São Cosme e São Damião


Encontramo-nos hoje com estes dois mártires orientais, que morreram decapitados na perseguição de Diocleciano (284-305). Eram irmãos e provavelmente gêmeos, de profissão médicos, de alta linhagem e de convicção cristã. Os Gregos chamam a cada um anargiros, que quer dizer sem dinheiro, porque no exercício da profissão eram sumamente desprendidos e caritativos com os pobres e necessitados.

Nas Actas que se conservam do martírio de ambos, entrelaça-se o autêntico com o lendário e oratório. Se nem tudo o que figura nelas é para ser admirado, conservam-se passagens que os mais exigentes críticos consideram reprodução exata do processo oficial. O juiz que os interrogou em Egeia da Cilícia, na Ásia Menor, é personagem histórica bem conhecida, que se chamava Lísias.

– Trazei-me esses homens da religião perversa dos cristãos.

– Diante do tribunal os tens, responderam os escrivões.

– Dizei-me o vosso nome, a vossa condição, a vossa religião e a vossa pátria.

– Somos duma cidade da Arábia. .

– E como vos chamais?

– Eu chamo-me Cosme e o nome do meu irmão é Damião. Descendentes de ilustre família, professamos a medicina.

– E a vossa religião?

– A cristã.
– Bem, renunciai ao vosso Deus e sacrificai aos deuses que fabricaram o Universo.

– Os teus deuses são vãos e puras aparências, nem sequer se lhes pode dar nome de homens, mas de demônios.

– Atai-os de pés e mãos, e dai-lhes tormentos até que sacrifiquem.
Enquanto os verdugos despedaçavam as carnes dos dois irmãos com açoites e nervos de boi, os mártires sorriam e diziam ao juiz:

– Presidente, já podes atormentar-nos com maior diligência, pois certificamos-te que nem sequer sentimos a dor.

A espada pôs fim àquelas preciosas vidas e abriu-lhes a porta do paraíso
Os cristãos do Oriente professaram-lhes muito profunda e sentida devoção desde o princípio. Levantaram-se igrejas e santuários em sua honra, recorria-se a eles em todas as doenças e Deus operava, por intercessão deles, curas e milagres constantes. No século IV vemo-los honrados em Constantinopla com quatro basílicas dedicadas à memória deles. Em Roma, o papa Símaco (498-514) erigiu-lhes um oratório no Monte Esquilino e Félix IV (526-536) dedicou-lhes duas basílicas. O templum sacrae Urbis da Via Sacra passou a ser, e ainda é, a igreja principal dos dois irmãos médicos. A epígrafe, que recorda a dedicação desta basílica do Foro, conserva-se ainda e é o melhor elogio dos Santos Cosme e Damião, que entraram mesmo no Cânone Romano da Missa, pela grande devoção que lhes professava o povo: «Aos dois mártires médicos, esperança para o povo de salvação certa. O Foro com a honra sagrada dos Santos».

Com quanta generosidade não recompensa Deus o pouco que fazemos pelo seu nome, dando-Lhe o mais que podemos dar-Lhe, a nossa vida, que recebemos do seu amor e onipotência!