GRANDE EXPECTATIVA PARA CHEGADA DO PAPA À REPÚBLICA TCHECA


Cidade do Vaticano, 24 set (RV) – Na República Tcheca, contagem regressiva para a chegada do papa, onde permanecerá de 26 a 28 do corrente – de sábado até a próxima segunda-feira. O pontífice visitará a capital Praga, Brno – capital da região tcheca da Moravia, e Stará Boleslav – lugar do martírio de São Venceslau, principal padroeiro da nação, cuja festa terá lugar na próxima segunda-feira.

Praga é uma das capitais mais bonitas da Europa, como Roma, circundada por sete colinas, e marcada pelas curvas sinuosas do rio Moldavia – embelezado por antigas e novas pontes – cujas águas refletem as imagens sugestivas de um passado que nos fala de uma fé traduzida em românico, gótico e barroco. Pequena pérola da Europa.

Nessas terras, mais de mil anos atrás, os irmãos Cirilo e Metódio iniciaram a sua missão para lançar as primeiras pontes entre o mundo judaico-greco-latino e o mundo eslavo, inventando um alfabeto graças ao qual essas populações puderam ler o Evangelho em sua língua.

Mas os dois irmãos não tiveram vida fácil na construção dessas pontes de diálogo. E foi assim também para quem os imitou.

A República Tcheca é uma terra de mártires: São Venceslau, assassinado porque com o Evangelho colocou em questão os interesses dos poderosos; Santa Ludimila, avó de Venceslau, estrangulada porque os seus conselhos eram simplesmente “cristãos”; Santo Adalberto, traspassado com lanças por ter anunciado que Jesus é Deus feito carne; São João Nepomuceno, deixado afogar-se no rio Moldavia porque não quis revelar ao rei os segredos do confessionário; São João Sarkander, torturado e morto porque durante as guerras de religião não estava com ninguém a não ser com a paz de Deus.

Terra da dor e da ressurreição: em Brno, no cárcere fortaleza do Spielberg, o italiano Silvio Pellico, após oito anos de sofrimentos, reencontrou a fé e a capacidade de perdoar os seus perseguidores, escrevendo “As minhas prisões” – primeiro tratado sobre os direitos dos detentos.

Terra violentada por duas ditaduras: a ditadura nazista e a ditadura comunista que tiveram a ilusória pretensão de construir um mundo contra Deus e sem Deus. Vinte anos atrás caia o regime filossoviético que pensava resolver as ânsias econômicas e materiais do homem.

E, justamente, vinte anos atrás, João Paulo II canonizava a princesa Inês, que no Séc. XIII distribuíra todos os seus bens aos pobres para seguir Cristo crucificado. Talvez menos lógico, porém, mais convincente.

As ânsias da humanidade foram bem descritas por um grande escritor nascido em Praga, Franz Kafka, que viveu entre os séculos XIX e XX. Em suas obras (A Metamorfose, O Processo, O Castelo) o homem vive o peso de uma culpa misteriosa que deve expiar sem saber por qual motivo. Um mal irresoluto que oprime a vida nos meandros de uma cotidianidade sem sentido.

Em suas três viagens a esse país, João Paulo II anunciou a verdade que liberta desse peso insustentável e das violências que dele derivam: anunciou a misericórdia de Deus – após a qual o homem deve tornar-se capaz de perdoar.

Bento XVI vai a essa terra nas pegadas de João Paulo II convidando a não ter medo, a não duvidar, a partir novamente da fé: o tempo é de Deus. Os moinhos do Senhor moem lentamente, mas moem certamente – diz um provérbio tcheco. (RL)