A graça de amar


Vivemos em uma sociedade que tende a minimizar o amor como simples afeto ao próximo. Infelizmente o mundo faz com que nos acostumemos a viver com esta realidade, tão incômoda e tão rechaçada por Deus.

No entanto mais que uma reflexão feita moralmente, devemos analisar o amor no seu fundamento bíblico. Desvendando o mistério que o envolve.

O que é o amor? Como este pode ser definido? O amor é uma graça que Deus nos concede. O amor é o afeto pelo próximo. O amor é a doação que Jesus faz de Si para nós. O amor não é mórbido, desde que ajudemos o próximo. Sim, todas estas definições não são erradas, mas concernem intrinsecamente entre si. Mas apesar de serem concordes na definição sem uma simples palavra seria tudo isto incompleto e vazio. Uma única palavra é capaz de definir o amor: DEUS.

Deus caritas est (Deus é amor), escreve São João (cf. 1Jo 4,16). E é neste amor que o ser humano é chamado a descansar.

É-nos sabido que a palavra amor tem se degenerado com o decorrer do tempo, prenunciado desde o começo do século passado. Temos convicção de que o amor tornou-se uma palavra demasiada abusada no mundo hodierno. O vasto campo semântico da palavra “amor” induz-nos, não poucas vezes, a pensar em: amor à pátria, amor aos amigos, amor ao trabalho, amor à família. E muitas vezes se retrai ao falar-se do amor a Deus. Um Deus que se doa a todos, sem impor limites ou limitar-se ao tempo.

Muitas vezes o homem, na sua prepotente arrogância, não reconhece o amor a Deus, como fonte de tudo; e pior: não reconhece o amor de Deus em si.

Na minha concepção o que levou São João a definir o amor tão sublimemente foi a sua experiência de ser o discípulo amado do Senhor. João era discípulo amado do Amor. Que grande graça o Senhor no-lo concedeu. No seu anonimato nominal, nos Evangelhos, ele tem a capacidade de descobrir, ou ao menos de anunciar, o amor escondido no Cristo: “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

Uma outra característica que nos proporciona a graça do amor, não diverge muito da primeira: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). O amor ao próximo é inseparável do amor a Deus. E precisamente este é o segundo aspecto sobre o qual debruçar-me-ei agora.

Na parábola do jovem rico que queria seguir Jesus, o Mestre lhe pergunta se conhece os mandamentos, ele, após recitá-los, é tomado de grande tristeza com a resposta que se sucedia, dizendo-lhe o que faltava fazer: “Vai, vende tudo o que tem e dá aos pobres, depois vem e segui-me” (Lc 18,22).

Amar exige caridade e a esta se segue a renúncia.

“O amor ao próximo é uma estrada para encontrar também a Deus, e que o fechar dos olhos diante do próximo torna-os cegos diante de Deus” (Cart. Enc. Deus Caritas est, 16).

O citado versículo joanino destaca o nexo indivisível entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Os dois relacionam-se intrinsecamente entre si.

Portanto, amar o próximo é, antes de tudo, amar a Deus e ser amado por Ele.

Falta amor no mundo hoje. Em uma sociedade que busca um capitalismo exacerbado, a Igreja anuncia, e não se cansa nunca de dizer: Deus é amor. O amor tornou-se visível na pessoa de Jesus, que mesmo sendo Deus não permaneceu inacessível. A comunidade eclesial, consciente desta verdade, deve buscar este Cristo que é amor, erradicando os males atuais e implantando o amor como fonte inexaurível.

Quanto ao amor ao próximo, este manifestar-se-á também pela via da caridade. A caridade deve ser manifestada ao mundo antes pelos cristãos. E isto projetou e figurou nos primórdios da Igreja, tendo como grande expoente São Lourenço e tantos outros. E se esta não for tida como amor, esvaziar-se-á num sentimentalismo indubitavelmente ilógico, sem Cristo.

Não daria para expressar tudo neste breve texto. Aqueles que buscam um conhecimento mais aprofundado do tema amor recomendo ler a Encíclica Deus Caritas est, escrita pelo nosso sábio e magnânimo Papa Bento XVI.

Na conclusão pergunto se você ama deveras a Deus, ou tem colocado as futilidades em primeiro lugar?
Não deixe de se doar a Deus; pois Deus não deixou de se doar a você.
E se as dificuldades quiserem lhe abater, lembre-se do discurso escatológico de Cristo: “A maldade se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará. Mas, quem perseverar até o fim será salvo” (Mt 24,12-13).

Ian Farias