Manifestou-se a graça de Deus

Neste dia Santo do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja volta seu olhar, juntamente com todos os cristãos, há dois mil anos atrás, para aquele pobre estábulo, mas volta-se alegre porque naquela noite santa apareceria o Salvador que veio para dissipar as trevas do mundo. Ele vem pobre, assume nossa condição humana e se torna igual a nós, para que assim se desse a redenção do gênero humano.

O Canto de abertura, ou Antífona, da Missa da Noite é muito propício para este dia: “Dominus dixit ad me: Filius meus es tu, ergo hódie genui te” (Sl 2,7). O Senhor diz “tu és meu Filho”, referindo-se assim, de certo modo, a Cristo. É Deus que vem até nós. Ele se “rebaixa” tornando-se um de nós para que assim realize-se o seu plano salvífico de amor. E esta noite santa, este dia de Natal, foi agraciado com tão grande privilégio. Por isso Santo Agostinho, sobre guardar este dia solene e santamente, fala-nos:
        “Se chama dia do Nascimento do Senhor a data em que a sabedoria de Deus se manifesta como Menino e a Palavra de Deus, sem palavras, emitiu a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indica aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se cumpriu a profecia: ‘A verdade brotou da terra e a justiça contemplou o céu’ (Sl 84,12). A Verdade que mora no seio do Pai, brotou da terra para estar também no seio de uma mãe. A verdade que contém o mundo, brotou da terra para ser carregada por mãos de mulher. A verdade, que alimenta de forma incorruptível a bem-aventurança dos anjos, brotou da terra para ser colocada em um presépio. Para o bem de quem, veio com tanta humildade e tão excelsa grandeza? Certamente, não veio para o seu bem, senão para o nosso, para a condição por nós criada. Desperta, homem; por ti, Deus fez-se homem! (…) Por ti, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para a eternidade se Ele não houvesse vindo. Celebramos com alegria a chagada de nossa salvação e redenção”(Sermão 185).
Assim São Paulo nos apresenta esta verdade na segunda leitura: “Appáruit grátia Dei Salvatóris nostri omnibus homínibus – Manifestou-se a graça de Deus, Salvador nosso, a todos os homens” (Tt 2,11). Esta graça, como recorda o mesmo apóstolo, superabundou onde, outrora, havia abundado o pecado. Jesus vem para destruir o laço do pecado no mundo. Ele vem trazer a salvação.
Maria, com toda a sua humildade, não é menos importante neste projeto salvífico. Ela também tem grande contribuição. Com seu “fiat” a salvação pode assumir forma humana, o Eterno Verbo de Deus, o Logos, entra no mundo. Por isso olhemos também para ela, que com São José aquece o Menino-Deus, e neles contemplemos a prefiguração de uma nova humanidade, limpa da mancha do pecado que é gerada naquele presépio.
Mas, se em Maria contemplamos a figura de serva, devemos voltar-nos agora ao nosso interior. Quantas vezes deixamos de sermos servos para vivenciarmos o egoísmo, o egocentrismo, a arrogância, a ganância? Sim, irmãos, ainda no Natal, infelizmente – não obstante as pregações da Igreja nestes dois mil anos, os exemplos dos santos e o próprio testemunho de vida de Jesus – há pessoas que deixam-se instigar por tais meios de vida cômodos e insensíveis às verdadeiras necessidades humanas, que não se restringem somente ao material. Verdadeiros corações inaptos à receber o Cristo que nos é doado pelo Pai. Ele não vem na opulência, senão na humildade; manifesta-se Rei não no poder, mas nos seus simples e penetrantes ensinamentos.
“Olhai a grandeza do Senhor que entra no mundo – escreve São Bernardo –, o Filho do Altíssimo (…), e feito carne é colocado em um pobre presépio (…) E amai a humildade, que é o fundamento e a guardiã de todas as virtudes (…) Vendo a Deus tão pequeno haverá algo mais indigno do que a pretensão do homem de engrandecer-se a si mesmo sobre a terra?” (Sermão do Natal do Senhor, 1,1). No seu humilde nascimento poderemos contemplar, mais tarde, a sua imensa glória, como reza-se na Missa da Vigília do Natal: “Hoje sabereis que o Senhor vem e nos salva; amanhã vereis sua glória” (Antífona de Entrada).
Aquele que – como diz Sedúlio – “quis salvar a carne pela carne”, manifesta-se para reacender nos homens a esperança, já que as suas estavam ofuscadas. Ele vem para dizer que não está tudo acabado. Tenham coragem! A salvação não falha. Cristo hoje quer manifestar sua luz. Ele pede abrigo nos corações.
Apraz-me aqui citar São Leão Magno, que diz: “O Natal do Senhor é também o Natal da Paz”. E aqui gostaria de recordar as famílias e nações que vivem na guerra. O Senhor hoje vem, mas espera encontrar a paz. Busquemos a fraternidade e o vínculo com os nossos irmãos e abaixemos as armas da guerra para, apenas com palavras e o testemunho, fazermos que este Natal seja o Natal da paz. Como clamaram os anjos de Belém na noite santa: “Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).
Sabemos que a estamos diante de uma sociedade que vive uma forte cultura consumista e capitalista e tende a fazer desaparecer os símbolos e valores do Natal cristão, somos convidados a fomentar uma maior percepção de que o Natal sem Jesus não é Natal. Só sabe o verdadeiro valor do Natal aquele que está ao redor do presépio.
Neste mistério inefável contemplamos o incomensurável amor de Deus por nós que o fez vir de forma inusitada, despojemo-nos do velho homem e acolhamos o novo: “Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos” (Prefácio do Natal III).
“Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem” (Santo Agostinho). O homem está incluso no plano de amor de Deus. Sua vinda como um de nós não diminui sua dignidade como Deus. Ele é todo homem e todo Deus.
Rememoremos aquela santa noite em que ressurge a luz. Peçamos que este Natal seja um momento de reavivarmos a nossa fé, para assim termos saúde, paz, amor, felicidade e esperança.
Com estes auspícios, de um Natal voltado para a manjedoura, desejo-vos um Santo e Feliz Natal com as bênçãos de Deus e da Virgem Mãe.

«Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo»

 Fonte: Evangelho Quotidiano

«Anuncio-vos uma grande alegria». Tais são as palavras do anjo aos pastores de Belém. Repito-vo-las hoje, almas fiéis: trago-vos uma notícia que vos causará uma grande alegria. Para uns pobres exilados, condenados à morte, haverá notícia mais feliz do que a da aparição do seu Salvador, vindo não só para os libertar da morte, mas para lhes conceder o regresso à pátria? É precisamente isto o que eu vos anuncio: «Nasceu-vos um Salvador» […].

Quando um monarca entra pela primeira vez numa cidade do seu reino, são-lhe rendidas as maiores honras; quantas ruas engalanadas, quantos arcos do triunfo! Prepara-te, pois, ó bem-aventurada Belém, para receberes condignamente o teu Rei. […] Que saibas, como te diz o profeta (Mi 5, 1), que de entre todas as cidades da terra, és a mais favorecida, pois foi a ti que o Rei do céu escolheu para lugar do Seu nascimento aqui na terra, para depois reinar não apenas na Judeia, mas nos corações dos homens, em todos os sítios […]. O que não terão dito os anjos ao verem a Mãe de Deus entrar numa gruta para aí dar à luz o Rei dos reis! Os filhos dos príncipes vêm ao mundo em aposentos cintilantes de ouro […]; estão rodeados pelos mais altos dignitários do reino. Ele, o Rei do céu, quis vir nascer num estábulo frio e sem lume, tendo para Se cobrir apenas uns pobres farrapos; e, para Se deitar, apenas uma miserável manjedoira com um pouco de palha […].

Ah! A própria consideração do nascimento de Jesus Cristo e das circunstâncias que o acompanharam deverá embrasar-nos de amor; e as próprias palavras «gruta», «manjedoira», «palha», «leite», «gemidos», ao porem-nos diante dos olhos o Menino de Belém, deverão ter sobre nós o efeito de setas inflamadas ferindo-nos de amor o coração. Bendita gruta, bendita manjedoira, bendita palha! Mas muito mais benditas ainda sejam as almas que com fervor e ternura amam este Senhor tão digno de amor, almas que, ardendo de inflamada caridade, O recebem na santa comunhão. Com que ardor, com que alegria, Jesus vem descansar nas almas que verdadeiramente O amam!

Santo Afonso-Maria de Liguori  (1696-1787), bispo  e  Doutor da Igreja
Discurso para a novena de Natal, n.º 10 (a partir da trad. das Eds. Saint Paul, 1993, pp.133ss. rev.) 

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MISSA DO GALO PRESIDIDA POR BENTO XVI

Cidade do Vaticano, 24 dez (RV) – Últimos preparativos para realizar, esta noite, na Basílica vaticana, a celebração da Santa Missa na Solenidade do Natal do Senhor.

Este ano, a Missa presidida por Bento XVI terá início às 22h, horário italiano (19h, horário de Brasília), e será retransmitida pela Rádio Vaticano com comentários em português.

Na Praça S. Pedro, o tradicional presépio que fica ao lado da árvore de natal será inaugurado hoje, e poderá ser admirado até meados de fevereiro.

No Angelus de domingo passado, Bento XVI recordou que, como nos tempos de Jesus, o Natal não é uma fábula para crianças, mas a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz. “Ele mesmo será a paz!” – diz o profeta Miquéias, referindo-se ao Messias.

A nós, cabe abrir, descerrar as portas para acolhê-Lo, aprender com Maria e José a nos colocar a serviço do desígnio de Deus: “Mesmo que nós não o compreendamos plenamente, confiemo-nos à sua sabedoria e bondade. Procuremos, antes de tudo, o Reino de Deus, e a Providência nos ajudará. Bom Natal a todos!”.
(BF)