O consumo de álcool e tabaco e a histeria dos puritanos

“Os puritano pira”. À esquerda, o bem-aventurado João XXIII, fumando; à direita, o bispo Joseph Ratzinger – hoje Papa Bento XVI -, apreciando uma boa cerveja.

Dizia o filósofo britânico G. K. Chesterton que não é o álcool que degrada o homem, mas, ao contrário, é o homem quem degrada a bebida. De fato, é o mau uso (o abuso) que se faz da bebida alcóolica o que determina um dependente do álcool. Nunca vi copos de cerveja com vida própria, se insinuando para os seres humanos e colocando-se em suas bocas. Também nunca vi um cigarro tocando a campainha da casa das pessoas e pedindo para ser fumado. É por iniciativa nossa que consumimos álcool ou tabaco. Porém, me desculpem os puritanos, o uso moderado destas substâncias definitivamente não constitui pecado.

Há alguns meses o blog O Catequista publicou um artigo abordando justamente este tema; e foi lembrado um ponto particularmente importante para esta reflexão. Foi o próprio Jesus Cristo quem realizou o milagre de transformar a água em vinho nas bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-12)! O próprio Senhor tratou de oferecer aos convidados da festa uma bebida alcoólica. Convenhamos: “Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém” (Tg 1, 13). Então, como beber vinho – ou qualquer outra bebida com álcool – pode ser um ato pecaminoso?

É claro que existe uma óbvia diferença entre o consumo do álcool, ou do tabaco, e o abuso destas substâncias. Por isso, a Igreja se vê obrigada a advertir:

“A virtude da temperança leva a evitar toda a espécie de excessos, o abuso da comida, da bebida, do tabaco e dos medicamentos. Aqueles que, em estado de embriaguez ou por gosto imoderado da velocidade, põem em risco a segurança dos outros e a sua própria, nas estradas, no mar ou no ar, tornam-se gravemente culpados.”

- Catecismo da Igreja Católica, § 2290

Está claro que uma pessoa que está dirigindo embriagada coloca em risco a sua vida e também a de outrem. Quem abusa do álcool pode enfrentar situações muito embaraçosas, acontecendo mesmo de que não se lembre do que fez enquanto estava sob o efeito da substância. Aí está um problema particularmente grave. Cabem, neste ponto, as sempre atuais considerações do Compêndio de Teologia Moral do pe. Teodoro Del Greco, sobre o pecado da gula.

“À gula se referem a intemperança no beber até à perda do uso da razão (embriaguez), a qual, se é perfeita, isto é, se chega a impedir completamente o uso da razão, é pecado mortal “ex genere suo”, se causada sem motivo suficiente.”

Por graves razões, provavelmente, pode permitir-se a embriaguez, como por exemplo, para curar uma doença ou para com mais segurança submeter-se alguém a uma operação cirúrgica. Afastar a melancolia não é motivo suficiente para embriagar-se. A embriaguez que priva só parcialmente do uso da razão (imperfeita) é somente pecado venial, mas poderia tornar-se mortal pelo dano ou escândalo produzido, pela tristeza que poderia causar aos pais, etc.”

[Compêndio de Teologia Moral, Del Greco;
edição em PDF, pp. 56-57]

A Igreja é bastante criteriosa ao tratar estes assuntos, mas está bem claro que beber uma cerveja com os amigos no fim de semana não é pecado algum. Constituiria pecado o seu abuso, mas não o seu uso moderado – o que pressupõe que coloquemos em prática a virtude da temperança. Podemos encontrar muitos grupos de alcoólicos anônimos patrocinados por movimentos católicos, mas certamente não encontraremos uma só linha do Catecismo que condene o consumo de álcool – ou mesmo de tabaco. Muita gente dentro da própria Igreja precisa aprender isso. Qualquer tentativa de demonizar um copo de vinho – ou de cerveja, que seja – é mera tagarelice puritana. Não é doutrina católica.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Mais comentários na polêmica dos preservativos

http://beinbetter.files.wordpress.com/2010/11/seewald2.jpg?w=265&h=181Voltando ao que o Papa falou… Realmente é difícil se omitir de comentar uma situação que envolve tanto o nome da Igreja. Mas, ao mesmo tempo, me parece complicado analisar o que Sua Santidade disse – como teólogo, repito – quando há tantas pessoas emitindo juízos diversos sobre o que foi afirmado.

Partamos, primeiro, àquilo que é dito pelo Magistério da Igreja em relação ao uso dos preservativos. Por que a Igreja é contra a contracepção e, mais especificamente, neste caso, a camisinha? O problema reside, primeiramente, na deturpação do plano de Deus para o ato sexual, que deve ser vivido na sacralidade do sacramento do Matrimônio. Está implícita, no incentivo do uso dos preservativos, uma exortação contrária ao espírito da castidade. Pela camisinha, o homem não deveria se preocupar com o número ou o gênero de seus parceiros sexuais. A camisinha “protege” ele de qualquer eventual “problema” no futuro. Assim, pelo preservativo, seria evitada tanto a gravidez indesejada quanto as doenças sexualmente transmissíveis. A camisinha funcionaria como uma válvula de escape, como um “não” àquela famosa frase de São Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). O que pensaria o homem moderno? Que ele pode pecar sem precisar encarar as consequências de suas infrações.

Além disso, o ato sexual deve ser vivido de acordo com o plano de Deus. Quando criou o homem, o Altíssimo disse: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 28). O Magistério da Igreja deixa claro que, no sexo, deve estar presente tanto o aspecto unitivo quanto o procriativo. O casamento deve ser fecundo. “A Igreja, que está do lado da vida, ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida. Esta doutrina, muitas vezes, exposta pelo Magistério, está fundada na conexão inseparável, que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador” (Catecismo da Igreja Católica, § 2366). Se, por um lado, é perfeitamente lícito ao homem gozar do prazer que a ele advém pelo união sexual, por outro, é preciso lembrar que fechar este ato conjugal à transmissão da vida acarreta funestos problemas para o relacionamento matrimonial. Aqui entra a condenação da Igreja à contracepção. “É intrinsecamente má toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento de suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (Catecismo da Igreja Católica, § 2370).

Em que contexto se introduz a afirmação de Bento XVI ao jornalista Peter Seewald? Ora, primeiro que o caso de utilização do preservativo mencionado por Sua Santidade não diz respeito à camisinha como método anticoncepcional. Massimo Introvigne, em artigo intitulado O papa, o preservativo e os imbecis, que foi parcialmente traduzido pelo blog A Saúde da Alma, fez questão de enfatizar o termo “prostituto”, que foi erroneamente traduzido por vários meios de comunicação como “prostituta”. Ele explica, ademais, que aqui Bento XVI se refere exatamente aos prostitutos homossexuais. O jornalista escreve: “O Papa tem em mente exatamente a prostituição masculina, em que muitas vezes – como relatado na literatura científica – os clientes insistem que o ‘prostituto’ não use preservativos, e onde muitos ‘prostitutos’ – o caso do Haiti, de longe um paraíso do turismo homossexual – sofrem de SIDA, infectando centenas de seus clientes, muitos dos quais morrem. Alguns podem dizer que ‘prostituto’ também se aplica aos heterossexuais ‘gigolôs’, que se fazem ‘acompanhar’, por pagamento, por mulheres, mas o argumento é capcioso, porque é nos ‘prostitutos’ homossexuais que a SIDA é epidêmica”.

Ora, está fora de questão o tema anticoncepção, porque o ato homossexual é naturalmente fechado à transmissão da vida. E aqui está a chave do problema. Um prostituto que está prestes a ter uma relação sexual com o seu “cliente” está cometendo, utilizando ou não a camisinha, um pecado mortal. E esta doutrina é imutável, porquanto o testemunho da Tradição, do Magistério e das Escrituras é unânime em dois mil anos de Cristianismo em condenar severamente a prática da sodomia.

Então, a que aludiu o Papa? Massimo Introvigne explica: “Se (…), consciente de ter SIDA, [o prostituto] infecta o seu cliente sabendo que o está a infectar, além do pecado mortal contra o sexto mandamento, comete ainda um quinto, porque se trata de homicídio, pelo menos tentado.” Então, aqui são cometidos dois pecados (É preciso levar em conta a consciência da soropositividade, pois, sem ela, não podemos falar de pecado grave): um cometido contra o “não matarás” e o outro contra o “não pecar contra a castidade”. Do que o Papa está falando? Quando um prostituto – indiscutivelmente imoral – utiliza o preservativo para evitar que o outro venha a ser contaminado com o HIV, há, ali, certa consciência de responsabilidade pela vida do outro. Esta primeira consciência – de que há a vida do outro a ser preservada – pode ser “um primeiro passo para (…) uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer”.

Mas, o Papa realmente acha que é assim que vamos combater efetivamente a AIDS? É óbvio que não. O que a Igreja anseia realmente é combater toda esta banalização da sexualidade; o que ela quer, de fato, é tirar da lama do pecado esses “prostitutos” que sujam seu corpo com um prazer sujo e vil, com um “trabalho” degradante e indigno. Por isso ele insiste que “[aquela] não é (…) a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV”.

Portanto, a Igreja Católica, fiel às palavras de Cristo, continuará promovendo o anúncio do Evangelho a todos os povos, e isto implica denunciar também o ato sexual que se fecha ao pedido do Criador de que nos multipliquemos. Insistimos nas palavras de João Paulo II: “É moralmente inaceitável que, para regular a natalidade, se encoraje ou até imponha o uso de meios como a contracepção, a esterilização e o aborto” (Evangelium Vitae, n. 91).

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!