O nome do Papa é Eugenio Pacelli, mais conhecido como Pio XII. Por alguns é considerado – e erroneamente – o Papa de Hitler. Para outros, porém, mais um grande Sumo Pontífice da Igreja Católica. A realidade é que opiniões divergem dos fatos. E os fatos mostram que a Igreja e Pio XII nunca deixaram de condenar o Nazismo e as atrocidades por ele cometidas. Aquilo que diverge de fatos são mentiras. Sim: assim intitulamos a suposta “opinião” daqueles que pensam que a Igreja não foi contrária à Guerra e ao Holocausto.
O primeiro fato é que a Igreja nunca se calou diante dos crimes abomináveis do Nazismo. Nunca. Seja por meio de cartas apostólicas, encíclicas ou outros documentos, a Santa Sé deixou bem claro que Igreja e Nazismo são incompatíveis. É nítida essa mensagem no documento do Papa Pio XI Mit brennender Sorge, em que ele condena expressamente os erros do nazismo. Nessa encíclica, Pio XI enfatiza principalmente o erro do paganismo e do preconceito, ideologias declaradas por Hitler em seus discursos ideológicos. Escreve:
“Se a raça ou o povo, se o Estado ou uma forma determinada do mesmo, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana têm na ordem natural um posto essencial e digno de respeito, contudo, quem os arranca da alta escala dos valores terrenos elevando-os à suprema norma de tudo, até mesmo dos valores religiosos, e, divinizando-os com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé e de uma concepção de vida conforme esta.
(…)
“Nós damos graças, veneráveis irmãos, a vossos sacerdotes e a todos os fiéis que, defendendo os direitos da Divina Majestade contra um provocador neopaganismo, apoiado desgraçadamente com freqüência por personalidades influentes, têm cumprido e cumprem seu dever de cristãos. Essa gratidão é particularmente íntima e cheia de reconhecida admiração para todos os que, no cumprimento deste dever, se têm feito dignos de sofrer por causa de Deus sacrifícios e dores.” 1
Essa carta de Pio XI gerou imediata reação na Alemanha. Nunca se encontrou tão forte contestação ao nazismo como durante o período que sucedeu a leitura do documento nas igrejas alemãs. Mas Hitler não deixou barato e impôs perseguição violenta aos católicos. Em maio de 1937, 1100 padres e religiosos foram lançados nas prisões do Reich. Organizações católicas foram dissolvidas; escolas confessionais, interditadas 2. Além disso, afirma-se que, até a definitiva queda do Nazismo, “cerca de onze mil sacerdotes católicos (quase metade do clero alemão dessa época) foram atingidos por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazista, terminando muitas vezes nos campos de concentração.” 3
Então, é falso o pensamento não só daqueles que afirmam que a Igreja foi conivente com o Nazismo ou se calou diante dos seus erros e crimes; pecam por mentira também aqueles que dizem que a reação da encíclica de Pio XI na Alemanha quase não foi significativa. Quem pensa desta forma acredita numa mentira e não é digno de consideração em suas palavras.
O segundo fato – e que também reafirma a realidade de que Pio XII nunca se calou diante do Nazismo – é que o Cardeal Pacelli, quando ainda era Secretário do Estado do Vaticano, ajudou na elaboração do documento Mit brennender Sorge, o qual falamos anteriormente. O Cardeal Tarcisio Bertone, por ocasião do 50º Aniversário da morte do Papa Pio XII, discursou:
“Com a ajuda determinante do Cardeal Pacelli e dos seus colaboradores alemães da máxima confiança (Mons. Ludwig Kaas e os Padres jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea), chegou-se deste modo à Mit brennender Sorge (“Com profunda preocupação”), a Carta Encíclica que em 1937 condenava a ideologia racista e pagã, que já se tinha afirmado no Reich alemão.” 4
O que foi afirmado pelo Cardeal Bertone nesse discurso é muito importante para compreendermos a posição do Papa Pio XII sobre o nazismo. O seu comportamento durante o pontificado não foi diferente, seja frente às atrocidades nazistas seja diante dos crimes de guerra cometidos por ambas as alianças bélicas.
Daí segue o terceiro fato, que são justamente as atitudes tomadas pelo Papa Pio XII no seu pontificado para condenar a ideologia nazista. Muito embora se diga o contrário, Pio XII não se calou… As provas estão em documentos assinados pelo Sumo Pontífice, em que é visível e a sensibilidade e o sentimento de revolta do Santo Papa diante da perseguição aos inocentes imposta pelo regime nazista. Em um, publicado no Natal de 1942, o Pontífice demonstra sua solidariedade “às centenas de milhares de pessoas que sem culpa nenhuma da sua parte, às vezes só por motivos de nacionalidade ou raça, se vêem destinadas à morte ou a um extermínio progressivo”. 5
Há quem diga que palavras não valem muita coisa. Por isso historiadores já deixaram claro que durante o pontificado de Pio XII foram salvos milhares de judeus. O rabino David Dalin, autor do livro “The Mith of Hitler’s Pope”, escreveu: “Na cidade [Roma], 155 conventos e mosteiros abrigaram cerca de 5 mil judeus durante a ocupação alemã. E outros 3 mil se refugiaram em Castel Gandolfo, a residência de verão do papa” 6. Na mesma linha, judeus como Albert Einstein, Golda Meir, Paolo Mieri, também deixaram claro 7 que Pio XII ajudou muitos judeus a se livrarem do extermínio nos campos de concentração.
Mas por que – perguntar-se-á – o Papa Pio XII não condenou tão veementemente o nazismo? Por que não massacrou objetivamente as idéias desse cruel regime totalitário? Porque Pio XII bem sabia que uma condenação mais objetiva e clara ao nazismo de nada ia adiantar para salvar almas do Holocausto ou diminuir o número de “católicos” que aderiam ao nazismo na Alemanha. As coisas, pelo contrário, só iriam piorar. Robert Kempner, advogado judeu que participou do processo contra Hitler e Frick na Alemanha, escreveu: “Qualquer movimento de propaganda da Igreja Católica contra o Reich hitlerista não só teria sido um ‘suicídio voluntário’ (…) mas teria também acelerado a execução capital de um maior número de judeus e sacerdotes”8.
O historiador e diplomata israelense, Pinchas Lapide, ex-cônsul de Israel em Milão, também defende Pio XII nesse ponto. Afirma que se o protesto da Igreja contra o nazismo fosse maior, haveria também maior retaliação. Em seu livro “Three Popes and the Jews”, usou como exemplo a Holanda. No país, em cada igreja foi lido um documento que condenava abertamente o nazismo. O resultado não foi consolador: “Enquanto os bispos protestavam, mais judeus, cerca de 110 mil, ou 79% do total, eram deportados aos campos de extermínio”9.
Ora, deveria então a Igreja insistir em condenar objetivamente o nazismo assim como muitos historiadores expuseram, ardendo em um tremendo ódio contra a Igreja Católica e sua Verdade? Claro que não, uma vez que isso só traria mais dor e sofrimento para os judeus massacrados na Guerra… Além disso, afirmar que uma declaração muito explícita do Papa condenando o nazismo pudesse influenciar de maneira definitiva na mentalidade dos católicos alemães não passa de conversa sem fundamento. Se com a encíclica de Pio XI e a radiomensagem de natal de 1942 do Papa Pio XII os “católicos” nazistas não tomaram a iniciativa de mudar, outra carta refutando a ideologia nazista muito pouco adiantaria. Só traria – como foi dito anteriormente – mais mortes e extermínios aos católicos e judeus nos campos de concentração.
Quando falamos da falta de documentos objetivos e explícitos, não falamos, contudo, que o Sumo Pontífice Pio XII se omitiu diante das atrocidades do nazismo. Já deixamos aqui palavras do Papa na Radiomensagem de Natal de 1942, em que ele deixava claro que a Igreja não pode aceitar os crimes cometidos por aqueles que se julgam no direito de eliminar a vida de outrem por puro preconceito ou discriminação. Em outra radiomensagem, no ano anterior (1942), Pio XII deplorava as conseqüências desastrosas da Guerra:
“Nós todavia com a angústia, que nos oprime a alma, ponderamos, e vemos, como num sonho mau, os terríveis embates de armas e de sangue deste ano que agora finda; a infeliz sorte dos feridos e dos prisioneiros; os sofrimentos corporais e espirituais, as mortandades, destruições e ruínas, que a guerra aérea leva e despenha sobre grandes e populosas cidades, sobre centros e vastas regiões industriais; as riquezas dilapidadas dos Estados, os milhões de pessoas que o imane conflito e a dura violência vão lançando na miséria e na fome.
(…)
Quem poderá hoje maravilhar-se, se esta oposição radical aos princípios da doutrina cristã veio enfim a converter-se em ardente choque de tensões internas e externas, que levou a esse extermínio de vidas humanas e destruição de bens, que estamos vendo e a que assistimos com profunda pena? A guerra, funesta conseqüência e fruto das condições sociais descritas, bem longe de lhes sustar o influxo e o desenvolvimento, promove-o, acelera-o, amplifica-o, com tanto maior ruína, quanto mais se prolonga, tornando a catástrofe cada vez mais geral.” 10
Mas a Igreja, mesmo condenando as terríveis causas e conseqüências da guerra, assim como as falácias e absurdos do nazismo, preferiu cumprir com maior empenho aquela santa exortação do Apóstolo: “O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos” 11. Então salvou almas de milhares de judeus refugiados da guerra, ajudando-os a se livrarem do extermínio promovido pelos nazistas.
Fatos: é o que buscamos apresentar. Ao contrário das mentiras anticlericais constantemente pregadas a esmo por historiadores acatólicos, apresentamos aos católicos aquilo que a Igreja verdadeiramente fez durante a Segunda Guerra Mundial. Chega de preconceitos anticristãos e de falácias anti-religiosas. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará!” 12.
Graça e paz.
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(1) Encíclica do Papa Pio XI, Mit brennender Sorge, n. 12 e 17
(2) Wikipédia, Mit brennender Sorge, Efeitos
(3) 50º Aniversário da Morte do Papa Pio XII, discurso do Cardeal Bertone.
(4) 50º Aniversário da Morte do Papa Pio XII, discurso do Cardeal Bertone.
(5) Papa Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1942, n. 55
(6) Aventuras na História, Pio XII: bendito ou maldito?, A favor de Pio XII
(7) Apostolado SCR, 13 declarações de líderes judeus em defesa do Papa Pio XII
(8) Wikipédia, Papa Pio XII, Críticas, prós e contra
(9) Aventuras na História, Pio XII: bendito ou maldito?, A favor de Pio XII
(10) Papa Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1941, n. 4 e 10
(11) 1 Cor 4, 20
(12) Jo 8, 32
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