Debate político em São Paulo: coragem de uns e, de outros, nem tanto…

Reta final das eleições em vários municípios do país. E, novamente, vamos falar sobre São Paulo. Nos últimos dias, o debate político entre Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, contou com uma troca constante de farpas – como era de se esperar. Tudo começou com o apoio público dado pelo pastor Silas Malafaia, da comunidade protestante Assembleia de Deus, à candidatura de Serra. Haddad parece não ter gostado. Fez uma declaração, acusando seu adversário de “instrumentalizar” religiões: “O Serra instrumentaliza as religiões. Fez isso para atacar a Dilma, e eu entendo que ele fará o mesmo para me atacar. A minha família está muito indignada em relação a esses ataques, com a atitude do Serra de instrumentalizar pastores para me atacar na honra.”

Malafaia entendeu o recado de Haddad e publicou uma resposta, em forma de vídeo, fazendo críticas ferrenhas ao ex-ministro da Educação.

Apesar de ser pastor protestante – e, portanto, pregar uma Fé mutilada pelos erros da reforma luterana e do subjetivismo pentecostal -, Malafaia é uma personalidade que merece respeito, por sua coragem e valentia em defender seus princípios. Além de denunciar abertamente as obras destruidoras propaladas pelos inimigos do Cristianismo, criticando com veemência o discurso totalitário de muitos dos novos movimentos sociais – como o LGBT, feminista, ambientalista etc. -, não tem vergonha de dizer a verdade, nua e crua, mesmo que isto lhe custe a fama de “fundamentalista” ou “radical”: “Não tenho medo de dar minha cara a tapa, não estou nem aí se alguém não está gostando. Não estou em concurso de beleza.”

Bem diferente do discurso do líder da Assembleia de Deus foi a entrevista concedida por Dom Fernando Figueiredo à Folha de São Paulo, no começo desta semana.

Perguntado sobre o “kit gay” produzido por Haddad enquanto ministro da Educação, e sobre um programa similar – porém, mais genérico, não visando especificamente a abordagem de “preconceito sexual” – produzido por Serra, durante seu mandato no governo do estado, Dom Fernando “tirou o corpo fora”: “Elaborar esse material pode ser considerado algo que desabone um candidato? Creio que essa questão é muito delicada. (…) Não colocaria essas questões num período eleitoral.”

Questionado se a posição de Malafaia em condenar a campanha de Haddad foi preconceituosa, limitou-se a dizer que “não gostaria de julgar”.

Quando indagado sobre como as lideranças religiosas deveriam participar no debate político, afirmou que “ninguém deveria dizer quem é o candidato” no qual vai votar, pois “é um abuso do contato e da credibilidade que os fiéis nos dão”.

Por fim, perguntaram-lhe sua opinião sobre a atual ministra da Cultura, Marta Suplicy, famosa por sua militância frenética frente ao movimento LGBT, e também por ostentar a bandeira da descriminalização do aborto no Brasil. Dom Fernando falou pouco, e não disse nada: “Marta, Marta, Marta… O que eu poderia falar da Marta? Aqui na região sul… Ela tinha uma preocupação pela saúde. Vemos postos de saúde que ela incentivou. Isso foi importante.

A entrevista toda é reflexo de uma pusilanimidade aterradora. Dom Fernando chega ao ponto de afirmar que “há uma lei na igreja que, se a pessoa se aproxima para a comunhão, você não pode negá-la”, quando o Código de Direito Canônico pede justamente o contrário: que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

O teor desta entrevista infeliz é digno de lástima, mas é a imagem exata de como andam muitos mitrados na América Latina: se não estão entregues ao demônio do socialismo e da esquerda laicista e anticristã, estão nas redes sufocantes do bom-mocismo ou da cumplicidade silenciosa… com os maus, com os abortistas, com os inimigos da família. São poucas as estrelas que brilham no escuro céu latino-americano, mas são elas, insufladas pela intercessão sempre eficaz da Virgem de Guadalupe, a verdadeira Igreja de Cristo. Porque, como já dizia Santo Atanásio de Alexandria, “ainda que os católicos fiéis à Tradição se reduzam a um punhado, são eles a verdadeira Igreja de Jesus”.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Serra e Haddad vão para o segundo turno em São Paulo. E Chalita se alinha novamente ao PT.

“Russomacedo”. Ilustração de Eduardo Nunes.

Na terra do valente Padre Anchieta, e contrariando praticamente todas as pesquisas eleitorais, o candidato do PRB à Prefeitura, Celso Russomanno, não foi nem para o segundo turno. No início do mês de setembro, voltou a circular um texto polêmico, escrito pelo presidente do partido de Russomanno – e, não por acaso, pastor da Universal – que acusava a Igreja Católica de promover o “kit gay”. Dom Odilo Scherer condenou veementemente o artigo. O clima de tensão perdurou até o dia 22 de setembro, quando o arcebispo de São Paulo se reuniu com Russomanno.

Já era muito tarde. Estava evidente a forte ligação entre o PRB e o negócio dirigido por Edir Macedo, desde 1977, para enganar os incautos (e que alguns ousam chamar de “igreja”). Acredito que, aliado à pequena expressão política de Russomanno, este fato foi decisivo para a definição nas urnas. Há tempos a comunidade do bispo Macedo é conhecida por seus desrespeitos à religião católica, por seus atentados à bioética e – não poderíamos esquecer – por inúmeras acusações de envolvimento em esquemas de corrupção.

Vão disputar a corrida eleitoral, no segundo turno, os candidatos José Serra, do PSDB, e Fernando Haddad, do PT. Este último, conhecido por propor o “kit gay” enquanto ministro da Educação, vai contar com o apoio especial do filósofo Gabriel Chalita – que obteve 13,6% dos votos válidos na capital. Segundo notícia da Folha Online, “os petistas prometem abrir espaço para Chalita no comando da campanha”. Afinal, “ele deverá atuar como ponte entre o PT e a Igreja Católica”.

Gabriel Chalita vai militar pelo PT, mais uma vez. Pelo partido cujo histórico denuncia um compromisso escancarado com a “cultura de morte”; pelo partido que se identifica com a defesa de programas voltados à “diversidade” – o que, na verdade, não passa de eufemismo para indicar submissão aos interesses do movimento LGBT. Chalita, que chegou a apresentar programas na TV Canção Nova, se alia novamente ao partido que jogou no lixo a ética e o respeito pela vida dos mais indefesos. Os jornais erram, dizendo que ele “deverá atuar como ponte entre o PT e a Igreja Católica”. Entre um partido abortista e a Igreja nenhuma ponte pode ser construída, a não ser a da excomunhão.

Enquanto alguns católicos cantam uma música melosa, de mãos dadas com abortistas e gayzistas, o pastor Silas Malafaia se manifesta contrário à candidatura de Haddad, o “autor do kit gay”. Como diz o adágio popular, “mais macho que muito homem”.

Jornalista “cutuca” e Russomanno se irrita: “Vamos falar sobre São Paulo?”

Em entrevista concedida à Rede Globo, o candidato do PRB à prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, ficou irritado: ele interrompeu a conversa quando o jornalista César Tralli perguntou sobre as recentes críticas feitas pela Igreja Católica paulista à ligação entre ele e a Universal do Reino de Deus. Abaixo o vídeo da entrevista (o candidato fica nervoso aos 3min).

E, pelo visto, a relação entre Russomanno e a Igreja Católica está longe de ser amistosa. Em recente debate eleitoral organizado pela Arquidiocese de São Paulo, o candidato do PRB não compareceu; e foi criticado por seu adversário do PMDB, Gabriel Chalita – o mesmo que apoiou o PT nas últimas eleições e se manifestou favorável à união civil homossexual. “É um candidato sem proposta nenhuma, que nem veio aqui hoje”, atacou Chalita, durante o debate.

Enquanto isso, uma pesquisa divulgada hoje (25) pelo Ibope mostra Fernando Haddad, candidato do PT à prefeitura de São Paulo, em vantagem sobre José Serra, do PSDB. Celso Russomanno continua na frente.

Fernando Haddad vai à igreja

Nas eleições de 2010, o que não faltou foi político indo à igreja para pedir o voto do eleitorado católico. Digo, sem medo de errar, que maior parte dos sujeitos mal sabe o que significam os termos essenciais da nossa Fé, tais como “batismo”, “salvação”, “graça”, “pecado”, “Eucaristia”, “sacrifício” et cetera. Ficou bastante claro que os indivíduos compareceram no templo por puro interesse político. Vamos além: até candidatos cuja fé católica parecia inquestionável – como era o caso do hoje pré-candidato à prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita – se renderam ao mesquinho jogo de interesses eleitoral e traíram de modo vil a sua Fé. Hoje, Chalita defende o Partido dos Trabalhadores, se cala com relação à descriminalização do aborto e ainda defende a união civil de homossexuais. Coisas realmente incompreensíveis para um “católico praticante”.

Este ano, mais uma vez os católicos vão às urnas. E, novamente, os políticos vão às igrejas “para rezar”. O safado da vez é o ex-ministro da Educação – e hoje concorrente de Chalita na corrida pela prefeitura de São Paulo -, Fernando Haddad. Mas o petista não se contentou em ficar sentado no banco não! Conforme reportou a Folha Online, o idealizador do projeto “Brasil sem Homofobia” – popularmente conhecido como “kit gay” – “fez uma leitura no microfone (…) e recebeu a hóstia”.

Não vou nem falar da recepção indigna da Sagrada Comunhão – todo bom católico tem consciência de que “aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11, 27). Inquieta igualmente ver um homem cuja vida não é nenhum modelo de catolicidade auxiliando na celebração da Santa Missa – o que pressupõe o consentimento das autoridades eclesiásticas!

Permanece válida, neste sentido, a instrução da Redemptionis Sacramentum (mais clara que isso, impossível!):

46. O fiel leigo que é chamado para prestar uma ajuda nas Celebrações litúrgicas e deve estar devidamente preparado e ser recomendado por suu vida cristã, fé, costumes e sua fidelidade para o Magistério da Igreja. Convém que haja recebido a formação litúrgica correspondente a sua idade, condição, gênero de vida e cultura religiosa. Não se eleja a nenhum cuja designação possa suscitar o escândalo dos fiéis.”

Ah, mas ninguém é suficientemente santo para ajudar dignamente no Sacrifício da Cruz…! Verdade. Mas que pelo menos se escolha algum pecador que queira conduzir a sua vida como pede a doutrina católica! Este senhor jamais demonstrou simpatia alguma ou pelo Papa ou por qualquer devoção católica que seja. Muito pelo contrário! Haddad declara abertamente que é um socialista! Só ignora este fato quem não conhece os interesses do Partido dos Trabalhadores e dos promotores disto que conhecemos hoje como “marxismo cultural”.

Sim, Haddad não é nem o primeiro nem o último homem a ir à igreja pra aparecer e fazer campanha política. Não vamos – nem queremos – impedi-lo de usar seu direito de ir e vir. A única coisa que pedimos é respeito. Respeito à comunidade católica de São Paulo, respeito a Jesus Eucarístico, respeito ao Santo Sacrifício da Missa. E isto não é pedir demais.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

São Pedro e São Paulo: modelos de verdadeiro e real apostolado!

Desde as épocas remontas a Igreja celebra neste mesmo dia, 29 de junho, a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja que, por amor a Cristo, fizeram doação de sua própria vida em favor da expansão do Evangelho pelo mundo.

Também constitui o momento de renovarmos a nossa fé na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, e reafirmarmos nossa comunhão ao Santo Padre Bento XVI, cujo dia hoje celebramos, de modo particular nesta Solenidade que comemoramos o seu 60º aniversário de ordenação sacerdotal. Rendamos graças a Deus por sua vida de testemunho e serviço à Igreja e peçamos que, por muitos anos, ocupe a Cátedra de Pedro, com o seu belíssimo exemplo de apostolado e que possa percorrer o mundo anunciando o Evangelho com o espírito de São Paulo.

Hoje a Igreja retorna às suas origens e contempla estas tão excelsas personagens, procurando inserir seus exemplos em nossos dias tão conturbados por ideologias que, apesar de parecerem convincentes, boas e fáceis, se contrapõem ao Evangelho. Perturbados estão os nossos corações como outrora esteve o coração de São Pedro, mas ele não desanimou e, mesmo no cárcere, continuou a render louvor a Deus com toda a Igreja. Uma noite lhe apareceu o anjo do Senhor que lhe disse: “Levanta-te depressa!” (At 12, 7). E o anjo o libertou da cadeia sem que fosse visto pelos guardas. Maravilhosos prodígios realiza o Senhor por nós!. Realiza-o primeiramente em favor de Pedro e depois em favor de toda a Igreja.

A posição de estar em pé é muito significativa, como foi dito por nós em uma das reflexões passadas. Está em pé aquele que está pronto a servir, que é humilde, que caminha. Pedro levantou-se porque sentiu que a sua missão não findava ali, mas ainda deveria continuar, ele deveria ser um sinal luminoso para toda a Igreja que estava sacudida pelas perseguições e violentada pelos vários ventos de doutrinas. Hoje, como fizera o anjo a Pedro, ele quebra as correntes do pecado que aprisionam aos membros da Igreja, e também a estes encoraja para que possam erguer-se. Assim tomamos consciência de que, apesar das debilidades dos homens de hoje, que estão inseridos no Corpo místico de Cristo, a Igreja nunca poderá estar “presa” pelas investidas de Satanás que propõe derrubá-la.

Levante, ó Igreja! Aquilo que anuncias não é utópico, não está restrito a um passado distante. Aquilo que anuncias é o próprio Cristo, Senhor da vida, que impera sobre a morte e sobre todas as investidas malignas. Somos também constituídos de uma liberdade. Esta liberdade, porém, deve ser usada para nos aproximar de Deus e não para nos afastar d’Ele. São Pedro nos diz que a pior doença das almas é a ignorância. Mas que ignorância é esta? Como ela pode ser definida? Esta ignorância é a ausência de Deus da vida do homem, é o não conhecer a Deus. Só aquele que conhece a Deus possui a verdadeira sabedoria, e isto porque só em Deus reside a verdadeira sabedoria. Como dirá a Escritura: “O temor ao Senhor eis a sabedoria. Fugir do mal eis a inteligência” ( 28,28).Quem não O conhece não tem a vida eterna prometida por Jesus e destinada a todos aqueles que nele põem a sua confiança, exceto se esse não conhecer seja dado por uma falta de evangelização que, infelizmente, ainda não chegou a todo o mundo.

E é evidente que há duas formas de conhecer a Cristo: a primeira é a forma “superficial”, vista da multidão. Um olhar passageiro e distante, que é extrínseco e, por isso, incapaz de causar uma transformação no modo de agir de cada um. A segunda forma é mais intensa, é o olhar que modifica o íntimo, o olhar dos discípulos. Puderam compartilhar deste olhar a pecadora arrependida, Zaqueu, o ladrão que na cruz clama por perdão, o centurião que vai a Jesus para pedir por seu filho e o cobrador de impostos Levi, mas também tantos e tantos que foram modificados pelo olhar intrínseco dos que puderam conhecer a Cristo, e conhecer no sentido profundo e verdadeiro da palavra. Aquela pequena minoria é chamada a diferenciar-se de toda a multidão. E é verdadeiramente indiscutível e visível que os cristãos devem voltar às origens, devem apresentar-se ao mundo primeiro por suas ações, pelo testemunho que deve acompanhar a atividade eclesial.

Simão Pedro foi outro que pôde conhecer verdadeiramente a Cristo. E em dois momentos principais podemos ver esta manifestação: Em Cesaréia de Filipe e no mar de Tiberíades. Antes da sua morte Jesus institui Pedro como chefe da Sua Igreja; depois da morte Jesus confia a Pedro o pastoreio das ovelhas e confirma a missão que já lhe fora outorgada, pois só depois de Sua morte Jesus realmente solidifica as bases da sua Igreja, uma vez que fora comprada com o Seu sangue (cf. At 20, 28).

Gostaria de meditar sobre este primeiro momento que hoje nos narra o Evangelho. Pedro aqui é posto por Jesus como sinal de sustento para a Igreja e na frase dirigida a Jesus, após tê-los indagado sobre sua identidade, encontramos todo o lugar onde também está alicerçada a nossa profissão de fé: “Tu es Christus, Filius Dei vivi – Tu és Cristo, Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16). E para nós, quem é Jesus Cristo? O que Ele significa para o nosso mundo que vive distante de Deus? O que Pedro professara é o ponto de discórdia para o mundo. Não se quer admitir que Jesus seja o Filho de Deus, e que Ele possa reivindicar para Si a adoração de Deus. Não se admite que Ele seja a salvação e um sinal de esperança para o mundo. Não se admite que Ele seja o ponto de partida e de chegada da humanidade.

A Pedro que iria negá-lo três vezes – e Jesus o sabia – Ele confia o mandato de governar a Igreja, de ser o primeiro Papa. Eis aqui um encontro misericordioso de Jesus com Pedro. Ele olha para Pedro, Pedro conhecia-o e sente este olhar quando se encontram em Tiberíades. “Tu és Pedro”. És Rocha, na qual o Senhor edifica a Sua Igreja, que é toda Santa. Mas quantas vezes desfiguramos a Igreja porque somos maculados pelo pecado?! Quantas vezes não nos submetemos a Deus para submetermo-nos ao mundo, porque parece difícil trilhar os caminhos da santidade? Pedro deixou o medo falar mais alto do que sua fé. Conosco, porém, o exemplo de Pedro e de tantos mártires deve nos precaver dessas tentações. Devemos temer o medo. Devemos manifestar ao mundo que o derramamento do sangue dos mártires não invoca divisão e de guerra, mas amor e uma verdadeira esperança. Ele relembra este sinal de união entre o céu e a terra, do qual Pedro é detentor das chaves.

Outro que experimenta o olhar misericordioso do Senhor é São Paulo. Ainda jovem Paulo via o olhar piedoso dos muitos cristãos que ele perseguiu, agora ele olha piedosamente para Jesus e sabe que tudo o que foi feito nele será consumado. Por isso, consciente do fim de sua missão, Paulo exclama:  “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2 Tm 4, 7). Guarda a fé aquele que antes no-la havia dado ao mundo, e a guarda não por viver de forma egoísta, mas porque vivenciou tudo aquilo que havia propagado, porque o que anunciou ao mundo, os sofrimentos que lista aos cristãos, ele já havia sentido em si.

São Paulo é para a Igreja espelho de sua ação missionária. A Igreja não é uma “porção” do povo que segue a uma ideologia, seja por atração ou por um bem estar, ao contrário: é o reflexo da viva e constante atuação de Cristo no mundo. É sustentada pelo Espírito Santo e a sua essência é a santidade! O apóstolo faz dessa atuação o sentido da sua vida. Na sua conversão ele encontra-se com o olhar misericordioso do Senhor, a partir daí sua vida já não era-lhe característica íntima mas pertencia a todos, sobretudo a Cristo, por isso exclama com tanta convicção: “É Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Esta frase expressa uma doação total nossa a Cristo; um doar-se sem reservas, sem esperar nada em benefício próprio. Ser cristão é amar e saber que muitas vezes seremos perseguidos e maltratados, e ainda assim continuaremos a amar. Isso Paulo fez e isso ele ensina-nos a fazermos.

Queremos rezar agora. Senhor, vos pedimos a graça de perseverarmos na unidade com o Sucessor de São Pedro, e o Colégio Apostólico. Não deixeis que a vossa Igreja seja maculada por divisões, mas que possa mostrar ao mundo que somente se estiver em Vós ela poderá permanecer unida em oração, como se encontraram a Santíssima Virgem Maria e os Apóstolos no Cenáculo. E erguemos uma prece incessante de agradecimento por estes modelos de vida que hoje celebramos, tão exemplares, pedindo “que a Igreja siga sempre o ensinamento dos Apóstolos dos quais recebeu o primeiro anúncio da fé” (Oração da Coleta).

Fazer a vontade de Deus (Meditações das Cartas Paulinas 1Tes 4,1-8)

Dando continuidade às meditações, detenhamo-nos hoje sobre o quarto capítulo, versículos de 1-8, da Carta de São Paulo à comunidade de Tessalônica, que transparece uma solícita preocupação do apóstolo, sobretudo, com a vinda definitiva do Senhor que terá reflexo nas ações da comunidade.

Tomemos o versículo que dá título ao artigo: “Enfim, irmãos, nós vos pedimos e exortamos, no Senhor Jesus, que progridais sempre mais no modo de proceder para agradar a Deus. A vontade de Deus é que sejais santos e que vos afasteis da imoralidade” (1Tes 4, 1.3). Paulo usa o termo Senhor, isto é Kyrie, não se referindo a Deus Pai, mas a Cristo, Senhor de todas as coisas.

Nunca é demais falar de santidade! Em nossos dias, tanto quanto antes, precisamos de Santos que deem testemunho autêntico do Evangelho, ainda que por vezes este pareça ser radical.

Fazer a vontade de Deus hoje parece impossível e não dá, por assim dizer, prestígio, mas acarreta em um sofrimento, que deve ser vivido com resignação na hodierna sociedade. A forma de viver do mundo contradiz os preceitos do Evangelho, e clama para muitas almas que caminhem para a perdição. Nesta ideologia, neste contexto que se desponta ante nossos olhos, somos chamados, como cristãos, a darmos testemunho de vida e de santidade irrepreensível. Ainda que a fragilidade pareça nos derrubar e nos humilhar em nossa condição, Deus estende sua mão para todos nós, e nos chama a recomeçar de onde paramos. Por isso, a vida do cristão é sempre um recomeço. Já o insensato caminha direto, sem fazer a parada necessária para recarregar suas forças e nutrir-se do próprio Cristo. Este, ao chegar ao final do longo percurso, estará cansado e sobrecarregado e não terá forças para concluir sua jornada.

Por isso, devemos nos perguntar: qual a vontade de Deus para nós? Qual a vontade de Deus em um mundo que deixa-se dominar pela profanação e se esquece do seu Criador? Qual a vontade de Deus em um mundo onde os homens perpetram maldades contra seu próximo?

Não é fácil submeter-se a alguém e sujeitar-se a seus desejos. Mas, em contraposição aos desejos do homem, os desejos de Deus nos dão a garantia eterna da salvação. Só em Deus há salvação, e só n’Ele está a garantia da eterna felicidade do homem. Qualquer um que queira salvar-se fora de Deus nada mais encontrará do que vazio e tormento. Não é necessário que nos aprofundemos em diversos livros para conhecer a vontade de Deus; de diversas formas Ele nos fala. A Sagrada Escritura é um dos meios eficazes para conhecermos aquilo que Deus espera de nós.

Agora nos detenhamos nos versículos 4-8, que soam de forma específica para todos hoje, e mais ainda, é como que duro em suas afirmações.

“Saiba cada um de vós viver seu matrimônio com santidade e com honra, sem se deixar levar pelas paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus. Neste assunto, ninguém prejudique ou lese o irmão, pois o Senhor é vingador de todas estas coisas, como já vos dissemos e atestamos. Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Portanto, quem rejeita esta instrução não rejeita a uma pessoa humana, mas ao próprio Deus, que vos dá também o seu Espírito Santo”.

São Paulo dirige-se aos casais para que vivam seu matrimônio com santidade e honra. Não obstante os dois mil anos que nos separam do escrito paulino, suas palavras incidem veementemente nos nossos tempos tomados pela desunião entre os casais, a falta de fidelidade e outros problemas que corroem a vida conjugal.

Quanto ao fato de afirmar que o Senhor é vingador este termo São Paulo não usa para designar um Ser de ira implacável; ele afirma, sim, que Deus faz justiça, e que também em seu nome vem o adjetivo Justo.

E eis que aqui São Paulo responde à pergunta feita anteriormente: Qual a vontade de Deus? A vontade de Deus é que sejamos santos. Não devemos nos entorpecer nos caminhos obscuros da impureza, mas devemos trilhar o caminho da salvação, o qual Cristo aponta a todos os homens, sem distinção: seja para o rico ou para o pobre; para o negro ou para o branco; para o homem ou para a mulher.

E quantos rejeitam este convite de nosso Senhor transmitido pela Igreja?! Mas saibam que não rejeitam senão ao Espírito Santo, que nos foi e é dado por Deus. E sem o Espírito Santo presente em nós, estejamos certos de que todas as nossas ações serão vãs. Se fazemos as coisas, façamo-las bem, e façamos tudo para a maior glória de Deus! Ora, é insensato aquele que busca a Deus somente por interesse. Deus nos reserva algo maior que um bem estar econômico neste mundo. Ele nos reserva o maior bem que poderíamos ter: a contemplação incessante da Sua face.

De nosso coração deixemos que surja uma oração de clamor e de agradecimento: Nós te rendemos graças, Senhor, e te suplicamos que possas excluir da terra toda a ganância que surja no coração do homem, e tudo aquilo que o torna escravo de suas paixões. Te agradecemos pela vida, e pedimos por aqueles que dela são privados. Te agradecemos pelo Teu Espírito Santo, e pedimos que Ele seja derramado novamente em profusão sobre toda a Igreja, para que, ainda mediante as dificuldades, ela seja a primeira a dar testemunho autêntico do Evangelho. Amém!

Meditações sobre as Cartas Paulinas – 1 Tes 2 (Parte II)

A Palavra de Deus por excelência é Jesus Cristo, e isto a Igreja sempre teve presente consigo durante a sua jornada terrena. O Logos encarna-se no seio virginal de Maria, a Palavra faz-se carne, como nos relata o Apóstolo João (cf. Jo 1,14). Este maravilhoso acontecimento dá um novo rumo à humanidade e a transforma, ainda que em sua fragilidade. Mesmo em nossa fragilidade, mesmo com os nossos pecados, em nossa miséria incomensurável, ainda que estejamos no maior dos abismos, Deus se inclina e nos olha com misericórdia; Ele desce aos abismos, se rebaixa à nossa condição humana para resgatar-nos. E triste é ver que muitos o renegam!Muitos não se deixam amar por Deus.

E assim, São Paulo continua sua exortação aos Tessalonicenses, no capítulo 2, versículos 13 a 20, do qual falaremos hoje. Escreve: “Agradecemos a Deus sem cessar, por que, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais” (v. 13). Acreditar na Palavra de Deus! Eis uma das questões mais difíceis do homem moderno compreender. Às vezes nos perguntamo: por que tantas pessoas, mesmo católicos, muitas vezes não querem seguir a Palavra de Deus? E a resposta é que, não obstante recorrer a Deus nos momentos de aflição e necessidade, no momento de vivenciar as leis e os mandamentos, todos correm, todos se fecham em seus individualismos e fazem-se deuses de  seus mundos.

De fato, o cristão é chamado a experimentar Deus não apenas em seus momentos de misericórdia, mas também nos mandamentos que fazem parte da caminhada, e nos ajudam a enfrentar as dificuldades que surgem no decorrer desta caminhada.

Também torna-se necessário que os pastores conduzam seu rebanho na sã doutrina, não ensinando ideologias particulares, como convier a cada um; mas que assumam seu papel. Que saibam viver a radicalidade do Evangelho, anunciando aquilo que a Santa Igreja, em comunhão com os Sucessores dos Apóstolos, transmitiu nestes vinte e um séculos.

Em seguida, São Paulo faz uma grave advertência aos judeus que estavam fechados ao Evangelho por ele anunciado. “A ira de Deus está prestes a cair sobre eles” (v. 16). O que Paulo queria afirmar com palavras tão duras?

Em primeiro lugar, tenhamos presente o contexto da época. Estavam perseguindo os cristãos; haviam matado Jesus e perseguiam as Igrejas espalhadas pela região. Uma realidade não muito adversa da que encontramos nos dias hodiernos. Ainda hoje a Igreja de Deus é também perseguida em seu vasto campo de missão. Porém, ainda que pareçam vir à tona as dificuldades, a Igreja permanecerá inerente à sua missão, tal como nos foi transmitida desde os primórdios da nossa fé cristã.

Mas voltemos ao termo “ira”. Ora, no começo afirmamos que Deus é a misericórdia, que é capaz de nos resgatar dos mais profundos abismos, como agora ele pode ter ira? Bem, na verdadea ira de Deus, a sua cólera, não se exerce contra o ser humano, mas contra o pecado. E isto São Paulo nos relata bem: “A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1,18). Não que Deus seja um ser impiedoso, inclemente; pelo contrário, a sua natureza é Amor. E graças a este amor a salvação foi-nos dada. Mas Ele não nutre estima pelo pecado dos homens; pelo contrário, abomina o pecado, e busca o extirpar do ser humano.

Deus é um juiz justo, que, como recorda Jesus, colhe aquilo que semeia. Se nós pecamos e não nos arrependemos; se não nos convertemos, se optamos por destinar-nos ao inferno (à morte), então Deus nada poderá fazer, pois Ele não fere a liberdade humana, mas a respeita. Cuidemos para que a ira não venha sobre nós também!

Eis, por fim, uma passagem onde São Paulo manifesta seu desejo de voltar uma outra vez a Tessalônica, mas, segundo ele, havia sido impedido por Satanás (cf. v.18). No entanto, Paulo não desiste, e nos ensina algo fundamental para a nossa caminhada. A verdadeira esperança reside em Deus. E se Ele vive em nós esta nunca poderá morrer! Ainda que a chama pareça estar se apagando, o Deus da vida, que é luz, nunca deixará que ela se induza pelo caminho do desespero e da obscuridade.

Falando da iminente vinda do Senhor, no último versículo deste capítulo, o apóstolo das nações manifesta sua alegria pelos seus evangelizados. Ele se realiza em sua missão, e isto lhe valerá no dia do julgamento.

Maria, Virgem Imaculada, concebida sem pecado, nos ajude nesta caminhada. Dá-nos sabedoria e entendimento para colocarmos em prática a mensagem do Vosso Filho. Concede-nos coragem para enfrentar o mal, e concede-nos amor para amarmos os que se entorpecem por esse caminho. Amém.

Meditações das cartas paulinas – 1º Tes, cap. 2

No capítulo 2 da sua carta à Tessalônica (nos versículos 1 a 12), Paulo faz uma re-memória de como surgiu aquela comunidade e das dificuldades que logo no início, e ainda agora, estavam enfrentando.

Escreve ele que antes de fazer chegar o anúncio a ela, em Filipos, foram maltratados e sofreram ultrajes (cf. v. 2). Pois eis uma realidade que nunca deixou de fazer-se presente na história da Igreja: a perseguição, as injúrias. Quantas vezes a Igreja de Deus foi – e é – perseguida por um mundo que não deseja se adaptar ao Evangelho, mas quer que o Evangelho se adapte a ele? Quantas vezes cristãos morreram dando sua vida pela Igreja e pelo anúncio do Evangelho da Salvação?

Mas, o que consola a Igreja? O que a faz tornar-se mais firme a cada perseguição? O que faz com que ela não pereça mediante as investidas do inferno? São Paulo responderá para nós estas interrogações: “O nosso Deus nos deu coragem e segurança para vos anunciar seu evangelho, em meio a muitas lutas” (v. 2). Sim! Estamos firmes em Deus, e somente quando estamos firmes n’Ele, teremos coragem para anunciar a Boa Notícia, mesmo que venham inúmeras perseguições.

Estas, porém, não são maiores do que a certeza da presença de Deus conosco. Ele está conosco e nos guia! Não temamos! Se o mundo nos odeia por causa da nossa missão, não cabe a nós mudá-lo, mas devemos nos mudar, sobretudo, pelo nosso testemunho de discípulos do Senhor. E este não deve ser ilusão. Aliás, o cristão não pode fundamentar-se em ilusões; não pode ceder a ideologias que tendem a fazer com que este mundo nos traga plenamente a felicidade. Aqui seremos perseguidos para então, no céu, sermos agraciados em contemplar a face de Deus. Agraciados em contemplarmos o Amor, mas este contemplar não se restringe apenas a uma visualização, vai além: nos insere em Deus e faz com que possamos beber da Sua fonte inesgotável.

E é assim que falamos, não para agradar a seres humanos, mas a Deus, que examina em nossos corações. Aliás, sabeis muito bem que nunca bajulamos ninguém, nem fomos movidos por alguma ambição disfarçada – Deus é testemunha. Também não buscamos glória humana, nem junto de vós nem junto dos outros, embora, como apóstolos de Cristo, pudéssemos fazer valer nossa autoridade” (v. 5-7).

Mais uma vez vemos figurar um retrato da Igreja, um protótipo de como ela deve ser. É chamada a ser modelo dos apóstolos nos dias atuais. Mas, cabe também aqui meditar cada palavra desta bela afirmação do apóstolo.Se o Evangelho não incomoda, então há algo errado. As reações por parte de algumas pessoas, em protestos, de certa forma, dão a plena certeza de que a Igreja vai na direção certa; Ela cumpre sua missão em denunciar todas as obras do mal (cf. Ef 5,11) e em abrir as portas da sociedade para Deus, para que Ele possa renová-la.

Ambição disfarçada”. Com estas palavras, São Paulo exorta também aos nossos pastores, para que jamais se deixem levar pela ambição, e que jamais sua vida doada em prol do Evangelho seja revestida de um caráter ganancioso. O verdadeiro pastor serve, é humilde, e despretensioso. Não se configura com potências econômicas, mas modela a sua vida tendo Cristo como protótipo, não obstante as veementes perseguições pelo [e do] mundo.

O Pastor deve, antes de tudo, servir e, servindo, será elevado em sua obra. Agindo in persona Chrsti, o sacerdote é elevado pelo próprio Cristo, é resplandecido, é revestido das majestosas vestes do Rei, que na cruz reinou sobre o mal e o pecado, mostrando que, para ser Rei não é preciso ser detentor do poder material, mas antes e, sobretudo, do poder espiritual.

E aqui entra uma questão radical: “Estávamos dispostos, não só a comunicar-vos o evangelho de Deus, mas a dar-vos nossa própria vida” (v. 8). Tão grande era o carinho de Paulo com aquela comunidade que ele faria uma doação maior do que o anúncio que fazia: ele encarnaria as próprias palavras das Escrituras nele mesmo.

E hoje? Será que somos capazes de assumir o Evangelho em sua totalidade? Será que seríamos capazes de sofrer as conseqüências que suscitariam por nosso amor incondicional a Cristo? Quem busca felicidade já nesta vida encontrará dor na outra. Renunciar mesmo a vida parece ser uma decisão quase impossível, mas os mártires nos mostram que, para quem está com Deus, perder a vida é ganhar a alma, e isto mais vale.O cristão deve deixar exalar o perfume da santidade; deve deixar-se cingir pelo óleo da pureza e da perseverança; deixar emitir o “odor de Cristo”.

No versículo 9, Paulo se refere aos “trabalhos e fadigas”. Certamente, por ser ele um artesão, um confeccionador de tendas, ofício este que desempenhou desde a infância, tendo aprendido com seu pai, deveria atuar nesta área. Sabia da sua condição de apóstolo, e poderia viver à custa do anúncio do Evangelho, mas, na maioria das vezes, costumava não fazê-lo. Ademais, o fato de em Tessalônica fixar o trabalho, mostra que passou ali determinando tempo, dedicando-se a organizar aquela comunidade.

 

“Nós encorajamos e adjuramos todos e a cada um de vós a que leves uma vida digna de Deus, que vos chama para o seu Reino e glória.” (v. 12).

Também a nós são dirigidas estas palavras. Deus nos convida, a cada instante, para participarmos do Seu Reino. Parusia não é apenas um acontecimento que conclui a história da humanidade; pelo contrário: ela abre as portas para uma nova vida. Uma vida em Deus, que nos faz mergulhar em seu coração, fonte de todo o Amor.

 

Meditações sobre as Cartas Paulinas – 1ª Tessalonicenses, Cap. 1

Estamos iniciando o estudo do corpo da Carta Paulina aos Tessalonicenses. Hoje gostaria de falar do capítulo 1º.

Como podemos ver logo no começo, dirige-se à comunidade de Colossos, não somente Paulo, como também Silvano e Timóteo, como eles mesmos definiram: “À igreja dos tessalonicenses reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (v. 1). Conforta-nos, de certa forma, saber que Paulo não dirigia-se a indivíduos isolados, mas a uma comunidade de fé, reunida em Deus, por meio de Jesus Cristo. Garante suas orações pela comunidade e deseja-lhes graça e paz, de todo o coração sabemos que ele no-lo faz. Nutria, verdadeiramente, um sentimento de alegria pela comunidade.

Lembramo-nos da ação de vossa fé, do esforço de vosso amor e da constância de vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 3).

O cristão ama! Esta verdade percorre dois mil anos com tamanha vivacidade. Não é um amor puramente sentimental, que restringe-se aos limites humanos. É um amor que plenamente se realiza em Deus. E poderíamos dizer que vai além: Um amor que é Deus. Que cativa a todos os homens não por bens materiais, ou por posses e títulos, mas por Sua Palavra, por Seu Filho, que, morrendo na cruz, destruiu todo o pecado, e nos inseriu no seu mistério de salvação. É preciso, não obstante, que deixemo-nos cativar por Ele, e não buscar impô-Lo em nossas ideologias, ou adaptá-Lo aos nossos sentimentos.

No versículo 6, porém, Paulo fala algo que me chama particular atenção: “Vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”.

Destas informações podemos fazer diversas analogias com nossos dias. Em primeiro lugar, o termo “imitadores nossos e do Senhor”. Devemos então centrar-nos um pouco aqui. Imitar! Como esta palavra é tão mais realista em nossos dias, e para nós cristãos. É preciso que nos tornemos imitadores. Imitadores na radicalidade, capazes de renunciarmos tudo para abraçar o ideal de Jesus Cristo, o qual Paulo abraçou e jamais se desapegou deste.

Porém, por vezes, parece que este imitar sente-se abalado mediante as divergências e oportunismos que figuram-se no mundo. Somos chamados a acolher a Palavra, e acolhendo-a então, poderíamos sentir-nos firmes, permeados da fortaleza que Deus nos concede dia a dia, ainda que mediante as dificuldades, possamos nos fixar unicamente no Evangelho. Um Evangelho que não é um conjunto de ideologias, mas é muito mais que isso: é o próprio Jesus Encarnado que faz-se Palavra de vida eterna. Só estando com Cristo poderemos ter plena força, e só então os homens poderão transcender. E esta transcendência não será apenas aparente, mas dar-se-á no interior, quando os homens não irão buscar mais o ter, e sim o ser.

Também nos é possível fazer uma associação com as palavras do Senhor, que nunca cessam de ressoar: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23).

Precisamos ter em mente, primeiramente, que estas palavras salvíficas, de certa forma, exprimem um intrínseco imitar. Aquele que imita a Cristo, aquele que deseja fazer de sua vida um modelo de santidade, deve também carregar sua cruz. Não se pode esperar que nosso seguimento e doação total a Ele não tenha reação por parte de uma sociedade subjetivista.

Em segundo lugar, centremo-nos nas palavras “acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”. Tribulações! E quantas vezes elas se põem no caminho do cristão! Quanto mais nos dedicamos ao anúncio do Evangelho, mais somos tentados a estarmos contra ele, a fazermos o que não nos é permitido. Parece-nos também paradoxal esta afirmação de São Paulo. Como pode alguém na tribulação, possuir a alegria?

A resposta para tal pergunta poderemos encontrar ao longo de toda a Sagrada Escritura. Precisamente no sofrimento, na tribulação, quando já não sentimos que Deus está conosco, aí então Ele se manifesta de uma forma forte, capaz de mover-nos, mesmo em nossos sentimentos mais profundos, seja de ódio ou de angústia; e no lugar dá-nos a alegria, vinda do Espírito, que atinge a cada um de forma diferente, mas com a mesma finalidade: tornar-nos cidadãos do céu. Alegria esta que nos impulsiona a sermos autênticas testemunhas do Evangelho. Testemunhando-o, antes de tudo, com nossa vida.

No capítulo 10, Paulo refere-se, pela primeira vez, à Parusia de Jesus Cristo. Escreve ele: “Pois todos contam como fomos recebidos por vós e como, virando as costas aos ídolos, vos voltastes para o Deus vivo e verdadeiro e vos pusestes ao seu serviço, na espera do seu Filho, Jesus, que ele ressuscitou dentre os mortos e que virá dos céus para nos arrancar da ira que vem vindo”.

Os tessalonicenses viraram as costas para os ídolos. Viremos também nós as costas para os ídolos que impregnam de forma maléfica a nossa sociedade. Voltemo-nos contra a ganância e o poder do consumismo; voltemo-nos contra as drogas e o uso desregrado do dinheiro; voltemo-nos contra os vícios e prazeres carnais, fora dos ensinamentos evangélicos.

Sigamos unicamente o Deus vivo e verdadeiro, que é capaz de confortar-nos e de nos abrir as portas para as eternas alegrias. Um Deus que nos ama sinceramente pelo que somos, e não pelo que possuímos. Deus que envia Seu Filho único para a Redenção do mundo, e para nos livrar dos abismos que nossos pecados causaram. Que o mundo se abra a Jesus Cristo e experimente o seu incomensurável amor por cada um de nós. Que o mundo se abra à verdadeira libertação, que não redime o homem por meio de seus bens, mas o liberta unicamente por Cristo Senhor.

O Ressuscitado, conforme diz São Paulo, vai nos “arrancar da ira que vem vindo”. Mas que ira seria esta?  Poderíamos associá-la ao Juízo Final, último acontecimento da obra Salvadora de Jesus Cristo. Não se expressaria exatamente pelo termo ira, seria demasiado pesado para nós; porém, para a comunidade da época, assim São Paulo no-la associou, visto que os pecados excediam, não a misericórdia de Deus, pois ela é verdadeiramente incomensurável, e o próprio Jesus atesta a Santa Faustina: “A falta de confiança das almas dilacera-Me as entranhas. Dói-me ainda mais a desconfiança da alma escolhida. Apesar do Meu amor inesgotável, não acreditam em Mim, mesmo a Minha morte não lhes é suficiente. Ai da alma que deles abusar!” (Diário de Santa Faustina, 50).

Portanto, também vemos uma perspectiva escatológica nestes textos. Que a nossa preparação para o advento definitivo do Senhor não seja apenas por temor do inferno ( = morte eterna), mas, sobretudo, por reconhecimento ao Amor de Jesus, que não faz distinções, e deveras olha a todos igualmente.

Peçamos neste dia a intercessão de Santa Isabel da Hungria, Padroeira da Ordem Franciscana Secular. Dela nos diz o Santo Padre Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Ratzinger:

“O que fez foi realmente viver com os pobres. Desempenhava pessoalmente os serviços mais elementares do cuidado com os doentes: lavava-os, ajudava-os precisamente nas suas necessidades mais básicas, vestia-os, tecia-lhes roupas, compartilhava a sua vida e o seu destino e, nos últimos anos, teve de sustentar-se apenas com o trabalho das suas próprias mãos.(…)

Deus era real para ela. Aceitou-o como realidade e por isso lhe dedicava uma parte do seu tempo, permitia que Ele e sua presença lhe custassem alguma coisa. E como tinha descoberto realmente a Deus, e Cristo não era para ela uma figura distante, mas o Senhor e o Irmão da sua vida, encontrou a partir de Deus o ser humano, imagem de Deus. Essa é também a razão por que quis e pôde levar aos homens a justiça e o amor divinos. Só quem encontra a Deus pode também ser autenticamente humano”. (Da homilia na igreja de Santa Isabel da Hungria de Munique, em 2 de dezembro de 1981).

Meditações sobre as Cartas Paulinas

Carta de São Paulo aos Tessalonicenses – Introdução

Hoje damos início às meditações das Cartas Paulinas. A muito tempo vinha idealizando este projeto, que só agora foi posto em prática. Verdadeiramente precisamos ter uma maior compreensão dos textos sagrados, e mais que isso: precisamos vivenciá-lo na vida cotidiana, mesmo com as grandes pressões que o mundo hoje apresenta.

Seria um meio de ajudar nas reflexões – não obstante as que já são apresentadas domingo – e estudos sobre o que pensava São Paulo, e como poderíamos fazer uma analogia de seus pensamentos. Por isso meditaremos com a maior clareza possível, para que todos os leitores possam ter compreensão do texto.

Paulo constitui um verdadeiro modelo de missionário, que se doa sem reservas a Cristo e ao seu Evangelho. Este “totalmente” veremos presente se observarmos a sua vida que é doada por Cristo; o seu sangue derramado nos diz que jamais devemos calar. Ainda que fortes sejam as adversidades, mais fortes serão as graças e a força daquele que se une a Cristo Jesus.

É importante dizer que é inútil buscarmos um aprofundamento teológico nesta carta, pois ela é efetivamente de caráter pastoral. Aqui Paulo dirige-se ao coração, falando de amor, alegria, reconhecimento, e a enunciação da vinda do Senhor, preparando a todos quais ele se dirige.

Mas então podeis perguntar-me por que inicio com a meditação da carta à comunidade de Tessalônica e não de Romanos, como está organizado na Sagrada Escritura? Bem, esta foi a primeira carta de Paulo à comunidade recentemente fundada; e por isso acho que para compreendermos melhor devemos estar de acordo a escrita das cartas. Então, antes de começar os estudos, que serão divididos por capítulos, aprofundar-nos-emos nas características de cada comunidade, começando pela já citada; e, assim, ao decorrer de cada carta farei uma breve leitura social e religiosa que caracterizavam a sociedade da época de Paulo.

Como já foi afirmado, a Tessalônica, Paulo dirige sua primeira carta. Lá Paulo fez uma evangelização durante o ciclo das suas segundas viagens, por volta do inverno dos anos 49-50.

Era, pois, uma cidade de grande porte e populosa – como também hoje temos, claro que em números maiores – com 300.000 habitantes, sendo a segunda cidade grega mais importante depois de Atenas. Sendo uma cidade portuária, possuía um dos portos mais seguro dos portos comerciais do mar Egeu.

“O período de evangelização foi curto, mas suficiente – aproximadamente de três ou quatro meses pelo menos – para deixar uma comunidade cristã elementarmente organizada, que supõe manter-se fiel ao ensinamento recebido (1Ts 1, 2-10), defendendo-se eficazmente tanto do ambiente pagão, sempre sedutor e ameaçante (1Ts 4, 1-12), como das contínuas pressões e ciladas provenientes da comunidade judaica mais ativa e beligerante na cidade de Tessalônica (1Ts 2, 13-16). Era lógico, no entanto, que não faltassem dificuldades. Prevendo-as, Paulo envia-lhes Timóteo, que regressa alguns meses mais tarde portador de boas notícias no conjunto, mas também de alguns problemas” (Comentários ao Novo Testamento III, Edit. Ave Maria, pag. 559, 2ª Edição).

Tais problemas encontrá-los-emos mais à frente nas meditações no decorrer da carta.

Mas, de imediato, dois temas figuram logo nos primeiros capítulos, e indubitavelmente notá-lo-emos durante toda a carta: a Parusia de Nosso Senhor, o seu advento definitivo – e precisamente a este tema Paulo dedica boa parte da carta, sobretudo ao preocupar-se com o destino último da comunidade – e uma descrição da Igreja. Poderemos avaliá-los, e aprofundarmo-nos, na devida ocasião que nos for permitido pela carta.

Por acréscimo tenho a dizer que nossos estudos serão publicados às quartas-feiras. Espero que aproveitem! No próximo estudo já começaremos as meditações.

Permaneçam na Paz de Jesus e no Amor de Maria!