Francisco lavou os pés de duas mulheres. E agora?

Uma circular da Sagrada Congregação para o Culto Divino, de 1988, diz, com relação à liturgia da Missa do Lava-Pés, de Quinta-Feira Santa, que “[o] lava-pés (…), por tradição, é feito neste dia a alguns homens escolhidos” (n. 51).

Papa Francisco, no rito de lava-pés, na última Quinta-Feira Santa.

Papa Francisco, no rito de lava-pés, na última Quinta-Feira Santa.

Nesta Semana Santa, como se sabe, o Santo Padre celebrou a Missa in Coena Domini em um cárcere para menores e – mais uma ocasião para que muitos rasgassem as vestes – incluiu no rito do lava-pés duas mulheres. Até a mídia secular repercutiu o fato. “E agora, José?”, perguntam-nos os membros de pastorais litúrgicas, endiabrados com a possibilidade de incluírem discípulas na celebração do lava-pés.

E agora?! Avisem aos seus párocos que eles devem continuar lavando os pés de “alguns homens escolhidos”, pois, segundo a mesma circular de 1988, convém “que esta tradição seja conservada e explicada no seu significado próprio”. – Ah, mas o Papa fez diferente… – O pe. Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, explicou

à Associated Press que se em uma “grandiosa celebração solene” seria lógico lavar os pés só a homens, porque se comemora a Última Ceia de Jesus com Seus apóstolos, “em uma comunidade pequena e única, composta também por mulheres”, como o a do Casal del Marmo, seria “inoportuno” excluir as mulheres, “à luz do simples objetivo de comunicar uma mensagem de amor a todos em um grupo sem refinados especialistas em normativas litúrgicas”.

O padre Lombardi está dizendo que o que aconteceu nesta Semana Santa foi uma exceção. Então, a menos que você seja o Papa e vá celebrar a Missa da Ceia do Senhor em um cárcere para menores infratores, continue lavando os pés de doze homens, como é a tradição litúrgica da Igreja. E deixem a mídia e os progressistas em seu entusiasmo pueril.

Celebração do Ofício de Trevas em Cuiabá

Em Cuiabá, foi celebrado, na noite da Quarta-Feira Santa (27), o tradicional Ofício de Trevas.

Compartilho com os leitores algumas fotos que tirei da cerimônia pública rezada no Santuário Eucarístico Nossa Senhora do Bom Despacho pelo reverendíssimo padre Kleberson Paes, reitor da igreja. Também participaram os reverendíssimos padre Bruno Costa, da comunidade Canção Nova, e padre Marcos Ferrucci, vigário da Catedral de Cuiabá.

Ecce homo

“Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós…”
(2 Cor 5, 21)
"Ecce Homo", do pintor italiano Antonio Ciseri.

“Ecce Homo”, do pintor italiano Antonio Ciseri.

‘Ecce homo’: espontaneamente essa expressão adquire uma profundidade que ultrapassa aquele momento. Em Jesus, aparece o ser humano como tal. N’Ele se manifesta a miséria de todos os prejudicados e arruinados. Na sua miséria, reflete-se a desumanidade do poder humano, que desse modo esmaga o impotente. N’Ele se reflete aquilo que chamamos ‘pecado’: aquilo em que se torna o homem quando vira as costas a Deus e, autonomamente, toma em sua mão o governo do mundo.”

“Mas é verdade também o outro aspecto: não se pode tirar de Jesus a sua dignidade íntima. N’Ele continua presente o Deus escondido. Também o homem açoitado e humilhado permanece imagem de Deus. Desde quando Jesus Se deixou açoitar, precisamente os feridos e os açoitados são imagem do Deus que quis sofrer por nós. Assim, Jesus, no meio da sua paixão, é imagem de esperança: Deus está do lado dos que sofrem.”

Papa Bento XVI,
Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição.
São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. P. 182.

Papa Francisco: O “trono real” de Jesus “é o madeiro da Cruz”.

Papa Francisco, Domingo de Ramos“E aqui temos a primeira palavra que vos queria dizer: alegria! Nunca sejais homens e mulheres tristes: um cristão não o pode ser jamais! Nunca vos deixeis invadir pelo desânimo! A nossa alegria não nasce do fato de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado uma Pessoa: Jesus, que está no meio de nós; nasce do fato de sabermos que, com Ele, nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis… e há tantos! E nestes momentos vem o inimigo, vem o diabo, muitas vezes disfarçado de anjo, e insidiosamente nos diz a sua palavra. Não o escuteis! Sigamos Jesus! Nós acompanhamos, seguimos Jesus, mas sobretudo sabemos que Ele nos acompanha e nos carrega aos seus ombros: aqui está a nossa alegria, a esperança que devemos levar a este nosso mundo. E, por favor, não deixeis que vos roubem a esperança! Não deixeis roubar a esperança… aquela que nos dá Jesus!”

“Segunda palavra (…): Cruz. Jesus entra em Jerusalém para morrer na Cruz. E é precisamente aqui que refulge o seu ser Rei segundo Deus: o seu trono real é o madeiro da Cruz! Vem-me à mente aquilo que Bento XVI dizia aos Cardeais: Vós sois príncipes, mas de um Rei crucificado. Tal é o trono de Jesus. Jesus toma-o sobre Si… Porquê a Cruz? Porque Jesus toma sobre Si o mal, a sujeira, o pecado do mundo, incluindo o nosso pecado, o pecado de todos nós, e lava-o; lava-o com o seu sangue, com a misericórdia, com o amor de Deus. Olhemos ao nosso redor… Tantas feridas infligidas pelo mal à humanidade: guerras, violências, conflitos económicos que atingem quem é mais fraco, sede de dinheiro, que depois ninguém pode levar consigo, terá de o deixar. A minha avó dizia-nos (éramos nós meninos): a mortalha não tem bolsos. Amor ao dinheiro, poder, corrupção, divisões, crimes contra a vida humana e contra a criação! E também – como bem o sabe e conhece cada um de nós – os nossos pecados pessoais: as faltas de amor e respeito para com Deus, com o próximo e com a criação inteira. E na cruz, Jesus sente todo o peso do mal e, com a força do amor de Deus, vence-o, derrota-o na sua ressurreição. Este é o bem que Jesus realiza por todos nós sobre o trono da Cruz. Abraçada com amor, a cruz de Cristo nunca leva à tristeza, mas à alegria, à alegria de sermos salvos e de realizarmos um bocadinho daquilo que Ele fez no dia da sua morte.”

“Hoje, nesta Praça, há tantos jovens. (…) E aqui aparece a terceira palavra: jovens! Queridos jovens, vi-vos quando entráveis em procissão; imagino-vos fazendo festa ao redor de Jesus, agitando os ramos de oliveira; imagino-vos gritando o seu nome e expressando a vossa alegria por estardes com Ele! Vós tendes um parte importante na festa da fé! Vós trazeis-nos a alegria da fé e dizeis-nos que devemos viver a fé com um coração jovem, sempre: um coração jovem, mesmo aos setenta, oitenta anos! Coração jovem! Com Cristo, o coração nunca envelhece. Entretanto todos sabemos – e bem o sabeis vós – que o Rei que seguimos e nos acompanha, é muito especial: é um Rei que ama até à cruz e nos ensina a servir, a amar. E vós não tendes vergonha da sua Cruz; antes, abraçai-la, porque compreendestes que é no dom de si, no dom de si, no sair de si mesmo, que se alcança a verdadeira alegria e que com o amor de Deus Ele venceu o mal.

Da homilia do Santo Padre, o Papa Francisco, na Missa de Domingo de Ramos, 24 de março de 2013 (grifos meus)

Semana Santa em comunhão com Roma, na Canção Nova

Este ano, a Semana Santa foi celebrada com piedade e muita sacralidade na comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista. O Salvem a Liturgia! destacou os principais elementos que embelezaram as celebrações; enfatizamos o “arranjo beneditino dos castiçais e cruz no altar”, o uso de “paramentos romanos”, a “distribuição da Sagrada Comunhão de joelhos” e a “introdução de cantos em latim”, dentre vários outros motivos de regozijo. Abaixo, disponibilizamos algumas fotos das celebrações do Ato Litúrgico da Sexta-Feira Santa – presidido pelo monsenhor Jonas Abib – e da Vigília Pascal – celebrada ontem pelo reverendíssimo padre José Augusto.

Semana Santa com o Papa

Semana Santa no Vaticano é sempre um caso à parte. Enquanto em nossas paróquias somos obrigados a presenciar graves abusos litúrgicos, que muitas vezes tiram o foco d’Aquele que deve ser o centro de toda celebração litúrgica – nosso Senhor -, lá em Roma tudo é feito conforme as rubricas… São celebrações sempre piedosas e verdadeiramente edificantes. E, não bastasse a Missa oferecida com sacralidade, temos um Papa que sempre “arrebenta” nas homilias! Este post está sendo escrito justamente com esta finalidade: comentar as palavras do Santo Padre nas últimas celebrações desta Semana Santa.

Comecemos pela Missa Crismal na manhã da Quinta-Feira Santa. Como pontuou o crítico literário Rodrigo Gurgel, trata-se, sem dúvida, da “homilia que será lembrada para sempre”. “Mais que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente contra a Santa Tradição e o Magistério – observou Rodrigo –, as palavras de Bento XVI são um apelo a que toda a hierarquia eclesial retome o ‘zelo das almas’.” É recomendada a leitura de TODA a homilia, porque está realmente riquíssima: Sua Santidade respondeu aos padres que redigiram, há algum tempo, um “apelo à desobediência”, pedindo ordenação de mulheres (!) e outras bizarrices modernistas; explicou que “a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação”, eliminando, assim a infidelidade à Sua doutrina como suposto “caminho” para uma reforma na Igreja; e, por fim, chamou os sacerdotes a cultivarem um animarum zelus. O Papa lembrou que “[u]m sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo.”

Depois, à noite, durante a Missa na Ceia do Senhor, o Santo Padre decidiu refletir um pouco no aspecto “escuro” da Quinta-Feira Santa – a agonia no Getsêmani. Ali, o Senhor ajoelha-se diante do Pai para orar.

Mas, por que fica de joelhos o Cristo? E por que devem ajoelhar-se os seguidores de Jesus ao rezar? Bento XVI dá a resposta:

“Ajoelhando-se, os cristãos entram na oração de Jesus no Monte das Oliveiras. Ameaçados pelo poder do mal, eles ajoelham: permanecem de pé frente ao mundo, mas, enquanto filhos, estão de joelhos diante do Pai. Diante da glória de Deus, nós, cristãos, ajoelhamo-nos reconhecendo a sua divindade; mas, com este gesto, exprimimos também a nossa confiança de que Ele vence.”

Mais adiante, já encerrando sua reflexão, o Papa sublinha a luta que travou o filho de Deus no horto das oliveiras; e como também, nós, cristãos, somos constantemente confrontados com este verdadeiro combate entre a vontade de Deus e a nossa vontade humana.

“Jesus diz: ‘Pai, tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres’ (Mc 14, 36). A vontade natural do Homem Jesus recua, assustada, perante uma realidade tão monstruosa; pede que isso Lhe seja poupado. Todavia, enquanto Filho, depõe esta vontade humana na vontade do Pai: não Eu, mas Tu. E assim Ele transformou a atitude de Adão, o pecado primordial do homem, curando deste modo o homem. A atitude de Adão fora: Não o que quiseste Tu, ó Deus; eu mesmo quero ser deus. Esta soberba é a verdadeira essência do pecado. Pensamos que só poderemos ser livres e verdadeiramente nós mesmos, se seguirmos exclusivamente a nossa vontade. Vemos Deus como contrário à nossa liberdade. Devemos libertar-nos d’Ele – isto é todo o nosso pensar –; só então seremos livres. Tal é a rebelião fundamental, que permeia a história, e a mentira de fundo que desnatura a nossa vida. Quando o homem se põe contra Deus, põe-se contra a sua própria verdade e, por conseguinte, não fica livre mas alienado de si mesmo. Só somos livres, se permanecermos na nossa verdade, se estivermos unidos a Deus. Então tornamo-nos verdadeiramente ‘como Deus’; mas não opondo-nos a Deus, desfazendo-nos d’Ele ou negando-O. Na luta da oração no Monte das Oliveiras, Jesus desfez a falsa contradição entre obediência e liberdade, e abriu o caminho para a liberdade.”

Por fim, por ocasião da tradicional Via-Sacra no Coliseu, Sua Santidade falou da verdadeira via crucis que enfrentam as famílias modernas, encontrando em seu caminho problemas que ameaçam a sua estrutura e estabilidade. O conselho de Bento XVI enfatizou a necessidade da união do sofrimento das famílias ao sofrimento de Cristo na Cruz. “Se forem vividos com Cristo, com fé n’Ele, os dias de tribulação e de prova trazem já dentro de si a luz da ressurreição, a vida nova do mundo ressuscitado, a páscoa de todo o homem que crê na sua Palavra.”

O Ecclesia Una está unido a todos os católicos esperando a gloriosa Ressurreição de Cristo e aguardando os próximos discursos do Santo Padre. Desejamos, desde já, uma feliz Páscoa a todos os visitantes deste espaço! ;)

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Quem também aderiu à Reforma da Reforma, celebrando com piedade o Santo Sacrifício da Missa, foi a Canção Nova! Confira as fotos da Missa in Coena Domini no Salvem a Liturgia!.

No lado traspassado de Cristo, a origem da Igreja

“Saíram sangue e água do coração traspassado de Jesus. Em todos os séculos, a Igreja, segundo a palavra de Zacarias, olhou para esse coração traspassado e nele reconheceu a fonte de bênção indicada antecipadamente no sangue e na água. A palavra de Zacarias impele mesmo a buscar uma compreensão mais profunda daquilo que lá aconteceu.”

“Um primeiro grau desse processo de penetração encontramo-lo na Primeira Carta de João, que retoma vigorosamente o discurso do sangue e da água saídos do lado de Jesus: ‘Este é O que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não com a água somente, mas com a água e o sangue. E é o Espírito que testemunha, porque o Espírito é a verdade. Porque três são os que testemunham: o Espírito, a água e o sangue; e os três tendem ao mesmo fim’ (5, 6-8).”

“Que entende dizer o autor com a afirmação insistente de que Jesus veio não só com a água, mas também com o sangue? Pode-se provavelmente supor que aluda a uma corrente de pensamento que dava valor apenas ao Batismo, mas punha de lado a cruz. E talvez isso signifique que se considerava importante só a palavra, a doutrina, a mensagem, mas não ‘a carne’, o corpo vivo de Cristo, exangue na cruz; signifique que se procurava criar um cristianismo do pensamento e das ideias, do qual se queria tirar fora a realidade da carne: o sacrifício e o Sacramento.”

“Os Padres viram nesse duplo fluxo de sangue e água uma imagem dos dois sacramentos fundamentais – a Eucaristia e o Batismo -, que brotam do lado traspassado do Senhor, do seu coração. São a corrente nova que cria a Igreja e renova os homens. Mas os Padres, diante do lado aberto do Senhor que dorme na cruz o sono da morte, pensaram também na criação de Eva do lado de Adão adormecido, vendo assim, na corrente dos sacramentos, ao mesmo tempo a origem da Igreja: viram a criação da nova mulher do lado do novo Adão.”

[Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. Capítulo 8: A crucifixão e a deposição de Jesus no sepulcro. pp. 204-205. Editora Planeta. São Paulo, 2011]

Nossos dias como os dias de Noé

Mais uma vez, com o Domingo de Ramos, somos chamados a adentrarmos na Semana Santa, tempo de, no silêncio, meditarmos sobre os últimos dias de Jesus nesta terra e sua gloriosa Ressurreição.

Eis, meus irmãos, que mais uma vez nos é chegada a Santa Semana. E agora cabe-me perguntar, não apenas a vós, senão que também – e antes de tudo – a mim, o que fizemos nesta Quaresma? Como nos aproveitamos dela para, como nos disse o Senhor por meio do profeta Joel em sua tão já escutada e tão nova proposta, convertermo-nos e rasgarmo,s os corações e não as vestes? (cf. Jl 2, 12-13). Agora, aproximando-nos das jubilosas festividades pascais vemos que o tempo está para encerrar-se. O sol da Ressurreição já desponta seus primeiros raios, e muitos ainda não se voltaram ao Senhor.

Santo Agostinho, São Basílio e São Pedro Crisólogo comparam os quarenta dias da Quaresma aos quarenta dias do dilúvio universal. Naqueles dias, por quarenta dias, fez Deus sobre a terra chover castigo; nestes dias faz chover abundantemente sua misericórdia. Mas sendo verdade que o amor de Deus por nós é incomensurável, apesar de nossas perversidades, o Senhor faz com que a chuva de misericórdia não cesse. Porém, como recordara o tão ilustre Padre Antonio Vieira: “Somos os homens tão protervos, que nem por bem, nem por mal pode Deus conosco: os castigos não nos emendam, as misericórdias não nos abrandam” (Sermão de Ramos).

Notemos que o mesmo que sucedeu-se àqueles antigos homens de coração endurecido no primeiro dilúvio a nós nos acontece neste outro que vivenciamos.

“Começou a chover o dilúvio de Noé: alagaram-se na primeira semana os vales e os quartos baixos dos edifícios; subiram-se os homens aos quartos altos. Choveu a segunda semana; venceram as águas os quartos altos, subiram-se aos telhados. Choveu a terceira semana; sobrepujou o dilúvio os telhados, subiram-se às torres. Choveu a quarta semana: ficaram debaixo das águas as torres e ameias mais altas, subiram-se aos montes. Choveu a quinta semana; ficaram também afogados os montes, subiram-se finalmente às árvores, e assim estavam suspensos e pegados nos ramos. Postos neste estado os homens já não tinham para onde subir, e não lhes restava mais que uma das duas: ou nadar, ou acolher-se à Arca, ou deixar-se afogar e perecer no dilúvio” (Idem).

Oh! Vejamos neste espelho o que hoje acontece à nossos dias verossímeis ao dilúvio, e talvez pior do que eles, visto que, se no dilúvio primeiro estavam os homens com os corações endurecidos para Deus; neste segundo há os que nem mesmo acreditam nEle. E não há vida mais vazia, desnorteada e sem sentido, fundamentada em um existencialismo descabido, sem uma verdadeira racionalidade, do que aquela onde Deus já não mais é o centro e o manancial de fortaleza. Sobre isso nos dirá o Santo Padre ao afirmar: “Somente a fé no único Deus liberta e ‘racionaliza’ realmente o mundo. Onde ela desaparece, o mundo se torna racional apenas aparentemente” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 157, Edit. Planeta). Assim, os nossos dias hão de ser, e já o são, piores que os de Noé.

Desde o princípio da Quaresma quer Deus conquistar as almas, e nós sempre a nos retardarmos. “Passou a primeira semana da Quaresma, guardamo-nos para a segunda; passou a segunda, deixamo-nos para a terceira; passou a terceira, esperamos para a quarta; passou a quarta, dilatamo-nos para a quinta; passou a quinta, apelamos para a sexta; já estamos na sexta e na última semana deste dilúvio espiritual, já estamos como os do outro dilúvio, com as mãos nos ramos das árvores, ou com as árvores dos ramos nas mãos” (Padre Antonio Vieira, op. cit).

Noutro dilúvio não puderam salvar-se a todos, pois a uns não lhes era sabido da existência da Arca; outros não souberam nadar. Há neste dilúvio, no entanto, inúmeras portas abertas por nosso Salvador e pelas quais podemos ingressar. Naquele todos os homens morreram, só Noé e sua família salvaram-se; neste, morreu e afogou-se tão somente o divino Noé, para que a todo gênero humano fosse concedida a salvação.

Eis, pois, a semana em que deveis converter-vos, vós que até agora tendes passado a Quaresma despercebidos do tempo favorável à nossa salvação, perdendo tantos dias que pudéreis abrir os olhos, entrando em vossos corações e ouvindo estonteante a voz do Senhor, que deveras nos ama. Já não podem tornar os dias que, outrora tivemos, escorregaram por nossas mãos sem que dele nos aproveitássemos; os vindouros – até a quinta-feira in Coena Domini – não nos são mais que três dias reservados aos mais descuidados. Aproveitai-vos deles para reconciliar-vos com o Senhor! Como nos recordara o salmista: “Deus não desprezou nem rejeitou a miséria do que sofre sem amparo; não desviou do humilhado sua face, mas o ouviu quando gritava por socorro” (Sl 21, 25).

Agora seja-me permitido deter-me por um instante na Epístola paulina aos Filipenses, que para este dia nos é apresentada como segunda leitura. O texto é um hino que provavelmente já existia e era recitado nas comunidades cristãs. Paulo utilizar-se-ia dele para urgir aos Filipenses que se comportem de maneira humilde, como no-lO fez Cristo. Mas, além disso, o hino não pode ser ab-rogado de sua autonomia teológica profundamente rica.

É notória a evocação do despojamento de Cristo, que não se apegou a sua condição divina, mas “humilhou-se fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz” (2, 8). Cristo é o protótipo, por excelência, do cristão; seja enquanto Pastor; seja enquanto pregador; seja enquanto obediência; seja enquanto humildade. Mas, que em tudo, estejamos com os olhos fixos no Senhor, como nos diz o salmista (cf. Sl 122). Por meio da obediência Deus glorifica o Seu Filho acima de todas as coisas, constituindo-O Senhor do mundo, Senhor dos senhores. Não nos tardemos em adorá-lo, pois Ele não irá tardar-Se em salvar-nos. Aquele que assumiu a “forma de escravo” (Fl 2,7) é o Rei dos reis. Sua entrada em Jerusalém, assentado sobre um jumento, mostra, como nos afirma Zacarias, que uma das suas características de Messias é a humildade (cf. Zc 9, 9). Sim! O Senhor não entra em uma carruagem digna aos reis. E por quê? – perguntar-nos-emos. Porque Ele, melhor que ninguém, sabe que o Seu Reino não é dos dinheiros e dos prazeres. Não é da corrupção e da ambição; não é do ouro. As verdadeiras características deste são o amor, a humildade e a fé. Eis o verdadeiro tesouro do cristão! Não está visível aos nossos olhos, mas pode ser contemplado com os olhos da fé. Ele é uma Pessoa: Jesus Cristo, Filho de Deus! E eis que o vemos a caminho de Jerusalém. Apressemo-nos à sua frente, e prostrando-nos por terra O adoremos.

Ele voltará! E assim terá de sê-lo para que possa findar toda a história da humanidade. Não virá rodeado de pompas e adornado com ouro, não obstante ser o Verdadeiro e Único Senhor. Aproveitai o tempo que vos será oportuno. Lembrai-vos de quantas semanas se têm passado sem que dela tenhais tirado proveito. E pode ser que esta seja a última semana para alguns de nós. Quantos viveram a passada que não vivem esta, e quantos vivem esta e não viverão a vindoura! Pois se soubéssemos que esta será a última para alguns de nós, o que faríamos? Pois o que faríeis façais não meramente por medo do inferno e da morte, mas na certeza de amar a Jesus e de tê-lo ofendido.

Oh! Meu boníssimo Senhor! Peço-vos perdão por ter-vos outrora ofendido. Não Vos peço respostas, mas sabedoria para encontrá-las. Não vos peço imunidade contra as tentações, mas coragem para enfrentá-las. Não Vos peço santidade, mas forças para conseguir alcançá-la. Não Vos peço o céu, mas que ilumines a minha caminhada, para que trilhando o verdadeiro caminho, possa eu alcançá-lo.

Maria, Mãe do Autor e Senhor da vida, concedei-me, por vossa intercessão, a humildade que levou vosso Filho a obedecer, até o derramamento salvífico de Seu sangue.

Tudo atraíste a Vós, Senhor

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“Ó admirável poder da Cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado. De fato atraíste tudo a Vós, Senhor, e tendo estendido os braços um dia inteiro para o povo infiel e negador que não acreditava em Vós e Vos contradizia, o mundo inteiro recebeu o senso para confessar a Vossa majestade. Tudo atraíste a Vós, Senhor, quando, em execração da ignomínia dos judeus, todos os elementos proferiram a mesma sentença; quando, apagadas as luzes do céu e transformado o dia em noite, agitando-se a terra com movimentos insólitos, toda criatura se recusou ao uso dos ímpios. Tudo atraíste a Vós, Senhor, pois, tendo-se rasgado o véu do Templo, os Santos dos Santos se retiraram dos indignos Pontífices, para que a figura se transformasse na verdade, a profecia, na manifestação, e a Lei, no Evangelho. Tudo atraíste a Vós, Senhor, para que aquilo que era celebrado num único templo da Judéia sob simbolismos obscuros, fosse celebrado em toda parte, pela devoção de todas as nações, num Sacramento pleno e sem véus. Agora, com efeito, é mais gloriosa a ordem dos Levitas, mais ampla a dignidade dos Anciãos, mais sagrada as bençãos, a causa de todas as graças; por ela é dada aos crentes uma força tirada da fraqueza, uma glória do opróbio, uma vida da morte. Também agora, tendo cessado toda espécie de sacrifícios carnais, a oblação única do Vosso Corpo e Sangue substitui toda a verdade das vítimas: pois Vós sois o verdadeiro “Cordeiro de Deus, Vós que tirais os pecados do mundo”. E assim em Vós perfazei todos os mistérios, a fim de que, assim como um só é o sacrifício em lugar de toda vítima, seja também feito com toda nação um só reino.”

- São Leão Magno, Sermão LVII, VII

Em silêncio, na companhia da Mãe de Jesus, Salvador

Disponível no blog “A Caminho

Hoje é dia de oração silenciosa, de serena esperança,
de expectativa orante na Ressurreição.
“Um grande silêncio e uma grande solidão reina hoje sobre a terra.
Grande silêncio porque o Rei dorme: a terra estremeceu e
ficou silenciosa, Deus feito homem adormeceu e
despertou os que dormiam há séculos.
A “Igreja fica em silêncio junto ao sepulcro do Senhor,
meditando na sua paixão e na sua morte”.
Jesus ressuscitou ao terceiro dia, no Domingo, e
morreu na Sexta-feira Santa, no Sábado,
desceu à mansão dos mortos para despertar os que jazem nas trevas e
nas sombras da morte
e levar a Salvação a todos os que já morreram.
Acompanhemos Maria que guarda todas estas coisas no seu coração.
Façamos companhia à Mãe que depois de sepultar Jesus
veio para casa mergulhada na dor, mas com o coração em esperança.
O Corpo de Jesus jaz no sepulcro. O mundo foi envolvido pelas trevas.
Maria é a única luz acesa sobre a terra.
Com ela preparemo-nos para viver a imensa alegria da Ressurreição.
Enquanto a fé se escurecia em todos,
Maria, a Virgem fiel, permaneceu sozinha mantendo viva a chama,
imóvel na escuridão da fé. Mais uma vez, a Igreja identificou-se com ela.
Naquele dia, Maria, carregou em seus ombros todo o corpo da Igreja.
É essa a razão pela qual o Sábado se torna o dia de Nossa Senhora;
consagrando-lhe este dia, o último dia da semana cristã,
que antecipa o primeiro, o Dia do Senhor Ressuscitado.

Ir. Maria dos Anjos, p. m.
irmanjosalvesam@hotmail.com