E se hoje for o último dia?

http://www.santoafonsorn.org/wp-content/uploads/2009/04/cb30e3968e2b7685fe378158e3163bb6_0_576x576_foto3.jpg“Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos veem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.”

“Assim, pois, cristão, quando o demônio te provoca a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? “Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim”. (Ecl 9, 12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus.”

“Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

- Santo Afonso de Ligório
Preparação para a morte, consideração V, ponto I

O Cristianismo é muito mais que isso

http://photos-a.ak.fbcdn.net/photos-ak-sf2p/v217/37/69/33065430396/n33065430396_3640174_4668.jpg“Que pobreza de vida interior de parte da grande maioria dos católicos chilenos! O catolicismo significa para muitas, muitíssimas pessoas das que se dizem cristãs praticantes, a participação na Missa aos domingos, a comunhão algumas vezes ao ano, o ato de dar seu nome a associações piedosas, de fazer algumas esmolas… e nada mais. O Cristianismo é mais, muito mais que isso. O Cristianismo é um esforço total da alma, que deve ver todas as coisas com os olhos e com o coração de Cristo. Os bens deste mundo, as riquezas, os prazeres, o tempo, tudo deve ser estimado por seu valor sobrenatural, por ser meio para o fim último da vida humana, o serviço de Deus. A grande crise religiosa no Chile é antes de tudo uma crise de catolicismo integral: os homens não veem nos que se dizem católicos o testemunho de Cristo, do homem que ama a Deus sobre todas as coisas e a seu próximo como a si mesmo, por amor a Deus.”

- Santo Alberto Hurtado em A crise sacerdotal no Chile

Será que estaríamos nos equivocando se disséssemos que a situação do catolicismo no Chile do século XX é bem semelhante à situação do cristianismo no Brasil atual?

O ressurgimento da moral pagã

Padre Alberto H. Cruchaga, S.J.

Orientações filosóficas

http://biblioteca.uahurtado.cl/ujah/ph/IMAGENES/FPH096.jpgNo entanto, mais destruidora que a guerra material é a guerra espiritual: o conflito de ideologias. O comunismo, mística religiosa da matéria, ateísmo absoluto, negação de todo valor espiritual, está dominando uma imensa região da Europa e, dali, penetra em todos os países, inclusive o nosso [Chile] (…). No México e na Espanha, enquanto teve influência na vida pública, proibiu a religião, assassinou sacerdotes, incendiou as igrejas, tornou ateu o ensino. No México iniciou-se uma campanha sistemática para perverter os costumes; a educação sexual mais descarada foi introduzida em todas as escolas de maneira horrivelmente realista1.

As teorias filosóficas que professam o racismo e os sistemas totalitários autênticos, que aparentam apresentar maior cultura e sabedoria ocidental, encerram uma ideia tão pagã e materialista como o comunismo; naquelas, porém, o veneno está escondido por trás de vocabulários tradicionais, que expressam, apesar das aparências, conceitos totalmente diferentes dos da filosofia cristã. Uma filosofia que visa justificar o triunfo de uma raça determinada, baseando-se na negação de uma ideia ética que possa constituir um perigo a ela, é fundamentalmente anticristã. Desconhece o valor do espírito, da dignidade da pessoa humana, do valor absoluto da religião e da lei moral, fundada na existência de um Deus transcendente. Logicamente, essas filosofias justificam a esterilização e todos os meios que tendam a assegurar o predomínio da raça. Em alguns lugares chegou-se aos excessos de uma política racial poligâmica? É improvável, mas a aplicação dos princípios racistas pode conduzir a isso. Por isso o Sumo Pontífice tem elevado sua voz contra a concepção moderna e pagã de Estado, e a Congregação dos Seminários tem condenado as principais proposições da filosofia racista.

O fundo geral da filosofia moderna é o materialismo agnóstico, o pragmatismo ou utilitarismo e o relativismo. Suas teses fundamentais são a negação dos valores espirituais, a incapacidade da mente para alcançar uma verdade que não seja de experiência imediata; o critério de utilidade como norma de verdade em tal forma que chegam a afirmar que algo é verdadeiro se é útil, que a verdade é variável e relativa segundo as satisfações que dá. Esses são os conceitos com que filósofos americanos desde James a Dewey vêm formando a mentalidade da geração moderna.

Ressurgimento da moral pagã

Esse materialismo agnóstico, unido ao pessimismo que tem pesado sobre o mundo nos últimos 20 anos, têm sido os grandes responsáveis da perda gradual dos costumes. Os jovens europeus tinham crescido com a convicção que iam servir de isca em uma guerra em que ninguém poderia atacar; e nisso tinham razão. Nessa situação, tendo-se perdido os valores que deram um sentido ao sacrifício, não restavam outros caminhos a não ser o abrir das comportas do prazer e o dar-se à vida fácil, que depreciavam os chamados “prejuízos da moral e da religião”.

Nesse ponto se tem chegado a extremos inauditos na Europa e na América do Norte, onde é ostentada a impureza mais repugnante, em representações teatrais e em espetáculos grosseiros, que haviam ofendido até os tempos do paganismo romano. A queda da natalidade em alguns países é alarmante.

Flagrante manifestação de tomar o gozo e suprimir o dever. Disso tem se queixado recentemente o Marechal Pétain, atribuindo a derrota francesa à ânsia por diversão, vida fácil e prazer. O número de divórcios é alarmante. Na Alemanha, há 60 anos atrás, em 100 mil matrimônios, havia anualmente 80 divórcios; há 30 anos, 133; há 15, 178. Em 1925, havia, pois, 36.450 divórcios ao ano, número que deve ter crescido enormemente esses últimos anos. Na França, em alguns anos, o número de divórcios chegou a 32 mil2.

O número de abortos declarados é preocupante. Esse crime de homicídio, tão real como qualquer outro homicídio, se comete centenas de milhares de vezes cada ano por pais desnaturados que não se horrorizam com a monstruosidade desse ato. O Dr. Clement3 estima que na Alemanha o número de abortos ao ano chegue a 1 milhão, de maneira que pode se admitir que a metade dos seres a caminho da vida não nasce por causa dos crimes de seus pais. Essa proposição pavorosa se repete em outros países. No Chile, segundo cálculos de médicos que conhecem o problema, se estimam 50 mil abortos anuais.

Todos os moralistas saudáveis se queixam amargamente do relaxamento dos costumes e pedem uma reforma séria, pois não querem ver perecer a sociedade. Alexis Carrel, em um artigo, resume assim a mentalidade moral contemporânea: “Tudo tem sido muito fácil para a maioria de nós. Todo vivente sempre ambicionou uma existência de fim de semana inglesa; umas férias de quinta a segunda, com um mínimo de esforço e o máximo de prazer. As diversões têm sido a aspiração nacional; ter uma vida boa, nossa principal preocupação. A vida perfeita como a entendem os jovens e os adultos, é uma sucessão de diversões: filmes, programas de rádio, festas e excessos alcoólicos e eróticos. Esse sistema de vida indolente e indisciplinado tem esgotado nosso vigor individual… Nosso povo precisa com urgência de novos modelos de disciplina, moralidade e inteligência. No século XII os estudantes caminhavam mais de 150 quilômetros para escutar uma conferência de Abelardo. Hoje em dia, os jovens se sentam na poltrona para assistir a um filme idiota ou buscam o estímulo degradante do baile ao som de uma orquestra radiofônica. (…) É uma coisa que consterna”4.

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1. A revista argentina Criterio, 25 de janeiro de 1941, se refere a uma campanha desmoralizadora no México. Afirma com documentos “que as escolas secundárias, salvo poucas exceções, não se tornaram outra coisa senão centros de perversão para os jovens de ambos os sexos”. A educação sexual se pratica com todo tipo de detalhes diante de meninos e meninas, juntos. Em certa escola, a diretora descobriu que todas suas alunas, jovens de 15 a 20 anos, tinham cartões de saúde [tarjetas de salubridad] para exercer clandestinamente a prostituição. Um diário mexicano, no seu editorial, afirma: “No Hospital de Morelos, qualquer um pode se convencer de uma realidade extremamente dolorosa: a maior parte dos asilados são adolescentes.”

2. A crise do Matrimônio [La Crise Du Mariage], pág. 146, Association du Mariage Chrétien. Paris, 1932.

3. Contra a Aparição da Vida [Contra la Aparición de la Vida], pág. 114. Barcelona, 1936.

4. Seleções [Selecciones], dezembro de 1940, pág. 1.

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Texto extraído do livro ¿Es Chile un país católico?, de Santo Alberto Hurtado Cruchaga, S.J., e traduzido pelo autor deste sítio.

Temos que pedir muito por ele

http://lh6.ggpht.com/_DuyGZadBfRQ/S8d_SmWQmoI/AAAAAAAAEDg/sH7a8BKSXsw/s512/610x4.jpg“Eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos diante de uma mesa, com as mãos no rosto a chorar; fora da casa estava muita gente e uns atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre, temos que pedir muito por ele!

- Jacinta Marto, vidente de Fátima(*)

Oitenta e três anos de vida; cinco de pontificado. Eis o homem. Nos últimos dias, caluniado, difamado, perseguido. Sustentado, no entanto, pelo Espírito Santo; revigorado pelas orações do povo de Deus. Temos que pedir muito por ele… Nesse momento difícil em que vive a Igreja, nessa situação dolorosa e dramática pela qual passa o Sumo Pontífice, orações, orações.

Domingo, após a missa, todos os católicos dedicarão um momento especial de oração por Bento XVI. Os católicos! Onde estão os católicos? Muitas vezes são os primeiros a difamar e perseguir o sucessor de Pedro. Oxalá todos os católicos verdadeiramente se unissem por essa santa e justa causa. Rezemos, pois, não só pelo Papa, mas também para que o rebanho que ele apascenta com tanta coragem e amor seja fiel. Não fujam os cordeiros diante do ataque dos lobos.

Em Cristo há vida; por Cristo até a morte.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* Dica da Sara Raquel, no Orkut.

Portae inferi non praevalebunt

http://www.fundadores.org.br/Secoes/artigos/img/basilicasaopedro.jpg“Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra;
eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te, diz o Senhor.”

(Livro do profeta Jeremias, 1, 18-19)

Non praevalebunt, diz o Senhor a Jeremias. Bellabunt adversum te, diz o texto da Nova Vulgata, mas, no fim, não prevalecerão. Deus transformou Jerusalém numa cidade fortificada. Diante da fraqueza e da pequenez dos fracos profetas, diz o Altíssimo: “Eis que coloco minha palavra nos teus lábios” (Jr 1, 9). Sim, diz o mesmo Senhor a São Paulo, “basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2 Cor 12, 9).

Nesse sentido, importante se faz relembrar a passagem que Deus mostra a Moisés Sua Vontade. Desde o começo, Deus deixou bem claro a ele que estaria sempre presente (cf. Ex 3, 12), dando-lhe inclusive sinais da sua presença. Mas, por fim, Moisés quis fugir. Como um servo que, diante da grandeza de seu senhor, tenta fugir de sua missão, Moisés também tentou voltar atrás, também tentou dizer “não” a Deus, também se negou a atender ao chamado do Pai. Ele se via incapaz de participar da obra do Altíssimo. “Ah, Senhor! Eu não tenho – clamou o Moisés – o dom da palavra; nunca o tive, nem mesmo depois que falastes ao vosso servo; tenho a boca e a língua pesadas” (Ex 4, 10). Moisés recuou.

Mas, o Senhor não escolhe os capacitados; Ele capacita os escolhidos. E a história bíblica nos ajuda a entender isso: “Quem deu – exclamou o Senhor diante da tentativa de fuga de Moisés – uma boca ao homem? Quem o faz mudo ou surdo, o faz ver ou cego? Não sou eu o Senhor? Vai, pois, eu estarei contigo quando falares, e ensinar-te-ei o que terás de dizer” (Ex 4, 11-12). Eu estarei contigo. O mísero e o fraco nada precisam temer, porque não contaram com suas próprias forças. Deus está do seu lado. Ora, o que fez Davi com o gigante Golias? Qual não foi a admiração dos três anciãos do livro de Jó ao verem as sábias palavras do jovem Eliú? Sim, é verdade o que ele diz: “[É] o Espírito de Deus no homem, e um sopro do Todo-Poderoso que torna inteligente” (Jó 32, 8). Da mesma forma, é o Espírito de Deus no homem, é um sopro do Altíssimo que torna forte, que capacita aqueles que são fracos.

Non praevalebunt, diz o Senhor a Pedro. Já no primeiro encontro entre eles, Jesus lhe disse: “Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas” (Jo 1, 42). Há aqui um prenúncio da missão de São Pedro: ser cefas, ser pedra. Simão era pescador. E Jesus chamou-lhe: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens” (Mt 4, 19). Antes, Pedro pescava peixes. A partir daquele momento, havia para ele uma nova missão: pescar homens, ou, de uma maneira mais clara, exposta no Evangelho de São João, apascentar ovelhas (cf. Jo 21, 17). Ora essa, entre milhares de sábios e doutores da Lei, entre tantas mentes brilhantes do tempo de Jesus, por que escolher um pescador que mal sabia escrever para continuar sua missão? Porque, de fato, é na fraqueza que se revela totalmente a força de Deus.

Pedro. O Concílio Vaticano II o chama de “perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade quer dos Bispos quer da multidão dos fiéis” (Lumen Gentium, 23). Enfim, vem a declaração que funda a Igreja de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Cefas, pedra desde o começo da sua missão, é pedra sobre a qual será edificada a Igreja de Cristo. Pedra: as portas do inferno non praevalebunt contra ela: não só contra a pedra, mas também non praevalebunt sobre a Igreja. Está aqui o fundamento da Igreja indestrutível: em Pedro.

Então voltamos às palavras que Deus profere ao profeta Jeremias: “eles farão guerra contra ti”. As portas do inferno existem. As batalhas e as tribulações existem. As dificuldades e as guerras hão de chegar. Mas – é o Senhor quem diz -, no fim, non praevalebunt. Deus não promete tranqüilidade, mas Ele dá a certeza da vitória. E quantos males não se abateram sobre a Igreja? Quantas vezes as portas do inferno tentaram prevalecer? Quantas heresias tentaram destruir o “perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade”? Ora, elas tentaram. Não conseguiram. Elas lutaram. Não venceram. Porque, afinal, o Senhor é fiel à sua promessa. E se as portas do inferno não prevalecerão, de fato, elas não prevalecerão; e não há reinado, potestade, ideologia ou heresia que consiga destruir a Igreja Católica, Mãe e Mestra da nossa Civilização.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

“Coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida”

Hoje é dia de Santo Tomás de Aquino, doutor angélico. Aproveito a oportunidade para deixar o excerto de um documento desse grande santo da Igreja, chamado De Rationibus Fidei, cujas partes estão sendo publicadas em partes pelo padre Elílio em seu blog. No capítulo V do documento Santo Tomás fala da encarnação de Nosso Senhor. Por que se encarnaria o filho de Deus? É recomendada também a leitura do texto em que Santo Tomás expõe as cinco vias para se chegar ao conhecimento de Deus, também publicado aqui no blog. Nesse dia, invoquemos a intercessão de Santo Tomás para que possa nos ensinar a amar sempre mais a Igreja, ele, que foi exemplo de sabedoria e obediência.

* * *

Qual foi a causa da encarnação do Filho de Deus

Tradução: Blog do Pe. Elílio

São Tomás de Aquino

Com semelhante cegueira de espírito, impugnam a fé cristã por confessar que Cristo, Filho de Deus, morreu, não entendendo a profundidade de tão grande mistério. E para que a morte do Filho de Deus não seja perversamente entendida, antes é preciso dizer algo sobre a sua encarnação. Não dizemos que o Filho de Deus esteve sujeito à morte segundo a natureza divina, pela qual é igual ao Pai e que é a fonte de toda vida, mas segundo a nossa natureza, que assumiu na unidade da pessoa.

Para considerar o mistério da divina encarnação, é preciso advertir que tudo o que age pelo intelecto opera pela concepção do intelecto, concepção que chamamos verbo, como é claro a respeito do construtor e de qualquer artífice, que opera exteriormente segundo a forma que concebe na mente. Sendo o Filho de Deus o próprio Verbo de Deus, conseqüentemente Deus fez todas as coisas através do Filho.

Qualquer coisa é feita e reparada pela mesma razão: se, portanto, uma casa for danificada, será reparada pela mesma forma de arte através da qual foi construída. Entre as criaturas feitas por Deus através de seu Verbo, a criatura racional ocupa o principal lugar, sendo que todas as demais criaturas servem-na e lhe parecem estar ordenadas; tal se dá de acordo com a reta razão, pois que somente a criatura racional tem domínio de seu ato pela liberdade de arbítrio. As outras criaturas, na verdade, não agem a partir do livre juízo, mas são levadas a agir por uma espécie de força da natureza. Quem é livre está acima do servo, e os servos são ordenados ao serviço dos livres e pelos livres são governados.

A falta da criatura racional, desse modo, segundo uma avaliação verdadeira, deve ser mais considerada do que o defeito de qualquer criatura irracional. Nem é duvidoso que, de acordo com o juízo de Deus, as coisas sejam julgadas segundo a verdadeira avaliação. É conveniente, portanto, que a sabedoria divina repare principalmente a falta da criatura racional, e isso mais do que se os céus fossem abalados ou outra coisa nas coisas corpóreas pudesse acontecer.

Há, contudo, dois tipos de criatura racional ou intelectual: uma separada do corpo, denominada anjo; outra unida ao corpo, que é a alma humana. Em ambas pôde dar-se a falta devido à liberdade de arbítrio. Digo falta não como deficiência do ser, mas como deficiência da retidão da vontade. A falta, ou defeito, é considerada principalmente em relação àquilo através do qual uma coisa opera, como quando dizemos que o artífice erra se houver deficiência naquilo através do qual ele deve operar; também dizemos que uma coisa natural é deficiente e danificada se a virtude pela qual age estiver corrompida, como quando há deficiência no poder de germinação da planta ou no poder de frutificação da terra. Aquilo através do qual a criatura racional opera é a vontade, na qual está a liberdade de arbítrio. Portanto, a falta da criatura racional está relacionada à deficiência da retidão da vontade, o que se dá pelo pecado.

Remover o defeito do pecado, que não é senão a perversidade da vontade, convém principalmente a Deus, e isso através de seu Verbo, pelo qual fez o universo das criaturas. Para o pecado dos anjos não há remédio, uma vez que, de acordo com a imutabilidade de sua natureza, não são passíveis de penitência em relação àquilo em que uma vez se convertem. Os homens, todavia, segundo a condição de sua natureza, têm a vontade mutável, de modo que não somente podem escolher o bem ou o mal, mas também, depois de escolhido um, podem arrepender-se e voltar-se ao outro; e essa mutabilidade da vontade do homem permanece tanto tempo quanto estiver unido à variação do corpo. Quando, porém, a alma estiver separada do corpo, terá a mesma imutabilidade da vontade que, naturalmente, tem o anjo; donde a alma humana não ser passível de penitência após a morte, não podendo converter-se do bem ao mal ou do mal ao bem.

Assim, coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida. O modo da reparação devia ser tal que conviesse à natureza a ser reparada e à desordem. À natureza a ser reparada porque, sendo o homem de natureza racional e ordenado pelo livre-arbítrio, devia ser reconduzido ao estado de retidão, não por coação externa, mas pela própria vontade. À desordem também porque, consistindo ela na perversidade da vontade, foi preciso que a reparação fosse feita por algo que reduzisse a vontade à retidão. A retidão da vontade humana consiste na ordenação do amor, que é a principal afeição. O amor é ordenado quando amamos, como Sumo Bem, a Deus sobre todas as coisas e referimos-lhe, como ao fim último, tudo o que amamos, e, ainda, quando, para que a justa ordem seja preservada, preferimos as coisas espirituais às temporais.

Nada pode ser mais eficaz para provocar nosso amor a Deus do que o fato de o Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, ter assumido nossa própria natureza, de modo a ser Deus e homem, para nossa reparação. Primeiro, porque isso demonstra maximamente quanto Deus, que quis fazer-se homem para a salvação do homem, ama o homem. Nada mais provoca tanto o amor do que o fato de alguém saber-se amado. Depois, porque, tendo o homem o intelecto e o afeto voltado para as coisas corporais, não teria podido elevar-se facilmente ao que está acima de si. É fácil a qualquer homem conhecer e amar outro homem, mas considerar a altitude divina e a ela se dirigir pelo reto afeto do amor não é próprio de qualquer homem, mas daqueles que, pelo auxílio divino, com grande empenho e labor, se elevam das coisas corporais às espirituais. Portanto, para que a todos os homens se mostrasse fácil o caminho que conduz a Deus, quis Deus fazer-se homem, para que também os pequenos (os menos dotados) pudessem pensar em Deus e amá-lo como sendo-lhes semelhante, e, assim, por aquilo que podem apreender, pouco a pouco fossem levados ao que é perfeito. Por isso também, já que Deus se fez homem, é dada ao homem a esperança de participar da perfeita bem-aventurança, que só Deus possui naturalmente.

O homem, conhecendo sua enfermidade, mal poderia esperar pela posse da bem-aventurança, de que apenas os anjos são capazes e que consiste na visão e fruição de Deus, se tal posse lhe fosse prometida, a não ser que, de outra parte, lhe fosse mostrada a dignidade da natureza humana, tão estimada por Deus a ponto de ele querer fazer-se homem pela sua salvação. E, assim, pelo fato de Deus ter-se feito homem, foi dada ao homem a esperança de unir-se a Deus por beata fruição. O conhecimento de sua dignidade, que foi possível pelo fato de Deus ter assumido a dignidade humana, é também importante ao homem para que ele não submeta seu afeto a alguma criatura, cultuando pela idolatria os demônios ou quaisquer criaturas, nem se submeta às criaturas corporais por afeto desordenado. É indigno do homem, que possui tão grande dignidade e está tão próximo de Deus a ponto de Deus ter querido fazer-se homem, submeter-se desordenadamente a coisas inferiores a Deus.

Santo Tomás de Aquino
De Rationibus Fidei, cap. V

* * *

Santo Tomás de Aquino,
rogai por nós!

A miséria do homem e a Misericórdia de Deus

Bendirei continuamente ao Senhor,
seu louvor não deixará meus lábios.
Glorie-se minha alma no Senhor;
ouçam-me os humildes e se alegrem.
Glorificai comigo o Senhor,
juntos exaltemos o seu nome.
Procurei o Senhor e ele me atendeu,
livrou-me de todos os temores
.
Olhai para ele a fim de vos alegrardes,
e não se cobrir de vergonha o vosso rosto.
Vede, este miserável clamou e o Senhor o ouviu,
de todas as angústias o livrou.

(Salmo 33 [Heb. 34], 1-7)

O Senhor é fiel, clama o justo. O Senhor é bondoso, brada o aflito. Os males se abatem sobre o homem. Os males, conseqüências do pecado do homem, se abatem sobre ele. Mas de todos esses males o Senhor o liberta. “São numerosas as tribulações do justo, mas de todas o livra o Senhor” (Sl 33, 20). O Senhor não se compraz no sofrimento dos seus filhos. O Senhor quer ver felizes todos aqueles que Ele ama.

Por isso, canta o salmista, “bendirei continuamente ao Senhor”. Não quero parar um só minuto de louvá-Lo porque a todo momento Ele está a demonstrar sua infinita Misericórdia. Bendirei continuamente, constantemente o Senhor, Deus de Israel, que libertou o Seu servo da opressão e mostrou a Sua Justiça para o seu povo.

Veja, diz Davi: este miserável clamou. Miséria. É o que há em nós, pecadores. Por nossos pecados, somos miseráveis, somos totalmente dignos de repreensão e de castigo. De que te glorias, pois, soberbo? Por que te exaltas, miserável? És pó, e ao pó hás de tornar. Levanta-te e dá graças a Deus que ouviu a tua oração e teve compaixão de ti: o Senhor o ouviu.

O Senhor o ouviu. Deus poderia ignorar o justo, assim como “volta a sua face (…) contra os que fazem o mal” (Sl 33, 17). Mas, Deus é justo: “Apenas clamaram os justos, o Senhor os atendeu” (Sl 33, 18). Então os justos mereciam? Quem ousa dizer essa barbaridade? Até mesmo os justos tinham um proceder repreensível. Moisés duvidou da onipotência de Deus nas águas de Meribá. Salomão adulterou no fim de sua vida. Davi se manchou. Até os reis mais justos haviam pecado e eram indignos da glória de Deus (cf. Rm 3, 23). Ora, então, do que vale ser justo sem contar com a Misericórdia de Deus?

Ninguém duvida, pois, que o que salva o homem é a Misericórdia do Altíssimo. Quem atende sua prece e o liberta é o Altíssimo. É preciso, pois, confiar unicamente n’Ele, pois é Ele o Deus que salva.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!