AS TRÊS VINDAS DO SENHOR


Nesse período do Advento somos chamados pela Igreja a meditar sobre a vinda do Senhor ao nosso meio, ou melhor “as” vindas do Senhor.

Segundo São Bernardo defini-la-emos em três: “A primeira, quando Ele veio por Sua Encarnação; a segunda é cotidiana, quando Ele vem a cada um de nós, pela sua graça; e a terceira, quando virá para julgar o mundo” (São Bernardo de Claraval, Obras completas de São Bernardo, Madrid: BAC, 1953, p. 177). Gostaria de meditar sobre as três vindas nas quais centram-se o mistério salvífico da redenção humana. Verdadeiramente sabemos que o amor de Deus manifesta-se incondicionalmente pela manifestação de Deus na fragilidade de uma criança; pela sua presença todos os dias em nosso lado, principalmente por meio da comunhão; pela sua vinda derradeira, na qual julgará como Justo Juiz todas as coisas.

I. A Primeira vinda do Senhor

A Primeira vinda do Senhor é conhecida por se tratar do Natal. Quando se fala em Natal, especialmente na cabeça das crianças, vem logo a figura de Papai Noel e o mundo com uma mentalidade cada vez mais consumista, se preocupando com valores efêmeros, e que busca ofuscar a luz do Natal. “Revestido da nossa fragilidade, Ele veio a primeira vez para realizar Seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação” (Prefácio do Advento I)

A Onipotência manifesta-se pela humildade. Mesmo com todo o seu poderio Jesus não se vangloriava por ser Filho de Deus, e por ser Deus. Ao contrário, vivia a humildade e soube dar exemplo de humildade. Nasceu na pobre gruta de Belém. Mas daquela gruta, naquela noite santa, esplandece a glória para toda a humanidade. É um Deus que não quis permanecer inacessível; não restringiu-se à sua Glória celestial, mas quis passar pela experiência humana, a ponto de ser em tudo igual a nós, exceto no pecado (Hb 4, 15). 

Bossuet escreveu certa vez: “Ele como que caiu, do seio do Seu Pai, no de uma mulher mortal, daí num estábulo, e daí desceu, por sucessívos graus de rabaixamento, até a infâmia da Cruz, até a escuridão do túmulo. Reconheço que não era possível cair mais baixo” (Oeuvres choisies. Versailles: Lebel, 1822, p. 156).

Esta vinda nós a recordamos sempre que celebramos o Natal. Em um mundo fomentando a concupiscência, o Senhor faz-se pequeno para nos dizer que a verdadeira felicidade não está no supérfluo, mas no eterno. E que só o eterno pode nos dar aquilo que ninguém nos pode tomar. 


Na Solenidade do Natal, portanto, somos chamados a centrar em nossa vida a figura de Jesus, não como uma mera criança que nasce; mas como um Deus que se humaniza para divinizar a humanidade. É bem verdade que o Verbo entra no mundo e não é bem acolhido, é rejeitado, pois na ideologia judaica – ao menos –, naquela época seria impossível Deus rebaixar-se a tamanho nível. Mas eis que o Seu Amor fala mais alto. E para libertar a humanidade oprimida pelo pecado Ele envia o seu Filho Unigênito, “para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

“Aquele a Quem não quiseram escutar quando Se apresentou humilde, eles O verão decer em grande poder e majestade, e experimetarão o Seu poder, tanto mais rigoroso quanto menos dobrem agora a cerviz do coração ante a paciência dEle” (São Gregório Magno, Obras de San Gregorio Magno. Madrid: BAC, 1958, p. 538).  


II.  A segunda vinda do Senhor

A segunda vinda dá-se cotidianamente. Porém levanta-se uma interrogação: Como essa vinda acontece? É uma pergunta a que se exige muita cautela para se responder. Primeiro lugar devemos recordar que a nossa oração é um profundo momento de encontro com Deus. Mas também a momentos que a Igreja nos proporciona, e que nós mesmo podemos proporcionar-nos. Deve-se aqui destacar a Eucaristia, a escuta atenta da Palavra, a Santa Missa e etc. Seria o que chamo de “Natal permanente”, ou seja, sempre estamos proporcionando a oportunidade de Jesus nascer em nós.

É interessante estarmos atentos ao convite que a Igreja nos faz à oração constante, à qual todos os crentes devem estar convictamente unidos, perseverando – como Maria e os Apóstolos – em oração constante (cf. At 1,14). Este é um convite, e ao mesmo tempo um alerta, que parte de Cristo: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação: pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14, 38). 

Nesta vida o mais importante é procurarmos manter-nos na graça de Deus. Pro isso o pecado muitas vezes leva-nos a ofender a Deus; e se caimos devemos levantar-nos, principalmente buscando a reconciliação no sacramento da Penitência. Exorta-nos São Gregório Magno: “Emendai-vos, mudai vossos costumes, vencei as tentações e castigai com lágrimas os pecados cometidos, porque algum dia vereis a chegada do eterno Juiz com tanto maior segurança quantos mais tiverdes prevenido pelo temor Sua severidade” (Obras de San Gregorio Magno. Madrid: BAC, 1958,p.541)

Não nos apeguemos aos bens terrenos. Recomenda-nos São Basílio: “A curiosidade e os cuidados desta vida, embora não pareçam prejudiciais, devem ser evitados quanto nmão contribuem para o serviço de Deus” (La biblia comentada por los Padres de la Iglesia. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 431).

III.   A Terceira vinda do Senhor

A terceira vinda deve ser meditada em contexto escatológico, isso porque ela é a consumação de tudo e a plenitude de todas as outras vindas.

“Revestindo de Sua glória, Ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos, que hoje, vigilantes esperamos” (Prefácio do Advento I). A vigilância assume, portanto, uma característica principal do advento definitivo do Senhor. O termo que toma o apóstolo Paulo é “Parusia”, ou seja, a vinda definitiva, “vinda”, não “chegada”. 

Diversas vezes Jesus enunciou como seria sua ultima vinda. Uma delas é que “eles verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens com grande poder e glória” (Lc 21, 27). Santo Agostinho coloca-nos duas possiveis interpretações à este pormenor:

Pode-se entender isso em dois sentidos. Ele poderá vir à Igreja como sobre uma nuvem, como não cessa de vir agora, conforme diz a Escritura: ‘Vereis doravante o Filho do homem sentar-Se à direita do Todo-Poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu’ (Mt 26, 64). Mas virá então com grande poder e majestade, porque manifestará mais nos santos Seu poder e majestade divina, pois aumentou-lhes a fortaleza para não sucumbirem na perseguição. Pode-se entender também que venha em Seu Corpo, que está sentado à direita do Pai, no qual morreu, ressuscitou e subiu ao Céu, conforme está escrito nos Atos dos Apóstolos: ‘Dizendo isso, elevou-Se da terra à vista deles e uma nuvem O ocultou aos seus olhos’. E ali mesmo disseram os Anjos: ‘Voltará do mesmo modo que O vistes subir ao Céu’ (At 1, 9.11). Temos, pois, motivos para crer que virá, não só em Seu Corpo, mas também sobre uma nuvem; virá como Se foi, e ao ir-Se uma nuvem O ocultou. É difícil julgar qual dos dois sentidos é o melhor” (Santo Aogstinho, Carta 199, 41-45. In Comentários de San Agustín, Valladolid: Estudio Agustiniano, 1986, p. 52-53).

Reconheçamos que “tão humilde quato foi o nascimento de Jesus, gloriosa será Sua segunda vinda” (Mons. João Scognamiglio). Portanto devemo-nos preparar para esta segunda vinda vivenciando a primeira e a segunda, todas tem uma união intríseca entre si. Não se pode vivenciar uma e esquecer as outras. São como etapas. “A lembrança da ultima vinda de Nosso Senhor, inspirando-nos um salutar pavor que nos afasta do pecado e nos conduz ao bem, prepara-nos também para celebrar santamente a primeira vinda” (Explication des Evangiles du dimanche. Hong-Kong: Société des Missons Étrangères, 1920, p.2). E em todas devemos viver uma santidade inrepreensível no Senhor. Não devemos temer os sinais dos ultimos tempos, eles são a prefiguração da vinda de Cristo para a nossa salvação. Não precisamos temer. Santo Aostinho afirma que “a vinda do Filho do Homem incute temor só aos incrédulos” (La biblia comentada por los Padres de la Iglesia. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 431). 

Se perseverarmos poderemos desfrutar da salvação tão almejada por todos nós na vida futura. Mas neste mundo lutemos contra as forças do mal para que possamos, na eternidade, unirmo-nos a Deus e aos Santos.
Como Jesus afirmou: “Quem perseverar até o fim será salvo” (Mc 13, 13).
 
Encerro pedindo o auxílio da Mãe de Deus:
“Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais; e, sendo-vos propícia, chegareis ao porto da salvação”
(São Bernardo de Claraval).


Salve Maria Santíssima
Pax Vobis