A Família: Igreja doméstica


 

Assistimos nos últimos dias o triste cenário, dramatizado em toda a humanidade: a destruição da família, célula-mãe da sociedade. O triste cenário mundial forma-se, sobretudo pela falta de fraternidade entre os povos, que, mesmo com a globalização, não impediu o crescimento de barreiras que destruíssem a fraternidade. Por isso o Santo Padre Bento XVI recordou muito bem: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Cart. Enc. Caritas in Veritate, 19). E mediante isto põe-se em evidência que a família, ao contrário da economia, não sobrevive apenas com recursos financeiros, estes são importantes, mas não são o essencial. O essencial, que de forma alguma pode ser “perdido de vista”, é Deus. E podemos constatar que hoje Ele é o que mais falta nas famílias. Não que Ele esteja ausente; mas as famílias ausentaram Deus da sua convivência. Para muitos o essencial é o ter; e aí voltamos à velha questão do egocentrismo, e que por sinal nunca se ausentou da humanidade.

Mas, naturalmente, podeis perguntar-me: como poderemos fazer com que Deus habite em nossa família? É claro que não podemos delimitar espaços a Deus, isso é impossível à natureza humana; mas há um meio muito fácil de fazer com que Ele habite conosco. Que Ele faça da nossa casa a Sua casa. Este meio é a ORAÇÂO. Nós somos chamados a vivermos a oração também em nosso lar. E o lar é onde, desde criança, se ensina os valores cristãos. “A família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, tais como honrar a Deus e usar corretamente a liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade” (Catecismo da Igreja Católica, 2207). E o Papa João Paulo II, de venerada memória, também recorda-nos: “A oração reforça a estabilidade e a solidez espiritual da família, ajudando a fazer com que esta participe da ‘fortaleza’ de Deus. Na solene ‘benção nupcial’ durante o rito do matrimônio, o celebrante invoca deste modo o Senhor: ‘Efunde sobre eles (os recém-casados) a graça do Espírito Santo, a fim de que, em virtude do teu amor derramado nos seus corações, perseverem fiéis na aliança conjugal’. É desta ‘efusão do Espírito Santo’ que dimana a força interior das famílias, bem como o poder susceptível de as unificar no amor e na verdade” (Carta às famílias, 2 de fevereiro de 1994, 4).

A família é chamada a ser instrumento de graça, de amor, de bondade e de oração. De tal forma, entregue a “sorte” da sociedade, a família desintegra-se, principalmente porque não crê, e se crê não professa, e se professa não vive, por conseguinte ela enfraquece suas “bases” e qualquer “tempestade” com ventos indômitos, indubitavelmente irá derrubá-la. Para isto tomemos como exemplo a parábola da casa mal-edificada e feita na areia, e aquela construída na rocha (cf. Mt 7,24-27). A chuva veio e derrubou a casa da areia, mas não derrubou a da rocha, e por quê? Porque enquanto uma estava construída sobre a areia, a outra estava edificada sobre a rocha.

Adaptemos a parábola a realidade hodierna. Se a família buscar apenas o que é efêmero, superficial, aquilo que não lhe sacia, continuará a sofrer com as demasiadas tempestades dos dias de hoje. Porém se ela edifica-se sobre a rocha, buscado a vivência da oração e a entrega constante a Deus, não será, jamais, derrubada por ventos impetuosos.

Para isto tomemos como exemplo a Sagrada Família de Nazaré que jamais cessou na oração, ou que jamais deixou-se levar pelas diversas circunstâncias que afligiam à época.

Em Maria os homens e mulheres são chamados a observar todas as mães de hoje. Mães que lutam, mães que batalham, que sofrem com seus filhos presos aos vícios e ao narcotráfico, mães que trabalham para garantir o sustento da família, abandonadas pelo marido e deixadas a mingua da cruel sociedade.

Em José contemplamos os pais. Estes são chamados a imitá-lo na perseverança de que a família pode ser aquele lar tão desejado, uma família que sempre reze. Pais que trabalham para o sustento familiar. Maridos comprometidos, fiéis, honestos.

Em Jesus queremos agora olhar as crianças. Aquelas que são marginalizadas, as que sofrem por desavença familiar, principalmente por causa de brigas entre pais, as que não tem um teto, um alimento diário.

Na família mais perfeita, a Santíssima Trindade, quero pedir a graça da santidade para as famílias e a santificação dos seus membros; para que, por meio da vivencia fraterna, da solidariedade, do amor, da união, do respeito, da fidelidade e da oração, possam ser cada dia mais instrumento de Deus para a santificação da humanidade.

“A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. Uma tal família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida” (Paulo VI, Exor. Ap. Evangelii Nuntiandi, 71).

Portanto se você acha que seu casamento não tem mais solução ou sua família não irá mais resistir, busque a oração, busque a Cristo. Ele tem todas as repostas. Não espere que seja como doril (tomou doril a dor sumiu). Você precisa comprometer-se na reconstrução da mesma para que não sejam em vão todas as suas orações. Se você espera uma ação de Cristo tenha também a sua ação. Eu lhe garanto: Jesus é a solução. Busque-O pela oração.

Concluo com as palavras de São Paulo: “Cumpra o marido seu dever conjugal para com a esposa, e a esposa, do mesmo modo, para com o marido. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido. E o marido não pode despedir a mulher” (Cor. 7, 3.10-11).

Na certeza de que esta carta não foi em vão, peço a Sagrada Família que vos abençoe sempre a vós e vossas famílias.

Dário Meira, 10 de outubro de 2009, Memória de São Daniel Comboni