do amor divino. O agir de Deus, na verdade, não se limita às palavras, de fato poderíamos dizer que Ele não se contenta em falar, mas se imerge na nossa história e assume para si o cansaço e o peso da vida humana. O Filho de Deus se fez verdadeiramente homem, nasceu da Virgem Maria, em um tempo e um lugar determinados, em Belém durante o reinado do imperador Augusto, sob o governador Quirino (cfr Lc 2,1-2); cresceu em uma família, teve uns amigos, formou um grupo de discípulos, instruiu os apóstolos para continuarem a sua missão, terminou o curso de sua vida terrena na cruz. Este modo de agir de Deus é um forte estímulo para nos interrogarmos sobre o realismo da nossa fé, que não deve ser limitado à esfera do sentimento, das emoções, mas deve entrar no concreto da nossa existência, deve tocar, isso é, a nossa vida de cada dia e orientá-la também de modo prático. Deus não parou nas palavras, mas nos indicou como viver, partilhando da nossa própria experiência, exceto no pecado. O Catecismo de São Pio X, que alguns de nós estudaram quando criança, com a sua essencialidade, à questão: ‘Para viver segundo Deus, o que devemos fazer?’, dá esta resposta: ‘Para viver segundo Deus devemos acreditar nas verdades reveladas por Ele e observar os seus mandamentos com a ajuda da sua graça, que se obtém mediante os sacramentos e orações’. A fé tem um aspecto fundamental que interessa não somente à mente e ao coração, mas à toda a nossa vida.”

- Papa Bento XVI, Audiência Geral, sobre o mistério da Encarnação
9 de janeiro de 2013

2013, um ano para recuperar a verdade sobre Pio XII

Pio XII O Papa dos JudeusDisponibilizamos abaixo, na íntegra, um texto de opinião publicado recentemente na Gazeta do Povo. O autor do texto é o estudioso judeu Gary Krupp, da fundação Pave The Way. No artigo, ele esclarece algo sabido há muito tempo – e colocado às claras especialmente pelo excelente trabalho do vaticanista Andrea Tornielli, “Pio XII, o Papa dos Judeus”: a avaliação do pontificado de Pio XII ostentada pela comunidade judaica de nosso tempo é anacrônica e diverge totalmente dos elogios e agradecimentos que Pacelli recebeu em seu tempo, de inúmeras personalidades judias.

Só há um nome para isto que os judeus do nosso século têm feito com a imagem do Papa Pio XII: ingratidão. Perguntem a judeus afamados, como Einstein, Golda Meir ou Eugenio Zolli, qual foi a ação de Pacelli em favor da comunidade judaica, durante o Holocausto. É suficiente para dizer que a campanha de ódio em torno da figura do Papa da Segunda Guerra Mundial não passa de um monte de calúnias e difamações.

2013 é um ano para recuperar a verdade sobre Pio XII. Nunca é tarde para trazer à tona a verdade. Mesmo que com isto fiquem incomodados deputados anticlericais raivosos ou religiosos ingratos.

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Papa na RádioGazeta do Povo – Tendo crescido como um garoto judeu em Nova York, sempre acreditei que Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, era um colaborador dos nazistas e um ardente antissemita. Disseram-nos que ele se manteve impassível e quase não agiu enquanto 6 milhões de meus irmãos de fé eram enviados para morrer nos campos de extermínio nazistas na Europa. Eu acreditei – mas era verdade?

Em 2006, por uma série de eventos providenciais, os fatos sobre o que ocorreu durante a guerra me foram revelados. Percebi que minha compreensão sobre o Papa da Segunda Guerra Mundial era diametralmente oposta à verdade. Assim, seguindo nossa missão na Fundação Pave the Way – identificar e eliminar obstáculos não teológicos entre as religiões –, decidimos investigar esse tema controverso e divulgar nossas descobertas, fossem quais fossem.

A Fundação concentrou esforços em identificar todo o material original e dar aos pesquisadores a chance de estudar o tema. Ao longo dos últimos sete anos, publicamos mais de 76 mil páginas de documentos originais em nosso site (www.ptwf.org), incluindo reportagens, material impresso e entrevistas em vídeo sobre o assunto. A evidência é avassaladora em favor de Pio XII e prova que ele, de fato, salvou muitos milhares de vidas.

Alguém pode perguntar: por que essa “lenda negra” nunca foi corrigida em todos esses anos? Afinal, fatos são fatos. Praticamente todo líder judeu ou organização judaica da época elogiou os esforços de Pio XII para salvar vidas de judeus. O Papa recebeu reconhecimento até sua morte, em 1958, e por mais cinco anos depois disso. Como se explica que, em apenas um ano, o mundo inteiro mudou sua opinião sobre Pio XII sem um fio de evidência sequer?

A resposta está na agenda política da máquina de propaganda da União Soviética, que engendrou a mudança entre a opinião pública para atacar Pio XII, inimigo visceral do comunismo, atacar a Igreja Católica e isolar judeus de católicos justo no momento em que a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, buscava a reconciliação.

Você duvida? Por que não faz uma experiência por conta própria? Examine os arquivos de jornais, procure cada artigo escrito sobre Pio XII e os judeus entre 1939 e 1958. Você não encontrará um texto negativo sequer. Aqueles que realmente viveram durante a guerra e foram testemunhas oculares dos esforços da Igreja Católica sabem a verdade. E o que tornou esses esforços ainda mais heroicos foi o fato de a Igreja agir mesmo cercada por forças hostis e infiltrada por espiões. A Igreja salvou vidas sem se beneficiar da segurança daqueles que, em comparação, estavam em Washington, Londres ou outros lugares e não fizeram nada. Como foi possível?

O historiador judeu Jeno Levai, estudioso da guerra na Hungria, se refere a Pio XII nos seguintes termos: “é uma ironia lamentável que a pessoa que, em toda a Europa ocupada, tenha feito mais que qualquer um para conter esse crime horrível e atenuar suas consequências tenha se tornado o bode expiatório pelas falhas alheias”.

A boa notícia é que estamos vencendo a guerra pela restauração da verdade. Em 1.º de julho de 2012, o Memorial do Holocausto em Jerusalém, o Yad Vashem, reescreveu sua enviesada descrição das ações de Pacelli durante a guerra e a substituiu por um texto equilibrado. Novos livros que vêm sendo publicados, baseados em documentos trazidos à luz recentemente, trazem uma avaliação mais moderada das ações da Igreja e desse Papa tão controverso. Que 2013 seja o ano em que a verdade finalmente vença as mentiras e que a reputação desse grande defensor da humanidade seja recuperada.

Gary Krupp é fundador e presidente da Fundação Pave the Way. Tradução: Marcio Antonio Campos.

Papa Bento XVI: “Onde não se dá glória a Deus, (…) não há paz.”

“Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: ‘Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram’ (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo fato de não termos tempo para Deus. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido. Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado ‘sério’, deve ser configurado de modo que a ‘hipótese Deus’ se torne supérflua. E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projetos pessoais e das nossas intenções. Estamos completamente ‘cheios’ de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. A partir duma frase simples como esta sobre o lugar inexistente na hospedaria, podemos dar-nos conta da grande necessidade que há desta exortação de São Paulo: ‘Transformai-vos pela renovação da vossa mente’ (Rm 12, 2). Paulo fala da renovação, da abertura do nosso intelecto (nous); fala, em geral, do modo como vemos o mundo e a nós mesmos. A conversão, de que temos necessidade, deve chegar verdadeiramente até às profundezas da nossa relação com a realidade. Peçamos ao Senhor para que nos tornemos vigilantes quanto à sua presença, para que ouçamos como Ele bate, de modo suave mas insistente, à porta do nosso ser e da nossa vontade. Peçamos para que se crie, no nosso íntimo, um espaço para Ele e possamos, deste modo, reconhecê-Lo também naqueles sob cujas vestes vem ter conosco: nas crianças, nos doentes e abandonados, nos marginalizados e pobres deste mundo.”

(…)

“E, com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz. Hoje, porém, há correntes generalizadas de pensamento que afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo; primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única. É verdade que, na história, o monoteísmo serviu de pretexto para a intolerância e a violência. É verdade que uma religião pode adoecer e chegar a contrapor-se à sua natureza mais profunda, quando o homem pensa que deve ele mesmo deitar mão à causa de Deus, fazendo assim de Deus uma sua propriedade privada. Contra estas deturpações do sagrado, devemos estar vigilantes. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o ‘não’ a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros. Os tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado. Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por mais miserável que seja a sua situação, a sua dignidade é inviolável. Na Noite Santa, o próprio Deus Se fez homem, como anunciara o profeta Isaías: o menino nascido aqui é ‘Emmanuel – Deus conosco’ (cf. Is 7, 14). E verdadeiramente, no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar.”

(…)

“Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Amém.”

- Papa Bento XVI, Homilia na Solenidade do Natal do Senhor
24 de dezembro de 2012

Prossegue ofensiva laicista da maçonaria na França

maçons 2Já tínhamos comentado aqui o posicionamento claro tomado pela Loja do Grande Oriente da França, a mais antiga obediência maçônica existente, com relação ao recente projeto de conceder mais benefícios a pares homossexuais, suscitado pelo próprio presidente do país, François Hollande. Em nota divulgada no site da Loja, “o Grande Oriente da França recorda que as igrejas devem estar restritas unicamente à esfera espiritual, e não devem interferir, com imprecações e declarações violentas e detestáveis, no legítimo debate público e democrático” (tradução nossa).

Agora, novas informações são disponibilizadas pelo site Religión en Libertad, confirmando os interesses da maçonaria em intensificar a ofensiva à religião no país. Entre outras coisas, fala-se especialmente do número significativo de maçons do Grande Oriente presente na alta cúpula do governo Hollande – dos 38 ministros, um terço seria favorável aos interesses propagados pela Loja. Os importantes ministérios da Educação e da Defesa, por exemplo, já foram tomados.

Um pouco de história

O mais interessante é o que vem no final da notícia: “Esta influência está provocando rivalidades entre as lojas, e algumas denunciam a prepotência do Grande Oriente da França, que é a que, nestes momentos, desfruta de maior presença quantitativa e qualitativa no aparato de poder” (tradução nossa).

Esta observação revela um fato importante para compreendermos melhor a maneira como age a maçonaria: não há uniformidade completa de culto e ação em todo o seu organismo, como equivocadamente é muitas vezes pressuposto. À semelhança da história do Cristianismo, a da maçonaria é recheada de cismas e rupturas. Na França mesmo, é emblemática a cisão que ocorreu na Loja do Grande Oriente, que acabou dando origem a outras três obediências. É o que conta-nos padre Jesus Hortal (2002, p. 18). O Grande Oriente da França:

Começou por substituir o lema Deus meumque ius (“Deus e o meu direito”) pelo de suum cuique ius (“a cada qual o seu direito”). Esse passo, de fundo claramente antirreligioso, completou-se em 1877, quando foi riscada qualquer referência ao “Grande Arquiteto do Universo”, e foram introduzidas, nos estatutos, modificações que garantiam a admissão de ateus dentro das lojas. O Grande Oriente da França tomou, no século XIV, mas sobretudo durante o Governo Combes, nos inícios do século XX, atitudes extremamente anticlericais. Contudo, ao lado desse Grande Oriente, subsistem, na França, outras obediências maçônicas: a Grande Loja da França, a Grande Loja Nacional da França e a Maçonaria mista ou co-Maçonaria, denominada também de “Direito Humano”.

Limitamo-nos à descrição das brigas na França, mas elas aconteceram na maçonaria ao redor de todo o mundo, inclusive no Brasil (HORTAL, 2002).

Aí vem a grande questão: não devem existir, entre as múltiplas lojas hoje associadas a diferentes obediências, uma ou outra “conciliável” com a fé católica? A resposta do Magistério é incisiva: não. Mas, não custa lembrar que, mesmo em cisões como as que se deram na França – em que outras obediências acabaram destoando, em certos pontos, do anticlericalismo exacerbado do Grande Oriente -, os princípios essenciais da associação, contrários à boa e velha doutrina da Igreja, permaneceram os mesmos. Embora não maquinando abertamente contra o Cristianismo, por meio de perseguições escancaradas aos seguidores da religião, os maçons continuam ensinando a velha cartilha deísta, naturalista e iluminista sob a qual eles nasceram. Continua, portanto, impossível a um católico estar ao mesmo tempo abrigado sob o teto da comunhão e filiado às seitas maçônicas.

Nada de novo debaixo do sol

Ainda segundo a notícia de ReL, “os maçons querem constitucionalizar a lei de 1905 – atualmente vigente, ainda que parcialmente reformada -, especificamente anticatólica e responsável pela progressiva descristianização do país ao longo do século XX. (…) A presença da Igreja foi desaparecendo das instituições onde havia sido milenária, em virtude dessa lei, que agora a maçonaria quer transformar em tronco da República, blindando-a contra qualquer reforma ou supressão” (tradução nossa).

Para quem não sabe, a lei de 1905 significou na França a separação entre o Estado e a Igreja, acompanhada de uma agressiva laicização das escolas e demais instituições da República. E contou com o apoio decisivo da franco-maçonaria, o mesmo que fortaleceu o governo Calles na guerra cristera no México, produzindo uma legião de mártires católicos.

Não são novos estes ataques virulentos dos franco-maçons à Igreja e à liberdade religiosa. A França, que já foi palco da intolerância dos laicistas no debate público, sofre, mais uma vez, com a investida destes que, sedentos pelo poder, querem calar qualquer um que ouse passar por seu caminho: não respeitam ninguém, nem os cidadãos, nem a Igreja, nem o próprio Deus. Que Nossa Senhora de La Salette tenha piedade da França.

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Referências:

HORTAL, Jesus. Maçonaria e Igreja: conciliáveis ou inconciliáveis?. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2002.

Ortega e Unamuno, dois filósofos agnósticos contra o laicismo agressivo e intolerante

Fonte: Religión en Libertad | Tradução: Ecclesia Una“Não sou católico, mas não estou disposto a deixar-me impor as figuras de proa de um anticlericalismo arcaico”.

José Ortega y Gasset, importante filósofo espanhol do século XX, era crítico do anticlericalismo já predominante em seu tempo.

Assim falava o filósofo agnóstico José Ortega y Gasset em um discurso pronunciado em 6 de dezembro de 1931, no Cine de Ópera de Madri. O intelectual, apesar de declarar-se não católico, criticou neste dia o anticlericalismo que impregnava o ambiente da Segunda República.

Incêndio de igrejas, saque de propriedades eclesiásticas, legislação antirreligiosa… este proceder (que recrudesceria em pouco tempo) fez com que o filósofo, uma personalidade destaque no mundo republicano espanhol, considerasse desvirtuada a essência da república, ao ponto de exclamar: “Não é isto! Não é isto! A República é uma coisa. O radicalismo é outra. O tempo mostrará.”

Ortega era partidário do Estado laico, mas não dos métodos violentos contra a Igreja. Além disso, para o pensador, a República tinha se desviado para um caminho que não integrava todas as forças políticas a serviço da vontade popular; pelo contrário, tinha se transformado em um instrumento para benefício de poucos. Em um artigo da revista Crisol, Ortega assegurou que os republicanos tinham falsificado a República porque esta tinha perdido a originalidade pacífica com a qual tinha chegado.

Antes, por ocasião dos incêndios de igrejas e conventos, publicou em 14 de maio de 1931, no periódico El Sol, uma nota, como parlamentar, na qual denunciava tais feitos e os qualificava de “fetichismo primitivo e criminoso”. Pela primeira vez desde a proclamação da República, o filósofo criticava o radicalismo dos políticos republicanos, algo que começou a fazer com cada vez mais frequência, segundo explica o historiador Vicente Cárcel Ortí, especialista na Espanha dos anos 30, em um artigo da revista Ecclesia (19 de maio de 2012).

Miguel de Unamuno, outro agnóstico contrário ao laicismo radical.

O filósofo Miguel de Unamuno, agnóstico com profundas inquietudes espirituais, recriminou duramente o governo por suas medidas contra os jesuítas, e pela queima de igrejas e conventos, em maio de 1931. Em seu discurso de 28 de novembro do mesmo ano, no Ateneu de Madri, o filósofo declarou: “Agora dizem os políticos que se está fazendo uma revolução; mas é feita com atos verdadeiramente temerários, como foi a queima dos conventos e a dissolução da Companhia de Jesus, e a confiscação de seus bens pelo subterfúgio do quarto voto”. O quarto voto era a obediência especial da Companhia de Jesus à Santa Sé.

Impressionado por este discurso de Unamuno, o núncio Federico Tedeschini remeteu o discurso ao cardeal Pacelli – que viria a torna-se Papa Pio XII. Nele, Unamuno continuava: “Sim, podem crer; o dos jesuítas foi a maior iniquidade, o atropelo mais brutal que se poderia cometer”. Tedeschini informou a Pacelli que essas declarações, tão insólitas na República espanhola, animaram outros a pronunciar-se.

O mesmo Tedeschini também elevou sua queixa ao presidente do Governo Manuel Azaña, em 1932, quando se consumou a confiscação dos bens jesuítas e a dissolução da Ordem na Espanha.

Segundo o bispo que o assistiu em seus últimos momentos, monsenhor Pierre-Marie Théas, o mesmo Azaña que se fez de surdo diante da queima de conventos morreria buscando a Deus e solicitando assistência espiritual.

Dos radicais anticlericais dos anos 30, não fica nenhum legado, exceto a lembrança de igrejas queimando. Por outro lado, os dois filósofos agnósticos que manifestaram respeito à fé e à Igreja, são hoje considerados, por muitos, como os pensadores mais influentes da Espanha do século XX.

Pio XII, o Papa de Hitler? Não mesmo.

“Esses (os Nazistas) na realidade são somente mesquinhos plagiadores que revestem velhos erros em novas vestes. Não faz nenhuma diferença se eles se juntam sob a bandeira da revolução socialista, se são guiados por uma falsa concepção do mundo e da vida, ou se estão embebidos pela superstição do culto da raça e do sangue.” 1

O livro “O Papa de Hitler”, do historiador inglês John Cornwell, reacendeu um debate até então deixado de lado: como teria sido a tomada de posição da Igreja frente ao nazismo alemão? Uma peça teatral de 1963, intitulada “O Vigário”, fora a primeira a insinuar um possível silêncio de Pio XII diante dos crimes cometidos pelos nacional-socialistas na Alemanha. Depois, um filme baseado na mesma peça, de nome “Amém”, dá a impressão de um papa não só negligente, como conivente com as atrocidades dos nazistas. Mas, será tudo isto verdade?

A resposta é não. John Cornwell, autor da obra que denegriu a imagem de Pacelli, já voltou atrás e “retirou as acusações que (…) havia levantado contra Pio XII”. “Num artigo publicado por The Economist o sr. Cornwell reconheceu que se enganou; sustentou que Pio XII não podia ser acusado de simpatia ou conivência com o regime nacional-socialista nem antes nem depois do acesso ao Pontificado”. Mas não é só isso. Enquanto secretário de Estado do Vaticano, o até então cardeal Pacelli teria sido indispensável na redação da encíclica Mit Brennender Sorge (“Com Ardente Tristeza”), endereçada ainda em 1937 ao povo alemão. O documento, assinado pelo papa Pio XI, fazia uma claríssima condenação às ideias eugênicas do nazismo.

A repercussão desta encíclica na Alemanha foi assombrosa, a ponto de os nazistas ignorarem a publicação do documento nos meios de comunicação. É o que vem confirmar este artigo publicado no blog da Revista Vila Nova, que traz fotos de jornais da época. Uma edição do Toronto Daily Star, de junho de 1945, por exemplo, traz à tona um discurso forte de Pio XII. “Numa transmissão de hoje, o Papa Pio XII demonstrou esperança de que a nação alemã possa ‘se levantar com nova dignidade e nova vida uma vez que tenha subjugado o espectro satânico levantado pelo nacional-socialismo e os culpados tenham expiado os crimes que cometeram’.”

“Permitam que se acalmem as paixões para que a paz possa falar, diz o Papa.”

Soa absurdo crer que um Papa que tenha falado de um “espectro satânico levantado pelo nacional-socialismo” possa ter um mínimo que seja de simpatia para com o nazismo. Nem mesmo a ideia de silêncio, conivência ou omissão parece caber aqui. Pacelli vem sendo injustamente perseguido há décadas. Injustamente, sim, pois mais do que condenar veementemente o nazismo e suas perversidades, Pio XII salvou um número incontável de judeus, recebendo por isto a admiração e o respeito de inúmeras personalidades judias. Postular que este mesmo Pontífice tenha sido um “Papa de Hitler” é coisa de gente desonesta – que briga não contra a injustiça e a crueldade, mas contra a simples verdade dos fatos.

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[1] Papa Pio XII, cf. Frankfurter Allgemeine Zeitung, 4 de Março de 1963, cit. in Joseph L. LICHTEN, Pio XII e gli Ebrei, Centro Editoriali Dehoniano, Bologna, 1988, pag. 37.