A crise moral: massageando o ego para aliviar a consciência

Vivemos numa sociedade marcada por um forte estereótipo de ser a grande portadora da verdade. Homens se julgam capazes de oferecer bem e mal, verdade e mentira. Consequências desastrosas estas. Tornou-se quase que ilimitável esta capacidade racional que se põe a disposição do mal, da libertinagem e do relativismo.

Hoje pela manhã, durante o meu estágio na área de Filosofia, deparei-me com uma temática muito interessante e atual; um tema, de fato, que intriga o homem contemporâneo fazendo-o repensar o seu conceito de vida e de liberdade: Eutanásia. Moralmente e religiosamente falando ela é inaceitável, uma vez que a vida constitui-se como dom singular e particular de cada pessoa. Violar este direito é ferir a própria liberdade do homem e a sua capacidade de escolha. Tantas escolhas… Somos a todo instante oportunizados (ou tentados) a fazer escolhas que possam privilegiar o nosso ego. Nem sempre queremos o correto, afinal, para quê conviver com a verdade dura se podemos viver com uma mentira suave? É aquele famoso ditado: massageando o ego. Portanto, eu sou dono do meu corpo; eu ajo como bem achar melhor; eu tenho liberdade de escolha… eu, eu eu… Jamais se pensa no outro. Até onde vai a minha liberdade, então? Por ser dotado de um livre arbítrio eu posso ferir a liberdade e o direito de alguém?

Não quero expor aqui nenhuma visão doutrinária especificamente neste artigo, mas simplesmente desejo sublinhar um pensamento enquanto homem e cristão; um pensamento muito particular.

Procurei – depois de explicar à sala a questão da eutanásia e expor por alto o pensamento da Igreja – fazer uma leitura humana e ética da vida. A vida constitui-se não somente como dom de Deus, mas como direito inalienável de todo ser humano. Fiz então uma comparação: Um determinado sujeito, insatisfeito com a vida, resolve suicidar-se. Você é chamado ao local para que possa fazer algo. Certamente, assim quero crer, você não iria levar uma corda para entregar ao “des-graçado” (no sentido pleno da palavra: que está sem a graça; que não possui a graça). O que você poderia fazer, em seu gritante lado humano, é tornar en-graçado aquele que está sem graça, isto é, mostrar o sentido mais belo e profundo da vida; um lado que todo homem só descobrirá quando re-descobrir (ou descobrir, se ainda não conhece) o seu próprio valor. (Perdoem-me os “joguetes” com as palavras, mas elas também me en-graçam).

Tentei mostrar aos jovens que a vida é passível de uma dinamicidade natural. Colocar-se em favor da eutanasia é estar a favor do aborto, do suicídio, dos crimes hediondos, do vazio. Pobre mundo vazio! Estúpido vazio no mundo! O único vazio que eu vejo entupir… vidas, ideias, expectativas, sonhos, fé. Tudo que sobeja lacuna termina em vazio. O homem sobejou uma lacuna para Deus e perdeu sua referência de fé e de religião; sobejou uma lacuna para si e perdeu o seu sentido existencial; sobejou uma lacuna no outro e perdeu o seu sentido de unidade e respeito mútuo.

“Mas nós somos donos do nosso corpo”; “nós somos livres pelo direito de decidir”; “nós temos livre arbítrio”. Eu retruco perguntando: isso é um fato? É fato que temos domínio sobre nosso corpo? Então ótimo! Posso controlar a hora que quero adoecer, hora de cortar o cabelo, hora de envelhecer ou até mesmo ser imortal. Fatos não deixam espaço para possibilidades. Fatos não apresentam margem ou lacunas. Mas é fato – e muito triste! – que o homem já não se conheça mais.

Globo e Babilônia: sinônimos da libertinagem, ou: O dia em que Noé pôs os animais na arca

Liberdade e libertinagem possuem conceitos bem distintos entre si. As duas possuem o mesmo radical, mas sufixos diferentes, o que dá uma conotação bem diversa às duas. O radical liber é traduzido como livre, mas o sufixo atis é o mesmo que atos. Já a libertinagem é oriunda da língua francesa. Enquanto a primeira traduz-se como livre ato, a segunda apresenta-se como devassidão, e foi esta última que a Globo apresentou uma vez mais em sua novela.

A começar pelo título já não muito atrativo e pesado: Babilônia. Mas não é isso mesmo que estamos presenciando? Talvez agora eu devesse indagar os irmãos de outras religiões que afirmam que a Igreja Católica é a Babilônia do Apocalipse: o que poderíamos falar da Rede Globo? Ela sim mais parece a Babilônia, uma vez que deprecia os autênticos valores éticos e infiltram cenas como a que se viu ontem (16) entre a Fernanda Montenegro e a Nathália Timberg. Preferi não assistir, mas infelizmente nem sempre os “facebookianos” sabem filtrar conteúdo.

Para falar de uma novela com um título tão esdrúxulo, deveríamos pensar, antes de mais, no que foi a Babilônia. Acredito que todos saibam da sua história, mas não nos custa relembrar.

A Sagrada Escritura nos faz menção diversas vezes deste reino, sobretudo no livro de Daniel e Isaías. O reinado de Nabucodonosor apresentou-se como um tempo doloroso na história de Israel, de forma rígida e perversa o rei governava e ordenava que fossem adorados os seus deuses em lugar do Deus de Israel. Tempos difíceis do exílio no qual o povo de Israel permaneceu firme ao Senhor e por isso obtiveram libertação. Por longos anos prevaleceu a imoralidade e a idolatria no reino, até que Ciro II da Pérsia a destruiu, em 539 a.C. Jeremias, por último, relata sobre a queda de Babilônia: “Num momento caiu babilônia, e ficou arruinada; lamentai por ela, tomai bálsamo para a sua dor, porventura sarará. Queríamos curar babilônia, porém ela não sarou; deixai-a, e vamo-nos cada um para a sua terra; porque o seu juízo chegou até ao céu, e se elevou até às mais altas nuvens”. (Jr 51, 8-9).

Não muito diferente é o contexto atual. Vemos que no mundo ergue-se uma nova Babilônia: da imoralidade, do poder, da corrupção, das idolatrias, da libertinagem. Insisto em falar sobre liberdade e libertinagem porque as duas, embora tenham radicais parecidos, são destoantes em definições. A verdadeira liberdade não é propagada com a demagogia da libertinagem, mas vê-se como uma consciência do homem diante das responsabilidades que deve assumir como criatura de Deus. O Concílio Vaticano II ao aludir a uma autêntica prática do bem, afirmou: “Só na liberdade é que o homem se pode converter ao bem” (Gaudium et Spes, 17).

A liberdade também não é “licença” para que o homem aja como bem entender, mesmo para o mal, contanto que lhe agrade. Essa “sede” de liberdade é fomentada de forma errônea e prejudicial, não só ao espírito mas também à própria conjectura social e natural da humanidade. A liberdade é em primeiro lugar dom de Deus, um dom inestimável que nos fora concedido para a prática do bem e as escolhas de decisões coerentes. Ninguém é livre para optar pelo mal! O mal não é liberdade, mas é justamente a transgressão da mesma. Quem viola a lei natural e divina não age para a liberdade mas para a degradação e para a inferioridade do gênero humano. Como fonte de um estudo mais profundo sobre este conceito de liberdade, dentre tantas obras, indico a Veritatis Splendor, carta encíclica de São João Paulo II.

Pergunto-me: como a Rede de televisão já mencionada ousa transmitir a Santa Missa do Natal do Senhor, todos os anos, se o que o Papa e a Igreja ali dizem não lhes soa aos ouvidos, ao menos como palavra de conversão? Ao contrário, sempre mais viva é a presença das mentalidades espíritas e da degeneração da família.

Hipocrisia tem limites! Depravação não tem limite porque sequer pode ser tolerada – como vemos desde a Sagrada Escritura. Resta-nos uma conclusão óbvia: Família só existe uma: Aquela que Deus instituiu… E mesmo que o mundo queira, no fim sempre prevalecerá a vontade divina. Pessoas do mesmo gênero sexual não podem constituir um casal. Na Escritura, quando se relata a entrada dos animais na arca de Noé, Deus manda que ele colocasse um casal (macho e fêmea) para que fossem salvos do dilúvio. Não pediu duas fêmeas, nem dois machos. Como escrevi mais cedo no facebook: À homofobia dizem ser “crime”; mas a omissão da Verdade é PECADO. É a segunda que leva ao inferno, não a primeira.

Se o governo ou a militância LGBT achou o meu texto homofóbico então quem está privado de liberdade sou eu, que sequer posso expressar minha opinião, ou melhor, a opinião e Doutrina da Igreja.

Cardeal Müller: “sutil heresia” separar doutrina e práxis

Trazemos ao estimado leitor a tradução da nossa página do discurso do Cardeal Gerhard Müller na abertura da Sessão Plenária da Comissão Teológica Internacional, em 1º de dezembro passado.

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Esta foi sempre a convicção dos Padres da Igreja: que a teologia inicia e, em certo sentido, nasce e se faz na liturgia, na adoração do mistério de Deus e na contemplação do Verbo feito carne. Começando por São Basílio de Cesaréia que em seu memorável tratado sobre o Espírito Santo vê exatamente na liturgia a ocasião e o lugar propício da autêntica reflexão humana sobre a incompreensível teologia e economia da nossa salvação. Se nós, teólogos e teólogas, todos os dias temos, a serviço dos mistérios da fé, a nossa inteligência, as qualidades próprias e o fatigante trabalho, temos, na verdade, antes de tudo isso, necessidade do seu Espírito, da sua inteligência divina que fortifica as nossas pobres buscas humanas. Na liturgia compreendemos melhor como a teologia é fundamentalmente a contemplação do Deus de amor.

Devemos, porém, tomar consciência da exigência e da responsabilidade da inteligência da fé, que de modo especial é confiada aos teólogos e às teólogas, que trabalham na Igreja, pela Igreja e em nome da Igreja. Na Igreja, com o seu trabalho intelectual, realizam uma vocação bem precisa e uma exigente missão eclesial.

A fé cristã, de fato, não é uma experiência irracional. Somos chamados a acolher o convite e o dever, que exprime Pedro, de estarmos “sempre prontos a dar uma resposta a quem vos pede a razão da vossa esperança” (1Pd 3, 15). A teologia perscruta, em um discurso racional sobre a fé, a harmonia e a coerência intrínseca das várias verdades de fé que surgem do único fundamento da revelação de Deus uno e trino. O mistério imperscrutável de Deus, na economia da salvação e por meio desta economia do Verbo encarnado se oferece também à nossa inteligência. Nós, teólogos, somos os guardiões e promotores desta inteligência da fé.

Na mediação cristológica Deus se oferece à nossa razão também na inteligibilidade da sua auto-revelação. A Comissão, com os seus debates e discussões, por meio dos estudos e das reflexões, é um lugar privilegiado de empenho comunitário no dar razão da nossa esperança.

A especificidade da Comissão Teológica Internacional consiste no fato que ela é chamada a perscrutar as importantes questões teológicas a serviço do Magistério da Igreja, em particular da Congregação para a Doutrina da Fé. Nesta dimensão, penso que podemos extrair uma indicação para o nosso “fazer teologia”. A teologia não é nunca uma pura especulação ou uma teoria isolada da vida dos crentes. Com efeito, na autêntica teologia não existe jamais um isolamento ou uma contraposição entre inteligência da fé e a pastoral ou a práxis vivida da fé. Pode-se afirmar que tudo é pensamento teológico, todas as nossas investigações científicas tem sempre uma profunda dimensão pastoral, seja a dogmática, a moral ou as outras disciplinas teológicas, tem sempre uma dimensão pastoralmente própria. Como ensina o Concílio Vaticano II, todo o conhecimento de Deus é bom se é feito em referência ao fim último do homem, para a sua salvação. A sagrada doutrina não é uma página morta, mas, especialmente na especulação dogmática toca sempre aquilo que é decisivo para o caminho da Igreja, que é o caminho da salvação.

Toda divisão entre a “teoria” e a “práxis” da fé seria, no fundo, o reflexo de uma sutil “heresia” cristológica; seria fruto de uma divisão no mistério do Verbo eterno do Pai que se fez carne; seria a omissão da dinâmica encarnacionista de toda sã teologia e de toda a missão evangelizadora da Igreja. Cristo, que pode ser chamado o primeiro teólogo da Escritura, o teólogo por excelência, nos diz: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Não existe verdade sem vida, não existe vida sem verdade. Nele está o caminho para compreender sempre melhor a verdade que se oferece a nós e se faz nossa vida.

Podemos afirmar que o trabalho da Comissão, o seu estilo de trabalhar, é sempre caracterizado por um profundo espírito comunitário, de fraterno respeito e amizade, de uma verdadeira colegialidade nas colaborações, de troca e de diálogo. Da comissão se espera exemplarmente um debate teológico sereno e construtivo, no respeito do carisma do Magistério eclesial e na consciência da alta responsabilidade à qual é redirecionada a vocação dos teólogos e teólogas na Igreja.

Somos chamados a guardar o verdadeiro rosto da teologia católica constituído da mediação cristológica e eclesial da fé. O seu verdadeiro objeto a teologia não pode encontrar em outro lugar senão na fé testemunhada pela Igreja na auto-revelação de Deus na pessoa e na história de Jesus de Nazaré. Esta auto-revelação visa assegurar que “os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, tenham acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina” (Constituição Dogmática Dei Verbum, 2).

A relação particular da ciência teológica com a Igreja não pode reduzir-se a uma realidade tão somente externa. A teologia deve antes, por sua essência, levar o contributo da problemática especificamente teológica na forma e na mediação eclesial da fé e pressupor, por outro lado, como princípios próprios, os artigos de fé testemunhados pela Igreja.

Bento Papa; Bento Pai; Bento Pastor

Aproximando-nos do segundo aniversário da renúncia do Santo Padre Bento XVI ao Pontificado, nosso coração e mente rememoram àquele nebuloso dia 11 de fevereiro de 2013, quando toda a Igreja assistia pasma e triste ao pedido de demissão do cargo daquele que é – sem dúvida! – um dos maiores Pontífices que a Igreja já pode usufruir e pela qual foi firmemente guiada.

Se pudermos fazer uma definição precisa de Bento XVI – coisa a meu ver muito difícil – ousaríamos defini-lo com três palavras que explicitam bem a sua figura: Papa, Pai e Pastor. Sim, ele consegue reunir em si inumeráveis qualidades, dentre as quais estas três que mais nos saltam aos olhos na sua imagem terna, amorosa e sapientíssima.

Não obstante os constantes ataques e a má impressão que construíram em volta de sua imagem, o tímido Papa alemão conquistou de forma impressionante aos fiéis, com homilias profundas, palavras tocantes, mas sobretudo por gestos simbólicos.

Convém recordarmos as sábias palavras de Dom Henrique Soares da Costa, hoje Bispo de Palmares, que à época da eleição de Ratzinger, escrevera:

Muitos estão dizendo: esse Papa é sem carisma; não é comunicativo, é conservador. Mas, que é um papa? Seria um comunicador pop? Não! É o Bispo de Roma, escolhido para ser o pastor maior da Igreja de Cristo, testemunhando o Senhor diante do mundo. A única pergunta que Jesus fez a Pedro, antes de confirmá-lo no seu ministério foi esta: “Tu me amas?” Não perguntou ao Pescador da Galiléia se tinha jeito com o povo, se falava mais de um idioma, se era conservador ou progressista… O que os católicos esperam do Santo Padre, o que a Igreja espera, é que seja fiel ao Evangelho e à Tradição Apostólica perenemente guardada pela Igreja sob a guia do Espírito do Ressuscitado. É este Evangelho, crido, guardado e anunciado na Igreja e pela Igreja que ilumina o mundo com a luz de Cristo.

Nosso Senhor não perguntou a Pedro os seus atributos, mas apenas se o amava. Ratzinger é um homem que, mesmo com inúmeras qualidades, não se vangloriou disto e tampouco humilhou os demais, mas sempre colocou-se como aquele último servo, “humilde trabalhador da vinha do Senhor”. Mas tal fora sua humildade que o Senhor quisera elevá-lo por todas as suas qualidades.

Hoje só podemos agradecer a Deus por tão grande Papa a nós concedido. O fiel discípulo não se mede pelas vestes, pelos sapatos, pelas cruzes, mas pelo coração, pela vida de doação e pela entrega sem reservas de si e do seu conhecimento. E isto fez o nosso amado pastor, pai, mestre, enfim… quantos títulos pudermos dar-lhe. Bento, a partir de 19 de abril de 2005, não se tornou apenas um nome a ser aclamado, mas um modelo a ser reverenciado, uma sabedoria a ser escutada, um pai a ser amado, um pastor a ser seguido.

É este homem que não negligenciou em momento algum ao chamado do Senhor; ao contrário, segui-o fielmente. Não se exaltou, mas procurou exaltar o Senhor; não amou o poder, mas amou a Deus. O seu silêncio foi quebrado muitas vezes pelas palavras fortes e revigorantes. Nunca precisou gritar para tocar os homens; nunca elevou a voz para fazer com que penetrasse a palavra de Deus nos corações, uma vez que tudo o que diz torna-o um “novo Crisóstomo” (boca de ouro).

Longa vida a ti, amado Papa!

Maria: Portadora de Jesus, a verdadeira Paz

“Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós”. Assim aclamamos com as palavras do Salmo 66 à primeira leitura que contém a narrativa da antiga bênção sacerdotal sobre o povo da aliança. Celebramos neste primeiro dia do ano a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. É bom iniciarmos um ano louvando a Deus pelos benefícios que realizou em Maria, e ao mesmo tempo louvá-Lo pelo mistério do Natal que completa hoje o ciclo das suas oitavas. Com este desejo é que expresso minhas saudações de um cordial feliz e santo ano novo aos nossos leitores e amigos.

Ao celebrarmos a Festa da Theotokos, queremos render graças a Deus porque em Maria nós aprendemos a contemplar a divindade e a humildade d’Aquele que veio ao nosso encontro e falou ao nosso coração, nos convidando a uma abertura sincera e comprometedora, deixando-nos moldar pela sua graça que perpassa o tempo e nos alcança desde a sua plenitude (cf. Gl 4,4). No limiar de um novo ano queremos celebrar o Dia Mundial da Paz. Já na primeira leitura, tirada do livro dos Números, podemos destacar a tripla menção do nome de Deus evocada na bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre o povo israelita nas grandes festas religiosas. Esta vem como promessa de vigor, felicidade e dom de Deus: “Que o Senhor… te conceda a paz!” (6, 26); e o que pedimos hoje é isto: Que o Senhor conceda a cada um de vós, às vossas famílias, aos lugares frequentemente associados a conflitos armados, e ao mundo inteiro, a paz.

No decorrer da história, de fato, entre os trágicos acontecimentos, sentimos o peso das guerras que não foram superadas e continuam a marcar a vida da sociedade. O homem contemporâneo, não menos que os de outrora, vê seu país e a sua própria realidade sendo dilacerada pelos conflitos que se predispõem a um domínio passageiro e que finda no termo da vida desses que agora suspiram ameaças de morte.

Iniciamos este ano pondo-nos no caminho da paz e da reta consciência de dignidade, com a qual entendemos que nenhum homem pode violar o direito da liberdade de outrem, como nos recorda o Papa Francisco na Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano: “Já não escravos, mas irmãos”. Em Cristo, Deus nos irmanou, nos fez dignos de sermos chamados filhos seus, como nos recorda São Paulo na segunda leitura (cf. Gl 4,6-7).

Mas há muitos que colaboram para a ausência da verdadeira paz quando se omitem a cumprir fielmente o dever que lhes fora confiado e a verdade que não defendem. Penso – como nos recorda ainda o Papa Francisco – naqueles que “para enriquecer, estão dispostos a tudo” (Mens. Dia Mundial da Paz 2015, nº 4) e se apoiam nos esquemas de corrupção, fechando-se ao clamor dos que estão desfavorecidos, quer pelo sistema, quer pelas condições sociais ou religiosas.  Que o Senhor conceda a estes que tem a sua dignidade deformada e a imagem de filhos de Deus manchada a graça de colocarem a mão na consciência para que, conclamados ao perdão, abram-se à misericórdia divina e sejam solícitos para com os irmãos que são, como eles, imagem e semelhança de Deus.

Hoje nós rezamos a fim de que a paz, anunciada pelo anjo aos pastores na noite santa, firme-se em lugar da violência: «Super terram pax in hominibus bonae voluntatis» (Lc 2, 14). Que o Senhor aparte de nós a violência e a injustiça: Cede lugar para que reine a alegria, o amor e a esperança. Abrace os homens secos pela falta de amor. Quem não ama, esse sim, está desprevenido, torna-se vulnerável aos seus instintos; usa da junção de corpo e alma para tramar o mal e passa a ser apenas um ser instintivo que maquina ardilosas e pérfidas ideologias. Se o amor pode tornar o mau, bom; o infeliz, feliz; o individualista, fraterno; o velho, novo; a falta de amor pode gerar homens findados em si, velhos interiormente, infelizes por nada conseguirem a seu modo. Abramo-nos ao amor! Deixemo-nos cativar pelo brilho que vence as lágrimas da tristeza. Que Vós, Rei da Paz, faça da morte, vida; do medo, coragem; da descrença, esperança.

Na carta aos Gálatas, que hoje escutamos, Paulo nos apresenta a adoção filial como um resumo da obra salvífica de Cristo na humanidade. Como parte resguardada nesta ação de salvação encontra-se a figura da maternidade divina de Maria, a Theotokos. Escreve ele: “Mas, ao chegar a plenitude dos tempos Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher, sujeito à Lei” (4, 4). Maria é a Mulher por excelência! N’Ela Deus operou o início do seu mistério redentor permitindo que concebesse o Verbo encarnando. Oito dias depois do Natal, portanto, essa festa encontra-se justamente colocada. De fato, antes do Concílio Vaticano II, a Maternidade Divina tinha lugar no dia 11 de outubro e a 1 de janeiro era celebrada a memória da Circuncisão do Senhor. Essa mudança, entretanto, não evidencia uma atenção menor ao Cristo. Pelo contrário, diríamos que antes de contemplar-se a figura de Maria, Cristo é imprescindivelmente o primeiro contemplado, uma vez que é por meio d’Ele que todas as coisas acontecem e se voltam.

O sentido do termo “plenitude” não só faz o cumprimento das profecias messiânicas como também assume o momento central da humanidade, um sentido absoluto de Deus que dá a sua Palavra – Verbo – definitivamente na história humana. Como recorda-nos o Santo Padre Bento XVI: “na perspectiva cristã, todo o tempo é habitado por Deus, não há futuro que não seja em direção a Cristo e não existe plenitude fora de Cristo” (Homilia, 1 de janeiro de 2011).

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O Evangelho nos faz alusão do silêncio e da discrição que marcam a feminilidade da figura da Mãe: “Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (Lc 2, 19). Conservar os mistérios de Deus é virtude e atitude de sabedoria diante de tantas propostas adversas ao querer divino. A palavrar olhar em italiano se traduz como “guardare”. Em português poderíamos dizer que essa assume um sentido ulterior: Não basta olharmos o Menino deitado na manjedoura; não basta olharmos Jesus se não o guardamos em nosso coração e não fazemos d’Ele o nosso guia e a centelha de esperança num mundo marcado pelo desprezo e pela falta de fé. Podemos observar na história que todas as buscas que foram obstinadamente direcionadas ao próprio homem, e não a Cristo, deram lugar aos conflitos armados e à escravidão.

Para conservar os mistérios de Deus devemos manter o silêncio, a sobriedade e o respeito. Numa sociedade de tantos barulhos, São Francisco de Sales já advertira: “O bem não faz barulho, e o barulho não faz bem”. Que a singeleza de Maria seja também a nossa singeleza no trato com as coisas de Deus. O verdadeiro bem não é aquele que é explicitado ou aquele que fazemos questão de divulgar, mas sim aquele que oculta-se sob a humildade de Deus. Cristo desce numa noite de silêncio, segundo a liturgia belamente nos faz cantar: “Quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite estava no meio do seu curso, a vossa Palavra omnipotente, Senhor, desceu do seu trono real” (Ant. ao Magn. 26 de Dezembro).

Na escola de Maria queremos pedir que o Senhor nos conceda a graça do discernimento e da escuta atenta à Palavra. “Podemos ter a certeza: se não nos cansarmos de procurar o seu rosto, se não cedermos à tentação do desencorajamento e da dúvida, se mesmo entre as muitas dificuldades que encontramos permanecermos sempre ancorados a Ele, experimentaremos o poder do seu amor e da sua misericórdia. O frágil Menino que a Virgem mostra hoje ao mundo, nos torne artífices de paz, testemunhas d’Ele, Príncipe da paz” (Papa Bento XVI, Homilia, 1 de janeiro de 2008).

A glória da humanidade na glória de Deus (Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo)

Nesta noite, marcada pela esperança novamente cintilante, o Senhor desce ao nosso encontro, se faz um de nós e, assumindo esta condição, abre à humanidade as portas da salvação e da vida nova. A antífona da Missa nesta noite santa inicia-se com as palavras do salmista: “Dominus dixit ad meFilius meus es tu, ego hodie genui te – O Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2, 7). Essa frase, que primariamente pertencia ao rito da coroação do rei de Israel que em seu chamamento era introduzido como “filho de Deus”, hoje é usada pela Igreja no reconhecimento da filiação divina de Cristo e da sua eterna geração no Pai.

O salmo 2º é uma leitura prefigurativa daquele menino frágil e indefeso que hoje desce à terra, repleto de majestade e poder, tendo como único sinal a humildade e o canto dos anjos, que ouvimos no Evangelho. Aquele que é gerado por Deus desde toda a eternidade aceita também ser gerado no ventre de Maria, submetendo-se à condição da temporalidade e da morte. Ele é verdadeiramente Deus conosco! Ainda hoje o Filho – professado no Credo como consubstancial ao Pai – continua a ser gerado em Deus. Hoje também Deus vem ao nosso encontro, fala ao nosso coração e quer ser acolhido por cada um de nós.

Santo Irineu de Lyon escrevera de forma significativamente profunda: “O esplendor de Deus dá a vida. Consequentemente, os que veem a Deus recebem a vida. Por isso, aquele que é inacessível, incompreensível e invisível, torna-se compreensível e acessível para os homens, a fim de dar a vida aos que o alcançam e veem. Assim como viver sem a vida é impossível, sem a participação de Deus não há vida… Ao mesmo tempo [o Verbo], mostrou também, por diversos modos, que Deus é visível aos homens, para não acontecer que, privado totalmente de Deus, o homem chegasse a perder a própria existência. Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Lib. 4,20,5-7:Sch 100, 640-642.644-648).

Com o seu nascimento Jesus nos permite participar de Deus. Nós recebemos a verdadeira vida! Se em primeiro plano o pecado parecia ter vencido o homem decaído, em última instância há sempre a graça de Deus e aquele sinônimo que devemos atribuir-lhe: “amor”.

Onde há reconhecimento da glória de Deus, há de igual forma vida e esperança. Onde não se dá glória a Deus se dá glória às ideologias subjetivas e contrárias ao verdadeiro sentido da fé e da vida. Onde Ele não é adorado, mas antes, é desprezado e negado, prevalecem os obstáculos entre o divino e o humano: Ele não pode falar e tampouco ser escutado.

Irineu reafirma que Deus se compraz e é glorificado no “homem vivo”. Que coisa podemos entender destas palavras? Que sentido possui a vida nesta noite em que o seu Autor assume nossa condição? Poderíamos responder a estas perguntas com a mesma afirmação paulina escutada na segunda leitura: O homem vivo é aquele que abandona a impiedade e as paixões mundanas e vive neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade (cf. Tt 2,12). Quanta injustiça e impiedade imperam no mundo onde Deus deveria reinar! Quantos homens velhos que não se abriram ao Menino que vem, permanecendo, assim, na dramática situação narrada pelo Profeta Isaías: “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue…” (Is 9,4). A marca do exílio israelita na Assíria ultrapassa os limites históricos e assume uma dimensão espiritual e sempre atual. Ainda hoje podemos acompanhar a catastrófica situação dos prófugos e refugiados, de modo particular os cristãos do Oriente Médio, forçados a deixarem sua pátria pela realidade que se lhes sobreveio, ou, muitas vezes, rejeitados em outros lugares. Mas a profecia de Isaías estende-se com uma consoladora promessa: “… tudo será queimado e devorado pelas chamas”. Como não rezarmos nesta hora: Sim, Senhor, sabemos que onde não existem homens vivos não haverá vida digna. Fazei brilhar a vossa luz sobre aqueles que praticam a impiedade e a injustiça. Queimai os calçados ruidosos e os trajes manchados de sangue, sobretudo os daqueles que negam o direito à vida aos indefesos: que ainda não nasceram ou os que já estão acometidos pela fragilidade da idade avançada. Sejais Vós a verdadeira vida numa sociedade que se ampara na lógica da força e do poder e nega-se a abraçar a humildade e ser portadora da “grande alegria” comunicada pelos anjos aos pastores.

Voltemos ainda à afirmação de Irineu: “A vida do homem é a visão de Deus”. A leitura do profeta Isaías nos faz relato de um caos primígeno, já transcrito no início do livro dos Gênesis, quando ainda nada tivera sido criado. O caos é uma não-vida, portanto, uma realidade tenebrosa, obscura. Com este pressuposto, a frase de Irineu que atribui a visão de Deus, isto é, a sua ação, à vida do homem, entrelaça-se com a primeira leitura e podem ser postas lado a lado. O pecado quebra a harmonia da criação e restabelece a realidade primitiva: quando a mão de Deus nada tivera criado havia somente o caos, o prenúncio da morte. Desta forma, somente se permanece alimentado pela esperança e pela certeza da ação de Deus, o homem pode passar da morte à vida, pode ser visão de Deus e pode ser glória para Deus.

No fim, podemos pensar que o próprio Filho de Deus entra na História humana de forma visível, subjuga-se ao tempo (Chronos) e às condições físicas do homem. Poderíamos perguntar-nos: Como receberíamos Jesus hoje? O que faríamos se Maria e José batessem hoje à nossa porta? Quando Deus quis entrar no tempo dos homens, os homens quiseram sair do seu tempo (Chronos) e do tempo da Graça (Kairós). Criaram, por conseguinte, subterfúgios e, como Adão, esconderam Dele o seu rosto. É certo que a glória de Deus em sua totalidade só poderá ser contemplada quando estivermos purificados de todas as nossas faltas e participarmos do convívio dos eleitos. Mas Deus nos permite, pelo nascimento de Seu Filho, contemplarmos de antemão a prefiguração do Seu poder e da sua glória.

O Evangelho nos relata o cenário que Maria e José encontraram na fria noite em Belém. Mais do que hospedarias fechadas para um pobre casal, os corações encontravam-se cerrados no comodismo e no egocentrismo. Quem está fechado em si não se dá conta de que Deus mesmo está a bater à sua porta e que pede espaço e abrigo. Bateu outrora nas hospedarias em Belém e não encontrou lugar. Bate também hoje e não encontra espaço porque estamos atarefados com coisas pretensamente “importantes”. O tempo para Deus parece tornar-se cada vez mais escasso e disputado com o ativismo das tarefas diárias. A ausência de lugar para o Menino foi aprofundada e aludida na sua essência pelo evangelista João ao escrever: “Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram” (Jo 1, 11).

Peçamos que o Senhor nos conceda um coração aberto a acolhê-Lo. Peçamos que o nome de Deus seja solevado e a salvação entre em nossos lares por meio d’Aquele que hoje pede o nosso amor, a nossa atenção e os nossos cuidados. Faze que reine a Paz como promessa do Teu Reino ao reconhecermos que sem Vós toda paz é utópica e toda ideologia é falha. Que a Tua Luz nos conduza à Belém para também nós adorarmos o mistério que ali se fez alcançar. Amém!

Cardeal Burke: A “plenitude do poder” não é poder absoluto

P: Muitas pessoas temem que finalmente o Sínodo utilizará uma linguagem dupla. Certas razões “pastorais” são usadas para mudar de fato a doutrina. Tais temores são justificados? 

R: Sim, são. Com efeito, um dos argumentos mais insidiosos utilizados no Sínodo a fim de promover práticas contrárias à doutrina da Fé é esta aqui: “não tocamos na doutrina, cremos no matrimônio com a Igreja sempre acreditou; realizamos apenas mudanças na disciplina”. Todavia, na Igreja católica isso nunca pode existir, pois, na Igreja católica, a disciplina está sempre ligada diretamente ao ensinamento. Em outras palavras: a disciplina está a serviço da verdade da Fé, da vida em geral na Igreja católica. Logo, você não pode dizer que você muda a disciplina e que isso não tem efeitos sobre a doutrina que ela protege, salvaguarda ou promove.

P: Devemos sempre acreditar que a Bíblia é a autoridade suprema na Igreja e que ela não pode ser manipulada, nem mesmo pelo Papa e os bispos?

R: Absolutamente. A palavra de Jesus é a verdade à qual somos chamados a obedecer e, por primeiro, à qual o Santo Padre deve obedecer. Durante o Sínodo, às vezes foram feitas referências à plenitude do poder do Santo Padre, dando a impressão de que o Santo Padre poderia até, por exemplo, dissolver um casamento válido que foi consumado. E isso não é verdade. A “plenitude do poder” não é poder absoluto. É a “plenitude do poder” de fazer o que Cristo nos pede para fazer, em obediência a Ele. Portanto seguimos Nosso Senhor Jesus Cristo, a começar pelo Santo Padre.

P: Um arcebispo disse recentemente: “Evidentemente seguimos a doutrina da Igreja sobre a família”. E acrescentou: “até que o Papa decida de modo diferente”. O Papa tem o poder de mudar a doutrina?

R: Não, é impossível. Sabemos o que o ensino da Igreja sempre foi. Ele foi expresso, por exemplo, pelo Papa Pio XI, em sua carta encíclica Casti connubii. Ele foi expresso pelo Papa Paulo VI na Humanae vitae. Ele foi expresso de um modo magnífico pelo Papa São João Paulo II na Familiaris Consortio. O ensinamento é imutável. O Santo Padre atribui a função de manter esse ensinamento e apresentá-lo com novidade e frescor, mas não mudá-lo.

(Excerto da entrevista do Cardeal Burke ao LifeNews)

Advento: levar Deus num mundo desesperançado

Ao adentrarmos mais um tempo do Advento queremos agradecer a Deus pelo novo ano litúrgico que se inicia e pedirmos que a sua graça nos ajude sempre a vivenciarmos a fidelidade a Ele. Desejamos igualmente colocar nossos corações abertos à escuta atenta da Palavra que vivifica e renova a vida humana. Esta renovação torna-se ainda muito propícia neste tempo em que cresce em nós a expectativa pela chegada do Filho de Deus, uma espera salvífica, que não nos deixa inquietos, mas nos acalenta o coração.

Por isso, na primeira leitura, o Profeta Isaías escreve: “Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64,7). Esta narrativa contém em si um claro sinal de confiança e de coração acalentado. Que pode o homem sem Deus? Nada! Deus molda o homem, o seu coração, o seu sentimento. Contudo, este agir de Deus não é invasivo, não tira a nossa liberdade. Ao contrário, Deus é a maior e primeira causa da liberdade. Com Deus o homem possui verdadeira liberdade; mas sem Ele este torna-se prisioneiro dos seus vícios e das suas vontades, colocando-se como centro de todo Cosmos e senhor de si mesmo. Podemos subentender daí que a liberdade que o Criador concede ao homem está além da sua obra criadora. Não basta estarmos livres de alguém ou de algo, mas livres “para” alguém. Liberdade que não se exerce torna-se escrava do ócio, logo, não é liberdade autêntica, porque também priva o homem da sua disponibilidade e subjuga-o a um vício.

Os Padres da Igreja não hesitavam em apontar Deus como o caminho único para uma liberdade cônscia e verdadeira, não deturpada por valores que figuram como nocivos para a reta consciência cristã. Deus é liberdade porque é paz, é a esperança que cintila; em última instância é Ele o mais importante da vida do homem.

Ainda um segundo aspecto a sublinharmos é que sem Deus o homem não possui esperança, mas faz-se detentor do medo. Privar-se de Deus é a verdadeira desesperança pela qual a hodierna sociedade se propôs passar ao afrontar o direito e a prioridade de Deus no mundo e na vida do homem. Por isso caem na desesperança: porque já não mais possuem aquele verdadeiro entusiasmo suscitado pelo novo da Palavra de Deus, da sua presença constante na história. Antes do encontro com Cristo, Paulo lembra aos Efésios que estavam “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12). Cristo porta consigo a novidade de Deus – ou ainda: Ele é a novidade de Deus – e por isso sua presença não é somente o sinal da sua existência, mas é garantia que Ele fez-se companheiro fidedigno do homem nos rumos da história.

“Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás. Ah! se rompesses os céus e descesses!” (Is 63, 17b. 19b). Nestes dois versículos dois clamores nos chamam a atenção:

“Volta atrás”, Senhor! Este primeiro não é apenas um clamor do povo na narrativa do exílio babilônica transcrita por Isaías; é também o brado do homem contemporâneo que anseia por Deus, por sua verdade, pela sua esperança. Volvei vosso olhar misericordioso para o povo que sofre e que confia, clamando a Ti. Voltai vossa misericórdia aos que sofrem tribulações, perseguidos e marginalizados pela fé quem em vós depositaram. Voltai vosso olhar àqueles que atentam contra a vida humana, privando o ser, criado à vossa imagem e semelhança, do seu primeiro dom: a vida. Concede aos homens a verdadeira paz que emana de Ti, do teu Sacratíssimo Coração.

O segundo clamor do povo exilado realiza-se plenamente na Encarnação do Filho de Deus: “Ah! se rompesses os céus e descesses!” Sim, Ele rompe os céus, assume nossa condição mortal, submete-se à condição temporal, para assim redimir a humanidade: todos nele são salvos e encontram plena felicidade. Em Deus o homem é capaz de assumir sua verdadeira condição, de reconhecer seus deveres e direitos e de respeitá-los. Ele é fiel! (cf. I Cor 1,9) Fazemos também nós coro à carta paulina para afirmarmos juntos essa fidelidade incessante daquele que não permanece inacessível. Assumir a nossa natureza é também uma prova desta fidelidade que penetra na existência humana, rompe – por assim dizer – a barreira que havia entre o eterno e o temporal, o divino e o humano. Podemos ter certeza que mesmo diante de tantos conflitos existenciais, morais, mas também os armados, Deus não abandonou o homem, mas mantém seus olhos voltados à nós. Sim, precisamente porque Ele é fiel, permanecem os seus olhos abertos para a humanidade.

Peçamos a Maria a sua intercessão, para que nossa vida seja uma adesão ao querer de Deus. Que nossos corações estejam abertos para receber-te, Senhor! Abre nossos corações à humildade, à vigilância e à oração. Em nosso mundo tão minado por guerras e violências ensina-nos o dom da tua paz, paz verdadeira e eterna.  Ajudai-nos a reconhecermos que a paz deve sempre apoiar-se na justiça, de tal forma que não existirá paz verdadeira enquanto não houver verdadeira justiça. Mostrai aos poderosos deste mundo que uma paz injusta é a promessa de uma guerra e que a verdadeira paz não se conquista com armas mas com os corações abertos a Deus. Só assim restituiremos à humanidade a verdadeira esperança que sois Vós.

A incoerência dos brasileiros: Não são por alguns votos, é pela liberdade

Aproximando-se do dia das eleições não poderia deixar de dirigir uma mensagem aos leitores deste blog, mas, sobretudo aos cristãos de boa vontade que se dirigirão no próximo domingo às urnas.

Há um tempo disse aqui sobre aquilo que poderíamos definir como “Revolução dos 20 centavos”. Todos lembram, não é?! Não faz muito tempo… ano passado. Período este em que a população brasileira ia em massa às ruas para gritar contra o governo e contra o Partido que nos governava e ainda governa – quero crer que não por muito tempo! Estes que gritavam contra o governo são os que hoje pretendem dar o seu voto ao mesmo, parecendo-me assim não somente paradoxal como também incoerente.

“Não são só 20 centavos”, escreviam em cartazes e gritavam descomedidamente nas ruas. Enfrentavam a polícia, vandalizavam o patrimônio público e insistiam em repetir: “Não são só 20 centavos”; “O gigante acordou!”… e outras frases taxativamente revolucionárias.

Mas agora vem-me à mente uma pergunta: Pelo que, de fato, era? Não era por 20 centavos, segundo eles. Poderia até não ser por uma quantia tão ínfima, mas pela liberdade, pelo desejo de lutar pelo bem comum e pelo não contentamento com a situação econômica, política e social, também afirmaram na época. Entretanto, quando olhamos o quadro político atual percebemos o que mais se deixa transparecer: não era tanto por descontentamento, mas era, de fato, por 20 míseros centavos.

Sim, se fosse causa de um descontentamento ousaria perguntar agora: Onde estão agora as vozes que gritavam, protestavam, reclamavam direitos? Onde estão os que vandalizavam o patrimônio público em nome dos seus direitos? Agora todos se tornaram capachos do governo? Agora todos resolveram manifestar-se a favor dos mesmos pelos quais protestavam? São meramente vândalos baderneiros que se aviltaram em depredar o bem comum em causa nenhuma?

O gigante, meus caros, pode ter acordado, mas acomodou-se! Acomodou-se com projetos, propostas e números mentirosos. Acomodou-se com aqueles políticos que se reúnem para avaliar o que não fizeram e para planejar o que não vão fazer.

Não tem direito de reclamar! Não tem moral para reclamar aqueles que vendo o Brasil neste estado precário e miserável, anulam-se dizendo não haver saída ou tornam-se coerentes com aqueles que demonstraram que não tem capacidade nenhuma de governar.

Sejamos mais espertos e inteligentes! Não é só por 20 centavos, é pela liberdade que não tem preço; é porque não queremos ser um país sem liberdade de expressão, privado da liberdade de crer em Deus por sermos regimentados por um governo ateísta.  O Comunismo apropria-se da liberdade, forja uma falsa ideia da mesma e faz acreditarmos que estamos nos átrios de uma democracia. Muito cuidado com aquele que semeia a divisão e o engano (diabolus).

A liberdade tem um único valor e no-la vemos escrita na Carta de São Paulo: “Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (II Cor 3,17). A verdadeira liberdade é aquela que procede de Cristo e do Espírito Santo. Um País fundamentado em suas próprias convicções e que se abstém de pensar em Deus, está destinado ao fracasso. Também o Brasil vai fracassar – e já o evidenciou bem! – se esquecer de que sua força é exaurida de Deus.

Apelo por isso à consciência dos brasileiros: Nossa fé acaso não vale mais que um voto? Se pudermos mudar a realidade tão catastrófica que aí está, por que não fazê-lo? Todos conhecem o cenário pelo qual somos circundados. Existe, sim, o direito de ser respeitado no caminho da busca da verdade, mas esse direito leva consigo uma obrigação moral de aderir à verdade conhecida e de fazer valer os protestos que não podem suscitar apenas uma ânsia de euforia, mas que precisam ser uma via de mudança. O Beato Cardeal Newman disse: “A consciência tem direitos, porque tem deveres”. Reclamemos os direitos, mas primariamente, cumpramos os deveres. Votemos pela liberdade, pela fé e pela família. Votemos conscientes e digamos não à ditadura esquerdista e manipuladora, que ultraja a nossa fé e nos ataca como lobos vorazes.

Fumaça no Sínodo

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O tão esperado Sínodo sobre as Famílias veio pôr às claras a grande rachadura que há muito existe na Igreja. Sem medo de ser tachado de maniqueísta, está claro que é uma divisão entre o joio e o trigo, as trevas e a luz, o bem e… o mal. Nesses dias difíceis – em que os católicos fiéis à Igreja e ao Papa chegam a temer receber qualquer notícia de Roma –, tem-se experimentado em toda a sua crueza estas duras palavras do Papa Paulo VI: as de que, por alguma brecha, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Nesses dias turbulentos, é preciso ter esperança sobrenatural. A instituição familiar não pode ser deformada arbitrariamente pelos homens – nem que sejam homens aparentemente “de Igreja” –, assim como – é promessa de Nosso Senhor! – portae inferi non praevalebunt: as portas do inferno não prevalecerão contra a Sua Igreja (cf. Mt 16, 18). Nem quando, sob a máscara de uma falsa misericórdia, aqueles que deveriam zelar pelo rebanho de Deus alargam as portas para os que são de fora, obrigando a sair, no entanto, os que estão dentro.