Homilía do Papa Bento XVI na Solenidade da Epifania

 Fonte: Canção Nova

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje, Solenidade da Epifania, a grande luz que irradia da Gruta de Belém ultrapassa os Magos provenientes do Oriente e inunda toda a humanidade. A primeira leitura trata do Livro do profeta Isaías, e a passagem do Evangelho de Mateus, que acabamos de ouvir, põe a promessa e seu cumprimento uma ao lado da outra, naquela particular tensão que existe quando se lê as passagens do Antigo e do Novo Testamento em sequência.

Aqui, aparece diante de nós a esplêndida visão do profeta Isaías, o qual, após as humilhações sofridas pelo povo de Israel pelas potências deste mundo, vê o momento em que a grande luz de Deus, aparentemente impotente e incapaz de proteger seu povo, cobrirá toda a terra, de modo que os reis das nações se curvarão diante dele, virão de todos os cantos da terra e colocarão aos seus pés os mais valiosos tesouros. E o coração do povo tremerá de alegria.

A respeito dessa visão, o quadro que apresenta o evangelista Mateus é de pobreza e humildade: parece impossível reconhecer o cumprimento das palavras do profeta Isaías. De fato, foram a Belém não os poderosos e os reis da terra, mas os Magos, personagens desconhecidos, talvez vistos com desconfiança; de qualquer modo, não dignos de atenção especial. Os habitantes de Jerusalém são informados do acontecido, mas não consideram necessário se incomodar, e nem mesmo em Belém parece que haja alguém que cuide do nascimento do Menino, chamado de Rei dos Judeus pelos Magos, ou destes homens vindos do Oriente para visitá-lo.

Logo depois, quando o rei Herodes dirá que efetivamente detém o poder, forçando a Sagrada Família a fugir para o Egito e oferecendo uma prova de sua crueldade com o massacre dos inocentes (cf. Mt 2,13-18), o episódio dos Magos parece ser cancelado e esquecido. É, então, compreensível que a alma e o coração dos crentes de todas as épocas sejam atraídos mais pela visão do profeta que pelo sóbrio conto do evangelista, como atestam também as representações desta visita em nossos presépios, onde aparecem camelos, dromedários, reis poderosos deste mundo, que se ajoelham diante do Menino e colocam aos seus pés os dons mais preciosos.

Mas devemos prestar mais atenção ao que os dois textos nos comunicam. Na realidade, o que Isaías viu com seu olhar profético? Em um só momento, ele vê uma realidade destinada a marcar toda a história. Mas também o evento que Mateus nos narra não é um breve episódio insignificante, que se encerra com o retorno precipitado dos Magos para suas terras. Ao contrário, é um começo. Esses personagens do Oriente não são os últimos, mas os primeiros da grande procissão daqueles que, através de todos os períodos da história, reconhecem a mensagem da estrela, sabem caminhar na estrada indicada pela Sagrada Escritura e sabem encontrar, por isso, Aquele que é aparentemente fraco e frágil, mas que, ao contrário, tem o poder de dar a maior e mais profunda alegria ao coração humano. Nele, de fato, se manifesta a realidade estupenda do Deus que nos conhece e está perto de nós, que sua grandeza e poder não se expressam na lógica do mundo, mas na lógica de um menino indefeso, cuja força é apenas aquela do amor que confia em nós.

No decorrer da história, sempre há pessoas que são iluminadas pela luz da estrela, que encontram a estrada e vão a Ele. Todos vivem, cada um à sua maneira, a própria experiência dos Magos.

Eles levaram ouro, incenso e mirra. Certamente não são os presentes que satisfazem as necessidades básicas ou diárias. Naquele momento, a Sagrada Família precisaria certamente de qualquer coisa diferente de incenso e mirra, e nem o ouro podia ser útil imediatamente. Mas estes dons têm um profundo significado: eles são um ato de justiça. De fato, segundo a mentalidade vigente à época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: são um ato de submissão. Eles querem expressar que, a partir daquele momento, as doações pertencem ao soberano e reconhecem sua autoridade. A conseqüência que disso deriva é imediata. Os Magos não podem mais continuar pela sua estrada, não podem mais retornar a Herodes, não podem mais ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. São agora conduzidos sempre pela estrada do Menino, aquela que os levará a negligenciar os grandes e poderosos deste mundo e os portará Àquele que espera entre os pobres, a estrada do amor que é a única que pode transformar o mundo.

Não apenas, portanto, os Reis Magos se colocam a caminho, mas daquele seu ato foi iniciado algo novo, é traçada uma nova estrada, é acesa sobre o mundo uma nova luz que não morre. A visão do profeta se realiza: aquela luz não pode mais ser ignorada no mundo: os homens se moverão em direção àquele Menino e serão iluminados pela alegria que somente Ele pode dar. A luz de Belém continua a resplandecer em todo o mundo. Para todos os que o receberam, Santo Agostinho recorda: “Também nós, reconhecendo Cristo como nosso rei e sacerdote que morreu por nós, o devemos honrar como se tivéssemos ofertado ouro, incenso e mirra; falta-nos apenas testemunhá-Lo para tomar uma rota diferente daquela pela qual temos andado”(Sermão 202. In Epiphania Domini, 3,4).

Portanto, se lemos a promessa do profeta Isaías e seu cumprimento no Evangelho de Mateus no contexto mais amplo de toda a história, aparece evidente o que é dito, e que aquilo que tentamos reproduzir no presépio não é um sonho e nem um vão jogo de sentimentos e emoções, privado de vigor e realidade, mas é a verdade que brilha no mundo, também quando Herodes parece sempre ser mais forte e que o Menino pareça ser conduzido entre aqueles que não tem importância, ou mesmo pisoteado. É somente naquele Menino que se manifesta o poder de Deus, que reúne os homens de todos os séculos, para que sob o seu senhorio percorram o caminho do amor, que transfigura o mundo. Entretanto, mesmo que os poucos de Belém tenham se tornado muitos, os crentes em Jesus Cristo parecem ser sempre poucos. Muitos viram a estrela, mas poucos têm entendido a mensagem. Os estudiosos das escrituras do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram perfeitamente capazes de dizer, sem qualquer dificuldade, o que se poderia encontrar no lugar em que o Messias nasceria, mas, como diz Santo Agostinho: “lhes aconteceu como as pietre miliari [antigas indicações utilizadas nas vias romanas]: ainda que tenham dado indicações aos viajantes
em seu caminho, permaneceram inertes e imóveis” (Sermo 199. In Epiphania Domini, 1,2).


Podemos agora nos perguntar: qual é a razão pela qual alguns vem e o encontram e outros não? O que abre os olhos e o coração? O que acontece a quem fica indiferente, àqueles que indicam o caminho, mas não se movem? Podemos responder: uma demasiada confiança em si mesmo, a pretensão de conhecer perfeitamente a realidade, a presunção de já ter formulado um juízo definitivo sobre o que torna fechado e insensível o coração à novidade de Deus. São seguros da ideia que fazem do mundo e não se deixam mais questionar pela aventura íntima de um Deus que deseja conhecê-los. Colocam a sua confiança mais em si mesmo que n’Ele e não acreditam que seja possível que Deus seja tão grande a ponto de se fazer pequeno, de se fazer próximo a nós.

Finalmente, o que falta é a humildade genuína, que sabe se submeter àquilo que é maior, mas também a coragem autêntica, que leva a crer n’Aquele que é verdadeiramente grande, embora ele se manifeste em um Menino indefeso. Carece da capacidade evangélica de ser crianças no coração, de se admirar, de sair de si para iniciar o caminho que indica a estrela, o caminho de Deus. Mas o senhor tem o poder de nos capacitar para ver e para nos salvar. Queremos, agora, pedir-Lhe que nos dê um coração sábio e inocente, que nos permita ver a estrela da sua misericórdia, de caminharmos pela sua estrada, para encontrá-lo e sermos inundado pela grande luz e pela verdadeira alegria que ele trouxe para este mundo. Amém!

Epifania do Senhor

Celebra-se solenemente hoje, dia 6, a Solenidade da Epifania do Senhor. Esta constitui uma das mais antigas festas da Igreja. Mas o que para nós significa a Epifania? Como ela pode ser vista hoje?

Em primeiro lugar é preciso notarmos que a Epifania do Senhor (do grego: πιφάνεια, : “a aparição; um fenômeno miraculoso”) é a manifestação do menino-Deus ao mundo. Neste dia a graça é manifestada em nós, depois de já aparecida. O profeta Isaias, na primeira leitura, vai nos dizer isto claramente: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor.
Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora.” (60,1).

Naquele pequeno menino fulgura a verdadeira luz; luz esta que não será ofuscada por nenhum poder terreno, e muito menos por alguém. Sim, essa é a grande novidade deste nosso tempo, dita a todos os homens, a todos os que necessitam de uma palavra de conforto e de esperança: O Senhor vem, na sua fragilidade, na sua pequenês. Mas deste meio Ele se manifesta Rei e Senhor. Não um Rei que ostenta poderes terrenos, mas um Rei que pode garatir-nos coisas maiores, como a vida eterna. A sua luz ilumina aqueles que jaziam na obscuridão. E convida-os a também se tornarem partícipes da sua glória.

No presépio podemos contemplar não um mito criado pelos homens, mas uma Verdade querida por Deus. Os Magos, vindos para adorar o Senhor, deixaram-se guiar pela estrela de Belém. Esta estrela deseja brilhar também hoje em nosso meio. Mas isto só acontecerá quando todos os homens souberem reconhecer sua mensagem. Os Magos foram “os primeiros da grande procissão dos que, através de todas as épocas da história, souberam reconhecer a mensagem da estrela, caminhar na estrada indicada pelas Santas Escrituras, e encontrar Aquele que aparentemente é débil e frágil mas que, ao invés disso, tem o poder de dar a maior e mais profunda alegria ao coração do homem”. (Bento XVI, Homilia na Missa da Epifania, 2010).

“Muitos viram a estrela, mas poucos entenderam a mensagem”, afirma o Papa Bento XVI. “Embora os poucos de Belém tenham se tornado muitos, os crentes em Jesus parecem sempre poucos” (idem).
Mas daí surge-nos uma pergunta apresentada pelo Santo Padre Bento XVI: “Porque é que alguns vêem [a estrela] e encontram [o menino] e outros não? O que é que lhes abre os olhos e o coração? O que é que falta aos que permanecem indiferentes, aqueles a quem se indica o caminho mas não se mexem?” E ele mesmo responde: “Podemos responder que é a demasiada segurança em si mesmos, a pretensão de conhecerem perfeitamente a realidade, a presunção de já terem formulado um juízo definitivo sobre as coisas, fecha os seus corações e torna-os insensíveis à novidade de Deus. Estão tão seguros da ideia que fizeram do mundo que, no seu íntimo, não se deixam envolver pela aventura de um Deus que os quer encontrar” (idem).

Esta realidade pode ser constatada porque o homem tem sede de transcendencia e não aceita submeter-se aos desígnios salvíficos do Senhor. Mas este seu desejo só pode ser alcançado quando ele reconhecer que Deus está acima de tudo e de todos, e que ele deve cuvar-se a esta verdade.

Naquele menino inerme muitos não querem depositar sua confiança, talvez por medo; outros talvez porque já não mais querem se abrir à novidade de Deus; outros talvez porque deixam-se ser pesuadidos pelas ideologias humanas da ciência e da técnica, e assim acham-se autossuficientes para governarem a si mesmos e se esquecerem que existe uma lei moral. Mas só Ele pode dar-nos a plena felicidade. Não uma felicidade supérflua, mas uma felicidade que se baseia em satisfazer o espírito do homem moderno.

Deixemo-nos guiar pela estrela que conduz a humanidade ao Salvador. Uma estrela que não pode ser vista pela lógica da ciência, mas pela lógica da fé, que guia o homem para o Senhor e que não deixa que eles conheçam a “cegueira” espiritual. A manifestação do Senhor não se dá por interesse, mas por amor. Amor que muitas vezes o homem desviou para desejos concretos ou para interesses pessoais.

Voltemo-nos para Deus, Ele sim nos ama verdadeiramente.

Deus abençoe!

Breve saudação aos irmãos gregos que celebram amanhã o Natal:

Οι αδελφοί και αδελφές της Ανατολικής Εκκλησίες να γιορτάσουν τα Χριστούγεννα Ιερά αύριο ελπίζω το φως των αγοριών-Θεός λάμψη στις καρδιές σας και τις οικογένειές σας.
Καλά Χριστούγεννα!

Qual o principal erro da TL?

Ivanaldo Santos 
 
Nas últimas semanas de dezembro de 2009 o Papa Bento XVI condenou novamente a Teologia da Libertação (TL). Nas palavras do Pontífice a TL realiza uma interpretação inadequada da Bíblia, nega-se a pregar o evangelho, direciona a estrutura da Igreja para atividades que são incompatíveis com o cristianismo e o mais grave, elimina a fé que existe nos fiéis.
Oficialmente a TL procura exprimir a fé cristã num contexto social marcado pela pobreza e pela injustiça social. É preciso ter consciência que para a TL são os pobres que marcam o lugar da ação histórica e do encontro com Deus. Nesta perspectiva, a fé cristã só adquire substância histórica quando considera os pobres e excluídos como desafio incontornável e, portanto, é imperioso haver a opção preferencial pelos pobres. Ninguém, nem mesmo o Papa Bento XVI, condena ou critica a Teologia da Libertação por se dedicar a libertação dos pobres e demais grupos socialmente excluídos. Historicamente a Igreja cometeu erros, mas qualquer historiador ou sociólogo que tenha o mínimo de honestidade irá afirmar que a Igreja foi uma das instituições, na sociedade ocidental, que mais promoveram a integração humana e, por conseguinte, a emancipação dos injustiçados.
Aparentemente há uma contradição entre a condenação oficial da Igreja emanada principalmente pelo Papa Bento XVI e o discurso oficial da Teologia da Libertação.
Afinal, qual o principal erro da Teologia da Libertação?
Sinteticamente serão apontados três erros da Teologia da Libertação.

Primeiro, a TL afirma que o pobre é o lugar de Salvação e, por isso, a Salvação se dá por meio do pobre. Isso contraria gravemente os ensinamentos bíblicos e a doutrina da Igreja. Para a Bíblia e a para a Igreja o lugar da veracidade da teologia é toda a humanidade, com todos os seus grupos e segmentos sociais e, não apenas o pobre. Cristo veio para toda a humanidade e não apenas para os pobres, justamente porque “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3, 23). Jesus Cristo não é o Salvador apenas de uma classe social (o proletariado) e de um grupo social (os pobres), mas de toda a humanidade. Ele não salva apenas a vida material (comer, vestir, etc), mas salva o homem em sua totalidade (vida econômica, emocional, espiritual, estética, etc). 
Segundo, em grande medida libertar o homem da pobreza significa oprimi-lo dentro de novas formas de sofrimento físico e espiritual. As populações da Europa e de outras partes do planeta que conseguiram se libertar da pobreza atualmente vivem sob o jugo de novas opressões (terrorismo, depressão, suicídio, individualismo, ditadura da mídia, morte da democracia, etc). Jesus Cristo sabe que o libertador de hoje fatalmente é o opressor de amanhã.
Terceiro, o real intuito da TL não é libertar o pobre. Se realmente a Teologia da Libertação desejasse libertar o pobre, ela não apoiaria abertamente regimes tirânicos como Cuba e a Coreia do Norte. O pobre não passa de massa de manobra dentro dos planos da TL. O que realmente ela deseja é implantar na América Latina um regime fechado nos moldes de Cuba. Na prática a Teologia da Libertação funciona como uma cabeça de ponte, ou seja, de um lado, é uma forma de ideias e doutrinas não cristãs entrarem dentro da Igreja. Entre essas doutrinas cita-se: o secularismo, o ateísmo, a defesa de um Estado totalitário e, por causa disso, a opressão de toda a população. A TL funciona como uma espécie de idiota útil, ou seja, deve legitimar o discurso opressor oriundo do totalitarismo. Sendo que essa legitimação é feita por meio da estrutura da Igreja e de uma indevida interpretação da Bíblia. Do outro lado, a Teologia da Libertação funciona, a nível latino-americano, como um grande palanque político da esquerda. Não é crime uma facção religiosa ter uma ideologia política. Muitos grupos religiosos adotam posições e ideias políticas. O grande problema é que a TL afirma defender o pobre. Na prática o que realmente ela deseja é angariar a simpatia e os votos dos pobres para a esquerda.
A Teologia da Libertação simplesmente ignora que historicamente foi a esquerda quem persegui e matou milhões de cristãos em todo o mundo. Grande parte dos sofrimentos que a Igreja sofreu nos últimos duzentos anos se deve à esquerda. A esquerda é a grande propagadora, a nível mundial, do ateísmo e de doutrinas anticristãs. Entretanto, tudo isso não interessa a TL. A Teologia da Libertação está mergulhada num mar de alienação, de totalitarismo e de doutrina marxista anticristã. O Papa Bento XVI está correto ao condenar essa facção teológica.
Por fim, é preciso afirmar que sem dúvida a teologia e, portanto, toda a Igreja devem estar preocupadas e empenhadas em combater a pobreza, principalmente a pobreza extrema que causa a morte física do indivíduo. A sociedade cristã não pode admitir a existência de pobres e de pessoas morrendo de fome. Entretanto, a luta contra a pobreza deve ser feita por meio da doutrina social da Igreja e não por meio da ideologia marxista, opressora e totalitária defendida pela Teologia da Libertação. Os países que a TL apresentam como modelos (Cuba, Coreia do Norte, Venezuela) não extinguiram a pobreza. Os modelos de homens propostos pela TL (Marx, Che Chevara, Fidel Castro, etc) são pessoas que trouxeram para seus países a morte e a destruição. Quem realmente deseja combater a pobreza deve ter como modelo Jesus Cristo, a Virgem Maria e os santos. Além disso, deve colocar em prática a doutrina social da Igreja.