Maria: Mãe de Deus e nossa


Por ocasião do dia mundial da paz e deste novo ano que se iniciará, desejo a todos vós, bem como a vossos familiares, um feliz ano novo com o coração voltado para o mistério da salvação que realiza-se em Cristo. Em verdade sobrepõe-se hoje a ideologia de que o ano novo deve ser voltado para festas e não para o Cristo. Infelizmente estes, que de tal forma pensam, não conhecem ou não se aprofundaram no mistério da encarnação

Existem nexos entre a celebração da Solenidade de Maria, Santa Mãe de Deus e o dia mundial da paz, que foi oportunamente estabelecido à esta data. Verdadeiramente Maria é aquela que doa a Paz ao mundo e nela os homens encontram o caminho para a plena paz, a salvação de todos os homens. O mistério da maternidade divina de Maria deixa a razão humana perplexa. Talvez por se crer que Deus é um ser incriável, a quem todos e tudo fez e que não foi feito. Ora, realmente Deus é um ser incriável. Mas o fato de ter se tornado homem, como um de nós, de ter querido encarnar-se no seio da Virgem Maria e de salvar o gênero humano sendo homem, põe ante os nossos olhos o fato de que a Virgem, predestinada para esse objetivo, serva do Senhor, aceitou na sua humildade aquilo que Deus queria e O fez.

“A expressão Theotokos, que literalmente significa “aquela que gerou Deus”, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina. O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz Maria.

Proclamando Maria “Mãe de Deus”, a Igreja quer, portanto, afirmar que Ela é a “Mãe do Verbo encarnado, que é Deus”. Por isso, a sua maternidade não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana”. (Livro A Virgem Maria, Papa João Paulo II)
Sedúlio escreve: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos!” (Antífona de entrada). Sim meus irmãos, saudemos a Maria, nela inicia todo o projeto salvífico da humanidade, “pois ela nos trouxe o autor da vida” (Oração da coleta). Que dizer de tão grande mistério, senão expressar nossa veneração?
Nas leituras centraliza-se a pessoa de Jesus – que nos faz venerar mais ainda Maria –, afinal estamos na oitava de Natal, e antes se celebrava, neste dia, a Festa da Circuncisão do Senhor.
Na primeira leitura vemos a benção que o Senhor dá a Moisés e que perpassa nestes vários séculos depois. “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o rosto e te dê a paz!” (Nm 6, 24-26). Esta benção que ainda hoje o sacerdote repete convida-nos a abrirmo-nos à misericordia infinita de Deus, para que aceitando-a possamos receber os frutos e benção divinas.
“É assim cumprida a antiga tradição judaica da bênção (Nm 6, 22-27): os sacerdotes de Israel abençoavam o povo ‘impondo sobre ele o nome’ do Senhor. Com uma fórmula ternária presente na primeira leitura o santo Nome era invocado três vezes sobre os fiéis, como votos de graça e de paz. Esta tradição remota conduz-nos a uma realidade essencial: para poder caminhar pela vereda da paz, os homens e os povos precisam de ser iluminados pelo ‘rosto’ de Deus e ser abençoados pelo seu ‘nome’. Precisamente isto se concretizou de modo definitivo com a Encarnação: a vinda do Filho de Deus na nossa carne e na história trouxe uma bênção irrevogável, uma luz que nunca se apaga e que oferece aos crentes e aos homens de boa vontade a possibilidade de construir a civilização do amor e da paz” (Papa Bento XVI, Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, 2009).
Na segunda leitura Paulo fala da plenitude dos tempos, onde Deus envia seu Filho, “nascido de uma mulher, nascido sujeito à lei” (Gl 4,4). E o apóstolo acrescenta: “Já não és ecravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça do Senhor” (Gl 7). Assim conhecemos a misericórdia de Deus que se manifesta. Somos filhos, somos herdeiros, tudo isso por “graça”. Esta “graça” manifestou-se ao mundo no Natal. Ele veio para que a humanidade pudesse redescobrir os valores do amor, da fé, da esperança, da fidelidade. Jesus não vem para libertar economicamente. Seria demasiada ignorância pensarmos assim. Ele é a Graça de Deus manifestada em nosso meio; e, hoje, Ele que manifestar-se também em nós. Por isso, com a vinda do Filho de Deus, também nós tornamo-nos filhos, e por conseguinte tornamo-nos herdeiros. O seu amor O levou a tornar-se, mais que homem, tornou-se pobre. E assim podemos citar a expressão de São Paulo na segunda Carta aos Coríntios: “Com efeito – escreve ele – conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza” (8, 9).
Gostaria de recordar o Santo Evangelho que nos afirma: “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20). Esta narrativa do Evangelho convida-nos, também hoje, a agradecermos a Deus por todas as maravilhas que Ele nos proporcionou, a começar do Seu Filho Jesus, nosso Salvador, passando pelas graças deste ano que se encerra. Não deixemo-nos abalar pelos ventos fortes que, indubitavelmente, é algo que ocorre na vida de todos os cristão, e que por um lado é util pois nos fortalece na oração. Assim como os pastores, glorifiquemos a Deus. Ele é aquele que nos acolhe de braços abertos, mesmo que o pecado leve-nos a cair várias vezes, Deus está ali e nos diz: “Coragem! Levanta-te!”
Por fim, faço uma alusão a mensagem do Santo Padre Papa Bento XVI para o dia mundial da paz, que tem co
mo tema: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. Todo o ser humano é chamado a defender a criação. Ela não é só um meio de crescimento e de exploração para o desenvolvimento capitalista. Ela é dom de Deus e nos põe em profundo contato com Ele.

A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl 1, 20). Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados «novos céus e uma nova terra» (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre. Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há-de enfrentar com renovado e concorde empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos. Disto mesmo estejam cientes os responsáveis das nações e quantos, nos diversos níveis, têm a peito a sorte da humanidade: a salvaguarda da criação e a realização da paz são realidades intimamente ligadas entre si” (Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, 2010).

A Maria, mãe que nos acolhe no seu regaço materno, peço que ela esteja sempre nos defendendo nas insidiosas estradas que a vida oferece, para que trilhemos o único e verdadeiro caminho.
Mais uma vez um feliz ano novo a todos!
Pax Domini