HOMILIA PATRÍSTICA: "O REINO DE CRISTO ATÉ O FIM DO MUNDO"


“Meu reino não é deste mundo”: o Seu reino finca raízes aqui, mas apenas até o fim do mundo. Com efeito, a ceifa é o fim do mundo, quando virão os ceifadores, isto é, os anjos, e arrancarão do Seu reino todos os corruptos e ímpios, o que não seria possível se o Seu reino não estivesse aqui. E, ainda assim, [o Seu reino] não é daqui, pois encontra-se no mundo como peregrino. Por isso, diz em seu reino: “Não sois do mundo, pois Eu vos escolhi retirando-vos do mundo”.

Assim, eram do mundo enquanto não eram do Seu reino; logo, pertenciam ao príncipe do mundo. Portanto, é do mundo tudo o que no homem foi criado, sim, pelo Deus verdadeiro, mas que foi gerado da estirpe viciada e condenada de Adão; e já foi convertido no reino, não mais deste mundo, tudo o que a partir de então foi regenerado em Cristo. Desta forma, Deus nos tirou do domínio das trevas e nos trasladou ao reino do Seu Filho amado. Deste reino diz: “Meu reino não é deste mundo”; ou: “Meu reino não é daqui”.

Pilatos disse-lhe: “Então tu és rei?”; Jesus respondeu-lhe: “Tu o dizes: sou rei”. A seguir, acrescentou: “Para isto nasci e para isto vim ao mundo: para ser testemunha da verdade”. Deduz-se claramente que se refere aqui ao seu nascimento no tempo, quando encarnado veio ao mundo; não [se refere] àquele outro sem princípio no qual era Deus e por meio do qual o Pai criou o mundo. “Para isto” diz ter nascido, ou seja, esta é a razão do seu nascimento; e “para isto” veio ao mundo – nascendo certamente de uma virgem: para ser “testemunha da verdade”. Entretanto, como a fé não está em todos, acrescentou e disse: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

“Escuta a minha voz”, porém com os ouvidos interiores, isto é, “obedece a minha voz”, o que equivale dizer: “Crê em mim”. Sendo, pois, Cristo testemunha da verdade, realmente dá testemunho de Si mesmo. É efetivamente sua esta afirmação: “Eu sou a verdade”; e em outro lugar diz também: “Eu dou testemunho de Mim mesmo”. Ao acrescentar: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”, alude à graça com que chama os predestinados.

Pilatos disse-lhe: “E o que é a verdade?” E não esperou para ouvir a resposta; tendo dito isto, saiu outra vez para onde estavam os judeus e disse-lhes: “Não encontro nele culpa alguma”. Suponho que quando Pilatos perguntou: “O que é a verdade?”, lhe veio imediatamente à mente o costume dos judeus de que por ocasião da Páscoa um preso era colocado em liberdade; por isso, não deu tempo para que Jesus lhe respondesse o que é a verdade, para que não perdesse tempo, tendo lembrado do costume que poderia ser um álibi para colocá-Lo em liberdade por ocasião da Páscoa. Não há dúvida de que [Pilatos] desejava isso ardentemente. Porém, não conseguiu afastar o seu pensamento da idéia de que Jesus era o rei dos judeus, como se ali – como também escreveu no título da Cruz – a própria Verdade o tivesse encravado, essa mesma verdade que ele havia perguntado o que era.

(Santo Agostinho de Hipona; Tratado sobre o Evangelho de São João 115,2-5 [CCL 36,644-646]).