A riqueza na pobreza


Nos últimos dias acompanhamos as leituras que chamam a atenção para o uso idolátrico e errôneo do dinheiro e o esquecimento de Deus. Pudemos acompanhar e fazer uma analogia com mundo de hoje. Infelizmente essa ideologia de capitalismo exacerbado já é parte da nossa sociedade. O uso abusivo do dinheiro tem levado pessoas a perderem a fé, ou “depositarem” sua fé no prazer material. 

No Evangelho de São Marcos (10,17-27), Jesus é interrogado por um jovem rico. Uma pergunta a que imaginamos uma simples resposta, mas na verdade vai além disso. “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar vida eterna?”. De inicio diríamos: “Siga os mandamentos”. Jesus no-lo disse. Mas Ele foi além. O jovem disse: “Mestre, tudo isso tenho feito desde a minha juventude”. Jesus, então, lhe acrescenta um ponto crucial: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me”. Esta resposta dilacerou o coração daquele jovem. A radicalidade de Jesus ultrapassou as fronteiras humanas. Porém esta é a verdade. Seguir Jesus exige renúncia, exige esforço. Muitas vezes não estamos habituados a isso, e fazemos como o jovem: vamos embora tristes, e desistimos do seguimento.

Mas, se buscarmos aprofundar mais os valores evangélicos, veremos, indubitavelmente, que um dos fatores primordiais para o segmento é o abandono dos prazeres efêmeros que o mundo hodierno oferece. Depois da resposta ao jovem, Jesus não tenta “aliviar” a situação; pelo contrário: Ele deixou que o jovem partisse. E depois afirmou: “É mais fácil um camelo (maior animal da Palestina, na época) passar pelo orifício de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Esta resposta, se não analisada cautelosamente, pode ser mal interpretada e até mesmo desvirtuada do seu sentido original. 


O que Jesus quer nos falar hoje? O que o evangelista quis dizer com esta história? Em primeiro lugar ela deve ser bem assimilada. O dinheiro não traz a salvação, menos ainda a felicidade. Não! Se o homem busca um prazer finito, este de nada lhe valerá; do contrário, se ele busca o infinito, busca Deus, aí sim ele encontra a plena felicidade. De que vale ao homem acumular tesouros na terra, viver uma vida de rei, e morrer e ir para o inferno, padecendo todos os sofrimentos? Ai nós recordamos da parábola do rico e do pobre Lázaro. Enquanto um esbanjava seu poder material, esnobando o pobre, o outro vivia a mendigar pelas ruas, até os cachorros vinham lamber suas feridas. Mas, após a morte, a salvação veio para Lázaro, enquanto o rico foi para o tormento. 

O que eu quero ressaltar aqui é que não é errado possuir riquezas, mas há erros no meio de utilizá-lo: não ajudar o necessitado, buscando prejudicar o próximo, achar que o dinheiro trará a salvação, o consolo, o perdão, a alegria. Isso é necessário destacar, porque muitos vivem desta forma, como recordei: fazem do dinheiro o seu “deus”.  


O dinheiro não traz a salvação. Jesus recorda muito bem: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará a outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (São Mateus 6,24). Esta realidade contundente, se põe ante os nossos olhos, e nós somos chamados a observá-la. Não podemos amar a tudo o que o mundo oferece. Apraz-me recordadar o grande Santo Agostinho:


“Realmente, cada um é aquilo que ama.
Ama a terra? Serás terra.
Amas a Deus? Que posso dezer-te? Serás Deus?
Eu não me atrevo a dizlo por minha conta.
Escutemos então as Escrituras:
Eu disse: vós sois deuses, e filhos todos do Altíssimo.
Se, portanto, quereis ser deuses e filhos do Altíssimo,
Não ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo”.
(Agostinho de Hipona em “Carta de João aos Partos”)


E São Tiago escreve: “Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão. Vossas riquezas apodreceram e vossas roupas foram comidas pela traça. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo. Entesourastes nos últimos dias! Eis que o salário, que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tg 5,1-4).

Por isso preocuremos viver na honestidade, na humildade. Não deixemo-nos dominar pelos prazeres materiais, supérfluos. Vamos nos deixar dominar por Cristo, Ele sim é a nossa riqueza. A verdadeira riqueza se encontra na po
breza
. Este é o sentido da riqueza, e esta é a função da pobreza.

Se queres ser verdadeiramente rico, deixe-se alcançar por Cristo. E a partir daí seremos, não só ricos, como também felizes. Pois a maior riqueza da humanidade é a doação que Deus fez de Seu Filho, Jesus, por todos nós, e continua a fazê-lo em cada Eucaristia celebrada. 

Pax Christi sit semper vobiscum 

Ian Farias de Carvalho