Padre Zezinho, a “dissidência calculada” e a Comunhão na boca

Em artigo recente, publicado em seu site e intitulado Cátedra de Pedro ou câmera do padre?, o padre Zezinho redigiu algumas considerações com as quais definitivamente não posso concordar. Ele começa tentando definir a expressão “dissidência calculada”; para isto, faz referência a um “neoconservadorismo que adota modernidade em alguns quesitos e volta ao passado no quesito que lhe interessa voltar”. No entanto, mais adiante, os ditos “dissidentes”, segundo o sacerdote, são aqueles que “teimam em receber a eucaristia só na boca, nunca nas mãos”!

Da maneira como redige o reverendíssimo sacerdote, aquelas pessoas que desejam receber Jesus Eucarístico na boca e de joelhos seriam rebeldes e desobedientes. “São dissidentes calculados. Desobedecem sem desobedecer. E dão um jeito de chamar de desobedientes os que não se regem pelos mesmos textos que eles.”

Sobre este tema, vários são os pontos a serem considerados. Para o padre dehoniano, “temos católicos que sistematicamente desafiam as normas das dioceses e paróquias, alegando que os líderes dos seus movimentos estão acima da diocese e da paróquia”. Mas, o que observamos na prática não é isto. Os argumentos que muitos católicos usam para defender a comunhão na boca – e de joelhos – estão, pelo contrário, em consonância com a Tradição da Igreja, com o Magistério da Igreja e com as palavras do atual Pontífice Romano, o Papa Bento XVI.

Primeiro, é visível o apelo de inúmeros Santos católicos – especialmente dos Padres da Igreja – a fim de que nenhum fragmento da Hóstia consagrada se perca. Assim se manifestam São Cirilo de Jerusalém, São Jerônimo, Santo Efrém, Santo Hipólito, São Cesário de Arles e São João Crisóstomo. Lembra ainda o Papa Pio XI que “ao administrar o sacramento eucarístico deve-se mostrar um particular zelo a fim de que não se percam os fragmentos das hóstias consagradas, dado que em cada um deles está presente o Corpo inteiro de Cristo” 1. Ora, está evidente que receber a Comunhão na boca representa, neste sentido, um risco muito menor do que comungar na mão.

Mais: em notificação emitida em 1985 pela Sagrada Congregação para o Culto Divino, a Igreja deixou clara uma coisa da qual talvez o pe. Zezinho tenha se esquecido:

Os fiéis jamais serão obrigados a adotar a prática da comunhão na mão; ao contrário, ficarão plenamente livres para comungar de um ou de outro modo. Essas normas e as que foram recomendadas pelos documentos da Sé Apostólica atrás citados, têm por finalidade lembrar o dever do respeito para com a Eucaristia independentemente do modo como se recebe a Comunhão.  Insistam os pastores de almas não só sobre as disposições necessárias para a recepção frutuosa da Comunhão, que, em certos casos, exige o recurso ao Sacramento da Penitência; recomendem também a atitude exterior de respeito que, em seu conjunto, deve exprimir a fé do cristão na Eucaristia.”

E, em 1999, no boletim Notitiae, a mesma Congregação fez um esclarecimento ainda mais incisivo: “Aqueles que obrigam os comungantes a receber a santa Comunhão unicamente nas mãos como também aqueles que recusam aos fiéis a Comunhão nas mãos nas dioceses que utilizam tal indulto, procedem contrariamente às normas estabelecidas. (…) Em todo caso, é para desejar que todos tenham presente que a tradição secular consiste em receber a Comunhão sobre a língua. O sacerdote celebrante, caso exista perigo de sacrilégio, não dê a Comunhão nas mãos dos fiéis e exponha-lhes as razões porque assim procede.” (Os trechos acima compilados também foram extraídos do site Cleofas)

Por fim, quem fala é o Papa Bento XVI. Em entrevista concedida em 2010 ao jornalista alemão Peter Seewald, ele explicou porque, muitas vezes, em seu pontificado, administrou a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos.

“Não sou contra a Comunhão na mão por princípio: eu mesmo a administrei assim e a recebi também desta maneira. Fazendo com que a Comunhão seja recebida de joelhos e que seja administrada na boca, quis dar um sinal do temor e colocar um ponto de exclamação acerca da Presença real. Não por último, porque justamente nas celebrações de massa, como aquelas na Basílica de São Pedro ou na Praça, o perigo da banalização é grande. Ouvi falar de pessoas que colocam a Comunhão na bolsa, levando-a quase como se fosse um souvenir qualquer. Num contexto semelhante, no qual se pensa que é óbvio receber a Comunhão – da série: todos vão lá na frente, então também faço o mesmo -, queria apresentar um sinal forte, isto deve ficar claro: ‘É algo particular! Aqui está ele, diante dele é que caímos de joelhos. Prestem atenção! Não se trata de um rito social qualquer, do qual se pode participar ou não’.”

- Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos
III Parte, Capítulo 15, Como acontece a renovação?
pp. 190-191; Ed. Paulinas, 1ª edição. São Paulo, 2011.

As recomendações da Igreja são bem claras. Comungar diretamente na boca não se trata de mera opinião de lideres de movimento, ou de campanhas solitárias de sacerdotes tradicionais aqui ou acolá. Não se trata, como quer padre Zezinho, de “dissidência calculada”. É, pelo contrário, “tradição secular” católica.

Sobre o mesmo assunto, recomendo a leitura do livro de Dom Athanasius Schneider, o famoso “Dominus Est! – É o Senhor!”, sobre “o dom inestimável da Sagrada Comunhão”. Está disponível para leitura no Scribd. Para quem, entretanto, não tem tempo para fazer a leitura, urge ler o artigo da série “Mitos Litúrgicos comentados”, escrita pelo Francisco Dockhorn e revisada por Dom Antônio Rossi Keller, sobre a comunhão de joelhos e na boca.

Sim, há muitos bons textos escritos pelo padre Zezinho. Há alguns meses, chamou-me a atenção um em que ele diferenciava a Santa Missa de um reles concerto. Neste último artigo, porém, o reverendíssimo sacerdote definitivamente não foi feliz.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Também é recomendada a leitura da instrução Memoriale Domini, sobre a maneira de distribuição da Sagrada Comunhão.

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1. Instrução da Sagrada Congregação da disciplina dos sacramentos, de 26 de março de 1929: AAS 21 (1929) 635.

Padre Zezinho comenta entrevista de padre Marcelo Rossi à Veja

http://img.terra.com.br/i/2009/05/21/1206727-8856-atm17.jpgO padre Marcelo Rossi, muitíssimo conhecido em nosso país por sua atuação junto à Renovação Carismática Católica nos meios de comunicação, deu, já há algumas semanas, uma entrevista no mínimo curiosa à revista Veja. Já havia sido comentado, aqui neste espaço, um excerto particular da matéria, na qual o sacerdote falava da batina como a maior identidade sacerdotal. Na ocasião, considerou-se positiva a exaltação feita pelo clérigo à roupa que é característica do ministério ordenado. Foi deixado de lado, porém, um trecho da entrevista no qual o mesmo padre Marcelo Rossi se lamentava de ter sido “boicotado” durante a visita do Santo Padre, o Papa Bento XVI, ao Brasil. Na oportunidade, a notícia fora reportada pelo Fratres in Unum. “Senti-me como Cristo no Horto das Oliveiras, quando ele se achou abandonado e pediu para afastar de si o cálice de sangue”, disse o padre carismático.

Esta semana, uma resposta advinda do dehoniano padre Zezinho foi publicada em seu site. No texto, ele se mostra inconformado com o que chamou de “triste exemplo de imaturidade” por parte de padre Marcelo.

http://www.mensagensvirtuais.xpg.com.br/celebridades/Padre_Zezinho.jpg“É o tipo de entrevistas que deveria ser lida e analisada em todos os seminários e movimentos católicos para os futuros pregadores aprenderem como não ser nem fazer quando tiverem nas mãos um microfone.”

(…)

“Ficar deprimido porque não foi valorizado na vinda do Papa? Um pregador da fé? Não teria sido muito mais cristão manter a boca fechada, solicitar audiência, ir ao líder da diocese e ali derramar suas mágoas? Tinha que ir às páginas amarelas de uma revista que sabidamente não prima em elogiar a Igreja que o ordenou pregador?”

O sacerdote também criticou a afirmação de seu irmão acerca da batina. “Ora, padres e leigos sabem muito bem que o hábito não faz o monge.”

O artigo do padre Zezinho foi publicado no dia 16 de maio, um mês depois da entrevista concedida por padre Marcelo Rossi à Veja.

Piedade sincera, Catecismo errado

Fonte: Site do Pe. Zezinho

Pe. Zezinho, SCJ

http://letras.terra.com.br/fotos/41fbb114627328fee9e0194f7c461597.jpgExiste entre nós, católicos, a catequese e a anti-catequese. A primeira é vivência e transmissão correta de algumas verdades da fé, já que não temos como ensinar todas elas, tantas são as informações contidas no depósito da fé católica. A segunda é a vivência e a transmissão de alguma doutrina contrária ao que a Igreja ensina, mas mesmo assim carimbá-las como o falso nome de catolicismo. Não são poucos os pregadores anti-catequistas, sobretudo nesses dias de mídia intensa com pregadores que não estudaram e não estudam nem a pau o seu catecismo e os livros de teologia.

Exemplifico sem citar nomes. O sacerdote acabara de sugerir aos seus muitos ouvintes, naquele Natal, que com o mouse acessassem o site e, nele, apagassem uma das velinhas virtuais. O gesto equivaleria ao de acender ou apagar uma vela de cera num santuário e ajudaria uma entidade pobre. Boa proposta, bom simbolismo.

O erro veio na doutrina que seguiu. Garantiu que, a cada vela apagada, o fiel se libertaria de uma maldição. Ora, ele sabe e, se não sabe deveria saber, porque sua faculdade certamente ensinou que isso é amuletização e superstição. Vai contra a doutrina católica. Mas fez. Como ele, muitos outros do seu grupo fazem.

Irmãos que ensinam a anti-catequese a pretexto de evangelizar oram para que Deus “possa” curar alguém; como se Deus não pudesse! Anunciam quebra de maldições em família quando está claro, nos textos da Igreja e do Novo Testamento, que Jesus já morreu para que ninguém mais fosse maldito. Ele já nos resgatou de antemão. Uma coisa é aceitação de bênção e outra é a quebra de maldição. Uma é necessária, a outra cerimônia é inútil porque toda maldição já foi quebrada. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3, 13); “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20, 28). Ninguém tem que pagar pelos pecados dos seus antepassados. Uma coisa é orar por eles, outra é crer que sobrou maldição para a família pagar. O Reino de Deus não funciona como o governo brasileiro com os impostos atrasados. Não depois da cruz e da ressurreição!

E há aquele ele que ensinou que se pode pagar o dízimo para a sua emissora e dar uma “contribuição” para a diocese… Dei e entender que uma emissora de rádio é mais importante que uma diocese. Dízimo para aquela obra e pequena ajuda para a igreja local…

O desfile de informações erradas continua. Vez por outra se ouve um pregador a dizer que, quando você peca você enfia um espinho na cabeça de Jesus e Maria lá no céu; e que eles sofrem com o seu pecado. Não é o que a Igreja ensina.

Está gravada a palestra na qual se afirma que ao comungar Jesus o fiel também comunga Maria porque, em virtude da união hipostática com o filho, ela e ele têm o mesmo DNA…  Outro afirmou solenemente que se Maria não fosse virgem, não teria sido escolhida para gerar o Cristo porque foi sua virgindade que lhe mereceu este chamado. Não é desta forma que a Igreja vê os méritos de Maria. O próprio Jesus salienta que, mais do que pelo ventre que o gerou e pelos seios que o amamentaram, a bem aventurança de Maria estava no seu ouvir e praticar a Palavra. Com, ela todos os que o seguissem. (Lc 11, 27-28)

E muitos viram o pregador anunciar um demônio que entrara numa mulher presente à missa, sem mostrar nem a mulher nem o demônio. Pior ainda foi quando orou em línguas antes do Pai Nosso para realizar aquele meio exorcismo e invocou São Miguel Arcanjo com sua espada luminosa para expulsar o tal demônio. Se já estavam no Pai Nosso e Jesus estava li no altar, porque tinha acontecido a consagração, por que recorrer a São Miguel Arcanjo? Jesus tem menos poder?

Não faltam canções a dizer que querem amar “somente” a Deus, negando a doutrina essencial do cristianismo, expressa com clareza em Mateus 25, 31-46 e em Mt 7, 15-23. E houve o caso do pregador que garantiu que, a cada rosário que oramos, uma alma é “resgatada do inferno”. O outro, querendo consertar a gafe, acentuou que o que ele queira dizer é que Maria resgata uma alma do purgatório a cada Ave Maria orada com fervor.

O desfile de gafes continua. Que falem os mestres, os doutores em teologia, os liturgistas para que se corrijam tais excessos. É de se duvidar que sejam ouvidos. Evidentemente, quem ensina dessa forma não estudou direito a doutrina católica. Os documentos da Igreja são claros a esse respeito. Não é que a Igreja não tenha falado. Falar, ela fala. O problema é que grande número muitos dos que gostam de ser ouvidos não ouvem. Se ouvissem não diriam o que andam dizendo!

De estarrecer foi a afirmação de que a dengue e o câncer são doenças trazidas por demônios. Na mesma semana um dos pregadores orou para expulsar do Brasil o demônio da dengue com seus mosquitos e o outro solenemente expulsou o demônio causador do câncer em cinco pessoas da assembléia. As pessoas não foram mostradas. Pena que meses depois não se tocou mais no assunto. Aquele demônio especializado em causar câncer existe? Foi embora ao comando de tão preparado pregador? As pessoas foram realmente curadas? Ou não interessava mais tirá-las do seu anonimato? Podem pregadores agir desta forma?  O leitor já sabe a resposta!