Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas!

http://beinbetter.files.wordpress.com/2011/04/0430-santa-catalina-de-siena.jpg?w=205&h=329“Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.”

“De semelhante amor desejo vos ver livre, querido pai. Rogo-vos não vos comporteis assim, a fim de que, não se aplique a vós aquela dura palavra divina: Maldito sejas, porque te calaste. Ai de mim! Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a santa Igreja encontra-se sem cor, sem sangue nas veias. Quero dizer: sem o sangue de Cristo, derramado por nós gratuitamente, sem mérito algum nosso. Devido ao orgulho, os pastores roubam a Deus a honra, atribuindo-a a si mesmos. Rouba-se por simonia com a venda de dons espirituais, a nós concedidos gratuitamente pelos méritos do sangue de Cristo. Ai de mim, morro e não consigo morrer! Não durmais por negligência. Aproveitai o tempo presente quanto possível. Outros tempos virão, acredito, em que podereis fazer outras coisas. Convido-vos ao tempo atual. Afastai da alma todo egoísmo, revesti-a com a sede de almas e com verdadeiras virtudes, para a glória divina e a salvação das almas. Fortalecei-vos no amor de Cristo. Logo veremos aparecer as flores. Esforçai-vos para que logo se erga o estandarte da Cruzada. Que o vosso coração não se esfrie diante de nenhuma dificuldade emergente. Fortalecei-vos pensando que Jesus crucificado realizará os inflamados desejos dos seus servidores.”

- Santa Catarina de Sena em A sede de alma nos pastores

O vício de Gerson e a necessidade da cura interior

Quem convive comigo conhece a minha opinião acerca daqueles programas de televisão chamados “novelas”. São principalmente os valores inculcados às famílias por estas obras que me preocupam. Crianças assistindo e aprendendo desde cedo a banalizar o compromisso firmado por homem e mulher no Sacramento do Matrimônio, aprendendo a ver a relação sexual não mais como uma doação de amor, mas como uma forma de buscar apenas prazer e satisfação carnal, aprendendo a mentir e a escapar das consequências dos erros cometidos etc. Alguns ensinamentos podem até ser dignos de estima, mas boa parte dos valores por estes programas propagados é radicalmente contrária aos preceitos da lei de Deus.

Tomei conhecimento hoje do que estão chamando na internet de “O Segredo de Gerson”. A personagem Gerson é interpretada pelo ator global Marcelo Anthony e ele teria – pelo menos é o que os episódios da novela Passione demonstram – algum problema relacionado ao uso da internet. Recentemente, o suposto “segredo” da personagem foi revelado. E é o vício na pornografia.

O vício em material pornográfico é infelizmente um problema comum em nossa sociedade. O homem, desde cedo, é induzido a desobedecer ao sexto mandamento da lei de Deus, que nos pede “não pecar contra a castidade”. Os ataques da própria mídia a uma visão sadia de sexualidade já são uma verdadeira porta aberta para a infiltração de uma mentalidade hedonista, que reduz o sexo a um mero instrumento de prazer sexual. Diz o Catecismo da Igreja Católica que a pornografia “ofende a castidade, porque desnatura o ato conjugal, doação íntima dos esposos um ao outro”; explica ainda que “é um grave atentado contra a dignidade das pessoas intervenientes (atores, comerciantes, público), uma vez que cada um se torna para o outro objeto dum prazer vulgar e dum lucro ilícito”, além de fazer “mergulhar uns e outros na ilusão dum mundo fictício” (§ 2354).

http://www.portaldosevangelicos.com.br/wp-content/uploads/2008/11/escravopecado.jpgCom a transgressão da Lei, vêm também as trágicas consequências. São Paulo diz que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). E ele está certo. O salário do pecado é a angústia, é a escravidão, é, de fato, a morte. Quantas pessoas têm se dedicado a estudar o celibato sacerdotal na Igreja! E quantos ignorantes não têm dito que esta sábia doutrina católica “reprimiria” sexualmente os clérigos e as pessoas que de livre e espontânea vontade se dedicam ao Reino vivendo na continência, quando, na verdade, o que aprisiona e escraviza o homem é a sexualidade vivida de modo distorcido, na pornografia, na masturbação, na fornicação, no adultério etc. Quando o homem moderno repele o compromisso ele de nada está se libertando. Ele pode tentar fugir da responsabilidade do Matrimônio, mas nem por isso está se libertando, porquanto uma vida impura torna o homem escravo de suas paixões. Quanto mais se exime a razão de tomar as rédeas da alma humana, esta se vê cada vez mais submetida ao império das paixões desordenadas.

Há, porém, solução para este terrível problema? É claro que sim! E é o próprio Jesus quem nos exorta: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14, 38). Vigilância, porque “o demônio anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Pd 5, 8); oração, porque tudo aquilo que de coração pedimos ao Pai Ele prometeu nos conceder. Então, peçamos a força para combatermos as tentações, e, com Ele, venceremos.

Possamos, no entanto, entregar-nos totalmente ao Senhor. Um vício não pode ser vencido sem que haja também uma cura no interior de nosso coração. Também Jesus Cristo deixa claro que “não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele” (Mt 15, 11).

O novelista Aguinaldo Silva, da Rede Globo, postou um comentário em seu Twitter que faz certa síntese do pensamento do homem moderno no que diz respeito às ofensas à castidade, pensamento que está em clara oposição com o ensinamento moral da Igreja Católica:

O verdadeiro problema de Gerson seria “falta de imaginação”; e atormentar-se por estar viciado em pornografia viria a ser atitude digna de compaixão, porquanto ver sexo na internet é algo que “todo mundo faz”. Ora, será que ignoramos as terríveis consequências que o vício de Gerson acarretou na própria novela? Especialmente em uma relação matrimonial, a presença de pornografia no ambiente familiar representa, além de uma traição àquela promessa de fidelidade firmada no dia do casamento, também o aprisionamento em uma ilusão que compromete a própria vida conjugal de marido e mulher. E mesmo que não houvesse Matrimônio nenhum, a ideia que a pornografia passa a quem assiste ou participa de alguma forma destes espetáculos demoníacos é que o homem e a mulher são simples objetos. O ser humano deixa de ser considerado em sua dignidade, deixa de ser respeitado, de ser amado como obra do Altíssimo. A prática da masturbação, da mesma maneira, faz com que o homem ignore que a relação sexual é uma verdadeira doação de amor, de compromisso. A pessoa se fecha em seu egoísmo e se corrompe a si mesmo, esquecendo que a transmissão da vida é um dos aspectos fundamentais a ser levados em conta na vida conjugal.

Aos que desejam se libertar do espírito da luxúria, novamente dirigimos um apelo de confiança: Vigiai e orai, fugi das ocasiões de pecado e confiai na poderosíssima intercessão de Maria, que é Mãe da Divina Graça. Recomendamos a leitura da obra Tratado da Castidade, de Santo Afonso de Ligório, para quem deseja obter um conhecimento mais detalhado acerca desta belíssima virtude que é a castidade.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Atualização em 3 de janeiro de 2011: Aparentemente o vício de Gerson não é em pornografia. Trata-se de um problema chamado riparofilia, que é a atração sexual por pessoas esteticamente feias ou de baixo padrão social e higiênico. As críticas ao vício da pornografia, no entanto, continuam sendo válidas, já que o fato de Gerson ser riparofílico não faz com que ele deixe de ver material obsceno na Internet.

“Os sacerdotes tornaram-se cloacas de impureza”

http://3.bp.blogspot.com/_L-aIG-7AW7I/SKuER43SlsI/AAAAAAAABic/yHgbbME9fGE/s400/La+Salette,+o+pranto+de+Nossa+Senhora.jpg“Os sacerdotes, ministros de meu Filho, os sacerdotes, por sua má vida, por suas irreverências e sua impiedade em celebrar os santos mistérios, por amor do dinheiro, das honras e dos prazeres, os sacerdotes tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os padres pedem vingança, e esta está suspensa sobre as suas cabeças. Desgraçados dos padres e das pessoas consagradas a Deus, as quais, por suas infidelidades e sua má vida crucificam novamente o meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus clamam ao Céu e chamam a vingança e ela está às suas portas, pois não se encontra ninguém para implorar misericórdia, e perdão para o povo; não há mais almas generosas não há mais ninguém digno de oferecer a Vítima sem mancha ao Pai Eterno em favor do mundo” (Nossa Senhora de La Salette, retirado do site Permanência).

Há 158 anos atrás a Igreja aprovava as mensagens das aparições de Nossa Senhora em La Salette, na França, a uma vidente chamada Melânia Calvat. Embora a sua figura seja pouca conhecida – afinal o belo da profecia é isso: renunciar a si mesmo para dar lugar a Deus – faz-se mister lembrar a memória dessa grande jovem que morreu defendendo o ideal cristão. Mais importante ainda é lembrar as palavras de Nossa Senhora naquela ocasião. Nessa passagem acima citada ela falava sobre a impureza dos sacerdotes. Naquele contexto o povo católico vivia o século XIX. Quase dois séculos depois das aparições de Nossa Senhora a realidade triste que se observa no clero católico permanece. Hoje, assim como em outros tempos difíceis que a Igreja sofreu, o coração de Jesus é constantemente ferido pelos pecados dos leigos e até mesmo dos sacerdotes. Ora, mas qual é o problema – pergunta o secularismo – de um padre pecar? Não é ele humano como todos nós?

Sem dúvida, o padre é humano, mas é servo consagrado de Deus. E isso é muito mais importante. Os Santos Padres da Igreja são unânimes em afirmar que a dignidade da alma sacerdotal é incomparável. Santo Afonso afirma, em sua obra A Selva, que “[a] dignidade sacerdotal ultrapassa até a dos anjos, razão por que também estes a veneram”. A intenção do Papa Bento XVI ao proclamar o Ano Sacerdotal em ocasião do aniversário da memória do Santo Cura de Ars é exatamente esta: restaurar na mente do povo cristão a idéia da dignidade sacerdotal. Ela não pode se perder em meio aos pecados que o clero infelizmente – e para a tristeza profunda de Deus – comete.

Mas qual é o tamanho do pecado que um padre comete? Por ele ser consagrado, um pecado grave que ele comete se torna pequeno? Não! De modo nenhum. Muito pelo contrário: aquele que tem conhecimento do pecado e mesmo assim o comete está pecando muito mais gravemente e cometendo uma infração terrível contra o Criador. Ainda mais os sacerdotes, que são consagrados por Deus especialmente para realizarem a sua vontade! São Jerônimo exclamava: “É grande a dignidade dos padres, mas também a sua ruína, se vierem a pecar. Regozijemo-nos com a nossa elevação, mas temamos de cair”. E Santo Afonso de Ligório, ainda n’A Selva, dizia:

“[O sacerdote] peca no meio da luz, o que faz que o seu pecado, como fica dito, seja um pecado de malícia: não pode pois alegar ignorância, porque sabe que mal é o pecado mortal; também não pode alegar fraqueza, porque conhece os recursos para se tornar forte, se quiser valer-se deles”.

Completa São João Crisóstomo: “Nulla re Deus magis offenditur, quam quando peccatores sacerdotii dignitate praefulgentNunca Deus é tão ofendido como quando os que o ultrajam estão revestidos da dignidade sacerdotal”. Está compreendida a razão pela qual Nossa Senhora destacou quão grave é o pecado cometido pelos sacerdotes. As frases acima citadas são os reflexos espirituais que são observados na vida do padre. Contudo as desgraças desses pecados se estendem para todo o povo de Deus.

Sabemos muito bem que o padre é encarregado de levar o homem a Deus. Com seus pecados, no entanto, ele desencoraja o fiel leigo. Por que o drama da pedofilia presente no clero católico é tão triste? Porque conhecemos quão grande é a dignidade do padre para ser manchada dessa maneira! Quando ele desobedece o Magistério da Igreja, anuncia a si mesmo e pára de falar de Deus e obedecer a Ele então ele não está mais exercendo fielmente o seu ministério. Por isso, diz Nossa Senhora de La Salette, “[o]s pecados das pessoas consagradas a Deus clamam ao céu vingança”. Elas têm conhecimento da verdade, se consagraram inteiramente a Deus, são pessoas que consagram a Nosso Senhor Jesus Cristo. Como seria possível fazer tudo isso e ao mesmo tempo ofendê-Lo de maneira tão descabida?

Intensifiquemos, na ocasião desse Ano Sacerdotal, as nossas orações pelo clero católico no mundo inteiro. Que Nossa Senhora de La Salette interceda pelos padres junto a Deus para que eles alcancem a santidade e possam honrar ao Seu Filho plenamente.

Nossa Senhora de La Salette, Mãe dos sacerdotes,
rogai por nós!

Livres e vitoriosos

Quando nos encontramos desapontados, tristes, cabisbaixos, pensativos é momento de canalizar todo nosso sofrimento e olhar para a Cruz de Jesus. Ele, em meio às humilhações e cusparadas, não desistiu de olhar para frente e enxergar a vitória. Viu a vida onde havia somente morte, viu a salvação onde havia somente o fim. Tudo isso vem nos mostrar que a visão de Deus é muito mais dinâmica que a nossa. Não podemos enxergar os nossos problemas com o olhar humano, mas sim na perspectiva de que tudo o que Deus faz para nós, seus filhos, visa sobretudo nosso bem. Santo Agostinho observava que Deus permite que o mal aconteça a nós, seus filhos, para que aprendamos e disso seja extraído um bem maior.

Mas insistimos: insistimos em ver os problemas com uma ótica totalmente reducionista. A morte, em nosso mundo secular, é vista como algo terrível, que é motivo somente de dor e tristeza. Infelizmente não nos conformamos com a inevitabilidade da morte e nem compreendemos o seu verdadeiro significado. O que é a morte? É o fim da vida? Não! O cristianismo nos ensina a vermos a vida regida pela imortalidade. Existe sim uma mudança de plano. O homem sai desse mundo e conhece a dimensão que a teologia chama de “escatologia”. Mas isso não é de nenhum modo motivo de revolta ou de pesar, mas sim de alegria e regozijo. Se realmente confiamos no amor de Deus e praticamos Sua vontade, que precisamos temer? Para aqueles que seguem a Jesus não há mais condenação! O cristão é livre.

Essa liberdade só vai começar a ganhar sentido quando sairmos da superficialidade da fé e buscarmos verdadeiramente a santidade: parar de fingir ser cristão, tirar verdadeiramente a máscara que rege as nossas faces pecadoras e imundas. Porque, Santo Agostinho observa, “pior doente é aquele que não reconhece a sua própria doença”. Se não nos reconhecermos necessitados da graça de Deus como vamos nos libertar? Ora, se um escravo, tomado pela loucura, afirmar que é livre e bater o pé, insistindo que não quer a carta de alforria porque já é liberto, será ele um dia verdadeiramente livre e independente? Não. Insiste ele em afirmar o contrário da sua verdadeira condição.

Assim o homem moderno se encaminha. É como um escravo que não se reconhece escravo. O mundo prega um valor totalmente errado de liberdade. Liberdade, na concepção mundana, é poder fazer o que bem entender. Mas não é isso o que vem nos mostrar o cristianismo. O homem, por meio do pecado original, tem uma tendência notável de cair no pecado. Ele então tende a ser escravo do pecado. Para ser livre o que ele precisa fazer? Abster-se, ora essa! Evitar as ocasiões de pecado, se privar do mal! Mas o mundo inverte totalmente esses valores. Ser livre agora é desfrutar deliberadamente de todas as ‘maçãs’ que o demônio nos oferece e poder gozar do bem e do mal, como se fossem conciliáveis.

Mas ouçamos o que nos diz o Senhor: “Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade” (1 Ts 4, 7). Embora a natureza humana tente rebaixar o homem, Deus nos pede que não deixemos que ela seja maior que a nossa vontade de buscá-Lo. Com a vinda de Jesus o homem pode ser livre dos grilhões do pecado e da impureza. A força para vencer o mal do pecado vem do alto, vem do Céu. Essa liberdade, quando vivida de maneira plena, conduz-nos à vitória verdadeira, aquela que nos garante uma eternidade de felicidade e glória junto de Deus. Só a alcançaremos se realmente praticarmos a santidade. Deus nos chamou para ela e não para o mal.

Que a Virgem Santíssima, Mãe Castíssima, nos ajude a viver uma vida santa, afastada de todas as impurezas e concupiscências mundanas, pois estamos no mundo, mas não somos dele. Somos cidadãos do Céu. Comportemo-nos como tais.

Graça e paz.

Quanto é difícil salvar-se no mundo – S. João Crisóstomo

[Hoje é dia de São João Crisóstomo. Que Deus nos dê a graça de manter em nossa vida as suas palavras. Que não naufraguemos no meio do caminho e que o Senhor nos ajude a evitar o perigo do pecado. Boa leitura!]


“Quanto é difícil salvar-se no mundo”

São João Crisóstomo

http://www.tudook.com/portalcatolico/images/s_j_crisostomo2.jpgEntão – me dirás – é verdade que se perdem e naufragam os que habitam as cidades e teremos que deixá-las e despovoá-las para irmos ao deserto e habitar os cumes das montanhas? E és tu quem isto ordenas e esta lei impões?

- Pelo contrário. Como já disse, melhor seria o oposto, e faço votos a Deus que gozemos de tanta paz e seja arrancada a tirania destes males pela raiz, que não só não tenham necessidade os que habitam as cidades de tomar de assalto as montanhas, mas que mesmo os que moram nos desertos, e, como desterrados por longo tempo, voltem a sua própria cidade. Porém o que iremos fazer! Eu temo que, ao empenhar-nos em devolvê-los a sua pátria, em lugar de entregá-los a esta, os coloquemos nas mãos dos malignos demônios e, querendo livrá-los da solidão e do desterro, os façamos perder sua filosofia e tranqüilidade.

E se puseres diante de mim a multidão dos que vivem nas cidades e se crês deste modo comover-me e espantar-me, pois não me importarei em condenar pouco menos que toda a face da terra, eu lançarei mão da sentença do Cristo e com ela farei frente a tua objeção. Para que não venhas a cometer tamanha temeridade como te opores ao voto de quem um dia há de nos julgar. O que disse, pois, Cristo?

“Estreita é a porta e apertado é o caminho que leva à vida e poucos são os que o encontram” (Mt 7, 14).

E se são poucos os que acham o caminho, muito menos são os que têm força para chegar até o término do mesmo. Com efeito, nem todos os que a princípio entram por ele, se mantêm firmes até o fim. Uns naufragam no começo, outros pelo meio, outros na própria boca do porto. E em outra ocasião disse o Senhor que “muitos são os chamados e pouco os escolhidos” (Mt 20, 16).

Pois bem, quando é o próprio Cristo quem afirma que a maior parte se perde e limita a salvação a uns poucos, porque tu te revoltas contra mim? É como se contando a ti o que aconteceu no tempo de Noé, te admirasses que todos tivessem perecido e só dois ou três homens escapassem de tão grande castigo, esperando deste modo tapar-me a boca, como se eu não houvesse de me atrever a condenar tanta gente.

São João Crisóstomo

Contra os impugnadores da vida monástica”, disc. 1, c. 11

* * *

São João Crisóstomo,
rogai por nós!

O mundo sob a tirania do pecado – S. João Crisóstomo

[Amanhã – exatamente amanhã – é dia do doutor da Igreja, São João Crisóstomo. Publico, aproveitando a ocasião, dois textos do referido santo: um hoje, falando que o mundo está sob a tirania do pecado; e outro amanhã, explicando o quanto é difícil salvar-se estando no mundo. Suas palavras são importantíssimas para nós. Escutemos atentos às palavras vivas da Tradição da Igreja. Elas nos conduzem à prática da Palavra de Deus, à salvação. Boa leitura!]


“O mundo sob a tirania do pecado”

São João Crisóstomo

http://snpcultura.org/fotografias/pedras_angulares_sao_joao_crisostomo.jpg

São João Crisóstomo, rogai por nós!

Porque, na verdade, não penses que a situação do mundo é agora melhor que a de uma cidade sob o domínio de um tirano, mas muito pior. Não um homem, mas algum demônio maligno se apoderou como um tirano feroz de toda a terra e invadiu com toda a sua hoste as almas dos homens, e dali, como de uma cidadela, dita a todo o mundo suas ordens abomináveis e sacrílegas: Desfaz casamentos, saqueia riquezas, executa mortes iníquas e, o que é muito mais grave, separa do trato com Deus a alma que com Ele se desposara e a entrega a seus guardas impuros e a obriga que se una a eles.

E estes, uma vez que se tenham apoderado de uma destas almas, têm com ela trato tão vergonhoso e insolente qual se pode supor de demônios perversos, que ardente e furiosamente desejam nossa perdição e desonra. Despem-na de todas as vestes da virtude, e cobrem-na com os farrapos dos vícios, imundos, despedaçados e fedorentos que a deixam mais feia que a própria nudez e, depois de enchê-la com toda a sua impureza diabólica, ainda não se dão por satisfeitos em suas insolências contra ela.

E é assim que não conhecem saciedade neste sacrílego e adúltero convívio, senão o modo de agir de bêbados que quanto mais bebem mais ficam sedentos, assim estes, quanto mais abusam da alma, tanto mais se enfurecem e com mais violência e ferocidade saltam sobre ela, rasgando-a e mordendo-a por todas as partes, inoculando seu próprio veneno e não a abandonando, enfim, até vê-la convertida em demônio como eles separada do corpo.

Pois, que tirania, que prisão, que destruição, que escravidão, que guerra, que naufrágio, que fome pode ser mais dura que semelhante estado? E quem será tão cruel e feroz, quem tão tolo, quem tão desumano, tão alheio à dor e à compaixão que, o quanto estiver em suas mãos, não queira livrar uma alma assim ultrajada e maltratada daquela sacrílega fúria e insolência, mas que consinta vê-la sofrer tudo isso? Mas se o consentimento for de uma alma feroz e de pedra, onde colocaremos, dize-me, os que não só o consentem, mas os que cometem crimes muito maiores que este?

E é a quem tem coragem de se lançar no meio dos perigos e não se importam de meter a mão na cara da fera, sem considerar o mal cheiro e o perigo, para arrancar da garganta do demônio as almas que já tinham devorado; a estes, digo, não só não os louvam nem aprovam, mas os expulsam de todas as partes e lhes declaram a guerra.

São João Crisóstomo

Contra os impugnadores da vida monástica”, disc. 1, c. 10

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São João Crisóstomo,
rogai por nós!

Como fugir da impureza – Sto. Afonso de Ligório

[Retirado de "Tratado da Castidade", de Santo Afonso de Ligório, o excerto abaixo é uma exortação às almas que querem fugir do pecado da impureza. São recomendadíssimas as palavras desse doutor da Igreja, especialmente para aqueles que estão afogados na lama do pecado da masturbação, da pornografia, da fornicação, do adultério. "Bem aventurados os puros", diz Jesus. Sejamos puros. Só assim poderemos alcançar a glória do Reino de Deus. Boa reflexão!]

Como fugir da impureza

Santo Afonso de Ligório

http://portalcot.com/reporter/wp-content/uploads/2008/08/s_afonso_de_ligorio.jpgSe fores, pois, molestada por tais tentações, alma cristã, não deves perder a coragem, antes, animosamente combater, empregando os meios que te vou indicar, e não sucumbirás:

a) O primeiro é humilhar-se continuamente diante de Deus. O Senhor castiga muitas vezes os espíritos soberbos, permitindo que caiam em qualquer pecado impuro. Sê, pois, humilde, e não confies em tuas próprias forças. Davi confessa que caiu no pecado por não ter se humilhado e ter confiado demais em si mesmo: “Antes de me haver humilhado, eu pequei” (Sl 118, 67). Devemos temer sempre a nossa própria fraqueza e colocar em Deus toda a nossa confiança, esperando firmemente que nos preserve desse vício.

b) O segundo meio é recorrer imediatamente a Deus, sem entrar em diálogo com a tentação. Logo que se apresentar ao nosso espírito um pensamento impuro, devemos elevar a Deus imediatamente o nosso pensamento ou dirigi-lo a qualquer objeto indiferente. A coisa melhor será invocar imediatamente os Santíssimos Nomes de Jesus e Maria, e não cessar de repeti-los até desaparecer a tentação. Se ela for muito forte, será bom repetir muitas vezes o seguinte propósito: Ó meu Deus, prefiro morrer a Vos ofender. Peça-se socorro, dizendo: Ó meu Jesus, socorrei-me. Maria, assisti-me. Os Nomes de Jesus, Maria e José possuem uma força especial para afugentar as tentações do demônio.

c) O terceiro meio é a recepção assídua dos Santos Sacramentos da Confissão e da Comunhão. É de suma importância revelar quanto antes ao confessor as tentações impuras. “Uma tentação revelada já está meio vencida”, diz São Filipe Néri. E se alguém teve a infelicidade de consentir em uma tentação, não se demore nenhum instante em se confessar disso. São Filipe Néri livrou um rapaz desse vício, induzindo-o a confessar-se logo depois de cada queda.

A Santa Comunhão, está fora de dúvida, confere uma grande força na resistência às tentações desonestas. O Sangue de Jesus Cristo, que recebemos na Sagrada Comunhão, é chamado pelos Santos de ‘Vinho gerador de Virgens’ (Zac 9, 17). O vinho natural é um perigo para a castidade; este Vinho Celestial é o seu conservador.

d) O quarto meio é a devoção à Imaculada Mãe de Deus, que é chamada a Virgem das Virgens. Quantos jovens não se conservaram puros e castos como Anjos, devido à devoção à Santíssima Virgem!

e) O quinto meio é a fuga da ociosidade. O Espírito Santo diz (Ecli 33, 21): “A ociosidade ensina muita coisa má”, isto é, ensina a cometer muitos pecados. E o profeta Ezequiel (Ez 16, 49), assevera que foi a ociosidade a causa das abominações e ruína final dos habitantes de Sodoma. Conforme São Bernardo, a ociosidade motivou a queda de Salomão. Por isso São Jerônimo exorta a Rústico (Ep. ad Rust., 2) que esteja sempre ocupado, para que o demônio não o preocupe com suas tentações. “Quem trabalha é tentado por um demônio só; quem vive ocioso, é atacado por uma multidão deles”, diz São Boaventura.

f) O sexto meio consiste no emprego de todas as precauções exigidas pela prudência, tais como a modéstia dos olhos, a vigilância sobre as inclinações do coração, a fugida das ocasiões perigosas, etc.

Podcast: Fugindo da impureza

Nessa mensagem falo sobre como devemos fugir do pecado da impureza, baseando-me, é claro, na Sagrada Escritura e nas exortações de Santo Afonso de Ligório que fala, em “Tratado da Castidade”, de como devemos nos prevenir das investidas do demônio contra a nossa castidade: (1) humilhando-nos na presença de Deus, (2) fugindo das ocasiões de pecado e (3) mantendo o olhar firme em Jesus Cristo, buscando incessantemente os sacramentos da Eucaristia e da Confissão e mantendo uma devoção enorme à Santíssima Virgem Maria. Só assim poderemos vencer o pecado.

Boa reflexão!

[O link para acessar a mensagem está no blog Mater Misericordiae]


A voluptuosidade – São Gregório de Nissa

[Publico abaixo mais um excerto da obra “Sobre a vida de Moisés, de S. Gregório de Nissa. Nesse capítulo (46), ele fala sobre a voluptuosidade e como devemos enfrentar esse difícil inimigo de combater e vencer: por meio da fuga da ocasião. Sobre isso, os santos são quase unânimes em afirmar que aquele que não tenta evitar as ocasiões de pecado infelizmente se queima. E São Gregório exorta: “[E]stá em nosso poder permanecer livres de paixão contanto que nos mantenhamos longe de avivar o fogo”. A batalha é dificílima. Precisamos invocar o Altíssimo para que se digne conceder a nós a graça da brutalidade, da força interior. Só assim poderemos vencer a impureza. Boa reflexão!]


A voluptuosidade

São Gregório de Nissa

O fato de que o investigador do vôo das aves, que mencionamos, praticava a magia é atestada pelo relato quando diz que tinha o poder de fazer vaticínios na mão e de consultar através das aves e, antes disso, que havia conhecido pelo zurro da jumenta o concernente à rivalidade que tinha diante. A Escritura apresentou o zurro da jumenta como uma palavra articulada, porque ele habitualmente consultava com uma força diabólica as vozes dos animais. Mostra-nos com isto que quem está enredado com este engano dos demônios chega inclusive a tomar como uma palavra racional o ensinamento que encontra na observação dos sons dos irracionais. Ao escutá-la, compreendeu por aquelas mesmas coisas em que havia errado, que era invencível a força contra a qual o haviam alugado.

Também na narração evangélica a turba de demônios chamada legião (Mc 5, 9 e Lc 8, 30), se prepara para se opor ao poder do Senhor. Porem quando se aproxima Aquele que tem o poder sobre todas as coisas, a horda proclama seu poder excelso e não oculta a verdade: que este é a força divina, e que em tempo vindouro infligirá o castigo aos pecadores. Pois diz a voz dos demônios: “Sabemos quem és: o Santo de Deus, e que vieste antes do tempo a atormentar-nos” (Mc 1, 24; 5, 7 e Lc 4, 34-35). Isto é o que sucedeu também então: o poder demoníaco que acompanhava o mago ensinou a Balaan que o povo era invencível e invulnerável.

Harmonizando este relato com as coisas que já explicamos, dizemos que quem quer maldizer os que vivem na virtude não pode pronunciar nenhuma palavra hostil nem discordante, mas converte sua maldição em benção. Isto significa que a afronta da difamação não alcança os que vivem na virtude. Com efeito, como pode ser caluniado de avareza aquele que não possui nada? Como será reprochado de libertino aquele que vive só levando uma vida de anacoreta? De cólera aquele que é manso? De orgulho aquele que é humilde? Ou como se dirigirá qualquer outra crítica àqueles que são conhecidos pelo contrário, que têm por finalidade apresentar uma vida inacessível à critica a fim de que, como diz o Apóstolo, nosso adversário se envergonhe não tendo nada que dizer (Tt 2, 8)? Por esta razão disse a voz de quem havia sido feito vir para maldizer: “como maldiria àquele que não maldiz o Senhor?” (Nm 23, 8), isto é, como acusarei quem não oferece matéria de acusação, já que, por olhar sempre para Deus, leva uma vida inacessível ao pecado?

Apesar de haver falado isto, o inventor da maldade não cessa em absoluto seu projeto contra os que tentava, mas muda a insídia para sua forma mais antiga de tentar, tentando atrair a natureza para o mal outra vez por meio do prazer. Com efeito, o prazer é apresentado por todo vício como isca que arrasta facilmente as almas sensuais a cair no anzol da perdição. É sobre tudo por meio do prazer impuro que a natureza é arrastada para o mal sem que se controle. É o mesmo que sucede agora. Com efeito, aqueles que haviam prevalecido sobre as armas, que haviam demonstrado que todo ataque de ferro era mais débil que sua própria força, e que com seu poder haviam feito fugir o exército dos inimigos, estes foram feridos pelos dardos femininos através do prazer. E os que haviam sido mais fortes que os varões se converteram em vencidos pelas mulheres.

Com efeito, logo que vieram às mulheres que punham ante eles suas próprias formas em vez de armas, imediatamente esqueceram o ímpeto de seu valor, apagando seu ardor no prazer. Eles estavam em uma situação na qual era natural deixar-se levar à união proibida com estrangeiros. Com efeito, a vizinhança com o mal já era um afastamento da ajuda do bem. Imediatamente a Divindade se levantou em cólera contra eles. Porém o zeloso Finéias não esperou que o pecado fosse purificado por uma decisão do alto, mas ele mesmo se converteu em juiz e verdugo (Nm 25, 1-9). Enchendo-se de ira contra quem se havia deixado levar pela paixão, fez as vezes de sacerdote purificando o pecado com sangue: não com o sangue de algum animal inocente, que não tivera parte na imundície da intemperança, mas com o dos que se haviam unido entre si no pecado.

Sua lança deteve o movimento da justiça divina ao atravessar de um só golpe os corpos dos dois, mesclando com a morte o prazer dos pecadores. Parece-me que o relato propõe aos homens um ensinamento útil à alma. Através dele aprendemos que, sendo muitas as paixões que se opõem à razão do homem, nenhuma outra paixão tem tanto poder contra nós que possa igualar a enfermidade do prazer. Pois o fato de que aqueles israelitas, que unidos se haviam mostrado mais fortes que a cavalaria egípcia, haviam superado os amalecitas, haviam parecido temíveis ante o povo que lhes era vizinho e depois destas coisas haviam vencido a falange dos madianitas, hajam caído na escravidão da paixão quando viram as mulheres estrangeiras, mostra bem – como dissemos – que a voluptuosidade é para nós um inimigo difícil de combater e de vencer.

Tendo vencido imediatamente, só com seu comparecimento, a homens impetuosos com as armas, a voluptuosidade levantou contra eles a bandeira da desonra, publicando sua infâmia à luz do sol. Pois mostrou que os homens, por sua causa, converteram em animais os que o impulso bestial e irracional à impureza convenceu a que esquecessem de sua natureza humana, a ponto de não encobrir sua impiedade, mas gloriar-se com a infâmia de sua paixão e adornar-se com a imundície da vergonha, chafurdando como porcos na lama da impureza, abertamente, à vista dos demais. Que lição tiraremos deste relato? Que sabedores de quanta força para o mal tem a enfermidade da voluptuosidade, mantenhamos nossa vida o mais afastada possível desta vizinhança, de forma que esta enfermidade, que é como um fogo que com sua proximidade acende a chama perversa, não tenha nenhum acesso a nós. Isto é o que ensina Salomão na Sabedoria ao dizer que não se deve pisar a brasa com o pé descalço e que não se deve introduzir fogo no seio (Pr 6, 27-28), pois está em nosso poder permanecer livres de paixão contanto que nos mantenhamos longe de avivar o fogo.

Porém se, ao contrário, chegarmos a tocar este fogo ardente, penetrará em nosso seio o fogo da concupiscência, e então se seguirá a queimadura para o pé e a ruína para o seio.

São Gregório de Nissa

Sobre a vida de Moisés”, cap. 46

A fuga das ocasiões de pecado

Fonte: Lepanto


“Fuga das ocasiões de pecado: um dos mais graves deveres da vida espiritual”


Santo Afonso Maria de Ligório


I. Da obrigação de evitar as ocasiões perigosas

Um sem número de cristãos se perde por não querer evitar as ocasiões de pecado. Quantas almas lá no inferno não se lastimam e queixam: Infeliz de mim! Se tivesse evitado aquela ocasião, não estaria agora condenado por toda a eternidade!

Falando aqui da ocasião de pecado, temos em vista a ocasião próxima, pois deve-se distinguir entre ocasiões próximas e remotas. Ocasião remota é a que se nos depara em toda a parte e que raramente arrasta o homem ao pecado. Ocasião próxima é a que, por sua natureza, regularmente induz ao pecado. Por exemplo, achar-se-ia em ocasião próxima um jovem que muitas vezes e sem necessidade se entretêm com pessoas levianas de outro sexo. Ocasião próxima para uma certa pessoa é também aquela que já a arrastou muitas vezes ao pecado. Algumas ocasiões consideradas em si não são próximas, mas tornam-se tais, contudo, para uma determinada pessoa que, achando-se em semelhantes circunstâncias, já caiu muitas vezes em pecado em razão de suas más inclinações e hábitos. Portanto, o perigo não é igual nem o mesmo para todos.

O Espírito Santo diz: “Quem ama o perigo nele perecerá” (Ecli 3, 27). Segundo S. Tomás, a razão disso é que Deus nos abandona no perigo quando a ele nos expomos deliberadamente ou dele não nos afastamos. São Bernardino de Sena diz que dentre todos os conselhos de Jesus Cristo, o mais importante e como que a base de toda a religião, é aquele pelo qual nos recomenda a fuga da ocasião de pecado.

Se fores, pois, tentado, e especialmente se te achares em ocasião próxima, acautela-te para não te deixares seduzir pelo tentador. O demônio deseja que se se entretenha com a tentação, porque então torna-se-lhe fácil a vitória. Deves, porém, fugir sem demora, invocar os santos nomes de Jesus e Maria, sem prestar atenção, nem sequer por um instante, ao inimigo que te tenta. S. Pedro nos afirma que o demônio rodeia cada alma para ver se a pode tragar: “Vosso adversário, o demônio, vos rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar” (I Ped 5, 8). São Cipriano, explicando essas palavras, diz que o demônio espreita uma porta por onde possa entrar na alma; logo que se oferece uma ocasião perigosa, diz consigo mesmo: ‘eis a porta pela qual poderei entrar’, e imediatamente sugere a tentação. Se então a alma se mostrar indolente para fugir da tentação, cairá seguramente, em especial se se tratar de um pecado impuro. É a razão por que ao demônio mais desagradam os propósitos de fugirmos das ocasiões de pecado, que as promessas de nunca mais ofendermos a Deus, porque as ocasiões não evitadas tornam-se como uma faixa que nos venda os olhos para não vermos as verdades eternas, as ilustrações divinas e as promessas feitas a Deus.

Quem estiver, porém, enredado em pecado contra a castidade, deverá, para o futuro, evitar não só a ocasião próxima, mas também a remota, enquanto possível, porque em tal se sentirá muito fraco para resistir. Não nos deixemos enganar pelo pretexto da ocasião ser necessária, como dizem os teólogos, e que por isso não estamos obrigados a evitá-la, pois Jesus Cristo disse: “Se teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o de ti” (Mt 5, 29). Mesmo que seja teu olho direito deverás arrancá-lo e lançar fora de ti, para que não sejas condenado. Logo, deves fugir daquela ocasião, ainda que remota, já que, em razão de tua fraqueza, tornou-se ela uma ocasião próxima para ti.

Antes de tudo devemos estar convencidos que nós, revestidos de carne, não podemos por própria força guardar a castidade; só Deus, em Sua imensa bondade, nos poderá dar força para tanto.

É verdade que Deus atende a quem Lhe suplica, mas não poderá atender à oração daquele que conscientemente se expõe ao perigo e não o deixa, apesar de o conhecer, pois, como diz o Espírito Santo, quem ama o perigo perecerá nele.

Ó Deus, quantos cristãos existem que, apesar de levarem uma vida piedosa, caem finalmente e obstinam-se no pecado, só porque não querem evitar a ocasião próxima do pecado impuro. Por isso nos aconselha S. Paulo (Fil 2, 12): “Com temor e tremor operai a vossa salvação”. Quem não teme e ousa expor-se às ocasiões perigosas, principalmente quando se trata do pecado impuro, dificilmente se salvará.

II. De algumas ocasiões que devemos evitar cuidadosamente

Como queremos salvar nossa alma, é nosso dever fugir da ocasião do pecado. Principalmente devemos abster-nos de contemplar pessoas que nos suscitam maus pensamentos. “Pelos olhos entra a seta do amor impuro e fere a alma”, diz S. Bernardo (De modo bene viv., c. 23), e essa seta, ferindo-a, tira-lhe a vida. O Espírito Santo dá-nos o conselho: “Desviai vossos olhos de uma mulher adornada” (Ecli 9, 8).

Para se livrar de tentações impuras, um antigo filósofo arrancou os olhos. Nós, cristãos, não podemos assim proceder, mas devemos cegar-nos espiritualmente, desviando os olhos de objetos que possam ocasionar-nos tentações. São Luís Gonzaga nunca olhava para uma mulher e, mesmo em conversa com sua própria mãe, tinha os olhos postos no chão. É claro que o mesmo perigo existe para mulheres que cravam seus olhares em homens.

Em segundo lugar, deve-se evitar todas as más companhias e as conversas e entretenimentos em que se divertem homens e mulheres. Com os santos te santificarás e com os perversos te perverterás. Anda com os bons e tornar-te-ás bom, anda com os desonestos e tornar-te-ás desonesto.

O homem toma os hábitos daqueles que convivem com ele, diz São Tomás de Aquino. Se estiveres metido numa conversação perigosa, que não possas abandonar, segue o conselho do Espírito Santo: Cerca teus ouvidos de espinhos para que os pensamentos impuros dos outros não achem neles entrada. Quando São Bernardino de Sena, ainda pequeno, ouvia uma palavra desonesta, sentia o rubor subir à sua face, e por isso seus companheiros tomavam cuidado para não pronunciar tais palavras em sua presença. E Santo Estanislau Kostka sentia tal asco ao ouvir tais palavras, que perdia os sentidos.

Quando ouvires alguém conversando sobre coisas impuras, volta-lhe as costas e foge. Assim costumava proceder São Edmundo. Havendo uma vez abandonado seus companheiros por estarem conversando sobre coisas desonestas, encontrou-se com um jovem extraordinariamente belo, que lhe disse: Deus te abençoe, caríssimo. Ao que o Santo perguntou, admirado: Quem és tu? Ele respondeu: Olha para minha fronte e lerás meu nome. Edmundo levantou os olhos e leu: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. Com isso Nosso Senhor desapareceu e o Santo sentiu uma alegria celestial em seu coração.

Achando-te em companhia de rapazes que conversam sobre coisas desonestas e, não podendo retirar-te, não lhes dês atenção, volta-lhes o rosto e dá-lhes a conhecer que tais conversas te desagradam.

Deves também abster-te de considerar quadros menos decentes. São Carlos Borromeu proibiu a todos os pais de família conservarem tais quadros em suas casas. Deves igualmente evitar a leitura de maus livros, revistas e jornais, e não só dos que tratam ostensivamente de coisas imorais, como também dos que tratam de histórias insinuantes, como certos poetas e romancistas.

Vós, pais de famílias, proibi a vossos filhos a leitura de romances: estes causam muitas vezes maiores danos que os livros propriamente imorais, porque deixam nos corações dos jovens certas más impressões que lhes roubam a devoção e os induzem ao pecado. São Boaventura diz (De inst. nov., p. 1 , c. 14): “Leituras vãs produzem pensamentos vãos e destroem a devoção”. Dai a vossos filhos livros espirituais, como a história eclesiástica, ou vidas de santos e semelhantes.

Proibi a vossos filhos representar um papel qualquer em comédia inconveniente e mesmo a assistência a representações imorais. “Quem foi casto para o teatro, de lá volta manchado”, diz São Cipriano. Se para lá se dirigiu aquele jovem ou aquela donzela, em estado de graça, de lá voltam ambos em estado de pecado. Proibi também a vossos filhos a ida a certas festas, que são festas do demônio, nas quais há danças, namoros, canções impudicas, gracejos e divertimentos perigosos. Onde há danças, celebra-se uma festa do demônio, diz Santo Efrém.

Mas que há de ruim quando se graceja?, dirá alguém. Esses tais gracejos não são gracejos, mas crimes, responde São João Crisóstomo, são graves ofensas contra Deus. Um companheiro do padre João Vitellio, contra a vontade deste servo de Deus, se dirigiu uma vez para um tal divertimento em Nórcia. Que lhe aconteceu? Perdeu primeiramente a graça de Deus, entregou-se em seguida a uma vida desregrada e foi finalmente assassinado por seu próprio irmão.

Poderás aqui perguntar-me se é pecado mortal namorar. Responderei a essa pergunta na segunda parte, c. 6, § IV. Aqui só direi que tais namoros tornam-se ocasião próxima do pecado. A experiência ensina que em tais casos só poucos deixam de pecar. Se não pecam já no começo, caem no decorrer do tempo. No princípio se entretêm só por mútua inclinação; esta torna-se, porém, em breve, paixão, e a paixão, uma vez arraigada, cega o espírito e arrasta a muitos pecados de pensamentos, palavras e obras.

III. Fúteis objeções contra as sobreditas verdades

Objetar-me-ás: Mudei duma vez de vida; não tenho nenhuma má intenção, nem mesmo uma tentação quando vou visitar fulana ou sicrana. Respondo: Conta-se que há uma espécie de ursos que caçam macacos: ao avistar o urso, fogem estes para as árvores. Mas que faz o urso? Deita-se debaixo da árvore e faz-se de morto. Descem os macacos com esse engano e então, de um salto, captura-os e devora-os. É o que pratica o demônio: representa a tentação como morta, e assim que desceres, isto é, logo que te expuseres ao perigo, desperta-a de novo, e ela te tragará. Oh! Quantos cristãos, que se davam ao exercício da oração e da comunhão e, mesmo, levavam uma vida santa, não caíram nas garras do demônio, porque se expuseram ao perigo.

A história eclesiástica narra que uma mulher mui piedosa se ocupava em obras de caridade e, em especial, em enterrar os corpos dos Santos Mártires. Encontrando uma vez o corpo de um mártir que ainda dava sinais de vida, levou-o para sua casa, curou-o e o mártir restabeleceu-se. Mas que aconteceu? Por causa da ocasião próxima, esses dois santos – pois esse nome mereciam – primeiramente perderam a graça de Deus e depois a Fé.

Mas a visita àquela casa, a continuação daquela amizade, me traz proveitos, dizes. Sim, porém, se notares que “aquela casa é o caminho para o inferno” (Prov 7, 27), nenhum proveito te trará, e tu a deves deixar se desejas ser feliz. Mesmo que fosse teu olho direito a causa da perdição, deverias arrancá-lo e lançá-lo longe de ti, diz o Senhor. Nota as palavras: lança-o de ti, não deves deixá-lo perto, mas repeli-lo para longe, isto é, deves evitar por completo a ocasião. – Mas daquela pessoa nada tenho a temer, pois ela é tão devota – dizes. A isso responde São Francisco de Assis: O demônio tenta diferentemente os cristãos piedosos que se deram inteiramente a Deus e os que levam uma vida desregrada. Ele não procura prendê-los com uma corda já no princípio; contenta-se com um cabelo, servindo-se então de um fio e, finalmente, de uma corda, arrastando-os ao pecado.

Quem quiser ser preservado deste perigo deve já no começo evitar todos os fios, todas as ocasiões, quer sejam saudações, quer presentes.

Ainda uma observação importante: Um penitente que nunca evitou seriamente as ocasiões perigosas, nas quais tem regularmente caído em pecado mortal, apesar de todas as suas confissões, deverá fazer uma confissão geral, visto terem sido inválidas as confissões feitas em tal estado, em razão da falta de propósito de evitar a ocasião próxima. O mesmo se deve dizer a respeito dos que confessam seus pecados, mas nunca deram sinal de emenda, continuando logo depois da confissão a cometer os mesmos pecados, sem empregar nenhum meio contra a queda. Só uma confissão geral poderá trazer-lhes garantia e tranqüilidade, servindo de base para uma verdadeira emenda; feita a confissão, poderão encetar uma vida nova e perfeita, pois os maiores pecadores, como acima provamos, poderão, com a graça de Deus, alcançar a perfeição.”

(Santo Afonso Maria de Ligório, Escola da Perfeição Cristã, Compilação de textos do Santo Doutor pelo padre Saint-Omer, CSSR, IV Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1955, páginas 44-48)